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Bertie e Lizzie

O Labirinto do Coração e a Estratégia da Rainha

O inverno londrino de 1921 trazia consigo uma geada que parecia refletir o estado de espírito do Príncipe Alberto. Se as flores de Glamis simbolizavam a esperança, as ruas cinzentas de Londres agora pareciam o cenário de sua paciência sendo testada ao limite. Pela segunda vez, o pedido de casamento de Bertie fora recebido com um "não" gentil, porém firme. Elizabeth, com sua risada que outrora o encantava, agora parecia usar essa mesma alegria como um escudo para manter a formalidade da coroa a uma distância segura.

No Palácio de Buckingham, o Rei Jorge V não escondia sua impaciência, mas era a Rainha Mary quem agia nas sombras, com a precisão de um relojoeiro suíço. Ela observava o filho emagrecer sob o peso da rejeição e do dever, e decidiu que a diplomacia real exigia uma abordagem mais... pessoal.

— Mary, o rapaz está definhando — comentou o Rei, batendo o jornal contra a mesa de carvalho. — Se essa moça Bowes-Lyon não o quer, que ele procure outra! Há princesas na Europa que dariam um braço para se tornarem Duquesas de York.

— Bertie não quer uma princesa de catálogo, Jorge — respondeu a Rainha, sem desviar os olhos de sua coleção de miniaturas. — Ele quer Elizabeth. E, francamente, eu também a quero. Ela é a única que não treme diante de você, o que já é uma recomendação e tanto.

Dias depois, um convite discreto, mas impossível de recusar, foi enviado à Condessa de Strathmore. Cecília Bowes-Lyon sabia que um chá com a Rainha Mary nunca era apenas sobre o chá.

Enquanto isso, em uma recepção na residência dos Strathmore em Bruton Street, Bertie tentava, mais uma vez, encontrar uma brecha na armadura de Elizabeth. Ele a encontrou perto da biblioteca, fugindo de um grupo de jovens oficiais que tentavam monopolizar sua atenção.

— Você parece estar se tornando uma especialista em fugas, Elizabeth — disse Bertie, aproximando-se com um sorriso tímido, embora seus olhos carregassem uma melancolia evidente.

— Oh, Bertie! — Ela suspirou, fechando o leque com um estalo seco. — Às vezes, o peso das conversas fúteis é maior do que o de um broche de diamantes. O senhor parece... cansado. Londres não lhe faz bem?

— O que não me faz bem é a incerteza — respondeu ele, baixando a voz. — Elizabeth, eu não vim aqui para falar de festas. Eu escrevi para você, enviei flores... e sua resposta continua sendo o silêncio ou aquele "não" que me corta como uma navalha.

Elizabeth desviou o olhar para as prateleiras de livros encadernados em couro.

— O senhor é um homem bom, o melhor que conheço. Mas olhe para mim. Eu gosto de correr pelos campos, gosto de dizer o que penso sem passar por um comitê de censores. Se eu me casar com o senhor, Elizabeth Bowes-Lyon morre para dar lugar a uma Alteza Real. Eu tenho medo, Bertie. Medo de que o meu brilho se apague sob o peso do seu título.

— Eu não quero apagar o seu brilho — insistiu ele, dando um passo à frente, esquecendo-se por um momento da gagueira que costumava traí-lo. — Eu quero que você seja a lanterna que me guia na escuridão. Sem você, eu sou apenas um príncipe funcional. Com você... eu sinto que posso ser um homem completo.

— É um fardo muito grande para se colocar nos ombros de uma mulher — disse ela suavemente, voltando a encará-lo. — O senhor pede que eu seja sua âncora, mas quem será a minha quando as ondas da corte tentarem me afogar?

Antes que Bertie pudesse responder, a Condessa de Strathmore entrou na biblioteca. Seu rosto estava pálido, e ela segurava um envelope com o selo real.

