behind the scenes
Cartões Vermelhos e Contratos de Sangue
Eu estava a um passo de ter um derrame cerebral em pleno centro de Madri. Antes mesmo de entrar naquela sala de reuniões sufocante, o dia já tinha sido um desastre. Minha agente, Elena, passou quarenta minutos no telefone tentando explicar para uma marca de cosméticos francesa que o vídeo de eu chamando aquela modelo rala-coxa de "parasita sem talento" foi tirado de contexto. Não foi. Ela é uma parasita e eu faria de novo.
— Anora, por favor, mantenha a calma lá dentro — Elena implorou, ajeitando o meu blazer. — Sua carreira depende de uma mudança de narrativa. Você está sendo vista como a "modelo briguenta" e isso afasta os contratos de beleza.
— Eu não sou briguenta, as pessoas é que são idiotas — respondi, bufando e cruzando os braços enquanto o elevador subia.
Quando a porta se abriu e entramos na sala de conferências, meu estômago deu um nó. Não era apenas a equipe de marketing. Sentado na cabeceira, com aquela postura de quem é dono do mundo e um sorriso de canto que eu tinha vontade de apagar com uma lixa de construção, estava Rafe Cameron.
O camisa 9 do Real Madrid. O garoto de ouro do Bayern que veio para a Espanha e resolveu que o campo de futebol era um octógono de MMA. O cara que eu conhecia desde que usávamos fraldas e que eu odiava com a força de mil sóis.
A reunião começou com um silêncio tenso, até que o agente de Rafe soltou a bomba. Um namoro falso. Seis meses.
Eu me engasguei com o café que estava tomando, tossindo tanto que achei que meu pulmão fosse sair pela boca. Rafe, que estava com uma garrafa de água na mão, literalmente cuspiu um jato de líquido na mesa, arregalando os olhos azuis.
— Vocês só podem estar de brincadeira com a minha cara — eu disse, sentindo o sangue ferver nas minhas têmporas assim que recuperei o fôlego. — Eu prefiro desfilar nua no meio da Praça Vermelha, no inverno, do que fingir que encosto um dedo nesse imbecil.
— Anora, seja racional — Elena pediu, cruzando os braços. — Sua briga viralizou. Precisamos de um arco de redenção. E o Rafe... bem, o Real Madrid não está feliz com os cartões e a fama de "bad boy" descontrolado que ele trouxe da Alemanha.
— Nem fodendo — Rafe sibilou, a voz rouca e carregada de desdém. — Eu prefiro ser banido da La Liga a encostar um dedo nessa psicopata.
— Psicopata? — Eu me inclinei para frente, quase cravando minhas unhas na mesa de carvalho. — Você é um brutamontes que não consegue passar noventa minutos sem tentar quebrar a perna de alguém porque feriram seu ego, Rafe. Você é um doente mental.
— Olha só, "Anorinha" — ele me interrompeu, a voz arrastada e carregada de sarcasmo —, eu também não estou pulando de alegria. Tenho modelos muito mais interessantes na minha DM do que uma russa surtada que passa o dia reclamando de mim para a minha própria irmã.
— Idiota! — bufei, sentindo uma vontade quase incontrolável de voar no pescoço dele. — Você só está nessa situação porque é um carniceiro dentro do campo e fora dele. Ninguém aguenta mais suas polêmicas de balada.
— Chega! — O agente de Rafe, um homem que parecia estar prestes a ter um infarto, bateu na mesa. — O contrato está pronto. Seis meses. Fotos estratégicas, aparições em jogos.
— Eu não vou assinar isso — Rafe disse, levantando-se abruptamente. A cadeira rangeu contra o chão. — Eu tenho mais o que fazer do que fingir que suporto a Mikheeva.
— Rafe, senta agora — o agente dele ordenou. — Ou o Ward vai ficar sabendo que você recusou a única chance de limpar sua barra com a diretoria do clube antes que eles te coloquem no banco.
O nome do pai dele pairou no ar como uma ameaça física. Vi o maxilar de Rafe travar com tanta força que achei que seus dentes fossem quebrar.
— Eu odeio todos vocês — Rafe rosnou, saindo da sala sem olhar para trás.
— Ótimo! — gritei para as costas dele. — Aproveita e se joga na frente de um ônibus, Cameron! Vai facilitar a vida de todo mundo!
***
Saí daquela sala de reuniões sentindo que minhas veias iam explodir. Madri era quente demais, barulhenta demais e, agora, pequena demais para eu e aquela garota ocuparmos o mesmo código postal.
Entrei no meu carro e dirigi como um louco até o meu apartamento. Eu sentia falta de Munique. No Bayern, eu era o rei. Aqui, eu era o "problema de 100 milhões de euros". A imprensa espanhola é como um bando de abutres, e eu já tinha dado carne o suficiente para eles com aquela expulsão imbecil no último jogo. Mas Anora Mikheeva?
De todas as pessoas no mundo, tinha que ser ela.
A gente se conhece desde sempre. Nossas famílias eram próximas, o que significa que eu tive que aguentar os surtos dela em todos os aniversários, feriados e férias de verão da minha vida. Anora é como uma granada sem pino: bonita de longe, mas se você chegar perto, ela explode e te deixa surdo.
Passei a noite em claro, olhando para o teto. O fantasma do meu pai parecia estar no canto do quarto, me lembrando que, se eu falhasse no Real Madrid, eu não teria para onde voltar. Ward Cameron não aceita nada menos que a perfeição, e eu já estava longe dela há muito tempo.
