Babá da Herdeira Encrenqueira
A Arte de Quebrar o Silêncio e Outras Invasões de Privacidade
O restaurante era um daqueles lugares onde o silêncio custava mais caro que a própria comida. O Sr. Waraha, um homem cuja presença comandava respeito apenas pelo movimento de suas sobrancelhas, observava a filha do outro lado da mesa de mogno. Engfa, surpreendentemente, não estava mexendo no celular, nem parecia ansiosa para sair dali e encontrar algum affair em uma boate clandestina. Ela estava... pensativa.
— Você está estranha, Engfa — comentou o patriarca, cortando seu bife com precisão cirúrgica. — Não recebi nenhuma notificação de multa de trânsito nas últimas quarenta e oito horas. Devo me preocupar com a sua saúde?
Engfa deu um gole lento em seu vinho tinto, os olhos escuros brilhando sob a luz suave do lustre de cristal. Ela deu um sorriso de lado, aquele que costumava preceder um desastre ou uma revelação bombástica.
— Eu estou ótima, pai. Apenas... focada. A Charlotte é realmente eficiente, como o senhor disse.
— Fico feliz que tenha finalmente reconhecido o valor da Srtª Austin. Ela é a melhor COO que já tivemos, e parece ser a única babá que você não conseguiu espantar em uma semana.
Engfa inclinou-se para frente, apoiando os cotovelos na mesa, quebrando o protocolo de etiqueta que o pai tanto prezava.
— Eu gosto dela, pai. E não estou falando do trabalho. Gosto do jeito que ela me olha como se eu fosse um problema de matemática difícil, gosto do cheiro de café que ela exala e, principalmente, gosto do fato de que ela é a única pessoa que não baixa a cabeça para mim.
O Sr. Waraha parou o garfo no meio do caminho. Ele olhou para a filha, buscando algum sinal de ironia ou sarcasmo, mas encontrou apenas uma determinação feroz e quase obsessiva.
— Engfa, você... — Ele pigarreou, subitamente desconfortável. — Você sempre disse que nunca se prenderia a ninguém. Que o conceito de exclusividade era uma "prisão burguesa".
— Eu mudei de ideia — Engfa deu de ombros, a voz carregada de uma arrogância possessiva. — Eu gosto da Charlotte, e ninguém neste mundo vai ser capaz de impedir o que eu sinto ou o que eu pretendo fazer a respeito disso. Nem o senhor, nem o conselho, nem as regras dela.
O Sr. Waraha engasgou com o vinho. Ele tossiu, levando o guardanapo de linho à boca, os olhos arregalados.
— Você é realmente a minha filha? — perguntou ele, recuperando o fôlego. — Charlotte Austin é uma mulher séria, Engfa. Ela tem uma carreira, uma reputação. Ela não é uma das suas modelos de passarela que aceitam qualquer capricho seu.
— Eu sei disso — Engfa sorriu, e desta vez o brilho em seus olhos era predatório. — É exatamente por isso que eu a quero.
***
Enquanto isso, no outro lado da cidade, o mundo de Charlotte Austin era consideravelmente mais silencioso e infinitamente mais organizado. Era seu dia de folga — um evento raro que ela planejava com a mesma meticulosidade que uma fusão bilionária.
Charlotte estava sentada em seu sofá de linho cru, vestindo um moletom oversized cinza e mechas de seu cabelo castanho presas em um coque frouxo e desordenado. Seus óculos estavam na ponta do nariz enquanto ela segurava um pincel, concentrada em uma tela à sua frente. Ao seu lado, Phalo, seu coelhinho branco, mastigava preguiçosamente um pedaço de feno, alheio às crises corporativas das Waraha Enterprise.
— Finalmente paz, não é, Phalo? — murmurou ela, retocando uma sombra de azul na pintura. — Sem jaquetas de couro, sem cheiro de cigarro e, principalmente, sem Engfa Waraha testando meus nervos a cada cinco minutos.
Charlotte suspirou, sentindo a tensão dos últimos dias deixar seus ombros. Ela amava seu trabalho, mas Engfa era um furacão que exigia cada grama de sua energia mental. Aquele momento de quietude, cercada por seus livros e suas tintas, era o que mantinha sua sanidade intacta.
O interfone tocou.
Charlotte franziu o cenho. Ela não esperava entregas e ninguém tinha seu endereço pessoal, exceto o RH da empresa e seu pai. Ela caminhou até o aparelho, desconfiada.
— Sim? — perguntou ela.
— Abram alas para a sua CEO favorita, querida! — A voz de Engfa ecoou pelo alto-falante, vibrante e irritantemente autoconfiante.
Charlotte quase deixou o pincel cair.
