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Blood

O Veneno da Rosa e o Brilho do Ciúme

A semana que se seguiu ao surto de Sua no pátio foi, para Mizi, um mergulho lento em um oceano de gelo. A escola, que antes parecia um campo de batalha contra monstros virtuais, agora era um labirinto de silêncios cortantes e olhares evitados. Mizi tentava manter sua máscara de sarcasmo adolescente, mas as olheiras profundas e o jeito desleixado — ainda mais que o normal — denunciavam que a rejeição de Sua havia deixado uma cicatriz que nenhum kit médico digital poderia curar.

Sua, por outro lado, agia como uma rainha gélida. Ela falava com o grupo, participava das conversas sobre as provas finais e até ria das piadas de Hyuna, mas sempre que Mizi tentava se aproximar, Sua levantava um muro invisível. Ela brincava com os sentimentos de Mizi como se fossem fios de um novelo de lã: dava um pouco de corda, permitindo que Mizi acreditasse em uma reconciliação, para logo depois puxar com força, deixando a garota de cabelos rosa em pedaços novamente.

Enquanto isso, o resto do grupo parecia ter encontrado sua própria forma de cura. Ivan e Till, unidos pelo trauma compartilhado e por uma rivalidade que se transformou em algo muito mais físico e intenso, já não escondiam mais que estavam ficando. Eles se sentavam próximos, trocando provocações que terminavam em risadas baixas e mãos dadas sob a mesa.

Naquela sexta-feira ensolarada, o grupo estava reunido na mesa de sempre durante o intervalo. O clima era de uma normalidade forçada. Ivan e Till discutiam sobre qual banda de rock era mais superestimada, enquanto Luka tentava explicar a Hyuna os fundamentos da física quântica. Mizi estava sentada na ponta, cutucando uma maçã com o garfo, os olhos perdidos em algum ponto do horizonte. Sua estava ao seu lado, lendo um livro, ignorando a presença de Mizi com uma elegância que beirava a crueldade.

— Cara, se você disser que Nirvana é ruim de novo, eu te jogo no lixo — disse Till, empurrando o ombro de Ivan.

— Eu não disse que é ruim, seu idiota — Ivan riu, segurando o pulso de Till com firmeza. — Só disse que o baterista era a única coisa realmente genial ali.

— Você é um hater, Ivan — rebateu Till, mas o brilho em seus olhos verdes entregava que ele não estava nem um pouco irritado.

Foi nesse momento que a atmosfera da mesa mudou. Uma garota que ninguém ali parecia conhecer se aproximou. Ela era deslumbrante: cabelos loiros platinados cortados em um estilo moderno, olhos azuis que pareciam brilhar com uma confiança magnética e um sorriso que poderia desarmar um exército. Ela usava o uniforme da escola de uma forma que o fazia parecer alta costura.

Ela parou exatamente na frente de Mizi.

— Oi — disse a garota, a voz saindo como uma melodia suave. — Eu sou a Min-hee. Sou nova na turma de artes. Eu não pude deixar de notar você desde que cheguei.

Mizi piscou, saindo de seu transe. Ela olhou para cima, confusa.

— Ah... oi? — respondeu Mizi, a voz um pouco rouca.

— Eu vi seus desenhos no mural da escola — continuou Min-hee, ignorando o resto do grupo e focando apenas em Mizi. — Eles têm uma melancolia linda, mas você... você pessoalmente é muito mais vibrante do que o seu traço. Eu adoraria te pagar um café depois da aula. O que acha?

Ivan e Till pararam de brigar. Hyuna deixou o queixo cair. Luka limpou os óculos para ter certeza de que estava vendo direito. Min-hee era, sem dúvida, a garota mais bonita que já havia pisado naquele pátio, e ela estava dando em cima da Mizi de forma descarada e charmosa.

Mizi sentiu o sangue subir para as bochechas. Por um segundo, o peso da rejeição de Sua pareceu diminuir. Alguém a via. Alguém a queria. Ela abriu a boca para responder, pronta para dizer que adoraria o café, mas não teve a chance.

— Ela não pode — disse uma voz fria e cortante.

O grupo inteiro se virou para Sua. A garota de olhos roxos havia fechado o livro com um estrondo. Ela não estava mais com a expressão de indiferença. Seus olhos estavam fixos em Min-hee com uma hostilidade que fez o ar ao redor da mesa esfriar dez graus.

