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Blood

O Labirinto de Vidro e Sangue

A escuridão da floresta foi a última coisa que Mizi viu antes que o mundo girasse e seus joelhos cedessem. Ela não sentiu o impacto do rosto contra o musgo úmido, apenas o vazio. Quando seus olhos finalmente se abriram, o cheiro de pinheiros e terra havia sido substituído por um odor estéril, metálico, como o de um necrotério recém-limpo.

Mizi piscou, a visão turva focando em um teto branco infinito. Ela se sentou abruptamente, a mão indo instintivamente à nuca, que latejava.

— Que porra aconteceu...? — murmurou, sua voz ecoando em um espaço vasto.

— Mizi? — A voz era familiar, carregada de uma tensão que ela raramente ouvia.

Ela virou a cabeça e viu Ivan. Ele estava a poucos metros, levantando-se com a guarda alta, os olhos escuros mapeando o ambiente como um animal encurralado. Ao redor deles, o cenário era surreal. Não era uma sala comum; era um espaço imenso, do tamanho de um loft industrial luxuoso, mas sem janelas, sem móveis, apenas com um telão gigantesco que ocupava uma parede inteira e uma porta de metal maciço no lado oposto.

— Ivan! — Mizi correu até ele, segurando seu braço. — Você viu quem foi? Alguém me acertou por trás.

— Eu também apaguei — Ivan disse, a mandíbula travada. — Um segundo eu estava seguindo o mapa, no outro... aqui.

Eles não estavam sozinhos. Do outro lado da sala, quatro figuras se levantavam, igualmente desorientadas. Till chutou o chão, soltando um palavrão que ecoou pelas paredes.

— Mas que caralho de brincadeira é essa?! — Till gritou, os olhos verdes faiscando de puro ódio. — Luka! Hyuna! Vocês estão inteiros?

— Eu estou bem, Till. Acalme-se — Luka respondeu, limpando os óculos com o canto da camisa, embora suas mãos estivessem tremendo visivelmente.

Hyuna ajudava Sua a se levantar. A garota de cabelos pretos parecia pálida, os olhos roxos arregalados enquanto observava a sala. Perto deles, dois rapazes que Mizi não reconhecia — provavelmente de outra turma — estavam encolhidos, um deles soluçando baixinho.

— Ótimo, o clube dos cinco e os dois figurantes — Ivan comentou, voltando ao seu tom sarcástico habitual para mascarar o desconforto. — Alguém trouxe a bebida ou o sequestrador esqueceu do buffet?

— Cala a boca, Ivan! — Hyuna disparou, aproximando-se. — Isso não é hora para piadinha. A gente foi sequestrado, seu idiota!

Antes que a discussão escalasse, um som agudo de estática reverberou pela sala. Todos se calaram instantaneamente, voltando os olhos para o telão.

Uma luz branca ofuscante surgiu, seguida por uma voz distorcida, mecânica e desprovida de qualquer humanidade.

— Bem-vindos ao Palco do Sacrifício — a voz sibilou.

No telão, desenhos estilizados começaram a aparecer. Um hospital imenso, cercado por muros altos e arame farpado.

— Vocês foram escolhidos para um teste de sobrevivência. As regras são simples, mas a falha é absoluta. Vocês entrarão em um campo de contenção. Para sair, precisam ativar cinco geradores e encontrar cinco chaves para abrir os cadeados de saída.

— Isso é algum tipo de Escape Room doentio? — Luka perguntou, a voz falhando.

— É um jogo de vida ou morte — a voz continuou, ignorando-o. — Vocês estão conectados a uma interface de realidade virtual severa. Seus corpos reais estão em segurança, mas seus sistemas nervosos sentirão cada estímulo. Se morrerem no jogo, o choque sináptico fritará seus cérebros na vida real. Três ganchos, e vocês deixam de existir.

— Ganchos? — Sua sussurrou, a voz trêmula.

O telão mostrou uma animação cruel: um boneco sendo pendurado pelo tórax em um gancho de metal.