— Engfa? Como você conseguiu meu endereço? E o que você está fazendo aqui? É meu dia de folga!
— Eu sou a herdeira das empresas Waraha, Austin. Eu tenho acesso a tudo, inclusive aos arquivos confidenciais do RH que você jurou serem impenetráveis — Engfa riu. — Agora, abra essa porta. Está calor aqui fora e eu trouxe café. Do jeito que você gosta.
— Eu não vou abrir. Vá embora, Engfa. Eu estou de folga. Eu não existo para a empresa hoje.
— Se você não abrir em três minutos, eu vou começar a gritar para todo o prédio que a impecável Charlotte Austin dorme com um pijama de ursinhos e que ela esconde um coelho ilegal no apartamento.
— Phalo não é ilegal! — Charlotte sibilou, mas já estava caminhando em direção à porta, derrotada pela impulsividade da outra.
Quando Charlotte abriu a porta, ela se deparou com uma Engfa Waraha que parecia ter saído de um editorial de moda urbana: calça jeans rasgada, uma camiseta branca simples e, claro, a onipresente jaqueta de couro preta. Ela segurava dois copos de papel de uma cafeteria cara.
Engfa parou de falar no instante em que viu Charlotte. Seus olhos percorreram a mulher à sua frente, absorvendo a visão da "Charlotte caseira". Sem o terninho blindado, sem o coque apertado, com o rosto lavado e uma mancha de tinta azul na bochecha, Charlotte parecia... humana. E terrivelmente atraente.
— Uau — murmurou Engfa, a voz perdendo o tom sarcástico por um segundo. — Você... você está desarmada.
— E você está invadindo minha privacidade — Charlotte rebateu, cruzando os braços, tentando ignorar o modo como o olhar de Engfa a fazia sentir calor. — O que você quer, Engfa? De verdade.
Engfa recuperou a compostura e exibiu o sorriso mais charmoso de seu arsenal.
— Eu estava entediada. O escritório é um deserto sem você me dando ordens. E eu queria ver onde a grande Charlotte Austin se esconde do mundo. Deixa eu entrar, vai? Eu prometo ser uma boa menina.
Charlotte suspirou, olhando para o corredor e depois para Engfa. Ela sabia que, se não cedesse, Engfa provavelmente acamparia ali.
— Entre. Mas se você tocar em qualquer coisa ou fizer bagunça, eu te jogo pela janela. E eu não estou brincando.
Engfa entrou no apartamento como se estivesse entrando em um santuário. Seus olhos curiosos observaram as estantes repletas de livros, as paredes decoradas com quadros — alguns claramente pintados por Charlotte — e a organização quase obsessiva do lugar.
— Então este é o seu castelo de solidão — comentou Engfa, deixando o café sobre a mesa de centro. — É... a sua cara. Elegante, calmo e um pouco intimidador.
Ela parou diante da tela em que Charlotte estava trabalhando.
— Você pintou isso? É incrível, Charlotte. As cores... elas são intensas. Você tem muito fogo aí dentro para alguém que finge ser um bloco de gelo no escritório.
— Não comece com a psicologia barata, Engfa — Charlotte disse, pegando seu café. — Sente-se. O que você realmente veio fazer aqui?
Engfa não se sentou. Ela caminhou até o cercadinho onde Phalo estava e se agachou, observando o coelho.
— Oi, carinha. Então você é o famoso Phalo? — Ela estendeu a mão com cautela, e o coelho, para surpresa de Charlotte, aproximou o focinho para cheirá-la. — Ele é mais sociável que a dona dele.
— Ele não sabe o perigo que corre — murmurou Charlotte, sentando-se no sofá e observando a cena.
Havia algo estranhamente doméstico naquela visão: a herdeira rebelde e impiedosa dos Waraha, agachada no chão de um apartamento médio, fazendo carinho em um coelho branco. A luz da tarde entrava pela janela, suavizando as feições de Engfa.
— Sabe, Charlotte... — Engfa começou, ainda focada no coelho — ...meu pai me perguntou hoje por que eu mudei tanto ultimamente. Ele acha que você está fazendo uma lavagem cerebral em mim.
— E o que você disse?
Engfa levantou-se e caminhou até o sofá, sentando-se perigosamente perto de Charlotte. O espaço pessoal, que já era um conceito frágil entre elas, desapareceu completamente.
— Eu disse a ele que eu gosto de você. E que eu não vou deixar ninguém me impedir de ter o que eu quero.
Charlotte sentiu a garganta secar. A intensidade no olhar de Engfa era quase física.
— Engfa, nós já falamos sobre isso. Eu sou sua funcionária. Existe uma ética, uma hierarquia...
