Voltar ao resumo

Baldes in My latte

Círculos Sob a Pele

Hazel acordou com a sensação desconhecida de peso nos cílios. O sol de Florença, pálido e filtrado pela névoa matinal, cortava as frestas da cortina, desenhando linhas geométricas no piso de madeira do quarto. Ela piscou, desorientada. Olhou para o relógio de cabeceira barato. Nove da manhã.

Ela havia dormido. Sete horas ininterruptas de um sono denso, sem os pesadelos habituais que a perseguiam desde Portland.

O pânico, no entanto, veio logo em seguida, rápido e cortante como uma lâmina. Hazel sentou-se na cama de chofre, o coração disparando. O motivo de seu descanso não fora a paz, mas a rendição. Ela olhou para a mesa de cabeceira. A pequena chave de latão reluzia sob a luz fraca, um testemunho silencioso de que a noite anterior não fora um delírio de sua mente exausta.

Matteo De Luca estivera ali. Ele havia tocado em sua porta, alterado seu perímetro, e deixado o aroma sutil de sândalo e chuva impregnado no ambiente.

Hazel levantou-se e caminhou até a porta. Girou a maçaneta. A estrutura estava firme, a nova fechadura de segurança embutida com uma perfeição cirúrgica na madeira antiga. Ela encostou a testa no batente, sentindo-se violada e, ao mesmo tempo, terrivelmente protegida. Era uma equação doentia. O homem que matava nos becos da cidade era o mesmo que garantia que ninguém cruzasse o seu limiar.

— Você está ficando louca, Hazel — sussurrou para si mesma, os dedos longos traçando a cicatriz quase invisível em sua sobrancelha esquerda.

O dia passou como um borrão cinzento. Quando Hazel chegou à *caffetteria* às 16h00 para abrir o turno, a atmosfera na Via de' Guicciardini estava pesada. Duas viaturas dos *Carabinieri* estavam estacionadas perto da margem do Arno, os giroscópios apagados, mas a presença policial era um aviso claro. O assassinato do turista americano havia sacudido a poeira da negligência local.

Por volta das 17h30, a sineta da porta tocou. Não era um cliente.

Dois investigadores de casaco escuro entraram, as expressões solenes e os sapatos deixando rastros de lama no chão que Hazel acabara de limpar. O mais velho deles, um homem de bigode grisalho e olhos astutos, apoiou-se no balcão de mármore.

— *Buonasera*, senhorita — disse ele, em um inglês arrastado, notando imediatamente o sotaque americano quando Hazel o cumprimentou. — Inspetor Rossi. Estamos fazendo algumas perguntas sobre os eventos de ontem à noite. Um compatriota seu foi encontrado no rio.

Hazel sentiu o estômago contrair-se. Ela limpou as mãos no avental preto, tentando manter os dedos firmes.

— Sim, eu vi nos jornais — respondeu ela, a voz baixa, o tom sarcástico que costumava usar sumindo sob a pressão do medo. — Uma tragédia.

— Ele esteve aqui — afirmou Rossi, não como uma pergunta, mas como um fato. Ele puxou uma fotografia de um saco plástico. Era o rosto do homem, os olhos arregalados na morte. — Uma testemunha viu dois americanos bêbados entrando nesta *caffetteria* por volta das vinte e uma horas. Você estava no turno?

Hazel olhou para a foto. A imagem do homem que a havia prendido pelo pulso parecia clamar por justiça, mas a mente de Hazel trabalhou rápido, calculando os riscos. Se ela contasse sobre a briga, a polícia investigaria o local. Eles pediriam suas lanchas, suas câmeras — se houvesse alguma —, seu visto. Eles descobririam que Hazel Reed era uma fantasma ilegal na Itália. E, pior, Matteo saberia que ela falara.

— Sim, eles entraram — mentiu Hazel, mantendo os olhos fixos nos do inspetor. — Estavam muito bêbados. Pediram café, mas eu disse que estávamos fechando a máquina para limpeza. Eles reclamaram e foram embora. Não ficaram mais do que dois minutos.

Rossi estreitou os olhos, estudando o rosto em formato de coração da garota, as olheiras suaves, a postura defensiva. Ele olhou para o pulso dela, que Hazel mantinha estrategicamente escondido sob a manga longa do moletom cinza.

— Eles não causaram problemas? Não tentaram nada? — insistiu o investigador mais jovem, dando um passo à frente.

— Nenhum — Hazel sustentou o olhar. — Eles apenas queriam café. Foram em direção à Ponte Vecchio.

O inspetor Rossi guardou a foto, soltando um suspiro pesado que cheirava a tabaco barato.

— Se lembrar de algo mais, qualquer detalhe, ligue para a delegacia. Florença não é segura para jovens americanas que andam sozinhas à noite, senhorita Reed.

