Bloom e Jim
O Despertar da Memória Fluida
O casulo de cristal de fogo não se partiu com um estrondo; ele se dissolveu como brasa em água, transformando-se em uma névoa dourada que preencheu a caverna. No centro daquela luz, Bloom surgiu. Ela não caiu; ela flutuou até que seus pés tocassem o chão de pedra com a leveza de uma pétala. Sua pele irradiava um calor suave, e seus cabelos ruivos pareciam fios de cobre recém-forjados. Quando ela abriu os olhos, porém, o azul vibrante que Jim e Brandon conheciam estava diferente. Era límpido, mas profundo e vazio, como um céu de verão sem nuvens e sem pássaros.
— Bloom... — Jim deu um passo à frente, a voz embargada por uma década e meia de anseio. Ele estendeu a mão, o capitão pirata reduzido a um homem trêmulo diante do seu milagre.
A mulher inclinou a cabeça para o lado, observando-o. Ela não recuou, mas também não avançou. Seus olhos percorreram o rosto de Jim, detendo-se nas cicatrizes e nas linhas de expressão que o tempo e a dor haviam esculpido.
— Eu conheço esse tom de voz — disse ela, a voz soando como música esquecida. — Ele vibra em um lugar dentro de mim que dói. Mas eu não sei quem você é.
O silêncio que se seguiu foi mais cortante do que qualquer lâmina. Brandon, que observava a cena com o coração martelando contra as costelas, aproximou-se devagar. A magia que acabara de despertar em seu peito pulsava em sincronia com a presença dela.
— E eu? — perguntou o jovem, a voz falhando. — Você sabe quem eu sou?
Bloom virou-se para ele. No instante em que seus olhos encontraram os de Brandon, algo mudou. A expressão de dúvida deu lugar a uma ternura instintiva, uma gravidade que puxava sua alma em direção à dele. Ela estendeu a mão e tocou a face do rapaz, traçando a linha da mandíbula com os dedos trêmulos.
— Você... — ela sussurrou, e uma lágrima solitária escapou de seus olhos, embora ela não soubesse o motivo. — Você é uma parte de mim. Eu sinto o meu próprio fogo queimando sob a sua pele. O meu sangue reconhece o seu, mas a minha mente não guarda o seu nome.
— Meu nome é Brandon — disse ele, segurando a mão da mãe contra o rosto. — Eu sou seu filho.
— Filho — Bloom repetiu a palavra, testando o peso dela em sua língua. — É uma palavra bonita. Sinto que deveria me trazer mil imagens, mas só vejo luz branca. Eu sou uma casca vazia, Brandon. Eu renasci, mas o que eu era ficou para trás, nas cinzas.
Jim sentiu um nó na garganta. Ele se aproximou, parando ao lado de Brandon, tentando forçar um sorriso que não chegava aos olhos.
— Não importa, Bloom. Nós temos todo o tempo do mundo. Eu vou te ajudar a lembrar. Eu sou o Jones... o Jim. O homem que cruzou dimensões por você.
Bloom olhou para ele novamente, e um lampejo de algo — uma sensação de mares agitados e beijos roubados sob a lua — passou por sua mente como um relâmpago, mas desapareceu antes que ela pudesse agarrá-lo.
— Você é o Capitão — disse ela, surpreendendo-o. — Eu sinto cheiro de sal e tempestade em você. Isso me dá um *déjà vu* estranho. Mas não consigo me lembrar de termos nos amado, Jim. Sinto apenas... uma eletricidade perigosa.
Nos dias que se seguiram ao retorno de Bloom para Domino, o palácio tornou-se um campo de batalha emocional. As Winx vieram, choraram e abraçaram a amiga, mas Bloom as recebia com uma polidez gentil e distante, como se estivesse recebendo embaixadores de um reino estrangeiro. Ela sabia que elas eram importantes, sentia o calor da amizade delas, mas as histórias de suas aventuras pareciam contos de fadas sobre outra pessoa.
Ela passava a maior parte do tempo nos jardins com Brandon. O jovem estava lidando com a explosão de magia que o retorno da mãe causara em seu corpo.
— Não tente controlar o fogo com a mente, Brandon — disse Bloom, observando-o tentar conjurar uma esfera de luz. — O fogo do dragão não é lógico. Ele é vontade pura. Sinta o calor no seu plexo solar e apenas deixe que ele flua, como se estivesse abrindo uma represa.
Brandon fechou os olhos, respirando fundo. Uma labareda azul-violeta irrompeu de suas mãos, estável e brilhante. Ele sorriu, olhando para a mãe.
— Como você sabe disso, se não se lembra de ter sido uma fada?
— As memórias são como desenhos na areia, Brandon — explicou ela, sentando-se na grama e observando as flores de fogo de Domino. — O vento pode apagá-los, mas a areia continua lá. O meu corpo se lembra de como ser fada. O meu instinto sabe como ser sua mãe. Só a Bloom... a mulher que viveu tudo isso... ela é quem está perdida.