— Elizabeth, querido Bertie... — Cecília fez uma reverência apressada. — Peço desculpas pela interrupção, mas recebi um chamado. A Rainha Mary deseja me ver amanhã, em particular.

Um silêncio tenso caiu sobre o ambiente. Bertie sabia o que aquilo significava. Sua mãe estava intervindo. Elizabeth, por outro lado, sentiu um calafrio. A mão de ferro da monarquia estava começando a fechar-se ao redor de sua pequena bolha de liberdade.

No dia seguinte, nos aposentos privados da Rainha Mary, o ambiente era de uma elegância austera. A Condessa de Strathmore sentou-se na ponta da poltrona, enquanto a Rainha servia o chá com uma calma imperturbável.

— Cecília — começou a Rainha, indo direto ao ponto —, somos mães. E ambas sabemos que nossos filhos estão sofrendo. Bertie está perdendo o sono, e sua Elizabeth está perdendo a paciência com o mundo.

— Majestade, Elizabeth é uma jovem de espírito livre — defendeu Cecília, com cautela. — Ela teme a rigidez da vida na corte. Ela viu o que aconteceu com outros que entraram para a família e perderam sua identidade.

— Eu entendo os temores dela — disse a Rainha Mary, pousando a xícara de porcelana. — Eu mesma tive que aprender a moldar minha vontade à de uma nação. Mas Elizabeth não é como as outras. Ela tem uma força que Bertie precisa desesperadamente. Ele é um homem de caráter, mas a voz dele falha porque ele se sente sozinho. Ela seria a voz dele. E, em troca, ele daria a ela uma devoção que poucos reis na história deram às suas rainhas.

— Ela não quer ser rainha, Majestade — lembrou a Condessa. — E, se Deus quiser, o Príncipe de Gales se casará e terá herdeiros, e Bertie e Elizabeth poderão viver na obscuridade relativa de um ducado.

A Rainha Mary permitiu-se um olhar enigmático. Ela conhecia David, o herdeiro do trono, melhor do que ninguém. Conhecia sua volatilidade e seu desinteresse pelas tradições.

— O futuro é um livro fechado, Cecília. Mas o presente é urgente. Diga à sua filha que o trono não pede apenas sacrifício; ele oferece uma plataforma para o bem. E diga a ela que, se ela aceitar Bertie, eu serei sua maior aliada, não sua carcereira.

Quando a Condessa retornou a Bruton Street e relatou a conversa à filha, Elizabeth passou a noite em claro. Ela caminhou pelo quarto, olhando para os convites de bailes sobre a penteadeira. Lembrou-se do olhar de Bertie no terraço em Londres, da forma como ele a defendia silenciosamente nos jantares, da maneira como ele ria de suas piadas mesmo quando o Rei Jorge olhava com desaprovação.

Semanas se passaram. Bertie, seguindo o conselho da mãe, deu um passo atrás. Ele parou de pressionar, parou de enviar pedidos formais. Ele apenas estava lá, uma presença constante e sólida nas margens da vida social dela.

Em um fim de semana em St Paul's Walden Bury, a casa de campo dos Strathmore em Hertfordshire, o destino finalmente encontrou seu caminho. Bertie fora convidado para uma pequena reunião íntima. O sol de outono dourava as folhas das árvores, e o ar tinha aquele cheiro de terra úmida que Elizabeth tanto amava.

Eles caminhavam pelo bosque de faias, longe dos olhos dos outros convidados.

— Você está muito calada hoje, Elizabeth — observou Bertie. Ele não tentou pegar a mão dela, nem fez discursos apaixonados. Ele apenas caminhava ao lado dela, respeitando seu espaço.

— Estou pensando na conversa que minha mãe teve com a Rainha — admitiu ela. — E estou pensando no que o senhor me disse sobre ser sua lanterna.

Bertie parou e olhou para ela. O vento bagunçou seu cabelo, e por um momento, ele não parecia um príncipe, mas apenas um jovem vulnerável.

