Bloom e Jim
O Voo da Borboleta de Cinzas
A Terra do Nunca não era mais o reino de cores vibrantes e magia indomada que as lendas descreviam. Desde o Grande Eclipse, quando a Fênix Negra rugiu pela última vez e a Chama do Dragão se apagou em um clarão que cegou as dimensões, o lugar parecia preso em um eterno entardecer. As árvores da Floresta Branca não eram mais de neve, mas de uma geada cinzenta que lembrava cinzas vulcânicas.
Brandon Jones, agora com dezenove anos, caminhava pelo convés do *Jolly Roger* com a arrogância de quem herdara a beleza perigosa do pai e a determinação obstinada da mãe. Seus cabelos ruivos estavam presos em um rabo de cavalo desleixado, e seus olhos azul-violeta varriam o horizonte com um tédio que escondia uma ferida profunda. Ele ajustou a bandoleira de couro sobre o peito, verificando as adagas de ferro frio.
— O vento está mudando, Brandon — disse Jim, aproximando-se do filho.
A voz de Jim estava mais rouca, marcada pelos anos de busca incessante. Ele não era mais o capitão impetuoso de outrora; havia uma melancolia em seus ombros, um peso que nem mesmo a imortalidade de Sininho conseguia aliviar. Ele olhava para o filho e via o fantasma da mulher que amara, um lembrete vivo de uma promessa quebrada no campo de batalha.
— O vento sempre muda nesta droga de lugar, pai — respondeu Brandon, sem olhar para ele. — Vamos logo com isso. Recuperamos a bússola estelar e voltamos para Domino. Tenho um encontro em Magix amanhã à noite e não pretendo me atrasar por causa de fantasmas.
— Você fala de Magix como se fosse apenas um playground — comentou Jim, estreitando os olhos. — Esquece que o sangue que corre em você veio de lá.
— O sangue que corre em mim é o que me restou de uma mentira — Brandon virou-se, o rosto endurecido. — Ela disse que voltaria. Ela prometeu ao garoto de quatro anos que traria o capitão e que seríamos uma família. Ela trouxe você, mas nos deixou o vazio. Não me fale de Magix, pai. Para mim, magia é apenas uma ferramenta que falhou quando mais precisávamos.
Jim abriu a boca para retrucar, para dizer pela milésima vez que Bloom não morrera, que a Fênix não podia ser destruída e que o sacrifício dela fora um selo, não um fim. Mas ele viu o brilho de mágoa nos olhos do filho e silenciou. Brandon não acreditava em milagres; ele acreditava no que podia tocar, beber ou seduzir.
O desembarque na Baía das Sereias foi silencioso. A missão era simples: encontrar um artefato perdido que, segundo os boatos que Jim perseguia obsessivamente, poderia abrir portais para dimensões de "entre-lugares". Jim acreditava que Bloom estava presa em uma dessas dobras, em um estado de hibernação fênix. Brandon achava que o pai estava apenas louco.
Enquanto avançavam pela selva petrificada, o ar tornou-se denso. Brandon sentiu um arrepio na nuca, o mesmo instinto que o tornara um duelista imbatível.
— Algo está errado — sussurrou ele, a mão descendo para o punho da adaga.
Das sombras das árvores acinzentadas, surgiram os Remanescentes — criaturas de vácuo, subprodutos do que restara da Fênix Negra anos atrás. Eles não tinham rosto, apenas fendas de escuridão que sugavam a luz ao redor.
— Brandon, atrás de mim! — gritou Jim, sacando sua espada encantada.
— Eu sei me cuidar! — rebateu o jovem, saltando sobre uma raiz e degolando a primeira criatura com um movimento fluido.
A batalha foi rápida e violenta. Brandon lutava com uma ferocidade que assustava até Jim. Ele não usava magia, embora a sentisse latejar em suas têmporas como uma enxaqueca constante. Ele confiava no aço e na agilidade. No entanto, os Remanescentes eram muitos. Em um momento de distração, Brandon tropeçou em um afloramento de pedra mágica e caiu em um declive acentuado, deslizando para longe do pai, em direção ao despenhadeiro das Sombras Eternas.
— Brandon! — o grito de Jim foi abafado pelo rugido das criaturas.