— Dois assassinos caçarão vocês. Jeff, o Rastreador, e Jason, o Destruidor. Vocês não podem matá-los. Só podem fugir, se esconder e colaborar.

Mizi sentiu um frio na espinha. Ela olhou para as próprias mãos, que agora pareciam levemente translúcidas sob a luz da sala.

— Para que não digam que não somos justos — a voz prosseguiu —, cada um receberá uma ferramenta.

Nomes começaram a girar na tela como em uma roleta russa.

— Till: Lanterna. Hyuna: Lanterna. Luka: Seringa de Adrenalina. Sua: Seringa de Adrenalina. Ivan: Adaga de Defesa. Mizi: Pistola de Sinalização.

Um compartimento na parede se abriu com um estalo pneumático. Seis pequenas caixas pretas foram expelidas. Mizi caminhou até a sua, pegando a arma pesada e fria. Ela olhou para Ivan, que girava uma adaga curta entre os dedos com uma expressão sombria.

— Sessenta por cento de chance de acerto — Mizi leu a instrução que apareceu em holograma sobre a arma. — Se eu errar, eu me machuco. Que maravilha.

— Pelo menos você tem algo que atira — Till reclamou, testando a lanterna, que emitia um feixe de luz UV potente. — Eu vou fazer o quê? Iluminar o caminho pro cara me degolar?

— Cega o assassino, Till — Luka explicou, injetando o conteúdo da seringa no suporte do pulso. — É para dar tempo de fuga.

De repente, um dos garotos desconhecidos, que havia recebido uma seringa, começou a hiperventilar. Ele correu até a porta de metal, esmurrando-a com força.

— Eu não quero jogar! Por favor! Eu tenho família, eu... eu pago o que vocês quiserem! Me tira daqui! — Ele gritava, as lágrimas escorrendo pelo rosto.

A tela mudou. Mostrou uma sala escura onde um jovem estava sentado em uma cadeira, coberto de fios e com um capacete metálico. Era ele. O garoto na sala real.

— Você deseja sair? — a voz perguntou com uma calma aterrorizante.

— Sim! Sim, pelo amor de Deus, sim!

— Desejo concedido.

Um som de disparo ecoou pelos alto-falantes. No vídeo, o corpo do garoto na cadeira deu um solavanco violento e depois ficou imóvel, a cabeça pendendo para o lado. Na sala onde os seis estavam, o garoto caiu morto instantaneamente, seus olhos abertos e sem vida refletindo o brilho do telão.

O silêncio que se seguiu foi absoluto. Mizi sentiu o estômago revirar. Sua sufocou um grito, escondendo o rosto no ombro de Hyuna. Till deu um passo atrás, o rosto pálido.

— Ele... ele matou o cara — Till balbuciou. — Ele matou ele de verdade.

— Não há saída — a voz declarou friamente. — O jogo começa em três minutos. Preparem-se para o hospital.

Ivan se aproximou de Mizi, sua mão apertando o ombro dela com força.

— Mizi, escuta — ele disse, a voz baixa e urgente. — A gente não vai se separar. Não importa o que aconteça, você fica perto de mim. Esses quatro... — ele gesticulou para o grupo de Till — ...eles que se virem. A prioridade é a gente.

— Ivan, a gente vai precisar de ajuda — Mizi sussurrou, olhando para os outros. — Cinco geradores. Sozinhos não vamos conseguir.

— A gente sobrevive, Mizi. É o que a gente sempre faz — Ivan rebateu, os olhos fixos na porta que começava a se abrir, revelando um corredor escuro e úmido que cheirava a morte.

Till, ouvindo a conversa, aproximou-se com o maxilar cerrado.

— Escuta aqui, seu merdinha gótico — Till disse para Ivan. — Eu não gosto de você e você não gosta de mim. Mas se a gente não trabalhar junto, aquele cara no telão vai estourar a cabeça de todo mundo aqui. Entendeu?

Ivan encarou Till por longos segundos. O ar estava carregado de eletricidade.

