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Baldes in My latte

O Silêncio das Engrenagens

Hazel sentia que o ar de Florença havia se tornado sólido, uma massa densa e invisível que dificultava cada inspiração. Ela estava sentada no chão da cozinha, as costas pressionadas contra a madeira fria da cômoda que bloqueava a porta. O exemplar do *La Nazione* estava aberto sobre seus joelhos, a tinta preta manchando a ponta de seus dedos. O rosto do turista americano, agora uma lembrança pálida e sem vida retirada das águas do Arno, parecia encará-la com uma acusação muda.

Ele estava morto. O homem que a apertara com força, que cheirava a álcool e arrogância, não veria o sol se pôr sobre a cúpula de Brunelleschi novamente. E Hazel sabia, com uma certeza que gotejava como ácido em seu estômago, que o motivo não era um assalto mal executado ou uma briga de bar.

Foi por causa dela. E foi feito pelo homem dos vinte e sete minutos.

— Não pode ser coincidência — sussurrou ela para as paredes descascadas, a voz falhando. — Não duas vezes. Não em continentes diferentes.

Ela fechou os olhos e, por um momento, não estava mais na Itália. Estava em Portland, há dez meses, escondida atrás de uma lixeira em um beco úmido, vendo uma silhueta alta e precisa fazer exatamente o mesmo movimento. O corte. A geometria da morte. Naquela época, ela pensou que o assassino estava atrás dela. Ela fugiu porque achou que seria a próxima. Mas agora, olhando para as notícias, a verdade começava a se distorcer em algo muito mais sinistro: ele não estava caçando-a. Ele estava limpando o caminho à frente dela.

O relógio de pulso quebrado, que ela insistia em usar, marcava 18h45. Em pouco mais de uma hora, ela teria que caminhar até a *caffetteria*. Teria que colocar o avental, preparar o café preto sem açúcar e entregá-lo às mãos geladas de Matteo De Luca.

Hazel levantou-se, as pernas trêmulas. Ela foi até a pia e lavou o rosto com água gelada. No reflexo do espelho manchado, a cicatriz fina em sua sobrancelha esquerda parecia mais evidente. Um lembrete de Portland. Um lembrete do homem de quem ela realmente estava fugindo — não Matteo, mas *o outro*. Aquele que tornava a proteção de Matteo uma necessidade terrível.

A caminhada até o trabalho foi um exercício de paranoia. Hazel evitava as ruas principais, preferindo os becos onde o cheiro de mofo e história era mais forte. Ela sentia olhos em sua nuca a cada passo. Quando chegou à *caffetteria*, o dono, o velho e rabugento Sr. Bianchi, já estava de saída.

— Você está atrasada dois minutos, Reed — resmungou ele, ajustando o chapéu. — As chaves estão no balcão. Tente não espantar os clientes com essa cara de quem viu um fantasma.

— Desculpe, Sr. Bianchi. Não vai acontecer de novo.

— É bom que não. Florença está ficando perigosa. Você viu os jornais? Outro americano. Eles deviam ficar nos hotéis depois das oito.

Hazel não respondeu. Ela apenas entrou e esperou o som da porta se trancando atrás do patrão. O silêncio da loja vazia era opressor. Ela começou a rotina mecânica: moer os grãos, polir as xícaras de porcelana, organizar os guardanapos. Quando chegou ao monte de guardanapos, seus dedos pararam. Ela lembrou-se dos círculos perfeitos de Matteo.

Ela pegou um guardanapo e uma caneta. Tentou imitar o desenho dele, mas sua mão tremia demais. O círculo saiu torto, uma forma quebrada e feia.

— Droga — ela sibilou, amassando o papel e jogando-o no lixo.

O relógio avançou impiedosamente. 19h58. 19h59.

Às 20h00, o sino tocou.

A temperatura da sala pareceu cair dez graus no instante em que Matteo De Luca atravessou a soleira. Ele estava usando um terno preto, o corte tão afiado quanto a lâmina que Hazel imaginava escondida sob o tecido. Ele não carregava guarda-chuva hoje; a chuva dera trégua, deixando apenas uma névoa baixa sobre a cidade.

Ele caminhou até a sua mesa de sempre. O silêncio que o envolvia era quase ensurdecedor.

