behind the scenes
Lançamento Suave e Outras Mentiras
**POV ANORA**
Uma semana. Sete dias inteiros desde que eu assinei minha sentença de morte em papel timbrado. Sete dias desde que aceitei que, para o mundo, eu agora era a "outra metade" de Rafe Cameron. Se o inferno tivesse uma recepção, com certeza teria o rosto dele estampado na porta.
— Anora, você está me ouvindo? — A voz de Sarah saiu abafada pelo viva-voz enquanto eu tentava, sem sucesso, aplicar um delineado gatinho que não parecesse uma mancha de graxa.
— Estou, Sarah. Você está dizendo que seu irmão é um idiota. Nada de novo sob o sol de Madri — respondi, bufando e jogando o pincel na penteadeira.
— Eu estou dizendo que ele está surtando tanto quanto você. Ele passou a manhã inteira reclamando que você postou aquela foto ontem.
Eu sorri involuntariamente, um prazer sádico percorrendo minha espinha. Ontem à noite, seguindo as ordens de Elena para um "lançamento suave" do relacionamento, eu postei um story. Era uma foto da minha taça de vinho em um restaurante chique, mas ao fundo, desfocado, dava para ver perfeitamente o relógio de luxo e a mão de um homem com veias saltadas e um anel que qualquer fã de futebol reconheceria a quilômetros.
A internet quase quebrou. "Anora Mikheeva está com o camisa 9?", "Quem é o homem misterioso da russa?".
— Foi um soft launch, Sarah. Marketing básico — eu disse, pegando o celular para ver as notificações. — E ele retribuiu, não retribuiu?
— Sim, ele postou aquela foto da mão dele sobre uma mesa com uma bolsa da Chanel que eu sei que é sua — Sarah riu do outro lado. — O grupo dos meninos está um caos. O JJ não para de mandar figurinhas de alianças e o Rafe está ameaçando bloquear todo mundo.
— Ele é tão sensível — debochei, levantando-me para encarar o vestido que Elena tinha escolhido para o evento da Adidas hoje à noite.
Era um vestido de seda branco, minimalista, mas que abraçava cada curva do meu corpo como uma segunda pele. Eu precisava parecer angelical e apaixonada. O problema era que, toda vez que eu pensava em Rafe, a única coisa que eu queria era socar aquele maxilar perfeito até ele perder o sorriso cínico.
— Anora, fala sério por um segundo — a voz de Sarah ficou mais suave. — Eu sei que vocês se odeiam. Mas por favor, tentem não se matar hoje. É o primeiro evento oficial. O mundo vai estar assistindo.
— Eu vou tentar, Sarah. Mas se ele abrir a boca para me chamar de "psicopata" na frente dos fotógrafos, eu não respondo por mim.
Desliguei o telefone e respirei fundo. Eu sentia aquela pressão familiar no peito, a mesma de quando eu tinha que encarar minha mãe depois de uma sessão de fotos ruim. O medo do fracasso era o que me movia, mas o ódio por Rafe era o que me mantinha aquecida.
Duas horas depois, o interfone tocou.
— Ele chegou — Elena avisou pelo WhatsApp. — Lembre-se: sorria, toque no braço dele, olhe como se ele fosse o oxigênio que você respira.
— Eu prefiro respirar monóxido de carbono — resmunguei para o espelho antes de pegar minha bolsa e sair.
Quando a porta do elevador se abriu no saguão, meu coração deu um solavanco que eu odiei instantaneamente. Rafe estava encostado em um SUV preto, usando um terno sob medida que deveria ser ilegal. O azul marinho destacava os olhos dele, e o cabelo loiro estava perfeitamente arrumado, sem aquele aspecto bagunçado de quem acabou de sair de um treino.
Ele me viu e seus olhos percorreram meu corpo de cima a baixo. Por um segundo, vi algo vacilar naquela máscara de arrogância, mas foi rápido demais.
— Demorou — ele disse, a voz rouca, sem sequer um "olá".
— O conceito de perfeição leva tempo, Cameron. Algo que você claramente não entende, considerando como joga — rebati, parando na frente dele.
Rafe deu um passo à frente, invadindo meu espaço pessoal. O cheiro dele — algo como sândalo, couro e vitória — me atingiu em cheio.
