Blood
O Eco dos Gritos nos Corredores de Vidro
A respiração de Mizi era um ruído áspero e descompassado que preenchia a sala de triagem. Suas mãos, antes ágeis, agora tremiam violentamente sobre a fiação do gerador. O metal frio da pistola de sinalização pesava em seu coldre improvisado, uma promessa de segurança que parecia cada vez mais frágil. Ao seu lado, Ivan era uma estátua de vigilância, a adaga empunhada com uma firmeza que Mizi sabia ser puramente força de vontade.
— Está quase... — sussurrou Mizi, as pontas azuis de seu cabelo grudadas no rosto pelo suor.
O silêncio foi quebrado não por um grito, mas pelo som de algo correndo em uma velocidade inumana. Não era o arrastar pesado de Jason; era algo mais leve, mais frenético. Jeff.
— Mizi, sai daí! Agora! — Ivan gritou, mas já era tarde.
A silhueta de Jeff irrompeu pela porta como um borrão de fúria e lâminas. O instinto de Mizi assumiu o controle. Ela sabia que Ivan estava na linha de frente e que Jeff não pararia até que um deles estivesse no chão. Em um movimento desesperado e movida por um pavor que não lhe permitia raciocinar, ela empurrou Ivan com toda a sua força na direção da janela quebrada às suas costas.
— Mizi, o que você—! — O grito de Ivan foi cortado pelo vento enquanto ele despencava do segundo andar.
O baque lá embaixo foi seco, seguido por um gemido de agonia. Ivan atingira o concreto do pátio interno. O sistema nervoso dele enviou um choque de dor tão real que sua visão escureceu por um instante. Ele estava em estado crítico; mais um golpe, mais um "hit", e seu avatar de realidade virtual colapsaria, deixando-o à mercê dos ganchos.
Lá em cima, Mizi estava cara a cara com o Rastreador. Jeff inclinou a cabeça, um movimento espasmódico e bizarro, preparando-se para o bote.
— Vai pro inferno, seu desgraçado! — Mizi sacou a pistola de sinalização.
Ela não mirou. Ela apenas apertou o gatilho, rezando para que a sorte mencionada na interface estivesse ao seu lado. O estrondo do tiro de tambor ecoou por todo o hospital, um som ensurdecedor que fez as janelas restantes vibrarem. O projétil de luz incandescente atingiu o peito de Jeff, explodindo em faíscas rubras e fumaça densa. O assassino soltou um rugido distorcido, recuando enquanto tentava apagar o fogo em suas vestes.
Mizi não esperou para ver o resultado. Ela abandonou o gerador incompleto e disparou pelo corredor oposto, o coração batendo tão forte que ela sentia o pulso nas têmporas. Ela precisava subir. Precisava encontrar os outros.
No andar de cima, o cenário era de puro desespero. Sua estava encurralada contra uma parede de azulejos mofados, o corpo miúdo tremendo enquanto a sombra gigantesca de Jason se projetava sobre ela. O Destruidor erguia seu facão, a máscara de metal refletindo a luz vermelha de emergência. Hyuna estava caída a poucos metros, segurando o abdômen onde uma mancha escura crescia no uniforme escolar.
— Não encosta nela! — Hyuna gritou, reunindo forças para erguer sua lanterna.
O feixe de luz UV atingiu os olhos de Jason no exato momento em que ele descia a lâmina. O assassino urrou, cobrindo o rosto com o braço maciço, desorientado pela queimação da luz intensa.
— Agora! — Mizi surgiu do corredor lateral, agarrando o braço de Sua e puxando Hyuna pelo colarinho com uma força que nem sabia que tinha.
As três se jogaram para dentro de uma sala de manutenção escondida atrás de uma parede de drywall descascada. Mizi trancou a porta silenciosamente e desabou no chão junto com as outras.
— Ele... ele vai entrar? — Sua soluçava, os olhos roxos transbordando lágrimas.
— Shhh! Fica quieta, Sua — Mizi ordenou, embora sua própria voz estivesse instável. — Hyuna, deixa eu ver isso.
Hyuna estava pálida, a respiração curta. Mizi e Sua começaram a aplicar os primeiros socorros de emergência disponíveis na interface do jogo, pressionando gazes digitais contra o ferimento. Elas precisavam estabilizá-la para que ela pudesse aguentar mais um confronto.
— Cadê o Ivan? — Hyuna perguntou entre dentes, sentindo a dor excruciante da "cura" simulada.
— Eu... eu tive que empurrar ele — Mizi desviou o olhar, a culpa começando a corroer seu peito. — Jeff ia pegar ele. Ele caiu no pátio. Eu não sei se ele está bem.
Enquanto isso, no pátio inferior, Ivan tentava se arrastar para longe da luz. Cada movimento era uma tortura. Ele viu vultos se aproximando e apertou o cabo da adaga, pronto para morrer lutando.
— Ivan? Puta que pariu, cara, você tá horrível — a voz de Till surgiu das sombras.
Till se aproximou, segurando uma chave de bronze pesada em uma das mãos e a lanterna na outra. Ele olhou para Ivan com uma mistura de choque e relutância.
— Cadê a Mizi? — Till perguntou, olhando para cima, para a janela quebrada.