Brandon rolou pela encosta, as pedras cortando sua pele, até parar bruscamente na beira de um precipício. Ele tentou se levantar, mas o tornozelo protestou com uma dor aguda. À sua frente, três Remanescentes flutuavam, cercando-o contra o abismo. Ele estava sem adagas, perdidas na queda.
— Ótimo — resmungou ele, limpando o sangue do lábio. — Pelo menos não vou ter que ouvir as teorias da conspiração do meu pai amanhã.
Ele fechou os olhos, esperando o toque gélido do vácuo. Mas o frio não veio.
Em vez disso, um calor súbito e familiar envolveu seu rosto. Brandon abriu os olhos e viu algo que desafiava a lógica daquela terra morta. Uma pequena borboleta, feita inteiramente de chamas azuladas e douradas, dançava no ar entre ele e os monstros.
A borboleta não era apenas fogo; ela exalava um perfume de flores de Domino e brisa marinha de Gardenia. Onde ela passava, a cinza no chão se transformava em grama verde por meros segundos. Os Remanescentes recuaram, sibilando como se fossem queimados por uma luz insuportável.
— O quê...? — Brandon sussurrou, hipnotizado.
A borboleta pousou levemente em sua mão ferida. O calor não o queimou; pelo contrário, a dor no tornozelo e os cortes em seus braços desapareceram instantaneamente, curados por uma energia que ele conhecia no âmago de suas células.
— Mamãe? — a palavra escapou de seus lábios antes que ele pudesse contê-la.
A borboleta levantou voo novamente, batendo as asas com uma delicadeza rítmica, como se estivesse chamando-o. Ela começou a voar em direção a uma caverna oculta por vinhas de fogo, um lugar que não deveria existir naquele mapa.
Brandon, esquecendo a lógica e o cinismo, levantou-se e a seguiu. Ele sentia uma presença. Não era um fantasma, não era uma memória. Era uma pulsação. A promessa que ele julgava quebrada começou a vibrar em seu peito, aquecendo o gelo que ele cultivara por quinze anos.
Ele entrou na caverna, e a luz da borboleta iluminou as paredes. Não eram apenas pedras; eram murais feitos de energia pura, contando a história de uma fada que não morrera, mas que se tornara o próprio selo que mantinha a escuridão contida. No centro da gruta, um casulo de cristal de fogo pulsava suavemente.
— Você está aqui — disse Brandon, a voz embargada. — Você nunca nos deixou.
A borboleta de fogo circulou sua cabeça uma última vez antes de se dissolver em faíscas que entraram em seu peito. Brandon sentiu, pela primeira vez em anos, a Chama do Dragão despertar em si. Não como uma arma, mas como um elo.
— Brandon! — Jim entrou na caverna, ofegante, a espada ensanguentada. Ele parou abruptamente ao ver o filho iluminado por uma luz dourada, diante do casulo. — Você... você a encontrou.
Brandon virou-se para o pai. As lágrimas que ele se proibira de chorar desde os quatro anos agora corriam livremente.
— Ela está viva, pai — disse ele, a voz firme, carregada de uma magia que ele finalmente aceitava. — Ela está esperando.
Jim caiu de joelhos, as mãos cobrindo o rosto enquanto soluçava de alívio. A esperança que todos chamavam de loucura era, afinal, a única verdade que importava.
— Ela não quebrou a promessa — continuou Brandon, aproximando-se do pai e colocando a mão em seu ombro. — Ela apenas estava nos esperando ficarmos prontos para trazê-la de volta.
Naquele momento, na Terra do Nunca, o entardecer eterno pareceu vacilar. Um raio de sol genuíno atravessou as nuvens cinzentas, tocando o convés do *Jolly Roger*. O pirata e o príncipe de fogo agora tinham um novo curso. Eles não eram mais caçadores de sombras; eram os guardiões do retorno da fênix.
— Vamos para casa, pai — disse Brandon, os olhos brilhando com o azul-violeta de Jim e o fogo de Bloom. — Temos muito o que preparar. A rainha de Domino não vai gostar de saber que eu andei quebrando corações em Magix enquanto ela estava fora.
Jim riu, uma risada limpa que não dava ouvidos há mais de uma década.
— É, Brandon... nisso você saiu exatamente ao seu pai. Mas a coragem de seguir uma borboleta de fogo no escuro? Isso foi totalmente ela.