Blood
O Último Ato da Máscara
— Estão atrasados — resmungou Till, chutando uma raiz retorcida no chão da clareira. — Se for pra morrer, que seja logo. Esse suspense tá me dando vontade de vomitar.
— Cala a boca, Till — rebateu Hyuna, embora seus próprios dedos estivessem batucando nervosamente no cabo da lanterna. — A gente combinou o plano. Ninguém mexe um músculo até eles aparecerem.
O cenário era o mesmo de duas semanas atrás: a clareira fria, o cheiro de terra úmida e o silêncio opressor da floresta ao norte. Luka, Sua, Ivan, Till e Hyuna estavam parados sob a luz pálida da lua, fingindo uma vulnerabilidade que não sentiam mais. Eles eram a isca.
A poucos metros dali, camuflada entre os arbustos densos e as sombras projetadas por um carvalho secular, Mizi observava tudo. Ela não respirava, apenas existia. Seus olhos dourados, agora desprovidos de qualquer brilho adolescente, escaneavam a escuridão. Ela não tinha medo. O trauma do hospital havia sido substituído por uma frieza cirúrgica.
— Eles estão vindo — sussurrou Mizi para si mesma, captando o som nítido de galhos secos quebrando à esquerda.
Duas figuras surgiram das sombras. Não eram monstros de três metros de altura ou abominações digitais. Eram dois homens comuns, vestindo moletons escuros e máscaras de plástico baratas. Nas mãos, balançavam tacos de beisebol de alumínio que brilhavam sinistramente sob o luar. Eles se moviam com uma confiança arrogante, achando que encontrariam as mesmas vítimas indefesas de antes.
No momento em que o primeiro agressor levantou o taco para atingir a nuca de Luka, Mizi agiu.
— Agora não, seu bosta — sibilou ela.
Com a precisão de quem arremessa para vencer um jogo decisivo, Mizi lançou uma pedra pesada e pontiaguda que havia selecionado cuidadosamente. O projétil atingiu a têmpora do primeiro homem com um estalo seco. Ele desabou como um saco de batatas, o taco tilintando contra as pedras.
O segundo homem parou, confuso, olhando para o companheiro caído. Foi o erro fatal. Mizi saltou das sombras como um predador, envolvendo o pescoço do agressor com o braço em um mata-leão técnico e impiedoso.
— Dorme, desgraçado — ela rosnou no ouvido dele, apertando com toda a força que seu corpo de dezenove anos possuía.
O homem debateu-se, tentando cravar as unhas nos braços de Mizi, mas ela não cedeu. Em poucos segundos, o corpo dele relaxou e ele escorregou para o chão, inconsciente.
— Mizi! — Hyuna correu até ela, a lanterna agora iluminando os rostos dos agressores. — Caralho, você acabou com eles!
— Menos conversa, mais ação — Mizi disse, limpando o suor da testa. — Ivan, pega as cordas. Luka, você tem certeza que o seu porão está vazio?
— Meus pais estão viajando e a vizinhança é silenciosa — respondeu Luka, a voz tremendo levemente, mas os olhos fixos nos agressores. — Ninguém vai ouvir nada.
— Perfeito — disse Ivan, aproximando-se com um olhar que fez até Till recuar um passo. — Vamos levar o lixo pra casa.
O porão da casa de Luka era frio e cheirava a detergente e concreto. Os dois homens estavam amarrados em cadeiras de metal, as cabeças baixas. Quando o balde de água gelada atingiu o rosto de ambos, eles acordaram em um sobressalto, tossindo e tentando se libertar.
— Onde... onde a gente tá? — um deles perguntou, a voz trêmula.
Ivan deu um passo à frente, brincando com a adaga sem fio que usara no jogo. Mesmo sem corte, o metal brilhava de forma ameaçadora sob a lâmpada nua do teto.
— Vocês estão no lugar onde as perguntas são respondidas — disse Ivan, sua voz desprovida de qualquer emoção. — E se eu não gostar das respostas, eu vou descobrir se essa lâmina cega ainda consegue abrir buracos em carne humana.
— A gente não fez nada! — o outro gritou. — Era só uma brincadeira!
— Uma brincadeira? — Mizi aproximou-se, um sorriso sarcástico e assustador nos lábios. — Colocar a gente num hospital virtual, pendurar meus amigos em ganchos e torturar nossa sanidade é "brincadeira"? Que tipo de infância de merda vocês tiveram?
Ela se inclinou, ficando cara a cara com o que parecia ser o líder.
— Fala logo. Quem mandou vocês? Quantos mais existem?
— Ninguém! — o homem choramingou, o pavor finalmente vencendo a arrogância. — Somos só nós dois! A gente conseguiu o equipamento na dark web... os óculos, os sensores de dor, o software do hospital... Tudo é controlado por um servidor remoto. A gente só queria ver como vocês reagiam. Era diversão, só diversão!
— Diversão — repetiu Sua, sua voz saindo como um sussurro gelado do canto da sala. Foi a primeira vez que ela falou desde que entraram no porão. — Vocês destruíram nossas vidas por diversão.
Mizi olhou para os dois e sentiu um nojo profundo. Eles eram apenas dois garotos aleatórios da cidade vizinha, covardes que se escondiam atrás de tecnologia para se sentirem poderosos. Não havia uma conspiração alienígena ou uma seita secreta. Era apenas a banalidade do mal humano.
— O equipamento está no galpão perto da antiga serraria — confessou o primeiro, desabando em lágrimas. — Por favor, não matem a gente.
— Matar vocês daria muito trabalho de limpeza — disse Mizi, guardando o taco de beisebol que havia confiscado. — Mas a delegada Olivia vai adorar ouvir essa confissão.
