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Bloom x Jim

A Herança das Cinzas e do Mar

O vento do Atlântico Norte fustigava os rochedos com uma fúria impiedosa, espalhando salitre e espuma contra as paredes de madeira escura do chalé isolado. Ali, no litoral mais remoto da costa inglesa, onde os mapas mundanos quase se esqueciam de registrar a terra, o cheiro de maresia misturava-se ao aroma adocicado de folhas de lavanda e lenha recém-queimada.

Dois anos haviam se passado desde o rugido final dos canhões na Terra do Nunca. Dois anos desde que o trono de pedra fora reivindicado e a coroa de ferro e sal fora tomada.

Bloom estava parada na beirada da falésia, com um casaco de lã espessa ajustado ao corpo e as botas afundadas na grama úmida. O tempo e a maternidade haviam esculpido na fada ruiva uma postura que ia além da lendária teimosia de outrora; havia em seus ombros uma calma perigosa, a gravidade serena de quem aprendeu que proteger uma vida exige muito mais sangue-frio do que vencer uma dúzia de guerras.

Ela sentiu o ar vibrar antes mesmo de ouvir os passos.

A fenda dimensional abriu-se a cinquenta passos de distância com o som abafado de um trovão submerso. Do véu de névoa acinzentada, surgiu a silhueta alta, envolta em um sobretudo negro cujas bordas pareciam devorar a luz da tarde.

Jim caminhou sobre as pedras com a desenvoltura predatória de quem pisa no próprio tombadilho. Os cabelos azul-violetas estavam um pouco mais longos, chicoteados pelo vento marítimo, e os olhos hipnóticos da mesma cor faiscavam com aquele escárnio aristocrático que o tempo parecia incapaz de apagar. Ele trazia as mãos nos bolsos, o colarinho erguido contra o frio e uma arrogância tão intacta que parecia zombar da própria passagem dos meses.

— Dois anos, ruiva — disse ele, a voz rouca cortando a rebentação das ondas como uma lâmina familiar. — E você ainda escolhe os confins mais miseráveis desta terra cinzenta para se esconder.

Bloom não se virou de imediato. Manteve os olhos fixos na linha do horizonte, onde o mar encontrava as nuvens de chumbo.

— Eu não me escondo de ninguém, Jim — respondeu ela, a voz baixa, controlada, desprovida de qualquer hesitação infantil. — Especialmente de piratas que demoram tempo demais para cruzar uma fronteira dimensional.

Jim parou a dois metros dela. O sorriso torto e descarado curvou os lábios finos do corsário, mas seus olhos examinaram a fada com uma voracidade cirúrgica. Ele notou a maturidade em suas feições, o modo como as mechas carmesins repousavam soltas sem qualquer armadura mágica para defendê-la, e a ausência deliberada da Chama do Dragão crepitando em suas mãos.

— Você sabia que eu viria — constatou ele, dando mais um passo lento, diminuindo o espaço até que o calor corporal de ambos começasse a desafiar a frieza do vento. — Eu prometi que cruzaria as brumas quando terminasse de reconstruir a minha frota. Eu não deixo espólios inacabados para trás.

Bloom finalmente virou-se para encará-lo. O olhar azul fulgurante encontrou o dele sem pestanejar. Não havia o pânico da garota de Paris, nem a fúria desgovernada da mulher que quase afundara seu navio. Havia apenas uma firmeza esmagadora.

— Espólios? — Ela soltou um riso curto, amargo. — Você continua o mesmo tolo vaidoso. O grande soberano da Terra do Nunca, rei de uma ilha de mortos-vivos e florestas apodrecidas. Diga-me, capitão... o ouro daquele castelo foi suficiente para preencher o vazio das suas noites?

O maxilar de Jim endureceu por uma fração de segundo. O golpe fora certeiro. Ele passara os últimos vinte e quatro meses subjugando as cortes menores, caçando os monstros remanescentes da Rainha e forjando seu império naval sobre águas fantasmas. Mas cada brinde solitário em sua cabine de mogno, cada vitória vazia contra corsários rebeldes, tinha o gosto cinzento de cinzas. A ilha era sua, mas a chama que ele desejava possuir estava além de seu alcance.

— Eu tomei o que me pertencia por direito — sibilou ele, dando um passo incisivo, os olhos semicerrados em perigo evidente. — Mas você... você foi a única dívida que eu não consegui riscar do meu livro de bordo. Você acha que pode me olhar com esse ar de superioridade depois daquela noite? Depois de cravar as suas unhas na minha carne e me expulsar da sua vista?

