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Bertie e Lizzie

O Brilho dos Diamantes e a Sombra da Dúvida

Londres estava no auge de sua efervescência. O ar pesado da capital britânica, impregnado de fumaça de carvão e do perfume caro das damas da alta sociedade, era um contraste gritante com o frescor selvagem de Glamis. Para Lady Elizabeth Bowes-Lyon, a transição da liberdade das Highlands para o rigor da temporada social era sempre um desafio, mas este ano, havia um elemento adicional que tornava tudo mais complexo: a presença constante e dedicada do Duque de York.

Elizabeth ajustou a tiara discreta diante do espelho de sua residência em Londres. Ela amava a vida social, as risadas e a música, mas detestava a sensação de ser uma peça em um tabuleiro de xadrez dinástico. Bertie tinha sido claro em suas intenções desde que deixara a Escócia, enviando flores, cartas e aparecendo em todos os eventos onde ela estava presente. No entanto, a ideia de se tornar parte da engrenagem da Família Real a assombrava.

— Você está deslumbrante, Elizabeth — disse sua mãe, entrando no quarto. — Mas tente não parecer tão... rebelde esta noite. A Rainha Mary estará presente no baile de Lady Londonderry.

Elizabeth soltou um suspiro longo, pegando seu leque de penas de avestruz.

— Eu não sou rebelde, mamãe. Apenas gosto de respirar sem pedir permissão a um oficial de protocolo. Bertie é um doce, mas o mundo que o cerca é uma gaiola de ouro.

— Uma gaiola que ele está disposto a decorar com as flores mais bonitas para você — retrucou a Condessa, dando um tapinha carinhoso no ombro da filha.

Ao chegarem à residência dos Londonderry, o esplendor das luzes elétricas e o brilho das joias eram quase ofuscantes. Elizabeth mal cruzou o salão de baile quando sentiu o peso de um olhar familiar. Parado perto de uma coluna de mármore, impecável em seu uniforme de gala, estava Bertie. Ao vê-la, seu rosto iluminou-se com aquela expressão de adoração desarmada que tanto a encantava quanto a assustava.

— Lady Elizabeth — disse ele, aproximando-se e fazendo uma mesura. — Achei que... que o baile só começaria de fato quando você chegasse.

Elizabeth sorriu, oferecendo a mão para que ele a beijasse.

— Sempre o mestre dos elogios, senhor. Mas veja, a orquestra já tocou duas valsas. Receio que o senhor esteja sendo negligente com suas outras obrigações.

Bertie sentiu o leve rubor subir pelo colarinho rígido.

— Não tenho interesse em... em outras obrigações esta noite. Concederia-me esta dança?

— Infelizmente, Alteza, minha caderneta já está quase completa — mentiu ela com uma piscadela travessa, mostrando o pequeno cartão pendurado em seu pulso. — Prometi a primeira valsa ao Visconde de Encombe. Mas guardei a quarta para o senhor.

O rosto de Bertie murchou visivelmente. Ele observou, com uma pontada de amargura no peito, enquanto o jovem Visconde, um rapaz alto e de conversa fácil, conduzia Elizabeth para o centro do salão. Ela ria de algo que o rapaz dizia, movendo-se com uma leveza que parecia desafiar a gravidade.

Para Bertie, cada giro que ela dava com outro homem era uma pequena tortura. Ele sabia que não possuía a desenvoltura social de seu irmão mais velho, David, ou a autoconfiança inabalável dos outros nobres que cercavam Elizabeth. Ele era o príncipe que gaguejava, o filho que preferia o silêncio. E ali estava ela, a mulher que ele amava, brilhando como uma estrela que se recusava a ser capturada.

— Ela é como uma borboleta, não é, Bertie? — Uma voz profunda e autoritária o despertou de seus pensamentos.

Era a Rainha Mary. Sua mãe estava parada ao seu lado, majestosa em seus brocados e pérolas, observando o salão com um olhar clínico que nada deixava escapar.