No dia seguinte, a segunda reunião foi marcada num escritório neutro. Eu cheguei primeiro, usando óculos escuros para esconder a falta de sono. Quando Anora entrou, ela parecia uma tempestade em forma de gente. Usava um vestido preto justo e uma cara de quem tinha acabado de tomar um copo de vinagre.
— Vamos acabar logo com isso — ela disse, jogando a bolsa na mesa. — Eu tenho exigências.
— Ah, jura? Eu também — respondi, recostando-me na cadeira e cruzando os braços. — Primeira regra: você não abre a boca para falar de mim nas suas redes sociais sem passar pela assessoria. Eu não quero você me chamando de "neandertal" no Twitter enquanto a gente supostamente está namorando.
— E você não vai ser visto saindo de boates com três loiras penduradas no pescoço — ela rebateu, os olhos faiscando. — Eu tenho uma reputação. Não vou ser a namorada traída da Europa.
— Reputação? Anora, você quase foi presa por agressão semana passada — debochei.
— Ela mereceu! — ela gritou, batendo na mesa. — E se você continuar com esse tom, você vai ser o próximo.
— Crianças, por favor — Elena interveio, parecendo exausta. — Assinem o contrato. São seis meses. Um semestre para salvar as carreiras de vocês.
Nós nos encaramos por um longo tempo. Eu conseguia ver a raiva nos olhos dela, mas também uma ponta de desespero que ela tentava esconder. Eu estava no mesmo barco. Se eu fosse chutado do Real, minha carreira de elite acabava ali.
Peguei a caneta e assinei meu nome com tanta força que quase rasguei o papel. Anora fez o mesmo, jogando a caneta de volta na mesa assim que terminou.
— Não me toque a menos que haja uma câmera por perto — ela avisou, pegando suas coisas.
— Com prazer, Mikheeva. O sentimento é mútuo.
Saí de lá e fui direto para casa. Eu precisava de uma cerveja e de silêncio. Mas, claro, quando abri a porta do meu apartamento, o silêncio era a última coisa que eu ia encontrar.
O cheiro de pizza e o som de videogame vinham da sala.
— Mas que porra é essa? — perguntei, jogando as chaves no aparador.
No meu sofá de couro italiano, estavam John B, JJ e Pope. JJ estava com os pés em cima da mesa de centro, com um controle na mão.
— E aí, artilheiro! — JJ gritou, sem tirar os olhos da TV. — Demorou na reunião, hein? A gente já ia pedir a quarta pizza.
— Como vocês entraram aqui? — perguntei, mesmo já sabendo a resposta.
— Você deu a chave pra Sarah, a Sarah deu pro John B — Pope explicou, limpando a boca com um guardanapo. — E a gente é sua família, Rafe. Não precisa ficar carente.
— Eu vou trocar as fechaduras — resmunguei, caminhando até a cozinha e pegando uma garrafa de água na geladeira.
— Então... — John B disse, pausando o jogo e me olhando com aquela cara de quem sabe demais. — A Sarah ligou. Ela disse que a Anora estava tendo um colapso nervoso no telefone. Alguma coisa sobre um contrato de namoro com um "loiro oxigenado sem cérebro"?
Eu fechei a porta da geladeira com mais força do que o necessário e me virei para eles.
— É — eu disse, a voz seca. — Eu assinei o contrato. Vou fingir que namoro a russa maluca pelos próximos seis meses.
JJ soltou uma gargalhada tão alta que provavelmente os vizinhos ouviram.
— Cara, isso vai ser melhor que a final da Champions — ele disse, rindo tanto que quase caiu do sofá. — Você e a Anora? No mesmo ambiente? Sem se matarem?
— Eu dou duas semanas até um dos dois aparecer no necrotério — Pope comentou, mas havia um sorriso de diversão no rosto dele.
— Não tem graça — eu disse, sentando-me na poltrona e esfregando o rosto com as mãos. — Eu tenho que levar ela para o evento da Adidas semana que vem. Tenho que fingir que gosto dela na frente do mundo inteiro.
— Rafe, relaxa — John B disse, agora mais sério. — É só um negócio. Vocês se conhecem desde os dez anos. É só não morder a garota na frente dos fotógrafos.
— Você não entende — eu olhei para ele. — Ela é a Anora. Ela não segue roteiro. Ela vai me provocar até eu perder a cabeça, e aí o Real Madrid vai me mandar de volta pra Carolina do Norte com um chute na bunda.
— Ou — JJ disse, voltando a jogar — vocês finalmente admitem que essa tensão toda entre vocês não é só ódio e resolvem isso de uma vez.
Eu peguei uma almofada do sofá e joguei na cara do JJ.
— Cala a boca, Maybank. Eu prefiro quebrar as duas pernas do que sentir qualquer coisa por aquela garota que não seja ranço puro.
— Sei... — JJ murmurou, rindo. — Vamos ver quanto tempo esse "ranço" dura quando vocês tiverem que se beijar pra capa da Vogue.
Eu não respondi. Apenas abri minha cerveja e encarei a parede, pensando que os próximos seis meses seriam, sem dúvida, o período mais longo e perigoso da minha vida. E o pior de tudo? Eu sabia que Anora estava, em algum lugar de Madri, planejando exatamente como tornar a minha vida um inferno absoluto.