— Eu não quero ser um projeto de caridade para você, Elizabeth. Se você disser sim, quero que seja porque vê em mim alguém que vale a pena amar, e não porque sente pena de um príncipe gago ou porque a Rainha Mary a convenceu.

Elizabeth sentiu algo se romper dentro de si. O medo, que a acompanhara por meses, começou a se dissipar, substituído por uma clareza avassaladora. Ela percebeu que sua liberdade não estava em fugir do dever, mas em escolher com quem compartilharia esse dever.

— Bertie — disse ela, aproximando-se e segurando as mãos dele. As mãos dele estavam frias, mas as dela estavam quentes. — O senhor é o homem mais teimoso que já conheci.

— É a única forma de conseguir o que realmente importa — respondeu ele, com a voz embargada.

— Eu não prometo ser uma duquesa perfeita — continuou ela, com um brilho de travessura voltando aos olhos. — Eu vou continuar rindo nas horas erradas, vou continuar preferindo a Escócia a Londres, e provavelmente vou quebrar metade dos protocolos que sua mãe tanto preza.

O coração de Bertie disparou. Ele mal ousava respirar.

— Elizabeth... você está dizendo o que eu acho que está dizendo?

— Estou dizendo que, se o senhor ainda me quiser, depois de todos os meus "nãos" e de todas as minhas dúvidas... eu aceito. Aceito ser sua lanterna, Bertie. Desde que o senhor prometa ser o meu porto seguro quando o mundo lá fora ficar barulhento demais.

Bertie não gaguejou. Ele não hesitou. Ele a puxou para um abraço apertado, escondendo o rosto no pescoço dela, enquanto soltava um suspiro que parecia carregar anos de tensão acumulada.

— Eu prometo — sussurrou ele. — Eu prometo por tudo o que é sagrado.

Eles ficaram ali, sob as árvores de Hertfordshire, dois jovens que acabavam de selar um pacto que alteraria o curso da história britânica. Elizabeth Bowes-Lyon, a rosa escocesa que tanto temia a gaiola, percebeu que, nos braços de Bertie, ela não estava sendo capturada. Ela estava, finalmente, voltando para casa.

Horas depois, quando a notícia foi comunicada às famílias, a efusão de alegria foi contida, mas profunda. O Príncipe Alberto enviou um telegrama curto para o Palácio de Buckingham: "Ela disse sim".

A Rainha Mary, ao receber a mensagem, permitiu-se um segundo sorriso, desta vez mais largo. Ela olhou para o Rei Jorge V, que estava ocupado com sua coleção de selos.

— Parece que teremos um casamento, Jorge.

— Já era tempo! — resmungou o Rei, mas havia um brilho de alívio em seus olhos. — Espero que ela o coloque nos eixos.

Naquela noite, em Bruton Street, Elizabeth olhou para o anel de safira e diamantes que agora adornava seu dedo. O brilho das pedras era frio, mas o calor que sentia em seu peito era real. Ela sabia que os desafios estavam apenas começando. Haveria a imprensa, as obrigações oficiais, a sombra constante do trono. Mas, ao olhar para Bertie, que conversava animadamente com seu pai, o Conde, ela viu o homem que ela escolhera.

— Você está bem, Lizzie? — perguntou ele, aproximando-se e usando o apelido carinhoso que agora lhe pertencia.

— Estou maravilhosa, Bertie — respondeu ela, entrelaçando seus dedos nos dele. — Só estava pensando que, a partir de agora, o nosso jogo de croquet vai ser em campos muito maiores.

— Não importa o tamanho do campo — disse ele, beijando a testa dela —, desde que eu esteja no mesmo time que você.

E assim, entre o brilho dos diamantes e a dissipação das dúvidas, o romance real de Lizzie e Bertie deixava de ser uma corte insistente para se tornar uma parceria inquebrável. A névoa de Londres ainda estava lá fora, mas para os dois, o caminho nunca estivera tão claro.