Voltar ao resumo

Batatinha assumiu? 😱❤💜

O Eclipse da General e o Teorema do Suspiro

A manhã seguinte nasceu com um brilho que Batatinha considerou pessoalmente ofensivo. O céu estava azul demais, os pássaros cantavam com uma alegria desnecessária e, o pior de tudo, o seu cronograma mental, geralmente impecável como uma planilha de Excel, parecia ter sido substituído por um poema mal escrito. Ela estava sentada em sua "cadeira de comando" — um caixote de madeira estrategicamente posicionado sob a sombra da mangueira — tentando revisar as metas de arrecadação para o novo equipamento de som da turma.

No papel, ela escreveu: "Item 1: Venda de rifas". Mas, em menos de dois segundos, o círculo da letra "o" transformou-se em um esboço do rosto de Yuyu. Ela fechou o caderno com um estalo que assustou uma lagarta próxima.

— Concentração, Batatinha! — sussurrou para si mesma, batendo levemente nas próprias bochechas. — O pátio depende de você. A hierarquia depende de você. Você não pode deixar que um par de olhos castanhos e um sorriso de lado sabotem a infraestrutura de toda a Turma da Batatinha.

Mas era inútil. Ela fechava os olhos e, em vez de ver o organograma da turma, via Yuyu acenando para ela. Ela tentava pensar em como resolver a disputa entre o Batatão e o resto do grupo sobre quem mandava na bola de futebol, mas sua mente derivava para a sensação da mão de Yuyu na dela. Era um "bug" sistêmico. Um erro de processamento que ela não sabia como debugar.

— Batatinha? — A voz de Yuyu surgiu como se tivesse sido invocada por seus pensamentos proibidos.

Ela deu um pulo tão alto que quase caiu do caixote.

— Pelos deuses da logística, Yuyu! Você quer me matar do coração? — Ela tentou recuperar a compostura, ajeitando a gola da jaqueta e cruzando os braços com toda a autoridade que conseguiu reunir.

— Desculpe — disse ele, aproximando-se com aquele jeito calmo que agora a deixava nervosa. — Eu só queria saber se você já decidiu quem vai ficar na barraca de suco. O Batatão disse que se ele ficar lá, vai beber o estoque todo antes do meio-dia.

Batatinha olhou para ele. Ela deveria estar pensando no estoque de suco. Deveria estar calculando a margem de lucro. Mas tudo o que conseguia pensar era que o cabelo dele estava meio bagunçado por causa do vento e que ela sentia uma vontade absurda de arrumá-lo.

— O suco... sim. O suco é uma variável crítica — balbuciou ela, sentindo o rosto esquentar. — Coloque o... o... aquele menino de óculos. O Zeca. Ele é metódico.

Yuyu franziu a testa, um sorriso começando a brincar nos cantos de sua boca.

— O Zeca mudou de escola há três meses, Batatinha.

Houve um silêncio mortal. Batatinha sentiu que sua reputação de líder infalível estava desmoronando como um castelo de cartas em um furacão.

— Eu sabia disso! — rebateu ela rapidamente. — Eu estava testando você. Para ver se você está prestando atenção nos recursos humanos da nossa organização. Parabéns, você passou. Agora vá embora.

Yuyu não se moveu. Em vez disso, ele deu um passo à frente, entrando no círculo de sombra da mangueira.

— Você está pensando nele de novo, não está?

Batatinha arregalou os olhos, o coração disparando.

— Nele? Nele quem? Eu não sei do que você está falando. Eu estou pensando em estratégias de engajamento comunitário!

— Você está pensando em mim — afirmou Yuyu, a voz baixa e carregada de uma confiança que ele nunca teria tido uma semana atrás. — Eu consigo ver daqui. Você está com aquela cara de quem está tentando resolver um problema de matemática muito difícil, mas o problema sou eu.

— Você se acha muito importante, não é? — Ela tentou rir, mas o som saiu mais como um engasgo. — Eu sou a Batatinha. Eu não "penso" nas pessoas. Eu delego funções para elas.

— Então me delega uma função agora — desafiou ele, aproximando-se mais um pouco, até que ela pudesse ver o brilho de diversão em suas pupilas. — Qual é a minha tarefa para os próximos cinco minutos?

Batatinha abriu a boca para dizer "limpar o pátio" ou "contar as pedrinhas do jardim", mas as palavras travaram. A proximidade dele era como um campo magnético que anulava todas as suas defesas. Ela olhou para os lados, verificando se Batatão ou qualquer outro membro da turma estava por perto. O pátio estava vazio por enquanto.

— A sua função... — ela começou, a voz perdendo a força — é parar de me olhar desse jeito. Você está interferindo na minha produtividade.

— Eu não consigo evitar — disse ele, e desta vez não havia provocação, apenas uma sinceridade que a desarmou completamente. — É difícil não olhar para a pessoa mais incrível desse pátio. Mesmo quando ela está tentando me expulsar.

Batatinha sentiu que ia derreter. Ela, a General de Ferro, a mestre da ordem, estava sendo reduzida a uma poça de sentimentos por causa de uma frase romântica clichê.

