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Batatinha assumiu? 😱❤💜

O Teorema da Eficiência e a Rendição da General

O pátio da escola parecia vibrar sob um calor que não vinha apenas do sol senão da tensão acumulada nos ombros de Batatinha. Ela estava sentada em seu caixote de comando, a caneta suspensa no ar como uma espada de um carrasco que hesitava em cair. O caderno de anotações, sua bíblia de ordem e progresso, estava aberto em uma página em branco que parecia zombar da sua súbita incapacidade de governar.

— Isso é inaceitável — murmurou ela para o vento, apertando os olhos. — Eu sou a Batatinha. Eu organizei a greve da merenda de 2023. Eu recuperei a bola de futebol do telhado da vizinha brava usando apenas um cabo de vassoura e um chiclete. Por que eu não consigo escrever três tópicos sobre a logística da festa de encerramento?

A resposta para sua pergunta estava sentada a poucos metros dali, assobiando uma melodia irritantemente alegre enquanto chutava uma pedrinha. Yuyu. O vírus no seu sistema. O bug na sua programação perfeita.

Cada vez que ela tentava focar na quantidade de copos descartáveis necessários, sua mente desviava para o jeito que o cabelo dele caía sobre os olhos quando ele ria. Se ela tentava calcular o orçamento para os brindes, acabava lembrando da sensação morna da mão dele na sua na tarde anterior.

— Batatinha, você está com aquela cara de novo — disse Yuyu, aproximando-se com um sorriso que deveria ser proibido por decreto oficial da liderança.

— Que cara? Eu estou com a minha cara de planejamento estratégico! — rebateu ela, fechando o caderno com um baque defensivo.

— Não, você está com a cara de quem está tentando lutar contra um tsunami usando uma colher de plástico — Yuyu sentou-se na grama aos pés do caixote dela, olhando-a de baixo para cima. — Deixa eu adivinhar: os três tópicos prioritários para a reunião de hoje ainda não saíram do papel?

Batatinha bufou, cruzando os braços e desviando o olhar para o horizonte, onde o Batatão tentava, sem sucesso, equilibrar uma vassoura no nariz.

— O processo criativo de uma líder é complexo, Yuyu. Não é algo que se possa apressar. Existem variáveis, riscos, análises de custo-benefício...

— Existem distrações chamadas "eu" — interrompeu ele, piscando para ela. — Admite, Batatinha. Você olha para o papel e vê a minha foto. Você tenta pensar em prazos e só pensa no nosso próximo passeio.

— Você é muito convencido! — O rosto dela ardeu, traindo sua tentativa de manter a máscara de ferro. — Eu só estou... tendo um bloqueio técnico. O sistema está sobrecarregado.

Yuyu estendeu a mão, gesticulando para que ela lhe entregasse o caderno e a caneta.

— Deixa que eu resolvo. Se o problema sou eu, eu sou a solução. O que você precisa? Três tópicos?

Batatinha hesitou. Entregar seu caderno de comando era como entregar os códigos de lançamento nuclear de uma nação. Mas a verdade era que sua cabeça parecia uma batedeira ligada no turbo, e ela precisava de ordem.

— Preciso da pauta da reunião — disse ela, entregando o material com desconfiança. — Tópico um: Finanças. Tópico dois: Escala de trabalho. Tópico três: Gestão de crises. Mas você vai levar horas para estruturar isso do jeito que eu gosto...

Yuyu nem a deixou terminar. Em um movimento que pareceu um borrão de eficiência pura, ele apoiou o caderno no joelho. A caneta deslizou pelo papel com uma velocidade sobre-humana. *Risc, risc, risc.*

Três segundos. Exatos três segundos depois, ele estendeu o caderno de volta para ela.

— Pronto. Resolvido.

Batatinha pegou o caderno, franzindo a testa. Ela esperava garranchos ou alguma piadinha romântica que a faria querer expulsá-lo do pátio por cinco minutos. Mas, ao olhar para a página, seus olhos se arregalaram.

Lá estavam eles. Três tópicos escritos com uma caligrafia firme e uma clareza que até ela invejaria:

*1. Arrecadação: Taxa fixa por membro + venda de rifas sobras do festival passado.* *2. Logística: Divisão por sorteio (evita reclamações de favoritismo da líder).* *3. Contingência: Plano B caso chova (uso do ginásio B com autorização prévia).*

Ela piscou, lendo e relendo. Estava perfeito. Estava... lógico.

— Como você fez isso? — perguntou ela, a voz subitamente pequena.