— Desculpe? — Min-hee arqueou uma sobrancelha, ainda mantendo o sorriso. — Eu perguntei para ela, não para você.

— E eu estou respondendo — Sua levantou-se lentamente, cruzando os braços. — A Mizi está ocupada. Hoje, amanhã e pelo resto do semestre. Ela tem compromissos com o nosso grupo e não tem tempo para... novatas que acham que podem chegar e levar o que querem.

O ciúme de Sua era palpável. Era possessivo, sombrio e completamente inesperado. Mizi olhou para Sua, em choque. Onde estava a garota que a chamara de "igual aos sequestradores" dias atrás?

— Eu não sabia que você era a dona da agenda dela — provocou Min-hee, o sorriso diminuindo, mas o desafio ainda presente.

— Agora você sabe — Sua deu um passo à frente, diminuindo a distância entre as duas. — Vá embora, Min-hee. Procure outra pessoa para o seu café. A Mizi não está interessada.

Min-hee olhou para Mizi, esperando que ela dissesse algo, mas Mizi estava paralisada pelo aperto estranho que via nos olhos de Sua. Vendo que não teria apoio, a loira deu de ombros, soltando um riso seco.

— Que desperdício — disse Min-hee, lançando um último olhar para Mizi antes de dar meia-volta e se afastar.

O silêncio na mesa era absoluto. Ivan olhou para Till e sussurrou um "que porra foi essa?".

Sua sentou-se novamente, abrindo o livro como se nada tivesse acontecido, mas suas mãos tremiam levemente. O aperto no peito que sentira ao ver Min-hee sorrir para Mizi fora um alerta que ela não pôde ignorar. A brincadeira de controle havia saído do controle.

— Sua... — Mizi tentou falar, mas Sua a cortou.

— Não diga nada, Mizi. Eu só fiz um favor para o grupo. Não precisamos de estranhos se infiltrando agora.

Mizi voltou a se encolher. O momento de esperança fora substituído por uma confusão ainda maior.

***

A noite de sexta-feira chegou com a promessa de esquecimento. Hyuna, decidida a unir o grupo de uma vez por todas, organizou uma pequena festa em sua casa. Seus pais estavam fora e a sala estava cheia de salgadinhos, música alta e, o mais importante, muita bebida.

Lá pelas onze da noite, o clima já estava caótico. Ivan e Till estavam jogados em um sofá, dividindo uma garrafa de cerveja e trocando beijos sem se importar com quem via. Luka tentava desesperadamente impedir que Hyuna subisse na mesa de centro para dançar.

Mizi, no entanto, estava em um estado deplorável. Ela estava sentada no chão, encostada na parede de um canto escuro da sala, segurando um copo de plástico vermelho cheio de uma mistura duvidosa de vodca e suco. Ela já havia passado do ponto da alegria alcoólica e entrado na fase da melancolia absoluta.

Mizi falava sozinha, ou melhor, falava para quem quisesse ouvir, as palavras saindo arrastadas e sem filtro.

— É muito engraçado, né? — Mizi riu, uma risada triste que se transformou em um soluço. — Eu salvei todo mundo. Eu tomei tiro, eu levei chute, eu quase morri naquela merda de hospital... e pra quê? Pra ser tratada como um lixo radioativo pela pessoa que eu mais amo.

No outro lado da sala, Sua estava encostada no balcão da cozinha, observando a cena. Ela não tinha bebido quase nada. Ela ouvia cada palavra de Mizi, e cada frase era como um prego sendo martelado em sua consciência.

— Eu sou um fardo, Ivan! — Mizi gritou para o amigo, que tentou levantar a cabeça para prestar atenção. — Meu pai tinha razão. Eu sou um fardo inútil. Eu tentei ser a heroína, mas eu só consegui que a Sua me odiasse. Eu preferia ter ficado naquele gancho... juro por Deus... seria menos doloroso do que esse gelo que ela me dá.

Sua sentiu as lágrimas pinçarem seus olhos. Ela viu a dor crua no rosto de Mizi, a vulnerabilidade de alguém que deu tudo e ficou com as mãos vazias. O plano de "controle" de Sua parecia, agora, a coisa mais mesquinha e estúpida do mundo. Ela não estava protegendo seu coração; ela estava destruindo o de Mizi.