— O meu pai está tentando reconquistar você — observou Brandon, notando Jim observando-os de uma varanda distante. — Ele está sendo... estranhamente educado.
— Ele é persistente — Bloom sorriu, um brilho de diversão surgindo em seus olhos. — Ele me trouxe flores de Gardenia hoje de manhã. Ele diz que eu costumava amar o cheiro delas. Eu não me lembro, mas o cheiro me fez querer chorar e sorrir ao mesmo tempo. Ele é misterioso, Brandon. Há uma escuridão nele que me atrai, mas que também me assusta.
A rotina de reconstrução foi interrompida pela chegada de uma nave de Eraklyon. Sky descera da embarcação com a urgência de um homem que esperara uma eternidade por aquele momento. Quando ele entrou no salão real e viu Bloom, ele não hesitou.
— Bloom! — ele exclamou, correndo em direção a ela e envolvendo-a em um abraço apertado. — Eu sabia! Eu nunca desisti de você!
Bloom ficou rígida por um momento, mas então, algo aconteceu. Ao toque de Sky, uma sensação de segurança, de tardes ensolaradas e de uma lealdade inabalável a inundou. Não era a eletricidade selvagem que sentia com Jim; era uma paz profunda.
— Sky? — ela disse, o nome saindo naturalmente.
— Você se lembra de mim? — perguntou ele, afastando-se para olhar nos olhos dela, a esperança brilhando em seu rosto.
— Eu sinto... uma ligação — admitiu Bloom, confusa. — É como se você fosse o meu porto seguro. Eu não lembro do nosso noivado, Sky, mas sinto que podia confiar a minha vida a você.
Jim, que acabara de entrar no salão seguido por Brandon, sentiu o sangue ferver. A possessividade que ele tentara controlar nos últimos dias explodiu.
— Tire as mãos dela, Sky — rosnou Jim, a mão descendo para o punho da espada. — Ela acabou de voltar. Ela não precisa de um príncipe perfeito buzinando nos ouvidos dela sobre um passado que ela não tem.
— Eu sou o noivo dela, Jones! — Sky rebateu, colocando-se à frente de Bloom. — Onde você estava quando ela se sacrificou? Ah, é... você estava ocupado sendo um pirata egoísta.
— Eu passei quinze anos procurando por ela enquanto você governava o seu reinozinho confortável! — gritou Jim.
— Parem com isso! — a voz de Brandon ecoou pelo salão, carregada de uma autoridade que fez ambos os homens silenciarem. Pequenas faíscas azuladas saltavam de seus ombros. — Vocês estão agindo como crianças. Ela não é um troféu!
Bloom olhou para os três homens à sua frente. Sky, a promessa de um amor estável e doce. Jim, a chama de uma paixão turbulenta e sombria. E Brandon, o fruto de tudo o que ela fora.
— Eu sinto muito se a minha falta de memória causa esse conflito — disse Bloom, sua voz calma cortando a tensão. — Sky, eu sinto que você é uma pessoa maravilhosa e que fomos muito felizes. Jim, eu sinto que você me conhece de maneiras que eu mesma ainda não entendo. Mas nenhum de vocês pode me "reivindicar". Eu sou uma página em branco que está começando a ser escrita agora.
Nas semanas seguintes, a convivência forçada entre Jim e Sky em Domino gerou situações de pura comédia e drama intenso. Jim tentava levar Bloom para passeios noturnos em seu navio, contando histórias de suas aventuras na Terra do Nunca, tentando despertar a Bloom atrevida e selvagem que ele amava. Sky, por outro lado, organizava jantares românticos e mostrava hologramas de suas missões com as Winx, tentando reconectar Bloom com seu lado heroico e bondoso.
Brandon observava tudo com uma irritação crescente, muitas vezes servindo de mediador.
— Pai, você não pode simplesmente tentar seduzi-la com histórias de pirataria o tempo todo — Brandon comentou enquanto ajudava Jim a polir os canhões do navio.
— Por que não? Foi assim que ela se apaixonou por mim da primeira vez, embora não admita — disse Jim, frustrado. — Aquele príncipe é tão... entediante. Ele cheira a sabão e dever.
— E você cheira a pólvora e problemas — retrucou Brandon. — Mas veja, ela está sorrindo agora.
Eles olharam para o cais, onde Bloom caminhava com Sky. Ela parecia relaxada, rindo de algo que o loiro dissera. No entanto, quando ela olhou para o navio e viu Jim e Brandon, ela parou. O sol batia em seu rosto, e por um segundo, o olhar de Bloom cruzou com o de Jim.
Houve um *déjà vu* súbito. Bloom cambaleou, a mão indo à cabeça.
*“— Você é minha, Bloom. Deixe aquele humano tentar chegar perto de você de novo e eu mostrarei a ele por que me chamavam de Gancho.”*
A voz de Jim ecoou em sua mente, jovem e carregada de uma luxúria perigosa. Ela viu o camarim escuro, sentiu o veludo carmesim sob suas costas e o calor de um corpo que não era o de Sky.
— Bloom? Você está bem? — perguntou Sky, preocupado.
