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Bertie e Lizzie

O Brinde de Prata e o Eco das Gaitas de Fole

A manhã seguinte ao aceite de Elizabeth em St Paul's Walden Bury não trouxe o habitual silêncio dominical. O ar parecia vibrar com uma eletricidade nova, uma mistura de alívio e uma consciência aguda de que a vida, tal como os Bowes-Lyon a conheciam, havia mudado irrevogavelmente no instante em que as mãos de Lizzie e Bertie se entrelaçaram sob as faias.

Elizabeth acordou cedo, observando a luz pálida do sol de Hertfordshire entrar pelas frestas das cortinas. Ela olhou para a mão esquerda, onde o anel de noivado capturava a luz. Por um momento, sentiu um aperto de nostalgia pela jovem que, até poucas horas antes, não pertencia a ninguém além de si mesma e de suas amadas Highlands. Mas o pensamento em Bertie — no brilho de seus olhos quando ela finalmente disse "sim" — dissipou qualquer sombra de arrependimento.

Ao descer para o desjejum, Elizabeth encontrou a casa em um estado de agitação contida. Os criados moviam-se com uma eficiência ainda mais silenciosa, e o aroma de café e bacon misturava-se ao perfume de flores frescas que Bertie já havia providenciado para que fossem colocadas em todos os cômodos.

Na sala de jantar, seu pai, o Conde de Strathmore e Kinghorne, estava parado junto à janela, com as mãos atrás das costas. Claude Bowes-Lyon era um homem de poucas palavras, mas de afetos profundos. Quando Elizabeth entrou, ele se virou, e ela viu uma umidade incomum em seus olhos.

— Então, minha pequena Lizzie — disse o Conde, abrindo os braços —, você finalmente permitiu que o Príncipe a capturasse. Ou foi você quem o capturou?

Elizabeth correu para o abraço do pai, sentindo o cheiro familiar de tabaco e lã de tweed.

— Acho que foi um empate, papai — respondeu ela, rindo suavemente contra o peito dele. — Mas ele foi muito persistente. Eu não tive chance contra tanta paciência.

O Conde a afastou um pouco, segurando seus ombros com firmeza.

— Ele é um bom homem, Elizabeth. Um homem de honra. Se ele fosse apenas um Príncipe, eu teria minhas dúvidas, mas ele é Bertie. No entanto, minha filha, meu coração se aperta ao pensar que você agora pertence à Coroa. Glamis vai parecer muito vazia sem a sua alegria constante.

— Eu nunca deixarei de ser uma Bowes-Lyon, papai — prometeu ela com fervor. — Glamis é o meu sangue. Buckingham será apenas o meu endereço.

A Condessa de Strathmore, Cecília, entrou na sala logo em seguida, com uma lista de telegramas na mão e um sorriso que irradiava triunfo e preocupação em doses iguais.

— Oh, querida! — Cecília beijou as bochechas da filha. — Já começaram a chegar mensagens. A Rainha Mary enviou um mensageiro privado. Ela está radiante. Mas, Elizabeth, precisamos conversar sobre o anúncio oficial. A imprensa estará em cima de nós como lobos em uma semana.

— Deixe os lobos para depois, mamãe — pediu Elizabeth, sentando-se à mesa. — Hoje, eu só quero ser sua filha. Onde estão os meninos?

Como se tivessem sido convocados pelo pensamento, seus irmãos David e Michael entraram na sala, trazendo consigo a energia caótica que sempre acompanhava os filhos Strathmore.

— Ora, ora! — exclamou David, o irmão mais próximo de Elizabeth, fazendo uma reverência exagerada que quase o fez derrubar uma cadeira. — Devo me ajoelhar agora ou devo esperar até que você use a tiara no café da manhã?

— Não seja bobo, David — retrucou Elizabeth, jogando um guardanapo nele. — Sente-se e coma.

— É sério, Lizzie — disse Michael, servindo-se de ovos mexidos. — Bertie é um sujeito fantástico, jogamos críquete ontem e ele quase me venceu. Mas você tem noção de que agora terá que andar dez passos atrás dele em cerimônias? Você, que sempre liderou nossas expedições nos bosques?

— Eu não andarei atrás de ninguém — afirmou Elizabeth, com aquele queixo erguido que Bertie tanto admirava. — Nós caminharemos lado a lado. Ele me prometeu isso.

— Ele prometeu porque está apaixonado — brincou David. — Mas o Lorde Camareiro pode ter uma opinião diferente. No entanto, fico feliz por ele. Bertie parece... mais alto desde ontem. Como se um peso tivesse saído de seus ombros.

— O peso saiu dos ombros dele e foi para os dela — comentou o Conde, sentando-se à cabeceira, embora seu tom fosse de brincadeira.

O clima era de celebração, mas havia uma corrente subjacente de proteção. Para os Bowes-Lyon, a Família Real não era uma entidade mística, mas uma instituição exigente que agora reivindicava sua joia mais preciosa. Eles conheciam as dificuldades de Bertie, sua luta com a fala e sua timidez incapacitante, e sabiam que Elizabeth seria sua maior defensora.

No meio da manhã, Bertie juntou-se a eles. Ele vestia um terno de campo impecável, mas sua expressão era de uma felicidade tão pura que parecia ter rejuvenescido dez anos. Ele cumprimentou os sogros com uma deferência que ia além do protocolo; era o respeito de um homem que sabia ter recebido um tesouro.

— Senhor — disse Bertie, dirigindo-se ao Conde —, espero que o senhor saiba que farei de tudo para que Elizabeth nunca se arrependa desta decisão.

