Barto
Sombras e Sentenças de Sangue
O ar do Salão de Reuniões parecia ter esfriado dez graus desde que Stela saíra da biblioteca. Ela caminhava com uma elegância que beirava a insolência, ajustando a gola de veludo verde enquanto se aproximava de Sirius Black. O olhar dele, afiado como uma adaga de prata, percorreu o rosto dela, buscando sinais de desordem que pudessem denunciar o que acabara de acontecer atrás das portas fechadas.
— Você demorou — observou Sirius, a voz baixa, carregada de uma desconfiança que não era direcionada a ela, mas ao homem que ele sabia estar escondido entre as estantes de carvalho.
— As bibliotecas dos Sagrados Vinte e Oito são vastas, Sirius — respondeu Stela, exibindo um sorriso gélido que não chegava aos olhos. — E alguns volumes exigem uma leitura mais... atenta.
Sirius estreitou os olhos, mas antes que pudesse questionar a vermelhidão sutil na base do pescoço dela, o som de passos firmes ecoou. Barto Crouch Júnior emergiu da biblioteca. Ele não escondia mais a satisfação predatória. Havia uma nova luz em seus olhos, uma centelha de loucura que parecia ter encontrado seu combustível. Ele não olhou para os outros bruxos presentes; seu foco era uma linha reta e invisível conectada ao peito de Stela.
— Lucius — chamou Barto, a voz projetada para que todos ouvissem —, creio que a pauta sobre a redistribuição das terras dos Nott pode esperar. Temos assuntos mais urgentes sobre a lealdade das linhagens que se dizem neutras enquanto abrigam traidores.
Lucius Malfoy, que observava a cena com um interesse clínico e um desdém aristocrático, arqueou uma sobrancelha, alternando o olhar entre a filha que mal conhecia e o aliado que parecia à beira de um colapso maníaco.
— A neutralidade é um conceito frágil em tempos de ascensão, Barto — disse Lucius. — Mas Stela está aqui como representante de Pandora. Você questiona a lealdade da linhagem Lestrange-Nott?
Barto deu um passo à frente, invadindo o espaço que separava as facções.
— Eu questiono qualquer um que se esconda atrás de cães vira-latas para evitar a própria natureza — disparou ele, lançando um olhar de puro nojo para Sirius.
— Cuidado com a língua, Crouch — rosnou Sirius, a mão instintivamente indo para a varinha escondida nas vestes. — A última vez que você tentou ser valente, acabou implorando misericórdia em um tribunal enquanto seu pai o renegava.
O silêncio que se seguiu foi sufocante. Barto não se enfureceu como Sirius esperava. Em vez disso, ele sorriu. Era um sorriso quebrado, cheio de dentes e promessas de dor.
— A misericórdia é para os fracos, Black. Eu aprendi que a dor é uma professora muito melhor. E Stela... — ele fez uma pausa deliberada, saboreando o nome dela como se fosse um vinho proibido — ...ela sabe exatamente o quanto eu aprendi.
Stela sentiu o peso daquelas palavras. A marca invisível que ele deixara em sua pele parecia queimar sob o tecido esmeralda. Ela sabia que Sirius estava a um passo de lançar uma maldição, e ela não podia permitir um duelo ali. Não agora que ela estava tão perto de conseguir as informações que a Ordem precisava sobre os próximos passos dos Comensais da Morte.
— Chega — interveio Stela, sua voz cortando a tensão como uma lâmina de gelo. — Não viemos aqui para reviver rancores de Azkaban ou dramas escolares. Se o conselho quer discutir a posição da minha família, que o faça com a dignidade que o sangue exige. Caso contrário, Sirius e eu temos assuntos mais produtivos em outro lugar.
Ouvir que ela tinha planos com Black fez a mandíbula de Barto travar. A obsessão, que por um momento fora saciada na biblioteca, rugiu novamente. A ideia de Stela voltando para o Largo Grimmauld, dividindo o mesmo teto com Sirius, era um veneno que corria em suas veias.
— Você não vai a lugar nenhum até terminarmos, Stela — disse Barto, a voz agora um sussurro perigoso que só ela deveria ouvir, mas que ecoou por todo o salão.
— Eu vou para onde eu desejar, Barto — retrucou ela, sustentando o olhar dele com uma coragem que o excitava e o enfurecia simultaneamente. — Você não é meu dono. Nunca foi, nem mesmo quando eu salvei sua alma dos Dementadores.
Ela se virou, fazendo sinal para Sirius. Eles caminharam em direção à saída, os saltos de Stela ecoando no mármore como uma contagem regressiva. Barto a viu partir, cada fibra de seu ser gritando para impedi-la, para arrastá-la de volta e trancá-la em algum lugar onde apenas ele pudesse vê-la. Mas ele era um estrategista. Ele sabia que a caçada era metade do prazer.