— Eu deveria ter transformado você em poeira estelar naquele convés — disse Bloom, a voz descendo a um sussurro ríspido. Ela não recuou diante da aproximação dele; pelo contrário, aproximou-se o suficiente para que a gola de seu casaco roçasse o couro escuro do dele. — Mas eu não pude. E não foi por piedade.

Jim ergueu uma sobrancelha, o escárnio lutando contra a curiosidade febril que sempre o desarmava diante daquela fada.

— Não? E por que seria, majestade? Uma súbita crise de misericórdia?

— Porque eu sinto algo por você, seu desgraçado — confessou Bloom, com uma crueza tão desprovida de vergonha ou fraqueza que fez o pirata prender a respiração. — Não é amor. Eu não amo você, Jim. Eu não amo as suas mentiras, a sua ganância podre ou a sua covardia disfarçada de honra de marinheiro. Mas existe uma chama aqui... uma atração doentia, uma paixão que queima as minhas entranhas toda vez que você me olha desse jeito. Eu passei dois anos tentando afogar isso no mar. Mas você é como uma maldição que se recusa a morrer.

Jim a fitou, atordoado pela confissão brutal. As mulheres da corte e as fadas que ele conhecera ao longo de séculos envolviam seus sentimentos em poesia, joguetes e exigências de devoção. Bloom não. Bloom jogava a verdade sobre a mesa como quem atira uma adaga ensanguentada, consciente do próprio veneno.

— Uma maldição? — murmurou ele, e a arrogância habitual vacilou sob o peso de um desejo primitivo que subitamente o sufocou. Ele levou a mão à cintura dela, os dedos calejados afundando na lã pesada de seu casaco. — Então você devia ter me queimado, centelha. Porque agora eu estou aqui... e pretendo cobrar cada fagulha dessa atração.

— Antes de você tentar qualquer coisa, capitão... — disse Bloom, apoiando a mão espalmada sobre o peito dele, sentindo o coração do corsário bater com a mesma cadência tempestuosa de dois anos atrás —, você precisa saber o que a sua ambição nos custou. E o que aquela noite na sua cabine deixou para trás.

Jim franziu as sobrancelhas, o olhar desconfiado descendo para a mão dela e voltando aos olhos azuis que o fitavam com uma gravidade quase sagrada.

— Do que você está falando?

Bloom sustentou o olhar dele por um instante silencioso antes de disparar as palavras que quebrariam a imortalidade do pirata em pedaços:

— Eu tenho uma filha, Jim. Ela tem um ano e três meses. E ela é sua.

O mundo ao redor de James Jones pareceu silenciar. O rugido do oceano, o sibilo do vento nas pedras, a própria respiração que sustentava seus pulmões — tudo desvaneceu-se em um vácuo aterrador.

O capitão deu um passo involuntário para trás, mas os olhos nunca abandonaram o rosto dela. O cinismo que o protegera contra monstros, deuses e fadas estilhaçou-se como vidro sob um martelo forjado.

— O quê? — escapou por entre os dentes dele, a voz saindo em um fiapo áspero, rouco de choque. — Você... você está mentindo. Fadas não podem conceber com homens presos à magia da Terra do Nunca. A nossa biologia é...

— Ela nasceu no solstício de inverno — cortou Bloom, a voz inabalável, maternal, carregada de uma autoridade que não admitia contestação. — Com o Fogo do Dragão correndo em suas veias e os seus malditos olhos azul-violetas. Ela sangra como mortal, Jim, mas carrega o núcleo arcano da minha linhagem e a rebeldia da sua. Você não deixou apenas cinzas para trás quando zarpou para reinar sobre fantasmas. Você deixou uma herdeira de carne e osso.

Jim levou uma das mãos à têmpora, o peito subindo e descendo em arfadas rápidas e descompassadas. O pirata que desafiara a Rainha das Fadas e cuspirá na cara da morte estava, pela primeira vez em mais de duzentos anos, completamente sem chão.

Um filho.

Não como Peter Pan, que precisara renunciar à Terra do Nunca e definhar na velhice para ter uma família. Ele, o homem que se considerava amaldiçoado à solidão perpétua de um navio sem porto, tinha uma criança viva no mundo dos homens. O desejo mais sombrio, mais secreto e mais vergonhoso de seu coração — aquele que ele afogava em litros de rum e canhões disparados, o anseio tolo de pertencer a alguém, de ser feliz sem a máscara do monstro — explodira diante de seus olhos.