— Escuta aqui, Mikheeva — ele sussurrou, inclinando-se para que apenas eu ouvisse. — Hoje à noite, você é a namorada dedicada. Você vai rir das minhas piadas, vai segurar minha mão e, se eu pedir, vai fingir que eu sou a melhor coisa que já aconteceu na sua vida medíocre. Entendido?
Eu senti meu sangue ferver. Aproximei meu rosto do dele, a centímetros de distância.
— E você — eu sibilei, as palavras saindo como veneno — vai agir como um cavalheiro e não como o animal que você é em campo. Se você me envergonhar, Rafe, eu juro que o seu próximo cartão não vai ser amarelo, vai ser uma ordem de restrição. Estamos entendidos?
Ele soltou um riso anasalado, mas não recuou.
— Adoro quando você fica agressiva. Combina com o batom.
Ele abriu a porta do carro para mim com uma cortesia exagerada que me deu vontade de vomitar. O trajeto até o local do evento foi um silêncio tenso, quebrado apenas pelo som das nossas respirações e pelo ritmo frenético com que eu batia minhas unhas no joelho.
***
**POV RAFE**
Eu odeio eventos da Adidas. Eu odeio tapetes vermelhos. E, acima de tudo, eu odeio o fato de que Anora Mikheeva consegue ficar tão bonita em um vestido branco que quase me faz esquecer que ela é a pessoa mais irritante do planeta.
Quase.
Quando chegamos ao local, o clarão dos flashes foi imediato. O burburinho cresceu assim que os seguranças abriram a porta do carro. Eu saí primeiro, abotoando o paletó e colocando minha melhor máscara de "astro do futebol no topo do mundo".
Contornei o carro e estendi a mão para ela. Anora hesitou por uma fração de segundo, os olhos escuros faiscando em desafio, antes de colocar a mão pequena e fria na minha. O toque enviou uma descarga elétrica pelo meu braço que eu ignorei com todas as minhas forças.
— Sorria, boneca — eu murmurei entre dentes enquanto a puxava para perto. — O show começou.
Ela grudou o corpo no meu, passando o braço pela minha cintura. Para quem olhasse de fora, éramos o casal de ouro. A modelo russa deslumbrante e o atacante prodígio.
— Se você apertar minha cintura com tanta força de novo, eu vou quebrar seus dedos — ela sussurrou, mantendo um sorriso radiante para as câmeras.
— Então para de tentar se afastar, parece que você está fugindo de um sequestro — respondi, inclinando a cabeça para fingir que sussurrava algo romântico no ouvido dela.
Caminhamos pelo tapete vermelho sob uma chuva de perguntas gritadas pelos repórteres.
— Rafe! Anora! É oficial?
— Há quanto tempo vocês estão juntos?
— Rafe, o namoro é para acalmar os ânimos no vestiário?
Eu parei diante do painel de patrocinadores e puxei Anora para mais perto, minha mão espalmada na base das costas dela, sentindo a seda do vestido e o calor da sua pele. Ela se virou para mim, encostando a mão no meu peito, e me olhou com uma intensidade que quase me fez perder o fio da meada.
— Estamos muito felizes — ela disse para um microfone que surgiu do nada, sua voz saindo doce e aveludada, uma mentira perfeita. — Nos conhecemos há muito tempo, e às vezes as coisas levam tempo para se encaixar.
Eu quase engasguei com a audácia dela.
— É verdade — completei, reforçando o aperto em sua cintura. — Anora tem sido um suporte incrível nessa minha transição para Madri. Ela é... única.
— Única é uma palavra diplomática para insuportável, não é, Rafe? — ela rebateu baixinho, apenas para mim, enquanto posávamos para mais fotos.
— Você não faz ideia — respondi no mesmo tom.
Entramos no salão principal, onde o som da música lounge e o tilintar de taças de champanhe preenchiam o ar. Eu precisava de uma bebida. Urgentemente. Mas o contrato dizia que tínhamos que permanecer juntos por pelo menos duas horas.
— Preciso de um drink — ela declarou, soltando-se de mim assim que saímos da linha de visão direta dos fotógrafos principais. — Agora.
— Pela primeira vez, concordamos em algo — eu disse, sinalizando para um garçom.
Pegamos duas taças de champanhe. Anora virou a dela quase de uma vez, os olhos vagando pelo salão como se procurasse uma rota de fuga.
— Você está nervosa — observei, sentindo um prazer estranho em notar a vulnerabilidade dela.