— Se você entrar no meu caminho, Till, eu te uso de isca — Ivan disse, sem piscar.

— Tenta a sorte — Till rosnou.

— Chega! — Hyuna se colocou entre os dois, a lanterna firme na mão. — A gente tem três minutos. Luka, você é o gênio aqui. O que a gente faz?

Luka ajeitou os óculos, a voz trêmula, mas analítica.

— Precisamos nos dividir em duplas. Uma dupla foca em achar as chaves, as outras duas nos geradores. Se alguém for pego, a prioridade é o resgate imediato antes que o tempo no gancho acabe. E Mizi... guarde essa arma para o Jason. Se ele destrói geradores, ele é o maior obstáculo para a nossa saída.

— E o tal do Jeff? — Sua perguntou, a voz quase inaudível.

— Ele sabe onde a gente está a cada três minutos — Luka respondeu, olhando para o cronômetro no telão que marcava 00:45. — Quando o tempo estiver perto de virar, temos que estar em movimento. Nunca fiquem parados no mesmo lugar por muito tempo.

Mizi olhou para a porta aberta. O hospital parecia um labirinto de azulejos quebrados e macas abandonadas. A luz piscava ao longe, criando sombras que pareciam se mover por conta própria.

— Sabe de uma coisa? — Mizi disse, tentando recuperar seu tom sarcástico, embora seus lábios tremessem. — Eu achava que o professor de física era um pesadelo. Eu daria tudo por uma aula sobre vetores agora.

Ivan deu um meio sorriso, o último vestígio de humanidade antes do horror começar.

— Pelo menos aqui a gente não precisa anotar nada — ele disse, puxando-a para perto da entrada.

— 10... 9... 8... — a contagem regressiva começou.

Till respirou fundo, segurando a lanterna como se fosse uma espada. Hyuna agarrou a mão de Sua. Luka preparou sua seringa.

— 3... 2... 1...

Uma sirene ensurdecedora cortou o ar, e as luzes da sala se apagaram por completo. Quando a luz de emergência vermelha do hospital se acendeu, eles não estavam mais na sala estéril. Estavam no centro de um pátio interno, cercado por alas escuras e o som distante de metal arrastando no chão.

— Eles estão vindo — Sua sussurrou, apontando para o final do corredor leste.

Uma silhueta alta, carregando um facão imenso que soltava faíscas ao tocar o chão, surgiu das sombras. Jason. E do teto, acima deles, o som de garras arranhando o metal indicava que Jeff já havia começado a caçada.

— Corram! — Till gritou.

O grupo se dispersou no caos. Mizi sentiu o coração martelar contra as costelas enquanto corria ao lado de Ivan para dentro da ala de psiquiatria. O jogo havia começado, e o preço da derrota era o silêncio eterno.

— Ali! Um gerador! — Mizi apontou para uma máquina coberta de poeira no canto de uma sala de triagem.

— Eu cubro a porta, você começa a mexer nos fios — Ivan ordenou, desembainhando a adaga. — Rápido, Mizi. Eu consigo ouvir a respiração dele.

Mizi ajoelhou-se diante do gerador, as mãos mergulhando na fiação complexa. O cheiro de ozônio e ferrugem era sufocante. Ela sabia que, em algum lugar daquele hospital, os outros estavam lutando pela vida. E ela sabia que, se falhasse ali, nenhum deles veria o amanhecer.

Um grito agudo ecoou vindo das alas superiores. Era Hyuna.

— Eles pegaram alguém — Mizi disse, os olhos dourados arregalados de terror.

— Foca no objetivo, Mizi! — Ivan rugiu, os olhos fixos no corredor onde uma sombra rápida acabara de passar. — Se a gente não ligar isso aqui, ninguém sai!

Mizi voltou a conectar os fios, as lágrimas de frustração e medo manchando a poeira do gerador. A realidade virtual podia ser falsa, mas o pavor que sentia era a coisa mais real que já havia experimentado. E nas sombras, os olhos de Jeff brilharam, esperando o próximo erro.