O Conde de Strathmore colocou a mão no ombro do genro.

— Eu sei que fará, Bertie. Mas lembre-se: ela é uma rosa escocesa. Se você tentar podá-la demais, ela perderá o perfume. Deixe-a florescer do jeito dela, e você terá a melhor companheira que um homem poderia desejar.

— Eu não ousaria mudar nem um fio de cabelo — prometeu o Príncipe, lançando um olhar cúmplice para Elizabeth, que estava sentada no sofá, observando a cena.

Mais tarde, Elizabeth e Bertie conseguiram escapar para o jardim. Eles caminharam em direção ao pomar, onde as macieiras começavam a perder suas folhas.

— Minha família está sendo gentil? — perguntou Elizabeth, entrelaçando seu braço no dele. — Eu sei que David e Michael podem ser um pouco... provocadores.

— Eles são maravilhosos — respondeu Bertie. — Eles me tratam como se eu fosse um deles. É... é um sentimento que eu raramente tive na minha própria casa. No Palácio, tudo é tão formal, tão carregado de expectativas. Aqui, sinto que posso respirar.

— Você sempre poderá respirar comigo, Bertie — disse ela, parando e virando-se para ele. — Mas você sabe que o mundo vai mudar a partir de amanhã. O anúncio será feito, e não seremos mais apenas Lizzie e Bertie. Seremos propriedade pública.

Bertie suspirou, e por um momento, a sombra da gagueira pairou sobre ele, mas ele lutou contra ela.

— Eu... eu sei. Mas eu enfrentaria mil multidões e dez mil discursos se soubesse que, no final do dia, você estaria lá. Você é a minha coragem, Elizabeth.

Ela tocou o rosto dele, sentindo a pele firme e o calor de seu afeto.

— E você é a minha âncora. Mas prometa-me uma coisa, Bertie. Prometa-me que continuaremos fugindo para Glamis sempre que o barulho de Londres ficar insuportável.

— Eu prometo — disse ele, selando a promessa com um beijo suave.

Enquanto isso, dentro da casa, a Condessa de Strathmore e o Conde observavam os dois pela janela da biblioteca.

— Ela vai ser uma Duquesa magnífica, Claude — comentou Cecília, limpando uma lágrima discreta. — Mas eu me pergunto se o mundo está pronto para uma mulher como Elizabeth. Ela não é feita de porcelana. Ela é feita de granito escocês coberto de veludo.

— O mundo terá que se ajustar a ela — respondeu o Conde. — E Bertie também. Mas veja como ele olha para ela. Ele a adora. E, no final das contas, é isso que importa.

A notícia do noivado oficial foi preparada para os jornais. A reação da família Bowes-Lyon, embora marcada pela alegria, também era de uma solene preparação. Eles sabiam que Elizabeth estava entrando em uma arena onde cada sorriso e cada gesto seriam analisados. Mas, ao verem os dois jovens rindo juntos no jardim, esquecidos por um momento de coroas e títulos, os Strathmore sentiram que, talvez, o amor pudesse realmente sobreviver às exigências do trono.

Naquela noite, houve um jantar especial. Não houve grandes discursos reais, apenas brindes sinceros. O Conde levantou sua taça de prata, preenchida com o melhor uísque das Highlands.

— À minha filha, a futura Duquesa de York — começou ele, com a voz firme. — Que ela leve a luz de Glamis para os corredores de Buckingham. E ao Príncipe Alberto, que teve o bom senso de não desistir da mulher mais teimosa da Escócia. Que vocês encontrem um equilíbrio entre o dever e a felicidade.

— À Lizzie e Bertie! — ecoaram os irmãos, batendo os copos com entusiasmo.

Elizabeth olhou ao redor da mesa, para os rostos de seus pais e irmãos, e depois para o homem ao seu lado. Ela sentiu uma onda de gratidão por suas raízes. Ela sabia que era a força daquela mesa, a lealdade daqueles laços familiares, que a sustentaria quando ela se tornasse uma das mulheres mais famosas do mundo.

— Obrigada, papai — disse ela, com os olhos brilhando. — E não se preocupem. Eu levarei um pouco de terra da Escócia nos meus sapatos para onde quer que eu vá.

Bertie riu, sentindo-se, pela primeira vez na vida, verdadeiramente parte de uma família que não era definida apenas pelo sangue real, mas pelo afeto genuíno.

O noivado de Elizabeth Bowes-Lyon e do Príncipe Alberto de York não era apenas uma união dinástica; era o encontro de dois mundos. O frescor das montanhas escocesas estava prestes a soprar através dos salões abafados da monarquia britânica, e nada, nem mesmo o protocolo mais rigoroso, seria capaz de conter a mudança que Lizzie estava prestes a trazer.

Enquanto a noite caía sobre St Paul's Walden Bury, e os preparativos para o futuro começavam a ganhar forma, o casal permaneceu na varanda por mais alguns minutos, observando as estrelas.

— Você está pronta, Elizabeth? — perguntou Bertie, segurando a mão dela com força.

— Com você ao meu lado, Bertie? — Ela sorriu, o mesmo sorriso travesso que o conquistara em Glamis. — Eu estou pronta para qualquer coisa. Que comece a valsa.

E assim, sob o céu de outono, o compromisso foi selado não apenas com diamantes, mas com a promessa de uma vida compartilhada, onde o amor seria a única coroa que realmente importava. A história de Lizzie e Bertie estava apenas começando seu capítulo mais glorioso, e a família Bowes-Lyon, com todo o seu orgulho e proteção, estava pronta para marchar ao lado deles rumo ao desconhecido.