— Lá em cima... com aquela coisa — Ivan tossiu, um gosto metálico de sangue enchendo sua boca. — Sai daqui, Till. Pega a chave e vai abrir algum cadeado.
— Não fode, Ivan. Eu não vou te deixar aqui pra ser pendurado que nem carne de açougue — Till resmungou, estendendo a mão para ajudá-lo.
Mas o tempo de paz acabou. Jeff, recuperado do tiro de sinalização e mais furioso do que nunca, surgiu do escuro com uma velocidade assustadora. Antes que Ivan pudesse reagir, o assassino desferiu uma facada profunda em suas costas.
Ivan caiu de cara no chão, soltando um grito abafado. Uma barra de status vermelha brilhou diante de seus olhos: *ESTADO: INCAPACITADO*. Seu corpo travou. Ele não conseguia mexer um dedo sequer; era como se seus nervos tivessem sido desligados.
Jeff soltou uma risada seca e metálica, pegando Ivan pelo colarinho e jogando-o sobre o ombro como se ele não pesasse nada. O assassino começou a caminhar em direção a um dos ganchos enferrujados que pendiam do teto do pátio.
— Larga ele, seu merda! — Till gritou.
Till lembrou-se da lanterna. Ele acionou o botão de intensidade máxima, focando o feixe diretamente na nuca de Jeff. O assassino estacou, o corpo tremendo sob a radiação da luz UV. Ele soltou Ivan, que caiu como um saco de batatas, e ficou parado por alguns segundos, as mãos cobrindo o rosto.
— Levanta, Ivan! Levanta agora! — Till agarrou o braço de Ivan, forçando-o a ficar de pé.
Mesmo machucado e com a visão falhando, Ivan conseguiu recuperar o controle básico das pernas. Os dois dispararam em direção às escadas de serviço, fugindo desesperadamente para o andar de cima antes que Jeff se recuperasse.
Enquanto a luta pela sobrevivência continuava no pátio e na sala de manutenção, Luka estava sozinho na ala leste. Ele havia conseguido encontrar o segundo gerador e, com sua calma metódica, estava terminando de reconectar os circuitos.
— Só mais um... e... pronto — Luka suspirou quando a luz do gerador mudou de vermelho para verde, emitindo um zumbido de energia.
Mas o triunfo durou pouco.
Jeff apareceu do nada, como se tivesse se teletransportado pelas sombras. Com um movimento fluido, ele cravou a faca no ombro de Luka.
— Ah! — Luka gritou, cambaleando para trás.
Ele tentou correr, mas o ferimento era profundo e o sistema do jogo reduziu sua velocidade drasticamente. Ele tentou chegar ao corredor principal, mas, ao virar a esquina, deu de cara com a parede de carne e metal que era Jason. Sem hesitação, o Destruidor desferiu um golpe devastador com o cabo do facão, atingindo Luka em cheio na cabeça.
Luka desabou, inconsciente. Jason o ergueu com uma mão só e caminhou calmamente até o gancho mais próximo, localizado no centro do corredor de vidro. Com um movimento brutal, ele empurrou o corpo de Luka contra o metal pontiagudo.
Um som metálico e agudo de carne sendo perfurada ecoou, e uma luz carmesim pulsou do gancho.
De repente, a voz mecânica e aterrorizante do mestre do jogo ressoou por todos os alto-falantes do hospital, fazendo o sangue de todos os sobreviventes gelar.
— ATENÇÃO. LUKA FOI PRESO AO GANCHO.
O silêncio que se seguiu foi preenchido por uma risada distorcida que parecia vir de todas as direções ao mesmo tempo.
— RESTA APENAS MAIS UMA CHANCE APÓS A RETIRADA. SE... — a voz fez uma pausa dramática, carregada de escárnio — ...SE ALGUÉM TIVER A CORAGEM DE RETIRÁ-LO. O TEMPO ESTÁ CORRENDO.
Na sala escondida, Mizi, Hyuna e Sua se entreolharam, o terror estampado em seus rostos.
— O Luka... — Sua levou as mãos à boca, os olhos roxos arregalados. — Eles pegaram o Luka.
— A gente tem que ir lá — Hyuna disse, tentando se levantar, mas vacilando devido aos ferimentos. — A gente não pode deixar ele morrer.
— É uma armadilha — Mizi disse, a voz fria. — Aqueles dois vão ficar rondando o gancho. Se a gente for sem um plano, vamos todos acabar pendurados ao lado dele.
No corredor de cima, Till e Ivan pararam, ofegantes. Till socou a parede de frustração.
— Aquele idiota... eu disse pra ele não ficar sozinho! — Till rugiu, os olhos verdes brilhando com lágrimas de raiva.
— A gente precisa se reunir — Ivan disse, segurando o lado do corpo. — Agora não é mais sobre grupos, Till. Se o Luka morrer, a gente perde o cérebro do time. E sem ele, ninguém aqui escapa desse hospital.
A luz vermelha do hospital piscava, sincronizada com o batimento cardíaco acelerado dos cinco sobreviventes restantes. O jogo estava apenas começando, e o cheiro de sangue e ozônio deixava claro que o Palco do Sacrifício não aceitava nada menos que a alma de cada um deles.