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Barto

Ecos de um Delírio Escarlate

O amanhecer em Grimmauld Place nunca trazia clareza, apenas diferentes tons de cinza que filtravam pelas janelas sujas e encantadas da velha mansão dos Black. Stela permaneceu imóvel, os olhos fixos no dossel da cama, sentindo o peso do ar que Barto deixara para trás. O corpo dela ainda retinha o calor dele, uma lembrança física que parecia uma traição silenciosa à casa que a abrigava. Cada marca em sua pele era um segredo que ardia, uma tatuagem invisível de uma lealdade que ela não conseguia explicar, nem para Sirius, nem para si mesma.

Ela se levantou, a seda da camisola roçando as coxas onde os dedos de Barto haviam deixado sombras avermelhadas. Com um movimento fluido da varinha, ela trocou os lençóis, fazendo com que o cheiro de sândalo e obsessão desaparecesse, substituído pelo aroma neutro de sabão e poeira. Mas, por dentro, o rastro dele permanecia. A memória do toque masoquista dele, da forma como ele implorava por dor enquanto a possuía, ainda fazia seu pulso acelerar de uma forma que nenhum feitiço de proteção poderia conter.

Ao descer para a cozinha, o som de vozes baixas e o cheiro de café forte a receberam. Sirius estava debruçado sobre um mapa da Grã-Bretanha, discutindo pontos de vigia com Kingsley Shacklebolt. Draco Malfoy, que passava cada vez mais tempo ali sob o pretexto de estudos avançados — mas que na verdade buscava refúgio da pressão asfixiante de Lucius —, estava sentado a um canto, observando tudo com um olhar cansado e atento.

— Bom dia — disse Stela, sua voz saindo mais estável do que ela se sentia.

Sirius levantou os olhos, a expressão suavizando instantaneamente, embora o cansaço em torno de suas órbitas fosse evidente.

— Dormiu bem? — perguntou ele, oferecendo-lhe uma caneca de café. — Você parecia exausta ontem à noite depois daquela reunião maldita.

— Tive sonhos agitados, Sirius — respondeu ela, aceitando a caneca e evitando o olhar inquisitivo de Draco. — O peso dos Sagrados Vinte e Oito nunca é leve.

— Não é para menos — comentou Kingsley, sua voz profunda ressoando nas vigas da cozinha. — A reunião de ontem foi mais tensa do que prevíamos. Crouch Júnior estar lá, agindo como se nunca tivesse sido um fugitivo ou um impostor, é um golpe de mestre de Voldemort na política bruxa. Ele está ganhando legitimidade através do medo.

— Ele não está ganhando legitimidade — rosnou Sirius, batendo com o dedo no mapa. — Ele está comprando silêncio. Barto é instável, sempre foi. Um passo em falso e ele implode, levando metade do Ministério junto.

Stela sentiu um aperto no peito. Ela conhecia a instabilidade de Barto melhor do que ninguém; sabia que não era apenas loucura, mas uma fome de propósito que o consumia. E, no momento, o propósito dele parecia estar perigosamente dividido entre a devoção ao Lorde das Trevas e a necessidade doentia de possuí-la.

— Ele é perigoso, Sirius — disse Draco, falando pela primeira vez. Ele olhou diretamente para Stela, os olhos cinzentos estreitos. — Mais perigoso do que meu pai ou qualquer outro Comensal da velha guarda. Barto não tem medo da morte, e isso o torna imprevisível. Ele não joga pelas regras da autopreservação.

— Eu sei lidar com ele — interrompeu Stela, o tom de voz encerrando o assunto com uma finalidade que fez Kingsley arquear uma sobrancelha.

O resto do dia passou como um borrão de preparativos e reuniões da Ordem. Stela sentia-se como uma espiã em sua própria casa. Ela entregava informações sobre as famílias de sangue puro e sobre os movimentos de sua mãe, Pandora, mas omitia sistematicamente o fato de que a maior ameaça à sua sanidade entrava em seu quarto por entre as frestas da realidade todas as noites.

Ao cair da noite, a ansiedade começou a crescer. Ela sabia que ele voltaria. Barto não era um homem de meias promessas ou de desejos passageiros. Quando Sirius finalmente se recolheu, após uma longa conversa sobre o futuro e a esperança de dias melhores, Stela trancou a porta de seu quarto e esperou. Ela não acendeu as luzes. A escuridão era o elemento dele, e ela já estava acostumada a enxergar no breu.

— Você está atrasado — sussurrou ela para o vazio do quarto.

— Eu tive que me certificar de que o cachorro estava devidamente recolhido — a voz de Barto veio do canto mais escuro, carregada de um veneno doce e familiar.

Ele se aproximou, não mais com a urgência frenética do encontro na biblioteca, mas com uma calma predatória. Ele vestia roupas de viagem escuras, e o rosto estava pálido sob a luz da lua que filtrava pelas cortinas.

— Você corre riscos vindo aqui todas as noites, Barto — disse ela, embora sua mão não buscasse a varinha, mas sim o braço dele. — Se Sirius te pegar dentro desta casa...