— Sim, mamãe — respondeu Bertie, tentando recompor sua postura. — Ela é extraordinária.

— Ela tem o que falta nesta família — comentou a Rainha, sua voz suavizando ligeiramente. — Uma vitalidade genuína. E ela é de boa linhagem, embora não seja de sangue real. Gosto dela. Ela tem espinha dorsal.

Bertie olhou para a mãe, surpreso pela aprovação tão direta. A Rainha Mary raramente elogiava alguém de forma tão aberta.

— Ela... ela preza muito sua liberdade — confessou Bertie em um sussurro. — Acho que ela tem medo de nós. Ou do que representamos.

— Então você deve mostrar a ela que o dever não é uma prisão, mas um propósito — disse a Rainha, antes de se afastar para cumprimentar outros convidados.

Finalmente, a quarta dança chegou. Bertie aproximou-se de Elizabeth com uma determinação que ele raramente sentia. O Visconde de Encombe a devolveu com relutância, e o Príncipe assumiu seu lugar.

— Parece que você se divertiu muito nas últimas três danças — comentou Bertie, enquanto a música começava. Sua voz tinha um tom de ciúme que ele não conseguiu esconder.

Elizabeth olhou para ele, os olhos azuis faiscando.

— São apenas danças, Bertie. O senhor não deveria levar a etiqueta tão a sério.

— Não é a etiqueta que me preocupa — disse ele, guiando-a pelo salão. Ele era um dançarino sólido, embora não fosse tão exuberante quanto os outros. — É o fato de que... de que parece tão fácil para você se esquecer de mim quando outros estão por perto.

Elizabeth parou de sorrir por um momento, tocada pela vulnerabilidade dele.

— Eu não me esqueço do senhor, Bertie. Mas sinto que, se eu me entregar a este mundo... a este seu mundo... eu vou desaparecer. Vou me tornar apenas uma sombra atrás de uma coroa.

— Eu nunca deixaria isso acontecer — prometeu ele, apertando levemente a mão dela. — Eu não quero uma sombra. Eu quero você. Exatamente como você é em Glamis.

— Mas Londres não é Glamis — sussurrou ela. — Aqui, cada passo que damos é julgado. Olhe para sua mãe, ela nos observa como se estivesse avaliando um novo cavalo para as cavalariças reais.

Bertie olhou para o estrado real e viu a Rainha Mary observando-os. Ele sorriu para a mãe e depois voltou-se para Elizabeth.

— Ela gosta de você. Ela me disse isso agora há pouco.

Elizabeth arqueou uma sobrancelha, genuinamente surpresa.

— A Rainha? Gosta de mim? Eu achei que ela me achasse um tanto... barulhenta.

— Ela acha que você tem "espinha dorsal" — disse Bertie com um leve riso. — E vindo dela, esse é o maior elogio possível.

A música terminou, e o protocolo exigia que eles se separassem. Elizabeth sentiu uma estranha relutância em soltar a mão dele. Havia algo na sinceridade de Bertie que começava a perfurar suas defesas. Mas, logo em seguida, o Duque de Sutherland aproximou-se para reivindicar a próxima dança, e a bolha de intimidade estourou.

— Até mais tarde, senhor — disse ela, fazendo uma reverência rápida.

Bertie ficou parado, vendo-a se afastar novamente. O ciúme voltou a queimar, especialmente quando viu o Duque de Sutherland inclinar-se para sussurrar algo no ouvido dela, fazendo-a soltar uma gargalhada cristalina.

Ele decidiu que não podia mais ficar ali, apenas assistindo. Dirigiu-se ao terraço para tomar um pouco de ar fresco. A noite estava fria, mas o fogo que sentia por dentro o mantinha aquecido. Ele sabia que Elizabeth não era uma mulher a ser conquistada com títulos ou joias. Ela precisava de algo que ninguém mais parecia lhe oferecer: a certeza de que sua essência permaneceria intacta, mesmo sob o peso de um ducado.