— Sim... eu só... — ela olhou para Jim, e o capitão percebeu que algo havia mudado. Não era uma memória completa, mas era a sensação daquela conexão.
Naquela noite, Bloom não conseguiu dormir. Ela caminhou pelos corredores do palácio até o quarto de Brandon. O jovem estava sentado na cama, lendo um antigo livro de feitiços de Domino.
— Brandon — chamou ela suavemente.
— Mãe? Algum problema?
— Eu tive uma sensação hoje. Uma lembrança de... uma briga. Entre o seu pai e o Sky. Mas não era sobre agora. Era sobre antes. — Ela sentou-se aos pés da cama. — Eu percebi que não importa se eu me lembro de cada detalhe do que aconteceu.
— Como assim?
— Eu passei dias tentando ser a "Bloom do passado" para agradar a todos. Mas quando eu olho para você, eu percebo que não sou uma casca vazia. Eu sou a soma de tudo o que deixei para trás. Você é a minha lembrança mais viva, Brandon. Se eu te amei o suficiente para te proteger com a minha vida, então a Bloom que eu era ainda está aqui, dentro de mim.
Brandon sorriu e abraçou a mãe.
— O papai está lá fora, no jardim. Ele acha que você vai escolher o Sky porque ele é o "caminho certo".
Bloom beijou a testa do filho e levantou-se.
— O "caminho certo" nunca foi o meu estilo, Brandon. Eu sou uma fada feita de fogo. Eu preciso de alguém que saiba como lidar com o incêndio.
Ela encontrou Jim perto da fonte das ninfas. Ele estava de costas, observando a lua de Domino.
— Sky já foi embora? — perguntou ele, sem se virar.
— Ele foi para o quarto de hóspedes. Ele entende que eu preciso de espaço — Bloom aproximou-se, parando ao lado de Jim. — Você está sendo muito silencioso, Capitão. Isso não combina com você.
— Estou apenas pensando que, talvez, eu devesse ter deixado você naquele casulo — disse ele, a voz carregada de uma dor honesta. — Ver você olhar para ele daquele jeito... dói mais do que os quinze anos de solidão.
— Eu olhei para ele porque ele é parte da minha história, Jim. Ele é um bom homem. — Bloom tocou o braço dele, sentindo os músculos tensos. — Mas hoje eu tive um lampejo. Eu lembrei de um piano. De um camarim. E de um homem muito arrogante dizendo que eu era dele.
Jim virou-se bruscamente, os olhos azul-violeta brilhando com uma intensidade renovada.
— Você lembrou?
— Eu senti — corrigiu ela. — Eu não lembro do que falamos, mas lembro de como o meu coração batia. Ele batia como se estivesse em uma tempestade. E com o Sky... ele bate como um relógio calmo.
— E o que você prefere, Bloom? — perguntou ele, dando um passo para dentro do espaço pessoal dela. — A calma ou a tempestade?
Bloom sorriu, e desta vez, o sorriso tinha a pitada de atrevimento que Jim tanto sentira falta. Ela enlaçou o pescoço dele, puxando-o para perto.
— Eu sou a fada da Chama do Dragão, Jim. Eu sou a própria tempestade.
O beijo que se seguiu foi uma explosão de novas e velhas sensações. Não havia a urgência desesperada do passado, mas uma promessa madura. Bloom ainda não tinha todas as suas memórias; ela não lembrava do nome de suas bonecas de infância ou de cada batalha que lutara com as Winx. Mas ela sabia quem era o homem que a desafiava e quem era o filho que a ancorava.
Na manhã seguinte, a mesa do café da manhã em Domino estava estranhamente pacífica. Sky, percebendo a mudança na atmosfera, aceitou com a nobreza de um rei que Bloom precisava seguir um caminho diferente, embora prometesse estar sempre por perto como o amigo leal que sempre fora.
Brandon observava os pais trocarem olhares cúmplices por cima das xícaras de café. Ele sentiu a magia em seu peito se estabilizar, uma chama quente e reconfortante.
— Então — disse Brandon, quebrando o silêncio —, agora que a mamãe voltou e o navio está consertado, o que vamos fazer?
Bloom olhou para Jim, e depois para o filho. Ela sentiu uma sensação avassaladora de *déjà vu*, mas desta vez, não era uma lembrança de dor. Era a percepção de que ela estava exatamente onde deveria estar.
— Nós vamos viver, Brandon — disse Bloom, segurando a mão do filho e a de Jim. — Eu posso não ter o meu passado de volta, mas eu tenho o presente mais incrível que uma fada poderia desejar. Eu estou em casa. E com a minha família, nada mais importa.
As memórias poderiam ser desenhos na areia, mas o amor que Bloom sentia era como o fogo do dragão: eterno, indestrutível e capaz de renascer das cinzas quantas vezes fosse necessário. O eclipse passara, e o sol de Domino brilhava novamente, iluminando não apenas o reino, mas o futuro de uma fada que aprendera que, às vezes, esquecer é a única forma de começar a amar de novo.