— Eu não fico nervosa, Rafe. Eu fico irritada. É diferente — ela retrucou, ajeitando uma mecha do cabelo escuro. — Esse lugar está cheio de gente que eu detesto.
— Bem-vinda ao meu mundo. Metade desses caras quer o meu lugar no time e a outra metade quer me ver cair.
Anora me olhou de um jeito diferente por um momento. Não era o olhar de ódio habitual, era algo mais analítico.
— O grande Rafe Cameron admitindo que se sente pressionado? Onde está o ego de 100 milhões de euros?
— O ego está aqui, Mikheeva. Mas eu não sou cego. Eu sei o que dizem de mim.
— Dizem que você é um garoto mimado que explode quando não consegue o que quer — ela disse, dando um passo em minha direção, a taça vazia na mão. — E eles estão certos. Mas também dizem que você é o melhor finalizador que a Europa viu em anos. E, infelizmente, eles também estão certos sobre isso.
Ficamos em silêncio por um momento, a tensão entre nós mudando de forma. Não era mais apenas a vontade de brigar; era algo mais denso, mais pesado. O salão parecia ter diminuído de tamanho.
— Você está sendo gentil? — perguntei, estreitando os olhos. — O que você quer, Anora?
— Eu quero que essa noite acabe — ela bufou, voltando ao seu estado normal de irritação. — Minhas costas estão doendo desse salto e eu não aguento mais fingir que não quero te empurrar dessa varanda.
— O sentimento é mútuo, russa.
Nesse momento, vi meu agente se aproximar com um grupo de executivos da Adidas. O jogo ia recomeçar.
— Lá vêm eles — avisei, colocando a taça de lado. — Hora de ser a namorada perfeita de novo.
Anora revirou os olhos, mas quando os homens chegaram, ela se transformou instantaneamente. Ela entrelaçou os dedos nos meus, e eu, por instinto, fechei a mão sobre a dela.
— Sr. Cameron, Srta. Mikheeva! Que prazer ver vocês dois juntos finalmente — disse um dos alemães da diretoria. — A imprensa está em polvorosa. É ótimo para a marca. Um casal com tanta... energia.
— A energia é o que nos mantém vivos, não é, querido? — Anora disse, olhando para mim com um brilho malicioso nos olhos.
— Com certeza — respondi, sentindo um desafio no ar. — Anora sempre sabe como me manter alerta.
A conversa seguiu por caminhos profissionais, mas o que me distraía era o peso da mão dela na minha. Ela começou a fazer carinhos lentos com o polegar nas costas da minha mão, um gesto tão íntimo e tão deliberado que meu cérebro começou a dar curto-circuito. Ela estava jogando.
— Se me dão licença — Anora disse após alguns minutos, com um sorriso encantador —, vou ao toalete retocar o batom. Rafe, não sinta muito a minha falta.
Ela me deu um selinho rápido — um toque frio e elétrico nos meus lábios que me pegou totalmente desprevenido — e se afastou, desfilando entre as mesas com a confiança de quem sabia exatamente o caos que tinha acabado de causar.
Fiquei ali, parado, tentando processar o que tinha acabado de acontecer. Meu coração estava martelando contra as costelas, e não era por causa do futebol.
— Cara, você está com uma cara de quem viu um fantasma — a voz de JJ surgiu atrás de mim.
Virei-me e vi meus três amigos, todos devidamente vestidos em ternos (embora o de JJ estivesse com a gravata torta).
— O que vocês estão fazendo aqui? — perguntei, tentando recuperar a compostura.
— Sarah nos conseguiu convites — John B disse, cruzando os braços. — E a gente não ia perder o seu debut como o namorado do ano.
— Ela me beijou — eu disse, mais para mim mesmo do que para eles.
— Bem, esse é o conceito de namoro, Rafe — Pope comentou, ajustando os óculos. — Geralmente envolve contato físico.
— Não, vocês não entendem. Ela fez isso para me provocar. Ela está jogando comigo.
— E pelo visto, ela está ganhando de 1 a 0 — JJ riu, pegando um canapé de uma bandeja que passava. — Aceita, Rafe. Você está ferrado. Essa garota vai te destruir antes dos seis meses acabarem.
Eu olhei para a direção onde Anora tinha ido. Ela era impulsiva, rancorosa e completamente louca. E, pela primeira vez na vida, eu não tinha certeza se conseguiria sair ileso desse contrato.
