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Babá da Herdeira Encrenqueira

Herança, Caos e Laços de Sangue

O sol da manhã de Bangkok atravessava as imensas paredes de vidro da cobertura triplex das Waraha, iluminando cada detalhe de uma vida que, há alguns anos, Charlotte Austin jamais ousaria projetar em suas planilhas mais otimistas. O silêncio, no entanto, era um luxo que havia se tornado escasso naquela residência.

— Sonya Waraha Austin! Se você não soltar esse controle remoto agora e terminar de calçar seus sapatos, eu juro que vou confiscar toda a sua coleção de miniaturas de Muay Thai! — A voz de Charlotte ecoou pelo corredor, mantendo a mesma autoridade gélida e elegante que outrora usava para domar investidores coreanos.

Charlotte, agora Vice-Presidente das empresas Waraha e ainda a mente estratégica por trás de todo o império, estava impecável em seu terninho azul-marinho. Os óculos de armação fina continuavam no lugar, mas o olhar agora carregava uma mistura de exaustão e ternura profunda.

— Mas mamãe, a vovó disse que eu não preciso usar sapatos sociais se eu for lutar com o papai vovô hoje à tarde! — A pequena Sonya, de apenas cinco anos, surgiu correndo pelo mármore, as meias brancas deslizando perigosamente.

Sonya era a personificação da ironia do destino. Tinha o cabelo castanho-claro ondulado e os traços delicados de Charlotte, mas o brilho nos olhos escuros e o sorriso torto e desafiador eram puramente Engfa. A garotinha era um furacão de energia, vestindo uma jaqueta de couro em miniatura que Engfa fizera questão de encomendar sob medida assim que a adoção fora finalizada.

— A vovó mima você, e o seu "papai vovô" perdeu o juízo — Charlotte suspirou, massageando as têmporas. — Engfa! Por favor, me diga que você não está incentivando nossa filha a ir para a sede da empresa vestida para um ringue.

Engfa Waraha surgiu na porta da cozinha, segurando uma caneca de café e ostentando uma expressão de orgulho mal disfarçada. Os anos haviam sido generosos com ela; a maturidade trouxe uma elegância mais sólida, embora a essência rebelde ainda estivesse ali, pulsando sob a pele tatuada e os blazers caros.

— Relaxa, querida — Engfa ronronou, aproximando-se de Charlotte e envolvendo sua cintura com um braço, depositando um beijo rápido em seu pescoço. — Ela só tem personalidade. O vovô Waraha adora que ela seja impulsiva. Ele diz que ela é o futuro da Waraha Enterprise.

— Ele diz isso porque não é ele quem tem que convencê-la a comer brócolis ou a seguir um cronograma de estudos — rebateu Charlotte, embora seu corpo relaxasse instantaneamente ao toque da esposa.

— Deixe a pequena Pui ser feliz, Charlotte — Engfa piscou para a filha, que agora tentava montar nas costas de Kiew, o Golden Retriever que, apesar da idade avançada, ainda tinha paciência de sobra. Phalo, o coelho, observava tudo de seu cercadinho luxuoso, movendo o nariz com desdém aristocrático.

— Eu ganhei dois novos caos na minha vida, não foi? — Charlotte olhou de Engfa para Sonya. — Uma eu casei, a outra eu adotei. Às vezes acho que vocês duas conspiram contra a minha sanidade.

— É o nosso trabalho favorito, querida — Engfa riu, pegando Sonya no colo e girando-a no ar, fazendo a menina gargalhar. — Mas agora, vamos. Temos uma fusão para assinar e uma herdeira para exibir.

A chegada das Waraha-Austin à sede da empresa ainda era o evento da semana para os funcionários. Engfa, agora uma CEO respeitada e — milagrosamente — responsável, caminhava pelo lobby com Sonya pela mão. Charlotte seguia logo atrás, o tablet em punho, ditando ordens para três secretários simultaneamente.

O Sr. Waraha, agora oficialmente aposentado mas ainda mantendo uma sala monumental no último andar, esperava por elas. Quando a porta se abriu, o homem que um dia fora o terror do mercado financeiro transformou-se em um avô babão.

— Minha pequena guerreira! — exclamou ele, abrindo os braços para Sonya.

— Vovô! A mamãe Charlotte não queria me deixar vir de jaqueta, mas a mamãe Engfa disse que eu mando em metade deste prédio — Sonya anunciou, subindo no colo do avô com a mesma naturalidade com que Engfa costumava sentar na mesa da presidência.

Charlotte olhou para o sogro, esperando uma reprimenda sobre disciplina, mas o Sr. Waraha apenas riu, olhando para a neta com adoração.

— Ela está certa, Charlotte. Deixe a menina. Ela tem o sangue dos Waraha correndo nas veias. A audácia é o nosso maior ativo.

— É o que eu sempre digo — Engfa comentou, sentando-se na beira da mesa do pai, balançando as pernas exatamente como fazia anos atrás. — Charlotte, não me olhe assim. A reunião só começa em dez minutos.

Charlotte suspirou, fechando o tablet e permitindo-se um sorriso raro e vitorioso.

— Dez minutos, Engfa. E se você ousar fazer uma piada sarcástica durante a apresentação dos alemães, eu vou confiscar sua Ducati por um mês.

— Você não ousaria — Engfa estreitou os olhos, o desafio brilhando neles.