— Eu presto atenção em você, Batatinha — disse Yuyu, levantando-se e limpando a grama da calça. — Eu sei como você pensa. Eu sei o que você prioriza. Enquanto você estava aí sofrendo porque não conseguia parar de pensar em como eu sou incrível, eu estava apenas processando o que você já tinha decidido no subconsciente.

Batatinha sentiu uma mistura de alívio e uma irritação profunda. Como ele ousava ser tão eficiente? E como ele ousava conhecê-la tão bem?

— Você é um exibido — resmungou ela, mas guardou o caderno com um cuidado quase carinhoso. — Mas... ficou bom. Nota 9,5.

— Só 9,5? O que faltou para o 10? — perguntou ele, aproximando-se do caixote, ficando a poucos centímetros do rosto dela.

Batatinha sentiu o perfume de maçã dele e o mundo ao redor começou a desfocar novamente. A "General" estava prestes a bater em retirada diante do avanço inimigo — ou melhor, do avanço do namorado.

— Faltou... sobriedade — disse ela, tentando manter o tom firme. — Você escreveu isso rápido demais. Parece que não levou a sério a gravidade da nossa situação administrativa.

— Eu levo tudo o que envolve você muito a sério — respondeu Yuyu, a voz baixando de tom, tornando-se aquela melodia suave que desarmava todas as bombas dela. — Inclusive o fato de que você está morrendo de vontade de admitir que esse "bloqueio" é a coisa mais fofa que já aconteceu nessa escola.

— Fofa? Eu não sou fofa! Eu sou temida! — Ela tentou se levantar para recuperar a altura, mas Yuyu colocou as mãos nos ombros dela, mantendo-a sentada.

— Você é a líder mais durona que eu conheço — admitiu ele —, mas agora você é a minha líder durona. E se você não consegue pensar em mais nada além de mim, tudo bem. Eu penso por nós dois até o seu sistema reiniciar.

Batatinha olhou para ele, as defesas finalmente caindo por completo. Ela soltou um suspiro longo, aquele que ela só permitia que saísse quando estava sozinha ou, agora, com ele.

— É exaustivo, sabia? — confessou ela. — Eu sempre tive todas as respostas. Eu sempre soube o que fazer a seguir. E agora, eu olho para você e sinto que esqueci como se faz uma conta de somar. Meus pensamentos estão todos bagunçados, Yuyu. É como se alguém tivesse jogado todos os meus arquivos no chão e trocado as etiquetas.

Yuyu sorriu, um sorriso cheio de ternura, e se inclinou para frente, encostando a testa na dela.

— Isso se chama estar apaixonada, Batatinha. Não é um erro de sistema. É uma atualização. Você continua sendo a chefe, continua sendo a melhor em tudo... só que agora você tem alguém para segurar o caderno quando a sua mão tremer.

Batatinha fechou os olhos, permitindo-se aproveitar aquele momento de vulnerabilidade. O pátio ainda estava lá, o Batatão ainda estava fazendo bobagens ao longe, e os problemas da turma continuariam existindo. Mas, pela primeira vez, ela não sentia que precisava carregar o mundo inteiro nas costas.

— Se você contar para o Batatão que eu deixei você escrever na minha pauta oficial... — começou ela, em um último esforço de autoridade.

— Eu sei, eu sei. Escova de dentes, limpeza do pátio, morte lenta e dolorosa — Yuyu riu, selando a promessa com um selinho rápido e casto nos lábios dela, que a deixou sem fôlego por mais três segundos. — Segredo de estado, General.

Batatinha sorriu, um sorriso de verdade, sem segundas intenções de intimidação. Ela pegou o caderno, olhou para os tópicos perfeitos que Yuyu escreveu e sentiu que, talvez, aquela nova fase não fosse um desastre logístico afinal.

— Tudo bem, Yuyu. Você ganhou dez minutos de "reunião privada" de novo — disse ela, puxando-o para sentar ao seu lado no caixote. — Mas não se acostume. Amanhã, eu quero um relatório completo sobre os estoques de confete.

— Sim, senhora — respondeu ele, passando o braço pelos ombros dela e puxando-a para perto. — Mas só se você prometer que vai pensar em mim enquanto eu escrevo.

Batatinha encostou a cabeça no ombro dele, sentindo-se, pela primeira vez, perfeitamente organizada em meio ao caos do amor.

— Como se eu tivesse outra escolha — murmurou ela, finalmente rendida.

O pátio da Turma da Batatinha nunca esteve em mãos tão boas, mesmo que a General estivesse, momentaneamente, ocupada demais ouvindo as batidas do coração do seu braço direito.