***
Horas depois, no Largo Grimmauld, número 12, o silêncio da noite era apenas quebrado pelo estalar da lareira e pelo lamento abafado de Monstro nos corredores. Sirius estava sentado na poltrona da sala de estar, uma garrafa de Firewhisky pela metade na mesa ao lado. Stela estava na janela, olhando para a escuridão da Londres trouxa, sentindo-se mais estrangeira do que nunca.
— Ele tocou em você, não foi? — perguntou Sirius, sem olhar para ela. A voz dele estava rouca, carregada de uma mágoa antiga.
Stela não se moveu. O reflexo dela no vidro parecia o de um fantasma.
— Barto sempre foi intenso, Sirius. Você sabe o que a guerra faz com homens como ele.
— Não fale dele como se fosse um namorado de infância ciumento, Stela! — Sirius levantou-se bruscamente, a frustração transbordando. — Ele é um Comensal da Morte. Ele é louco. Ele serviu ao homem que destruiu minha vida e a de todos que eu amava.
— E eu o salvei — lembrou ela, virando-se para ele com os olhos brilhando. — Eu salvei você também, Sirius. Minha lealdade não é a bandeiras, a lordes das trevas ou a ordens secretas. Minha lealdade é às pessoas que eu escolho.
— E você o escolheu? Naquela biblioteca? — Sirius deu um passo em direção a ela, buscando a verdade.
Stela caminhou até ele, colocando a mão em seu braço. A amizade entre eles era profunda, forjada no isolamento de quem não tinha mais para onde ir.
— O que aconteceu entre mim e Barto em Hogwarts... e o que aconteceu hoje... é algo que você nunca entenderia, Sirius. É uma escuridão que se reconhece no outro. Mas eu estou aqui, não estou? Eu escolhi voltar para esta casa.
Sirius suspirou, cobrindo a mão dela com a sua, o calor de sua pele contrastando com o frio que Stela sentia por dentro.
— Você está brincando com fogo, Stela. E Crouch não é apenas uma chama. Ele é um incêndio que quer consumir tudo ao seu redor até que não reste nada além de cinzas e ele mesmo.
— Deixe que ele tente — sussurrou ela.
Mas, naquela noite, enquanto Stela tentava dormir em seu quarto no andar de cima, ela sentiu uma presença. Não era física, a princípio, mas uma vibração mágica familiar que fazia os pelos de seus braços se arrepiarem. Ela sentou-se na cama, a varinha em punho, o coração batendo contra as costelas.
— Apareça — ordenou ela para as sombras densas do quarto.
Das sombras perto do guarda-roupa de carvalho escuro, uma figura se materializou lentamente. Barto Crouch Júnior não deveria ser capaz de atravessar as proteções da casa, mas ele nunca fora um bruxo comum, e a obsessão era uma chave poderosa. Ele estava pálido, a respiração pesada, os olhos fixos nela com uma intensidade maníaca que beirava o delírio.
— Como você entrou aqui? — perguntou ela, embora uma parte de si já soubesse a resposta. A casa dos Black respondia ao sangue, e Barto carregava o sangue dos Sagrados Vinte e Oito, além de uma conexão com ela que transcendia qualquer feitiço.
— Você me deixou entrar, Stela — disse ele, caminhando lentamente em direção à cama, cada passo preenchendo o quarto com uma aura de perigo. — No momento em que você me tocou hoje na biblioteca, você renovou o vínculo. Suas proteções são fortes contra inimigos, mas elas não sabem o que fazer com alguém que sua alma reconhece como parte de si.
Ele parou na beira da cama. A luz da lua filtrava-se pelas cortinas pesadas, iluminando as cicatrizes em suas mãos — marcas de guerra, de Azkaban e de si mesmo.
— Você é louco de vir aqui, Barto — disse ela, mas sua voz não tinha convicção. Ela baixou a varinha, sentindo a vontade de lutar se esvair diante daquela presença esmagadora.
— Eu sou louco por você. Há anos. Cada dia naquela cela de invisibilidade sob o império do meu pai, cada momento sob a pele descascada de Moody... eu imaginava como seria quando eu finalmente pudesse ter você sem máscaras, sem poções, apenas nós dois e a verdade nua.
Barto subiu na cama, ajoelhando-se sobre ela, prendendo-a contra os travesseiros. Ele agarrou as mãos dela e as pressionou contra o próprio peito, onde o coração batia com uma violência animal.
— Sinta isso — rosnou ele. — Isso é sua culpa. Você me salvou do beijo do Dementador apenas para me condenar a essa fome eterna. Você me deu a vida, Stela, e agora eu vou usá-la para possuir a sua.