Hazel preparou o café. Suas mãos não tremeram desta vez; o medo havia atingido um ponto de congelamento, transformando-se em uma frieza defensiva. Ela caminhou até a mesa e pousou a xícara.

Matteo não olhou para o café. Ele olhou para o pulso de Hazel.

— A marca — disse ele, a voz baixa como o rolar de um trovão distante — está desaparecendo.

Hazel sentiu um choque percorrer sua espinha. Ela puxou a manga do moletom para baixo, cobrindo a pele onde o turista a havia segurado.

— Eu estou bem — respondeu ela, o tom de voz mais ríspido do que pretendia.

Matteo finalmente ergueu os olhos cinzentos para os dela. Não havia arrependimento neles, nem calor. Havia apenas uma observação clínica, como se ele estivesse estudando uma obra de arte valiosa que alguém tentara vandalizar.

— Ele não deveria ter tocado em você — disse Matteo. Ele pegou a xícara, mas não bebeu imediatamente. — O Arno é um rio generoso. Ele aceita o que lhe é dado.

Hazel sentiu o fôlego escapar. Ele não estava apenas admitindo; ele estava ostentando.

— Você o matou — ela disse, a voz mal passando de um sopro. — Você o matou por causa de um aperto no pulso.

Matteo inclinou a cabeça levemente para o lado. Um fio de cabelo preto caiu sobre sua testa, quebrando a perfeição de sua imagem.

— Eu o matei porque ele era um desperdício de oxigênio. O fato de ele ter tocado em você apenas definiu a prioridade da lista.

Hazel recuou, mas suas costas encontraram a parede de madeira da divisória.

— Você não pode fazer isso. Você não é Deus, Matteo. Você não pode simplesmente decidir quem vive e quem morre em uma cidade que nem é sua.

— Eu não sou Deus, Hazel — ele concordou, dando o primeiro gole no café amargo. — Mas eu sou o homem que está entre você e o que restou de Portland. E nesta cidade, isso é a única coisa que importa.

O nome da cidade dela em seus lábios soou como uma ameaça e uma promessa ao mesmo tempo. Hazel sentiu o pânico borbulhar.

— Como você sabe? Como você me encontrou?

Matteo colocou a xícara de volta no pires com um estalo preciso. Ele olhou para o relógio. 20h12.

— Você desenha círculos porque sua mente tenta encontrar um padrão no caos que ele deixou para trás — disse Matteo, ignorando as perguntas dela. — Você dorme com uma faca de serra debaixo do travesseiro, Hazel. Uma faca que não cortaria nem o couro de um sapato velho, quanto mais a garganta de um homem que realmente quer te ferir.

Hazel sentiu-se nua sob aquele olhar. Ele sabia da faca. Ele estivera dentro do seu apartamento?

— Saia da minha frente — ela sussurrou.

— Você tem dez minutos e doze segundos de silêncio restantes — ele respondeu calmamente. — Sugiro que os use para respirar. Seu batimento cardíaco está muito acelerado. Posso ver a pulsação no seu pescoço daqui.

Hazel deu as costas a ele e caminhou para trás do balcão. Ela queria gritar, queria jogar a cafeteira nele, queria correr para a delegacia mais próxima. Mas ela era ilegal. Ela tinha um passado que a polícia americana adoraria encerrar com algemas. E, acima de tudo, ela sabia que Matteo tinha razão sobre uma coisa: o homem de Portland.

Se Matteo sabia onde ela estava, *ele* também saberia em breve.

O restante dos vinte e sete minutos passou em uma tensão agonizante. Hazel fingia limpar máquinas de café que já estavam limpas. Matteo permanecia imóvel, uma estátua de terno e intenções sombrias.

Às 20h27, ele se levantou.

Desta vez, ele não deixou apenas o dinheiro. Ele caminhou até o balcão e parou a poucos centímetros dela. Hazel sentiu o cheiro dele — sândalo, metal frio e o cheiro persistente da chuva.

Ele estendeu a mão. Hazel recuou, mas ele não tentou tocá-la. Ele apenas abriu a palma da mão direita, mostrando a cicatriz que nunca fechava. No centro dela, havia uma pequena chave de latão.