Sua largou o copo de água no balcão e caminhou em direção ao canto escuro. Ivan, percebendo a aproximação, puxou Till para o outro lado, dando espaço.

Sua sentou-se no chão ao lado de Mizi. O cheiro de álcool era forte, mas ela não se importou.

— Mizi — sussurrou Sua.

Mizi virou a cabeça devagar, os olhos dourados nublados e vermelhos de tanto chorar.

— Ah... oi, Sua — Mizi deu um sorriso torto e triste. — Veio me dar mais um esporro? Veio dizer que eu tô sendo inconveniente de novo? Pode dizer... eu já tô acostumada.

— Não — disse Sua, a voz falhando. — Eu vim dizer que eu sou uma idiota.

Mizi piscou, tentando focar a imagem à sua frente.

— Eu tive medo, Mizi — continuou Sua, aproximando-se mais, até que seus joelhos se tocassem. — Quando saímos daquele hospital, eu percebi que você tinha um poder sobre mim que ninguém nunca teve. E eu odiei isso. Eu tentei te afastar porque eu não sabia como lidar com o fato de que eu morreria por você se fosse preciso. Eu brinquei com você porque era a única forma de não me sentir vulnerável.

Mizi soltou o copo, que tombou no chão, derramando o líquido.

— O que você tá dizendo...? — murmurou Mizi.

— Estou dizendo que eu agi como um monstro — Sua levou a mão ao rosto de Mizi, acariciando a bochecha quente com o polegar. — E que eu quase morri de ciúmes hoje no pátio. Eu não suporto a ideia de ninguém tocando em você. Eu não quero que ninguém te veja do jeito que eu vejo.

Mizi soltou um suspiro trêmulo.

— Você é muito confusa, Sua... dói muito.

— Eu sei. E eu vou passar o resto da vida compensando isso, se você me deixar — Sua aproximou o rosto, a respiração misturando-se com a de Mizi. — Eu amo você, Mizi. Do meu jeito torto e problemático, mas eu amo.

Mizi não teve tempo de responder com palavras. Sua selou o espaço entre elas em um beijo urgente e profundo. Não era um beijo delicado; era um beijo carregado de arrependimento, desejo e uma promessa silenciosa de que as provocações cruéis haviam acabado.

Mizi correspondeu instantaneamente, suas mãos subindo para os cabelos pretos de Sua, puxando-a para mais perto, como se quisesse fundir seus corpos para que o medo nunca mais encontrasse espaço entre elas. O gosto da vodca se misturou ao doce do gloss de Sua, e pela primeira vez em semanas, a dor no peito de Mizi desapareceu.

Quando se separaram por falta de ar, Mizi encostou a testa na de Sua, os olhos ainda úmidos, mas agora brilhando com uma luz diferente.

— Você é uma chata — murmurou Mizi, com um biquinho adorável.

— Eu sei — Sua riu baixo, limpando uma lágrima do rosto de Mizi.

— E você vai ter que me dar muito dengo agora — continuou Mizi, a voz ficando manhosa por causa da bebida. — Eu quero carinho na cabeça, quero que você me leve pra casa e quero que você diga que eu sou a sua heroína favorita.

Sua sorriu, um sorriso genuíno que iluminou seu rosto de uma forma que Mizi nunca tinha visto.

— Eu faço tudo isso — prometeu Sua, abraçando Mizi com força. — Eu prometo que vou cuidar de você, minha heroína.

No sofá, Ivan e Till observavam a cena com sorrisos cúmplices.

— Finalmente — disse Till, encostando a cabeça no ombro de Ivan. — Achei que a gente ia ter que trancar as duas num armário até elas se acertarem.

— A Mizi é persistente — comentou Ivan, fechando os olhos, sentindo-se finalmente em paz. — E a Sua... bom, a Sua finalmente percebeu que não dá pra lutar contra o que a gente sente.

A festa continuou ao redor delas, mas para Mizi e Sua, o mundo havia se reduzido àquele canto escuro, ao calor uma da outra e à certeza de que, não importa o quão sombrio o passado tivesse sido, o futuro, pela primeira vez, parecia brilhante. Mizi se aninhou no colo de Sua, fechando os olhos enquanto sentia os dedos da garota acariciarem seus cabelos rosa. Ela não era mais um fardo. Ela era amada. E isso era tudo o que importava.