— Esqueça a empresa, querida — Engfa interrompeu, aproximando-se mais, sua mão subindo para tocar a mecha solta de cabelo de Charlotte. — Olhe para mim. Você realmente acha que depois de tudo o que aconteceu naquele elevador, depois de todas as vezes que nossos olhos se encontraram no meio de uma sala cheia de gente, nós ainda somos apenas "chefe e assistente"?
Charlotte tentou desviar o olhar, mas Engfa segurou seu queixo com delicadeza, forçando-a a encarar a verdade.
— Você me desafia, Charlotte. Você me faz querer ser alguém que eu nem sabia que existia. Mas, ao mesmo tempo, você me faz querer quebrar todas as suas regras só para ver o que acontece quando você perde o controle.
— E o que você acha que acontece? — sussurrou Charlotte, a voz trêmula.
— Eu acho que a gente se incendeia — Engfa respondeu, sua voz baixando para um tom rouco. — E eu estou disposta a queimar, se for com você.
Engfa não esperou por uma resposta. Ela diminuiu a distância final, selando seus lábios nos de Charlotte. Diferente do beijo roubado ou das provocações no escritório, este beijo era lento, exploratório e carregado de uma necessidade que ambas vinham reprimindo há semanas. Charlotte soltou um suspiro contra a boca de Engfa, suas mãos subindo para os ombros da jaqueta de couro, puxando-a para mais perto.
O sabor de café e desejo era inebriante. Por um momento, Charlotte esqueceu as planilhas, esqueceu o Sr. Waraha e esqueceu sua própria necessidade de ordem. Ali, em seu refúgio pessoal, ela se permitiu ser dominada pelo caos que Engfa representava.
Quando se afastaram, ambas estavam ofegantes. Engfa encostou a testa na de Charlotte, um sorriso vitorioso e genuíno nos lábios.
— O seu coração está disparado, querida — provocou Engfa. — O que os manuais de RH dizem sobre isso?
Charlotte soltou uma risada fraca, ajeitando os óculos que haviam ficado tortos.
— Dizem que eu deveria ter mantido a porta trancada.
— Tarde demais — Engfa levantou-se, pegando o controle remoto da TV e jogando-se no sofá com uma familiaridade irritante. — Agora, o que vamos assistir? Eu não vou embora tão cedo. Eu quero conhecer cada detalhe da sua vida "chata", Charlotte Austin. Incluindo o que você esconde naquelas estantes de livros.
Charlotte revirou os olhos, mas não conseguiu conter o sorriso. Ela caminhou até a cozinha para buscar alguns petiscos, sentindo que seu dia de folga tinha acabado de se transformar em algo muito mais complicado — e infinitamente mais interessante.
— Nada de filmes de ação ou de luta, Engfa — avisou ela da cozinha.
— Ah, qual é! Nem um pouco de adrenalina?
— Você já é adrenalina o suficiente para uma vida inteira, Waraha.
Engfa riu, olhando para Phalo, que agora saltitava pelo tapete. Ela se sentia estranhamente em casa. Pela primeira vez na vida, ela não sentia necessidade de estar em uma festa barulhenta ou em alta velocidade em uma estrada. Tudo o que ela queria estava ali, entre quatro paredes, cercada por livros, tintas e uma mulher que finalmente a fazia querer parar de fugir.
O resto do dia passou entre conversas que oscilavam entre o deboche e a confissão. Engfa descobriu que Charlotte era alérgica a abacaxi e que ela pintava quando se sentia sobrecarregada. Charlotte descobriu que por trás da fachada de "sociopata impulsiva", Engfa tinha um medo profundo de não ser nada além de um sobrenome e uma conta bancária.
Quando a noite caiu sobre a cidade, Engfa ainda estava lá. Elas dividiram uma pizza (com Engfa reclamando da falta de trufas, mas comendo três fatias) e terminaram sentadas no chão, encostadas no sofá, observando a vista de Bangkok pela janela.
— Você vai ter problemas amanhã no escritório, sabia? — comentou Charlotte, encostando a cabeça no ombro de Engfa. — Eu vou ser dez vezes mais rigorosa com você por causa dessa invasão.
— Valeu a pena — Engfa beijou o topo da cabeça de Charlotte, inalando o aroma de lavanda de seu cabelo. — Eu prefiro ser punida por você do que ser ignorada por qualquer outra pessoa.
Charlotte fechou os olhos, sentindo a paz do seu apartamento ser substituída por uma nova forma de harmonia — uma que incluía o barulho, a intensidade e o amor possessivo de Engfa Waraha. O caos, afinal, não era tão ruim quando tinha o rosto de quem se ama.