— Você é um desastre para o meu governo — sussurrou ela, baixando a guarda. — Eu passei a manhã inteira tentando escrever três tópicos sobre o festival e tudo o que eu consegui foi desenhar o seu nariz no canto da folha.

Yuyu soltou uma risada genuína e se sentou no chão, ao lado do caixote dela.

— Deixa eu ver o desenho.

— Nem morta! — Ela abraçou o caderno contra o peito. — É propriedade privada da administração.

— Tudo bem, eu acredito em você — disse ele, encostando a cabeça no caixote, perto do joelho dela. — Sabe, Batatinha, a turma não vai desmoronar se você tirar dez minutos de folga da liderança. O Batatão é meio bobo, mas ele não vai incendiar o pátio em dez minutos. Provavelmente.

— "Provavelmente" não é uma margem de segurança aceitável para mim — respondeu ela, mas, apesar do protesto, ela relaxou os ombros. — Mas... talvez cinco minutos não matem ninguém.

Eles ficaram em silêncio por um momento, apenas ouvindo o vento nas folhas da mangueira. Para Batatinha, era uma sensação estranha. Geralmente, o silêncio para ela era um espaço a ser preenchido com ordens, planos ou críticas. Mas com Yuyu, o silêncio parecia... preenchido.

— Yuyu? — chamou ela, sem olhar para baixo.

— Sim?

— Estar apaixonada é sempre assim? Parece que eu tomei um soco no estômago e, ao mesmo tempo, parece que eu ganhei na loteria. É um paradoxo logístico. Não faz sentido.

Yuyu pegou a mão dela, que repousava sobre o joelho, e começou a traçar círculos invisíveis na palma com o polegar.

— Eu acho que é assim mesmo. A gente perde um pouco do controle para ganhar algo melhor. Você sempre controlou tudo, Batatinha. Talvez seja bom ter algo que você não possa organizar em uma lista de tarefas.

— Eu odeio não ter o controle — confessou ela, embora não tenha puxado a mão de volta. — Mas, se for com você... eu acho que posso abrir uma exceção. Só uma.

— Eu me sinto honrado pela exclusividade — brincou ele.

De repente, um grito ecoou do outro lado do pátio. Era Batatão, correndo em direção a eles com uma bola de futebol murcha nas mãos e uma expressão de pânico.

— Batatinha! A tragédia aconteceu! O chute do murcho atingiu o espinho da roseira e agora a nossa única bola oficial está pedindo socorro! O que fazemos? Qual é o protocolo?

Batatinha sentiu o instinto de líder disparar. Ela quase se levantou para dar uma bronca épica sobre segurança de equipamentos, mas sentiu o aperto suave da mão de Yuyu na sua. Ela respirou fundo.

— Batatão! — gritou ela, mas sem a agressividade habitual.

O garoto parou bruscamente, ofegante.

— Sim, chefe?

— Vá até a sala dos professores e peça a bomba de ar emprestada. Diga que eu autorizei. Se não funcionar, use a fita adesiva que está na minha mochila. E, Batatão...

— Sim?

— Resolva isso sozinho. Eu estou em uma reunião de alta cúpula agora. Não me interrompa pelos próximos dez minutos.

Batatão piscou, confuso, olhando para Batatinha e depois para Yuyu, cujas mãos ainda estavam unidas. Um sorriso lento e malicioso começou a se formar no rosto do grandalhão.

— Ah... entendi. Reunião de "alta cúpula". Saquei. Pode deixar, chefe! Não interrompo nem se o diretor aparecer de saia!

Ele saiu correndo, rindo alto. Batatinha escondeu o rosto na mão livre, gemendo de vergonha.

— Pronto. Agora a turma inteira vai saber. Minha autoridade foi para o ralo.

— Pelo menos eles sabem que você tem bom gosto para reuniões — disse Yuyu, puxando-a gentilmente para que ela descesse do caixote e se sentasse no chão com ele.

Batatinha cedeu. Ela se sentou na grama, sentindo-se estranhamente humana, longe do pedestal de comando que ela mesma havia construído. Ela encostou a cabeça no ombro de Yuyu e, por um momento, o festival, as rifas, o suco e as bolas murchas pareceram problemas de outro planeta.

— Você é muito irritante, sabia? — murmurou ela.

— Você já disse isso hoje.

— Vou dizer todos os dias. É para você não esquecer quem manda aqui.

Yuyu riu e beijou o topo da cabeça dela, o cheiro de shampoo de maçã envolvendo seus sentidos.

— Você manda no pátio, Batatinha. Mas acho que, no momento, o seu coração é que está dando as ordens.

Ela não retrucou. Pela primeira vez na vida, a General da Turma da Batatinha decidiu que aquela era uma insubordinação que ela estava disposta a tolerar. Afinal, se o amor fosse mesmo um erro logístico, era, sem dúvida, o erro mais bem-sucedido de toda a sua carreira.

— Dez minutos, Yuyu — disse ela, fechando os olhos. — Depois disso, eu volto a ser a chefe.

— Combinado — concordou ele, sorrindo contra o cabelo dela. — Mas esses são os dez minutos mais importantes do dia.

E ali, sob a sombra da velha mangueira, o pátio continuou seu caos habitual, mas para os dois, o mundo estava em perfeita e absoluta ordem.