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behind the scenes

Entre Vidros Quebrados e Promessas Mudas

O silêncio do apartamento de luxo no bairro de Salamanca era cortado apenas pelo som rítmico da chuva batendo contra as janelas de vidro duplo. Elena, com a pele retinta brilhando sob a luz âmbar dos abajures, estava sentada no chão da sala, cercada por contratos que ela não conseguia ler e uma taça de vinho que já estava vazia há tempo demais. Aos vinte e cinco anos, ela era a força por trás da ascensão de Anora, a mente estratégica que limpava as bagunças de Rafe Cameron, mas, naquele momento, ela sentia que não conseguia sequer organizar o caos dentro do próprio peito.

Quando a campainha tocou, o som pareceu uma explosão. Ela sabia quem era. O porteiro não o barraria; ninguém barrava o garoto de ouro do Real Madrid, o prodígio inglês que tinha a cidade aos seus pés.

Elena caminhou até a porta com o rosto rígido, uma máscara de indiferença que ela usava como armadura. Ao abrir, deu de cara com Jude. Ele não parecia o atleta impecável das capas de revista. O cabelo estava encharcado, o peito subia e descia com uma respiração errática e os olhos — aqueles olhos que Elena jurou nunca mais deixar que a desarmassem — estavam vermelhos e úmidos.

— O que você está fazendo aqui, Jude? — A voz dela saiu cortante, seca. — São duas da manhã.

— Eu não conseguia dormir. Eu não consigo respirar sabendo que você me bloqueou em tudo — ele disse, a voz falhando, dando um passo para dentro sem ser convidado.

Elena recuou, rindo com escárnio.

— Ah, me poupe do drama. Você está em Madri há tempo suficiente para saber que o ar aqui é ótimo. Sai daqui.

— Elena, por favor... — Jude fechou a porta atrás de si, o som do trinco ecoando no corredor silencioso. — Eu sei que eu errei. Eu sei que a forma como as coisas ficaram entre a gente...

— A gente? — Elena explodiu, a calma profissional evaporando como álcool no fogo. — Não existe "a gente", Jude! Nunca existiu. Nós decidimos isso, lembra? Sem rótulos. Sem compromisso. Em segredo. Foi o que você quis, foi o que eu aceitei porque achei que seria mais fácil assim. Mas não foi um contrato de trabalho, porra! Foi a minha vida!

Ela começou a andar de um lado para o outro, os gestos bruscos, os dedos se enroscando nos próprios cabelos crespos.

— Você acha que só porque não tínhamos uma aliança no dedo, você tinha o direito de me fazer sentir como uma opção descartável? Eu vi você com ela, Jude. Eu vi o jeito que você sorria, o jeito que você tocava nela exatamente como fazia comigo quando as luzes estavam apagadas.

— Não foi nada! — Jude gritou, a voz desesperada ecoando pelas paredes minimalistas. — Ela não significa nada! Foi um momento idiota, uma confusão de...

— Confusão? — Elena parou na frente dele, o rosto a centímetros do dele. Ela era menor, mas parecia ocupar todo o espaço da sala. — Eu não sou uma das suas fãs de estádio, Jude. Eu sou a mulher que segurou sua mão quando você achou que não ia aguentar a pressão da transferência. Eu sou a pessoa que conhece cada cicatriz sua. E você me tratou como se eu fosse invisível assim que saiu daquela porta.

Jude, o homem que enfrentava estádios lotados sem tremer, desmoronou. Ele caiu de joelhos no tapete caro da sala, as mãos agarrando a cintura de Elena, enterrando o rosto na curva do estômago dela.

— Eu sinto muito — ele soluçou, um som cru e doloroso que fez o coração de Elena vacilar contra sua vontade. — Eu sou um covarde. Eu tive medo de admitir o que eu sentia por você porque é grande demais, Elena. É confuso, é intenso e eu não sei como lidar com isso sem estragar tudo. E eu estraguei do mesmo jeito.

Elena sentiu as lágrimas quentes dele atravessarem o tecido fino de sua blusa. Ela queria chutá-lo, queria mandá-lo embora, mas suas mãos, traidoras, pousaram nos ombros dele.

— Levanta daí — ela ordenou, a voz trêmula. — Não faz isso. Não se humilha assim.

— Eu não me importo! — Jude levantou o rosto, os olhos brilhando com uma tristeza tão profunda que Elena sentiu um aperto físico na garganta. — Eu fico aqui a noite toda. Eu fico aqui o resto da vida se isso significar que você vai me olhar de novo sem esse ódio nos olhos. Elena, eu quero você. Não em segredo. Não sem rótulos. Eu quero que seja real.

— Você não sabe o que está pedindo — ela sussurrou, sentindo a própria resistência desmoronar. — Nossas vidas são um caos. Se a gente fizer isso... se for de verdade... não tem volta.

— Eu não quero voltar — ele insistiu, levantando-se lentamente, mas sem soltá-la. As mãos dele agora subiam para o rosto dela, os polegares secando as lágrimas que Elena nem percebeu que tinham começado a cair. — Eu cansei de fingir que você é só uma amiga, ou só a agente da Anora, ou qualquer outra mentira que a gente contou para nós mesmos. Eu amo você, Elena. E eu sei que você sente isso também, por mais que queira me matar agora.

Elena fechou os olhos, encostando a testa na dele. O cheiro de chuva e o calor da pele de Jude a envolviam, criando uma bolha onde o resto do mundo — as polêmicas de Rafe, a intensidade de Anora, os contratos e as expectativas — simplesmente deixava de existir. Era confuso, era errado em tantos níveis profissionais, e ela ainda estava furiosa, o peito ardendo com a mágoa dos últimos dias. Mas a atração e o sentimento que os ligavam eram como uma força da natureza: impossíveis de ignorar.

— Se você fizer isso de novo... — ela começou, a voz carregada de uma ameaça que escondia sua própria vulnerabilidade.

— Eu não vou — ele prometeu, a voz rouca, aproximando os lábios dos dela. — Eu juro, Elena.

— Sem segredos? — ela perguntou, um último fio de razão tentando se segurar.

— Sem segredos. Só nós.

Quando Jude a beijou, não foi o beijo de um pedido de desculpas calmo. Foi um encontro desesperado, uma colisão de meses de sentimentos reprimidos e palavras não ditas. Elena se descontrolou, as mãos puxando o cabelo dele com uma urgência que beirava a violência, enquanto Jude a levantava, prendendo as pernas dela em sua cintura e a levando em direção ao quarto.

Ali, entre os lençóis desarrumados e a penumbra da madrugada, não havia o jogador estrela ou a agente implacável. Havia apenas dois jovens de vinte e poucos anos, perdidos em um sentimento que nenhum deles sabia explicar, mas que nenhum deles conseguia mais negar. A discussão ainda estava lá, as feridas não tinham cicatrizado completamente e o futuro era uma incógnita perigosa, mas, naquela noite, o silêncio do apartamento foi substituído pelo som de promessas sussurradas e pela descoberta de que, às vezes, o amor é a coisa mais caótica e real que existe.