— A tranca da sua porta está quebrada — disse ele. — O proprietário não vai consertar. Eu consertei. Esta é a nova chave.

Hazel olhou para a chave como se fosse uma serpente.

— Você entrou na minha casa?

— Eu protegi o seu perímetro — corrigiu ele. — Se eu quisesse entrar enquanto você dormia, Hazel, você nunca teria acordado para notar.

Ele deixou a chave sobre o mármore.

— Use-a. E, por favor, pare de carregar aquela faca de cozinha. Ela só vai servir para você se machucar. Se alguém entrar por aquela porta e não for eu... você não terá tempo de alcançar o travesseiro.

— E por que eu deveria confiar que você não vai entrar? — ela perguntou, a voz trêmula de raiva.

Matteo se aproximou mais, forçando-a a olhar para cima para encontrar seus olhos de tempestade.

— Porque eu não preciso de chaves para chegar até você — disse ele, a voz descendo para um tom perigosamente íntimo. — Eu já estou sob a sua pele, *piccola*. Você pensa em mim quando acorda. Você pensa em mim quando olha para o rio. E você vai pensar em mim quando encostar a cabeça no travesseiro esta noite e se sentir, pela primeira vez em dez meses, segura.

Ele virou as costas e saiu. O sino tocou uma vez, um som solitário que ecoou na loja vazia.

Hazel pegou a chave. Estava quente, carregando o calor do corpo dele. Ela queria jogá-la pela janela, mas seus dedos se fecharam ao redor do metal com uma força desesperada.

O turno terminou às 23h00. Hazel trancou a *caffetteria* com as mãos geladas. A neblina sobre o Arno estava tão densa que a Ponte Vecchio parecia flutuar no nada. Ela caminhou rápido, o coração batendo no ritmo dos passos de Matteo.

Quando chegou ao seu prédio, ela subiu as escadas correndo. Parou diante da sua porta. A madeira ao redor da fechadura havia sido trabalhada com uma precisão incrível. Uma nova fechadura de segurança, de metal reforçado, brilhava sob a luz fraca do corredor.

Hazel inseriu a chave. Ela girou com uma suavidade sedosa.

Ao entrar, ela não empurrou a cômoda. Ela apenas trancou a porta e encostou a testa na madeira. O apartamento estava exatamente como ela o deixara, mas havia algo diferente. No ar, um rastro quase imperceptível de sândalo.

Ela caminhou até a cama e puxou o travesseiro. A faca de cozinha estava lá. Ela a pegou e olhou para a lâmina cega. Matteo tinha razão. Era um brinquedo de criança perto da escuridão que o cercava.

Hazel foi até a janela e abriu uma fresta da cortina.

Lá embaixo, no beco que dava para a Galleria, a silhueta estava lá. Ele não estava escondido; ele estava apenas parado sob a luz de um poste de rua, olhando para cima. Ele não acenou. Ele não se moveu. Ele era apenas uma sentinela sombria na noite italiana.

Hazel soltou a cortina e deixou-se cair na cama. Pela primeira vez em meses, ela não sentiu a necessidade de verificar a tranca dez vezes. Mas, enquanto fechava os olhos, uma nova percepção a atingiu, mais aterrorizante do que qualquer assassino de Portland.

Ela não tinha mais medo de que alguém entrasse.

Ela tinha medo de que, algum dia, ela mesma abrisse a porta e pedisse para Matteo De Luca ficar.

A escuridão do quarto parecia sussurrar o nome dele. Hazel Reed, a garota que fugia de monstros, acabara de aceitar a chave do rei de todos eles. E, enquanto o sono finalmente a vencia, ela desenhou um círculo invisível no lençol, fechando o padrão, aceitando o caos, e tornando-se, sem saber, a cúmplice de sua própria proteção doentia.

Lá fora, Matteo riscou mais um nome em sua caderneta. O homem de Portland estava a dois dias de viagem de Florença. O jogo estava apenas começando, e as lâminas de Matteo estavam prontas para o banquete. Ele olhou para a janela agora escura de Hazel e permitiu-se o menor dos movimentos: um toque leve na cicatriz da palma da mão.

— Durma bem, Hazel — murmurou ele para o vento frio. — O amanhã vai exigir muito sangue.