— Ela pode tentar — murmurei, sentindo o gosto do batom dela ainda nos meus lábios. — Mas eu não caio sem lutar.
***
**POV ANORA**
Eu me tranquei em uma das cabines do banheiro e respirei fundo, meu coração parecia uma bateria de escola de samba.
— Por que eu fiz aquilo? — sussurrei para o vazio. — Por que eu beijei aquele idiota?
Eu queria provocá-lo, queria ver aquela expressão de superioridade sumir do rosto dele. E funcionou. Rafe parecia ter levado um choque. Mas o problema era que eu também senti. Foi apenas um toque, rápido e técnico, mas o cheiro dele e a firmeza dos seus lábios ficaram gravados em mim.
Saí da cabine e fui para a frente do espelho grande. Meu rosto estava levemente corado.
— É o champanhe, Anora. É só o champanhe — menti para o meu reflexo.
Retoquei o batom vermelho — o mesmo que ele agora provavelmente tinha borrado no rosto — e saí do banheiro pronta para encarar o resto da noite. No corredor, porém, dei de cara com alguém que eu não esperava ver.
— Ora, ora. Se não é a pequena russa brincando de casinha.
Eu parei, sentindo o gelo percorrer meu corpo. Era a modelo com quem eu tinha brigado na semana passada. Ela estava encostada na parede, com um sorriso venenoso.
— Sai da minha frente, Elena — eu disse, a voz baixa e perigosa.
— O que foi? O contrato de namoro já está subindo à cabeça? Todo mundo sabe que o Rafe Cameron não fica com a mesma mulher por mais de uma semana. Você é só o controle de danos dele.
Eu dei um passo à frente, sentindo a velha impulsividade assumir o controle.
— E você é só o resto que ninguém quis contratar. Se você abrir a boca de novo, eu juro que vou terminar o que comecei no outro dia.
— Você não faria isso. Não hoje. Acabaria com o seu teatrinho — ela provocou, rindo.
Eu estava prestes a perder a cabeça, a avançar e esquecer contratos, marcas e Madrid, quando uma mão firme pousou no meu ombro.
— Algum problema aqui, querida?
Rafe estava parado atrás de mim. Ele não parecia mais o garoto mimado; ele parecia o camisa 9 que intimida qualquer defesa. Seu olhar para a outra modelo era de puro gelo.
— Nenhum, Rafe — eu disse, tentando controlar a respiração. — Ela já estava saindo.
— Ótimo — Rafe disse, sua voz saindo como um trovão baixo. — Porque eu não tolero gente incomodando a minha namorada. Suma daqui antes que eu peça para a segurança te retirar.
A garota empalideceu e saiu apressada. Eu me virei para Rafe, esperando uma piada ou um comentário sarcástico. Mas ele apenas me olhou, a mão ainda no meu ombro.
— Você está bem? — ele perguntou, e por um segundo, a voz dele foi... sincera.
— Eu podia ter lidado com ela sozinha — respondi, embora minhas mãos estivessem tremendo levemente.
— Eu sei que podia. Você é a Mikheeva. Você provavelmente teria quebrado o nariz dela — ele deu um meio sorriso. — Mas hoje, você não precisa fazer tudo sozinha. Faz parte do contrato, lembra? Proteção mútua.
Eu olhei para ele, realmente olhei, e vi algo além do jogador arrogante. Vi o menino que eu conhecia, o que também tinha cicatrizes.
— Obrigada, Rafe — eu sussurrei.
Ele assentiu, e por um momento, o silêncio entre nós não foi de guerra.
— Agora — ele disse, voltando ao tom provocador —, vamos voltar lá para fora. O JJ está tentando convencer o John B a pular na piscina decorativa e eu realmente não quero ter que pagar a fiança deles hoje.
Eu ri. Uma risada verdadeira.
— Vamos. Eu te ajudo a controlar seus amigos idiotas.
Caminhamos de volta para o salão de mãos dadas. O contrato dizia seis meses. Mas, observando Rafe Cameron pelo canto do olho, eu comecei a suspeitar que esses seriam os seis meses mais longos — e talvez os mais perigosos — da minha vida. Porque o ódio é uma chama forte, mas a linha que o separa de algo mais intenso é perigosamente fina. E nós dois estávamos prestes a cruzá-la.