— Ele não vai — interrompeu ele, parando a centímetros dela. O cheiro de magia antiga e perigo emanava dele. — Black é um fantasma de um homem que já foi grande. Ele olha para você e vê redenção, vê a filha do amigo que ele nunca teve. Eu olho para você e vejo o espelho da minha própria destruição. Qual de nós você acha que a conhece de verdade, Stela?

Ele estendeu a mão, tocando o rosto dela com as pontas dos dedos frios e calejados. Stela fechou os olhos, inclinando-se para o toque, odiando o quanto aquela carícia a ancorava.

— O que você quer, Barto? Além de me torturar com essa sua presença constante?

— O Lorde quer saber por que Pandora ainda não se apresentou pessoalmente ao conselho interno — disse ele, a voz tornando-se profissional por um momento, embora seus olhos brilhassem com uma obsessão maníaca. — Ela está brincando com fogo, Stela. Nott não pode protegê-la para sempre se ela continuar se esquivando da marca. E você... você está exatamente no meio do fogo cruzado.

— Minha mãe sabe cuidar de si mesma — retrucou ela, sentindo a temperatura do quarto subir. — E eu não sou um peão nesta guerra, Barto. Não me trate como um.

Barto soltou uma risada curta e seca, puxando-a pela cintura para um abraço apertado que expulsou o ar de seus pulmões.

— Todos somos peões, meu amor. A diferença é que alguns de nós gostam de como a mão do mestre nos move. Mas eu... eu estou começando a desenvolver uma vontade própria que não agrada a Voldemort. E essa vontade tem o seu nome escrito em cada fibra.

A confissão foi seguida por um beijo desesperado. Não havia nada de terno na maneira como Barto a tomava. Era uma batalha de vontades, um choque de dentes e línguas que buscava arrancar a alma um do outro. Ele a empurrou em direção à escrivaninha de carvalho, derrubando pergaminhos e tinteiros com um movimento brusco.

— Barto, aqui não... Sirius pode ouvir — ela tentou protestar, mas sua voz era um sussurro sem convicção.

— Deixe que ele ouça — rosnou ele contra o pescoço dela, as mãos ávidas encontrando a pele quente sob a seda. — Eu quero que você sinta que não há lugar seguro. Nem mesmo o coração da sua preciosa Ordem pode te proteger de mim. Eu sou o seu dono, Stela. Em Hogwarts, na biblioteca, e nesta casa maldita.

Ele a virou de costas, pressionando-a contra a madeira fria da escrivaninha. Stela agarrou as bordas do móvel, os nós dos dedos brancos de tensão. O contraste entre a frieza da situação política e o calor avassalador do corpo dele era inebriante. Barto a penetrou com uma força possessiva, um gemido de triunfo escapando de seus lábios quando sentiu o corpo dela se moldar ao dele, aceitando a invasão.

— Diga que você é minha — ele exigiu, mordendo o ombro dela, deixando uma marca que levaria dias para sumir. — Diga que Black não significa nada quando eu estou dentro de você.

— Não pare — ela arfou, ignorando a pergunta, a cabeça caindo para frente enquanto o prazer começava a nublar seus sentidos. — Apenas... não pare.

O ritmo era ditado pela necessidade dele de dominar e pela necessidade dela de se render a algo que não fosse o dever. Stela sentia a magia dele fluindo para dentro dela, uma corrente elétrica e sombria que a fazia ver faíscas atrás das pálpebras. Barto, em seu masoquismo inerente, buscava a dor no prazer; ele pressionava seu corpo contra o dela com tanta força que era quase doloroso, buscando o limite onde a sensação se tornava agonia pura.

— Você é minha ruína — sussurrou ele no auge do êxtase, o clímax chegando como uma onda violenta que os deixou ambos trêmulos. — Minha doce e absoluta ruína.

Eles ficaram ali por longos minutos, abraçados na penumbra da madrugada, enquanto a respiração voltava ao normal. O silêncio da casa parecia acusador, como se as paredes dos Black estivessem sussurrando julgamentos. Stela sentia-se dividida em mil pedaços, cada um pertencendo a uma vida diferente que ela tentava equilibrar.

— Você precisa ir antes que o sol nasça — disse ela finalmente, a voz ainda trêmula, tentando recompor sua dignidade.

Barto se afastou, arrumando as vestes com uma rapidez e elegância perturbadoras, como se não tivesse acabado de profanar o santuário da resistência.

— Eu vou — disse ele, caminhando até a janela. — Mas o cerco está se fechando, Stela. Draco não vai conseguir manter o disfarce de neutralidade por muito tempo sob o teto de Lucius, e Sirius... Sirius é um homem morto que apenas esqueceu de cair. Ele não pode te proteger do que está por vir.

— Não fale assim dele! — Stela se cobriu, os olhos brilhando de raiva e proteção. — Ele é a única família real que eu tenho.