Alguns minutos depois, ouviu o som de passos leves no mármore.

— Fugindo das responsabilidades, senhor? — perguntou Elizabeth, aparecendo na penumbra do terraço.

— Eu poderia perguntar o mesmo — respondeu ele, virando-se para ela. — Onde está o Duque?

— Ele é um dançarino formidável, mas um conversador entediante — admitiu ela, aproximando-se da balaustrada. — Ele só fala de cavalos e de suas propriedades em Dunrobin. Eu precisava de um momento de silêncio.

Eles ficaram em silêncio por um longo tempo, observando as luzes da cidade.

— Elizabeth — começou ele, a voz falhando um pouco. — Eu sei que não sou... não sou o que você imaginou para o seu futuro. Eu não tenho o brilho de David, nem a facilidade de homens como Sutherland. Mas ninguém vai te amar com a... a integridade que eu sinto por você.

Elizabeth olhou para ele, e desta vez não havia travessura em seus olhos. Havia uma compreensão profunda.

— Bertie, o problema não é você. O problema é a vida que você carrega consigo. Eu amo minha liberdade. Amo poder caminhar pelos campos de Glamis sem um guarda-costas atrás de mim. Se eu disser sim a você, eu digo adeus a Elizabeth Bowes-Lyon e olá para uma figura pública.

— Você sempre será Elizabeth para mim — disse ele, dando um passo à frente. — Eu te prometo que, dentro das nossas paredes, o mundo não entrará. Seremos apenas nós.

Ela suspirou, sentindo a sinceridade dele como um peso físico.

— O senhor é muito persistente, Bertie.

— Eu não tenho outra escolha — respondeu ele com um sorriso triste. — Meu coração não aceita outra resposta.

Elizabeth estendeu a mão e tocou o rosto dele gentilmente. Foi um gesto de carinho que o fez fechar os olhos por um instante.

— Não me peça uma resposta hoje — pediu ela suavemente. — Deixe-me dançar mais um pouco. Deixe-me ser apenas uma debutante por mais alguns meses.

— Eu esperarei — disse ele, segurando a mão dela contra seu rosto. — Eu esperarei o tempo que for preciso.

Eles voltaram para o salão separados, para evitar fofocas desnecessárias, mas o vínculo entre eles estava mais forte do que nunca. Elizabeth continuou a dançar, a sorrir e a encantar a todos, mas seus olhos, com frequência, buscavam a figura solitária do Príncipe perto da orquestra.

A Rainha Mary, do seu lugar de observação, viu a troca de olhares e permitiu-se um pequeno sorriso imperceptível. Ela sabia que a resistência de Elizabeth era apenas o reflexo de um espírito forte, e era exatamente disso que a monarquia precisava.

— Ela vai aceitar, Bertie — murmurou a Rainha para si mesma, enquanto ajustava suas luvas. — Só precisa perceber que a coroa não é um fardo quando se tem alguém para ajudar a carregá-la.

Enquanto a noite avançava e as carruagens começavam a se enfileirar na porta da mansão, Elizabeth sentou-se no banco de couro de sua carruagem, sentindo o cansaço da dança nos pés, mas uma inquietação nova no coração.

— Um Duque persistente — murmurou ela, olhando para a janela.

Lá fora, a névoa de Londres começava a descer sobre as ruas, mas, pela primeira vez, Elizabeth sentiu que, talvez, a névoa não fosse algo para se temer. Talvez, como Bertie dissera em Glamis, ela só precisasse da luz certa para atravessá-la. E aquela luz, ela começava a perceber, brilhava nos olhos cinzentos de um príncipe que se recusava a desistir dela.

O cortejo continuaria, com seus bailes, suas flores e seus momentos de ciúme silencioso. Mas a semente da mudança fora plantada. A rosa escocesa ainda não estava pronta para ser colhida, mas já começava a se inclinar na direção do sol.