— Tente a sorte, querida — Charlotte respondeu, ajeitando os óculos com um ar de superioridade que ainda deixava Engfa louca de desejo.

O dia na empresa foi, como sempre, um equilíbrio precário entre a eficiência cirúrgica de Charlotte e o carisma avassalador de Engfa. Enquanto Charlotte revisava contratos e ajustava margens de lucro, Engfa encantava os investidores, quebrando o gelo com sua confiança inabalável. Sonya, por sua vez, passou a tarde "desenhando" novos logotipos na sala de reuniões, sendo tratada por todos como a pequena princesa do império.

Ao final do expediente, o sol começava a se pôr, tingindo o céu de Bangkok com tons de laranja e roxo. Engfa entrou na sala de Charlotte, encontrando a esposa ainda mergulhada em pilhas de relatórios digitais. Ela caminhou silenciosamente por trás da cadeira de Charlotte e começou a massagear seus ombros.

— Você trabalha demais, vice-presidente — murmurou Engfa. — A Sonya já está com o meu pai. Eles foram tomar sorvete. Temos a cobertura só para nós por algumas horas.

Charlotte soltou um suspiro longo, inclinando a cabeça para trás para encontrar o olhar de Engfa.

— Alguém precisa garantir que esta empresa continue de pé enquanto você e sua filha tentam transformá-la em um playground.

— Você ama isso — Engfa sorriu, inclinando-se para beijar a testa de Charlotte. — Ama o fato de que eu te desafio todos os dias. E ama o fato de que, no final da noite, sou eu quem tira esses seus óculos e te lembra que a vida não cabe em uma planilha de Excel.

— Talvez — admitiu Charlotte, puxando Engfa pela gola do blazer para um beijo mais profundo. — Mas ainda sou eu quem dita as regras nesta casa.

— Sim, senhora — Engfa sussurrou contra seus lábios. — Mas as regras foram feitas para serem quebradas, lembra?

— Algumas delas, Engfa. Algumas delas.

Elas deixaram o prédio juntas, de mãos dadas, uma imagem de poder e estabilidade que os tabloides agora respeitavam. O caos de Engfa havia sido canalizado para o sucesso, e a rigidez de Charlotte havia sido suavizada pelo amor.

De volta à cobertura, o cenário era de uma desordem feliz. Kiew latia para Phalo, e Sonya logo chegou, com o rosto sujo de chocolate e contando mil histórias sobre como o vovô a deixou "dirigir" a cadeira de massagem.

— Hora do banho, Sonya — anunciou Charlotte, assumindo seu papel de autoridade doméstica.

— Ah, mamãe! Só mais cinco minutos! — A menina tentou usar o mesmo olhar de "cachorro abandonado" que Engfa usava para conseguir o que queria.

— Não funciona comigo, pequena. Eu treinei com a mestre — Charlotte apontou para Engfa, que estava jogada no sofá com uma taça de vinho.

— Vá lá, Pui — Engfa riu. — Obedeça a mamãe Charlotte, ou ela vai colocar nós duas de castigo. E acredite, o castigo dela é não deixar a gente comer pizza no final de semana.

Depois que a pequena finalmente adormeceu, o silêncio finalmente reinou na cobertura. Engfa e Charlotte estavam na varanda, observando as luzes da cidade.

— Você teria acreditado se eu te dissesse, há sete anos, que terminaríamos assim? — perguntou Engfa, abraçando Charlotte por trás. — Eu, uma CEO responsável, e você, a mãe de uma mini-Engfa sociopata?

— Eu teria chamado a segurança e pedido para te internarem — Charlotte riu, recostando-se no peito da esposa. — Mas, sinceramente? Eu não trocaria esse caos por nenhuma ordem no mundo.

— Nem eu — Engfa apertou o abraço. — Você me salvou de mim mesma, Charlotte Austin.

— E você destruiu minha paz de espírito, Engfa Waraha.

— De nada, querida.

Elas ficaram ali, em silêncio, observando o vasto horizonte de Bangkok. O império Waraha estava em boas mãos, a herança estava garantida, e o amor — aquele sentimento impulsivo, sarcástico e possessivo que começou em um elevador travado — era agora a única regra que ambas faziam questão de seguir à risca.

No quarto ao lado, Sonya sonhava com jaquetas de couro e lutas de Muay Thai, enquanto Phalo e Kiew dormiam pacificamente aos pés de sua cama. A vida era imperfeita, barulhenta e frequentemente fora de controle, mas para Charlotte e Engfa, era exatamente o tipo de perfeição que elas haviam construído juntas.

— Charlotte? — chamou Engfa, já quase pegando no sono minutos depois, quando já estavam deitadas.

— Hum?

— Amanhã eu quero comprar uma moto elétrica para a Sonya.

Charlotte abriu um olho, encarando a escuridão do quarto.

— Nem pensar, Engfa.

— Só uma pequena, querida. Com rodinhas.

— Engfa Waraha, vá dormir.

— Isso é um talvez?

— É um "conversaremos com o departamento jurídico" — Charlotte sorriu, fechando os olhos.

— Eu te amo, babá de luxo.

— Eu também te amo, herdeira indomável.

E ali, entre o luxo da cobertura e a simplicidade de um abraço, o caos e a ordem finalmente encontraram seu ponto de equilíbrio permanente.