— É a verdade, e você sabe disso — disse Barto, virando-se para ela uma última vez. — E a verdade é a única coisa que eu te dou, além da minha obsessão. Pandora vai ser convocada formalmente em três dias. Se ela não aparecer na mansão Malfoy, o Lorde enviará a mim para buscá-la. E eu não terei misericórdia, nem mesmo por ser sua mãe. Considere isso um aviso de alguém que te ama de uma forma que você não merece.

— Você a machucaria para provar um ponto? — perguntou Stela, o medo gelando seu sangue.

Barto sorriu, um sorriso triste e insano que partiu o coração dela.

— Eu faria qualquer coisa que Ele pedisse... a menos que você me desse um motivo para não fazer. Um motivo real, Stela.

— E qual seria esse motivo?

Ele se aproximou e beijou sua testa, um gesto estranhamente casto que a assustou mais do que a violência anterior.

— Venha comigo. Deixe Black, deixe a Ordem e suas promessas vazias de luz. Seja a rainha das cinzas ao meu lado. Se você estiver comigo, eu posso proteger Pandora. Eu posso proteger até o Draco. Mas você tem que escolher.

Stela não respondeu. A proposta era um convite para o abismo, e ela ainda não tinha certeza se queria pular ou se já estava caindo em queda livre há anos. Barto desapareceu nas sombras antes que a primeira luz do sol tocasse o horizonte de Londres.

Naquela manhã, Stela não desceu para o café. Ela ficou em seu quarto, olhando para a marca no ombro através do espelho. Ela sabia que o tempo de neutralidade e encontros secretos havia acabado. Pandora estava em perigo, Sirius estava cercado por sombras que ele não podia combater com feitiços convencionais, e o homem que ela desejava era o monstro encarregado de destruir tudo o que restava de sua vida.

Uma batida suave na porta a fez pular.

— Stela? — Era a voz de Draco, baixa e urgente. — Posso entrar? É importante.

Ela vestiu um robe rapidamente e abriu a porta. Draco parecia mais pálido do que o normal, segurando um pergaminho com o selo de cera dos Malfoy, mas havia algo diferente no selo — um sinal de aviso.

— O que foi, Draco? Aconteceu algo com sua mãe?

— Minha mãe mandou um aviso por um elfo doméstico — disse ele, entrando e fechando a porta atrás de si. — Voldemort sabe que você está aqui, Stela. Ele sempre soube. Ele está usando você para testar a lealdade de Barto. Ele quer ver se Crouch é capaz de sacrificar o que deseja pelo bem da causa.

Stela sentiu o mundo girar, as pernas vacilando.

— O que isso significa na prática, Draco?

— Significa que Barto recebeu uma ordem direta hoje de madrugada — Draco engoliu em seco, o medo visível em seus olhos. — Para provar que a obsessão dele por você não o torna fraco ou manipulável, ele deve entregar a localização exata de Grimmauld Place até o final da semana. Ou trazer sua cabeça como prova de desapego.

Stela olhou para o vazio, as palavras de Barto da noite anterior ecoando em sua mente como um sino fúnebre: "Eu prefiro ver o mundo dele queimar enquanto eu te seguro nos braços."

— Ele não vai fazer isso — sussurrou ela, embora a dúvida fosse uma lâmina em sua garganta. — Ele veio aqui ontem para me avisar... ele me pediu para ir com ele.

— Ele é Barto Crouch Júnior, Stela! — Draco explodiu em um sussurro tenso. — Ele é leal ao Lorde acima de tudo, ou pelo menos é o que todos acreditam. Se ele não entregar a casa, ele morre. Se ele te levar à força, você morre.

— Não — corrigiu ela, sentindo a marca em seu pescoço queimar uma última vez com a lembrança do toque dele. — Ele não é leal ao Lorde. Ele é leal ao que o destrói. E eu sou a destruição dele, Draco. Ele não vai entregar a casa, ele vai tentar derrubar o sistema por dentro para me ter. E isso vai matar todos nós.

Ela passou por Draco, descendo as escadas com uma determinação renovada e sombria. Se a guerra queria chegar à sua porta através do homem que ela amava, ela estaria pronta para recebê-la. Mas ela não lutaria apenas pela Ordem ou por Sirius. Ela lutaria pela alma de um homem quebrado que a visitava nas sombras, e por um amor que era, em si mesmo, a maldição mais imperdoável de todas.

No salão principal, Sirius a olhou com profunda preocupação ao vê-la descer com aquela expressão.

— Stela, o que houve? Você parece... diferente. O que Draco te disse?

— A guerra finalmente chegou, Sirius — disse ela, pegando sua varinha sobre a lareira e sentindo o peso do destino em suas mãos. — E ela tem o rosto de alguém que eu não posso deixar vencer, mas que eu também, por mais que tente, não consigo deixar morrer. Prepare a Ordem. Barto está vindo, e desta vez, ele não virá para conversar.

Lá fora, as proteções de Grimmauld Place vibraram levemente, um aviso de que algo estava tentando sondar as defesas. O ar tornou-se pesado com o cheiro de ozônio e magia negra. Barto Crouch Júnior estava em algum lugar lá fora, oculto, esperando o momento de colapsar o mundo dela para que pudessem, finalmente, ficar sozinhos entre as ruínas.

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