— Você poderia ter ido embora — disse Stela, a respiração falhando enquanto ele se inclinava, o rosto a milímetros do dela. — Poderia ter seguido sua mãe para o exílio, longe da guerra.
— E viver uma vida medíocre de silêncio? — Ele soltou uma risada sombria, os olhos fixos nos lábios dela. — Prefiro o inferno ao seu lado do que o paraíso em qualquer outro lugar.
Ele a beijou com uma força que beirava a brutalidade. Não era um beijo de amor, mas de reivindicação. Era uma invasão de território, um aviso de que não importava onde ela se escondesse, ele a encontraria. Stela lutou contra ele por um segundo, cravando as unhas em seus ombros, mas a resistência apenas alimentava o fogo dele. Ela se entregou, puxando-o para mais perto, buscando a mesma dor e o mesmo prazer que ele tanto ansiava.
— Me machuque — pediu ele contra os lábios dela, a voz rouca, entregando-se ao seu masoquismo característico. — Me faça lembrar que eu tenho um corpo, Stela. Me faça sentir que não sou apenas um fantasma da guerra.
Ela não hesitou. Usou suas unhas para marcar as costas dele através da camisa fina, puxando-o com uma força que arrancou um gemido de puro êxtase da garganta dele. Barto era uma tempestade de mãos e dentes, explorando cada centímetro dela como se estivesse mapeando um novo mundo. O perigo de serem descobertos por Sirius, que dormia a apenas alguns metros de distância, adicionava uma camada de adrenalina que tornava o encontro viciante.
— Você é minha — ele sussurrava repetidamente, como um mantra, entre beijos e mordidas no pescoço dela. — Diga. Diga que Black não significa nada. Diga que este lugar é apenas uma prisão da qual eu vou te libertar.
— Ele é meu amigo, Barto — gemeu ela, arqueando-se sob ele quando as mãos dele encontraram a pele nua de suas coxas. — Mas você... você é a minha ruína.
Ele parou por um momento, olhando-a de cima, o rosto transfigurado pelo prazer e pela dor que ela lhe causava. Havia uma adoração doentia em seus olhos.
— Eu vou destruir qualquer um que tente te tirar de mim — prometeu ele. — Mesmo que eu tenha que queimar esta casa com todos os "heróis" dentro dela.
— Então queime — desafiou ela, puxando-o para baixo para mais um beijo.
O ato que se seguiu foi uma celebração do proibido no coração da sede da Ordem da Fênix. Barto se entregava à dor que ela lhe infligia com uma alegria quase religiosa, seus gemidos abafados pelo pescoço dela enquanto ele a possuía com uma urgência que dizia que ele nunca a deixaria ir novamente. A magia no quarto começou a crepitar, respondendo à intensidade do encontro, as sombras parecendo dançar nas paredes ao ritmo de seus corpos.
Quando o clímax os atingiu, foi como uma explosão silenciosa de magia pura que deixou ambos exaustos e trêmulos. Barto desabou sobre ela, o rosto escondido na curva do ombro dela, a respiração voltando ao normal lentamente.
— Você não pode ficar aqui — disse ela, algum tempo depois, enquanto ele traçava linhas imaginárias em seu braço com a ponta dos dedos.
— Eu sei. Mas eu voltarei. E da próxima vez, Stela, eu não virei apenas para uma noite nas sombras. Eu virei para levar o que é meu por direito.
Ele se levantou, vestindo-se com a rapidez de um soldado acostumado a fugas rápidas. Antes de desaparecer nas sombras de onde viera, ele se inclinou e beijou a ponta dos dedos dela, um gesto estranhamente cavalheiresco para um homem tão quebrado.
— Diga ao seu "protetor" que ele está guardando um tesouro que já foi roubado há muito tempo.
Com um estalo quase inaudível de aparatação silenciosa, ele se foi.
Stela ficou deitada na escuridão, o cheiro de Barto — couro, magia negra e suor — ainda impregnado nos lençóis de seda. Ela sabia que estava caminhando sobre o fio de uma navalha. De um lado, a lealdade a Sirius e a esperança de um mundo sem Voldemort; do outro, a obsessão destrutiva e inebriante de Barto Crouch Júnior, um homem que a amava com a mesma violência com que odiava o resto do mundo.
Ela fechou os olhos, sabendo que, independentemente de quem vencesse a guerra lá fora, a batalha dentro dela já tinha um vencedor. E ele usava o rosto de um homem que o mundo acreditava ser um monstro, mas que, em seus braços, era apenas um homem sedento por uma dor que só ela sabia como curar — ou aumentar.
Na manhã seguinte, Sirius notou o brilho diferente nos olhos dela, mas Stela apenas sorriu e serviu-se de mais café, guardando o segredo da noite sob a pele, onde a obsessão de Barto continuava a queimar, constante e eterna.