O uso de seu sobrenome fez o sangue de Hazel congelar por um segundo, até ela lembrar que o Sr. Bianchi provavelmente dera a lista de funcionários à polícia. Ela assentiu, observando os dois homens saírem.

Quando a porta se fechou, Hazel desabou contra o balcão. Seus dedos procuraram automaticamente um guardanapo. Com a caneta barata, ela começou a desenhar os círculos. Minúsculos. Concêntricos. Uma espiral de cumplicidade. Ela acabara de proteger o "Assassino do Arno". Ela agora fazia parte do jogo de Matteo De Luca.

O tempo correu como areia entre os dedos. 19h50. 19h55.

Hazel limpou a mesa de canto três vezes. O mármore brilhava sob a luz amarelada da luminária de cobre. Ela colocou a xícara de porcelana sobre o pires ao lado da máquina de expresso. O pó de café preto já estava compactado no cachimbo.

19h59.

Hazel parou no centro da loja, os braços cruzados sobre o peito. A chuva começara a cair novamente lá fora, uma garoa fina que embaçava os vidros da vitrine.

Às 20h00 em ponto, a sineta badalou.

Matteo De Luca entrou. O terno de hoje era cinza-escuro, quase grafite, cortado com uma precisão que parecia insultar a decadência das paredes antigas da cafeteria. Seu cabelo preto estava levemente úmido, os olhos cinzentos varrendo o ambiente antes de se fixarem nela. Nenhum músculo de seu rosto se moveu. Ele caminhou com a cadência metódica de sempre e sentou-se na mesa de canto.

Hazel não esperou. Ela tirou o café curto, sem açúcar, e caminhou até ele. Seus passos eram firmes, impulsionados por uma raiva fria que substituíra o pânico da tarde.

Ela pousou a xícara com um impacto um pouco mais forte do que o normal. O líquido escuro oscilou, mas não derramou.

— Os *Carabinieri* estiveram aqui — disse ela, sem preâmbulos, a voz um sussurro cortante.

Matteo não olhou para a xícara. Seus olhos subiram lentamente para o rosto de Hazel, capturando a tensão em sua mandíbula.

— Eu sei — respondeu ele, a voz barítono ecoando suavemente no espaço vazio.

— Você sabe? — Hazel soltou uma risada amarga, inclinando-se levemente sobre a mesa, cruzando a linha invisível que ele sempre impunha. — Eles tinham a foto dele, Matteo. Perguntaram se ele causou problemas. Perguntaram se ele tocou em mim.

— E o que você disse a eles, *piccola*?

O apelido flutuou entre eles, íntimo e perigoso. Hazel sentiu o calor subir por seu pescoço.

— Eu menti — ela sibilou, os olhos avelã faiscando. — Eu disse que ele foi embora. Eu protegi você. Eu me tornei a porcaria de uma cúmplice de um monstro.

Matteo permaneceu imóvel. Suas mãos de pianista estavam espalmadas sobre a mesa, e Hazel notou que a cicatriz na palma direita exibia uma linha vermelha viva, como se estivesse prestes a se abrir novamente.

— Você não me protegeu, Hazel — disse ele, o tom de voz terrivelmente calmo. — Você protegeu a si mesma. Você sabe o que aconteceria se a polícia começasse a revirar a sua vida. O visto vencido é o menor dos seus problemas. O verdadeiro problema é que a poeira que eles levantariam chegaria até o Oregon.

Hazel recuou um passo, o impacto daquelas palavras atingindo seu peito como um golpe físico.

— O que você quer de mim? — a voz dela falhou, a armadura de sarcasmo desmoronando. — Por que está fazendo isso? Por que me seguir até aqui?

Matteo pegou a xícara de café. Bebeu um gole curto, apreciando o amargor do grão torrado. O relógio de parede marcava 20h08. Faltavam dezenove minutos de silêncio, mas ele parecia disposto a quebrar suas próprias regras naquela noite.

— Eu não segui você até aqui, Hazel. Eu cheguei primeiro.

Ela franziu a testa, confusa.

— O que quer dizer com isso?

— Eu sabia o dia em que você comprou a passagem barata de Portland para Paris, e o dia em que pegou o trem para Florença — explicou ele, os olhos cinzentos fixos nela com uma intensidade obsessiva, quase febril. — Eu preparei este lugar. O Sr. Bianchi precisava de uma barista que não fizesse perguntas e aceitasse receber em dinheiro. Eu garanti que a vaga estivesse aberta quando você passou por aquela porta há dez meses.

O chão sob os pés de Hazel pareceu desaparecer. Toda a sua jornada de fuga, o desespero, a sensação de ter encontrado um refúgio por sorte... tudo fora uma ilusão. Uma coreografia escrita por ele.