O terror acabou naquela noite. Com a confissão gravada e a localização dos equipamentos entregue, a polícia não teve outra escolha a não ser agir. Os dois foram presos, os servidores foram derrubados e a "brincadeira" foi exposta nos jornais locais. O trauma, porém, não era algo que se pudesse apreender ou trancar em uma cela.
Duas semanas depois, a rotina escolar tentava se restabelecer. O grupo de seis agora era inseparável, ocupando sempre a mesma mesa no pátio durante o intervalo.
— Eu ainda não acredito que eles eram só dois nerds com tempo livre demais — comentou Hyuna, mastigando um pedaço de pizza fria. — O mundo é realmente um lugar bizarro.
— Pelo menos agora a gente pode dormir sem achar que vai acordar num gancho — disse Till, esticando as pernas. — E o melhor de tudo foi ver a cara da delegada quando a Mizi entregou os caras de bandeja.
Luka assentiu, ajustando os óculos.
— A análise forense confirmou que o software usava pulsos eletromagnéticos para simular a dor. É ilegal em quarenta países. Eles vão mofar na cadeia.
O clima estava leve, ou o mais leve que poderia estar para sobreviventes de um jogo mortal. Foi quando Hyuna, sempre inclinada a cutucar feridas abertas, olhou para Mizi e depois para Sua.
— E aí, Mizi? — perguntou Hyuna com um sorriso travesso. — Agora que o perigo passou, como é que tá o coração? Porque a Sua continua se fazendo de difícil ao extremo, né? Parece até teatro.
Mizi sentiu o rosto esquentar instantaneamente.
— Hyuna, cala a boca — resmungou Mizi, tentando se esconder atrás de sua lata de refrigerante.
— Não, sério! — continuou Hyuna, ignorando o aviso. — A Mizi se declarou no meio do apocalipse, salvou a vida de todo mundo, foi a heroína do dia... e você, Sua, nem um beijinho de agradecimento? Isso é crueldade pura.
Sua, que estava terminando seu suco em silêncio, subitamente bateu o copo na mesa com uma força desnecessária. Seus olhos roxos brilharam com uma intensidade fria.
— Vocês acham que isso é uma piada? — perguntou Sua, a voz subindo de tom, carregada de uma indignação que silenciou a mesa. — Vocês acham que o fato da Mizi ter sentimentos por mim me obriga a retribuir só porque ela foi "corajosa"?
— Sua, eu não quis dizer... — começou Hyuna, perdendo o sorriso.
— Eu estou cansada disso! — Sua levantou-se abruptamente, a cadeira arrastando no chão com um ruído estridente. — Estou cansada de ser pressionada, cansada de ser o "prêmio" de uma história de terror e cansada desse assunto ridículo! Eu odeio que vocês fiquem comentando sobre a minha vida como se fosse uma novela!
Sua olhou para Mizi, e o desprezo em seu olhar foi como uma facada física.
— E você, Mizi... se você acha que me salvar te dá o direito de me cobrar algo, você é igual àqueles caras no porão.
— O quê? Sua, eu nunca... — Mizi começou, o coração disparando de dor.
— Chega! — Sua gritou, pegando sua mochila. — Eu não quero mais ouvir uma palavra sobre isso. Fiquem aí com as piadinhas de vocês. Eu cansei.
Sua virou as costas e saiu marchando em direção ao prédio principal, os passos rápidos ecoando no pátio. O silêncio que ficou para trás era pesado, sufocante.
Mizi ficou paralisada, sentindo as lágrimas arderem em seus olhos. O "não" de dias atrás já tinha doído, mas aquela explosão de ódio, aquela acusação de ser igual aos sequestradores... aquilo a destruiu.
— Mizi, eu sinto muito... — começou Hyuna, a voz cheia de culpa. — Eu achei que...
— Não fala nada — interrompeu Mizi, a voz falhando. — Só... não fala nada.
Ela se levantou, as mãos tremendo, e seguiu na direção oposta à de Sua, querendo apenas um lugar para desaparecer.
Enquanto isso, Sua dobrou o corredor da biblioteca e, assim que teve certeza de que estava sozinha, encostou-se na parede, respirando fundo. O ódio que demonstrara no pátio desapareceu em um segundo, substituído por uma expressão de calma absoluta e um brilho calculista nos olhos.
Ela ajeitou o cabelo, limpando uma lágrima imaginária. O teatro tinha sido perfeito. A reação de Mizi, a culpa de Hyuna, a tensão no grupo... tudo saíra exatamente como ela planejara.
Sua abriu sua mochila e tirou um pequeno espelho de mão. Ela observou seu reflexo, retocando o brilho labial com uma precisão assustadora. Ela sabia exatamente o que estava fazendo. O jogo no hospital podia ter acabado, mas o jogo de Sua estava apenas começando. Ela precisava manter Mizi à distância, precisava daquele conflito, daquela dor. Porque enquanto Mizi estivesse abalada e desesperada por sua aprovação, Sua teria o controle total sobre a única pessoa que realmente importava naquele grupo.
— Pobre Mizi — sussurrou Sua para o próprio reflexo, um sorriso gélido e vitorioso curvando seus lábios. — Você é tão fácil de quebrar.
Ela guardou o espelho e caminhou tranquilamente para a aula, a máscara de "vítima traumatizada e irritada" perfeitamente ajustada de volta ao rosto, deixando para trás um rastro de corações partidos e uma amizade que, embora tivesse sobrevivido à morte, talvez não sobrevivesse à verdade de quem Sua realmente era.