— Você é doente — ela sussurrou, as lágrimas de frustração e medo ameaçando queimar seus olhos. — Você é um psicopata.

— Talvez — Matteo não negou. Ele colocou a xícara no pires. — Mas sou o psicopata que mantém os outros longe de você. O homem que fez você correr em Portland... o homem que deixou aquela marca na sua sobrancelha... ele descobriu o seu rastro.

O ar sumiu dos pulmões de Hazel. O nome de *ele* não precisava ser dito. As memórias de noites de terror, de passos pesados no corredor de seu antigo apartamento, de uma voz masculina alterada que a fazia se esconder no armário... tudo voltou com a força de uma avalanche.

— Não... — ela murmurou, balançando a cabeça. — Não, eu mudei de nome. Eu queimei meus documentos.

— Para homens como ele, documentos são apenas papéis — Matteo disse, e pela primeira vez, houve uma nota de desprezo real em sua voz. — Ele cruzou a fronteira da Itália ontem à noite. Ele está em Milão agora. Em quarenta e oito horas, ele estará em Florença. Ele está vindo terminar o que começou.

Hazel segurou as bordas da mesa para não cair. Suas pernas pareciam feitas de gelo.

— Ele vai me encontrar...

— Não — Matteo esticou a mão direita. Ele não a tocou, mas seus dedos longos pararam a milímetros do pulso dela, cobrindo a marca invisível que o turista deixara. — Ele não vai. Porque eu vou encontrá-lo primeiro. A lista que eu carrego... o nome dele está no topo, escrito com o sangue que ele ainda não sabe que vai verter.

Hazel olhou para a mão dele. A cicatriz na palma parecia pulsar. Ela sentia o calor emanando da pele dele, uma promessa de violência absoluta embrulhada em um terno sob medida.

— Por que você se importa? — ela perguntou, erguendo os olhos para os dele, buscando alguma lógica naquela obsessão doentia. — Você nem me conhece.

Matteo recolheu a mão, os dedos se fechando em um punho firme. Ele olhou para o relógio de parede. 20h26. O tempo estava se esgotando. O silêncio precisava retornar, a rotina precisava ser mantida.

— Eu conheço cada linha do seu rosto, Hazel. Conheço o som da sua respiração quando você está prestes a acordar de um pesadelo. Conheço o padrão dos seus círculos no papel — ele se levantou, abotoando o paletó com um movimento fluido. — Você passou a vida inteira fugindo de monstros. Está na hora de aceitar que precisa de um monstro maior para lutar as suas batalhas.

Ele caminhou até o balcão. Deixou a nota de vinte euros sobre o mármore. Ao lado do dinheiro, não havia um guardanapo desenhado, mas sim um pequeno pedaço de papel com um endereço escrito em uma caligrafia gótica e perfeita.

— Se as coisas ficarem feias antes das quarenta e oito horas, vá para este lugar — disse ele, a voz descendo para um sussurro que apenas ela poderia ouvir. — Não hesite. Não tente ser forte. Apenas corra para mim.

Hazel olhou para o papel. Era um endereço perto da Piazza Santo Spirito, do outro lado do rio.

— Eu não vou — ela disse, tentando recuperar um pingo de dignidade, o pavio curto acendendo em meio ao terror. — Eu prefiro morrer a me tornar seu brinquedo.

Matteo parou diante da porta. Ele olhou para trás por cima do ombro, as feições aristocráticas esculpidas pelas sombras da noite. Ele não sorriu, mas houve um brilho quase imperceptível de posse em seus olhos de tempestade.

— Você não é um brinquedo, Hazel. Você é a minha ordem no caos. E eu não permito que ninguém destrua o meu controle.

O sino tocou. Às 20h00 ele entrara; às 20h27 ele saíra. A matemática de Matteo De Luca permanecia perfeita, mesmo quando o mundo ao redor estava prestes a sangrar.

Hazel ficou sozinha na *caffetteria*. A chuva agora batia com força contra o vidro, como se tentasse quebrar a barreira entre o refúgio e a tempestade. Ela pegou o pedaço de papel com o endereço. Seus dedos tremiam tanto que ela quase o rasgou.

Ela olhou para o balcão de mármore, para a xícara vazia que retinha o aroma do café amargo. Ela sabia que o homem de Portland estava vindo. Sabia que o horror de seu passado estava a apenas duas noites de distância. E sabia, com uma clareza aterrorizante, que a única coisa mais perigosa do que o monstro que a caçava... era o monstro que a esperava na mesa de canto todos os dias às oito da noite.

Hazel dobrou o papel e o escondeu no fundo do bolso do avental. Ela não desenhou círculos no guardanapo pelo resto da noite. O padrão já havia sido fechado, e ela estava exatamente onde Matteo De Luca queria que ela estivesse: no centro da teia.