A surpresa, contudo, logo deu lugar a uma onda violenta e incontrolável de raiva, saudade e luxúria reprimida por vinte e quatro meses de exílio.

Jim ergueu os olhos para Bloom. A fada estava ali, linda, implacável, a mãe de sua filha, confessando que sentia sua falta mesmo odiando quem ele era. A mistura de sentimentos intoxicou o sangue do pirata como o veneno mais doce.

— Você escondeu isso de mim por dois anos — rosnou ele, a voz vibrando com uma ferocidade possessiva.

— Eu protegi a minha filha de um homem que traiu a própria palavra por um pedaço de rocha! — rebateu ela, os olhos faiscando em ouro puro.

Jim não respondeu com palavras.

Ele avançou. Em um movimento rápido e bruto, o capitão agarrou a gola do casaco de Bloom e a empurrou contra a parede de pedra da encosta que dava suporte ao chalé. A respiração dela falhou no impacto, mas antes que a fada pudesse erguer uma barreira mágica, a boca de Jim colidiu contra a dela em um beijo faminto, devastador e desesperado.

Não havia cortesia de salão ou paciência de amantes delicados. Era o encontro de dois anos de abstinência, rancor e fogo acumulado.

Bloom soltou um gemido abafado contra os lábios dele, as mãos subindo para os cabelos azulados com a mesma urgência selvagem. Ela mordeu o lábio inferior dele até sentir o ferro do sangue, e Jim respondeu aprofundando o beijo, sua língua invadindo a boca da ruiva com uma autoridade que exigia cada pedaço de sua rendição.

O casaco de lã de Bloom foi aberto com brutalidade, e as mãos ávidas do pirata deslizaram sob sua blusa de algodão, encontrando a curva quente e macia de seus quadris. A pele da fada ardia sob o toque calejado dos dedos de Jim. Ele ergueu as pernas dela sem hesitação, prensando o corpo esbelto contra a rocha fria enquanto Bloom entrelaçava os tornozelos nas costas largas do corsário.

— Diga de novo... — sussurrou Jim contra o pescoço dela, a respiração em chamas enquanto seus dedos desciam com pressa ensandecida para a barra da calça dela, desabotoando o tecido com destreza áspera. — Diga que eu sou a sua maldição, ruiva.

— Você é... um maldito desgraçado... — gemeu Bloom, arqueando as costas enquanto a mão dele encontrava a intimidade úmida e pronta entre suas coxas.

Jim libertou-se de suas próprias calças com uma urgência febril.

A penetração foi direta, profunda e sem aviso prévio. Bloom cravou as unhas nos ombros dele através do couro grosso do sobretudo, sufocando um grito rouco na curva do ombro do marinheiro quando ele a preencheu por completo. A rocha áspera atrás de suas costas contrastava violentamente com a queimação incandescente que os unia na frente.

Ele estocou com força, rápido, impulsionado pela necessidade quase animalesca de apagar os dois anos de separação. Cada investida de Jim fazia o corpo da fada estremecer, seus quadris respondendo ao ritmo violento com uma fome que traía qualquer tentativa de manter o controle. O vento uivava ao redor deles, a maresia chicoteava seus rostos suados, mas o universo inteiro havia se reduzido àquele atrito febril entre a pedra e a carne.

— Você é minha, Bloom — rosnou o capitão em seu ouvido, os dentes cravando-se na linha de sua mandíbula, a pegada em suas coxas deixando marcas que durariam dias. — Nem os seus reis, nem as suas fadas... ninguém tira isso de nós.

Bloom não negou. Não conseguia. As sensações a puxavam para uma vertigem avassaladora. Ela segurou o rosto dele com as duas mãos, forçando os olhos azul-violetas a encararem os seus enquanto o clímax começava a rasgar seu ventre em espasmos dolorosos de puro prazer.

— Jim... — o nome escapou em um sussurro despedaçado.

O corsário sentiu as paredes internas dela apertarem-se ao redor de sua extensão como fogo vivo. Com um último golpe seco e profundo que a fez arquear-se em êxtase absoluto, Jim despejou sua semente quente dentro dela, soltando um rugido rouco contra o vento da falésia, afundando a testa contra os cabelos ruivos enquanto o tremor de ambos se dissipava lentamente no ar gelado.

***

O silêncio que se seguiu foi quebrado apenas pelo mar e pela respiração entrecortada que aos poucos recuperava o ritmo natural.

Jim manteve Bloom erguida em seus braços por alguns minutos, o peito colado ao dela, os rostos colados em uma intimidade que nenhum dos dois conseguia mais fingir ser apenas ódio. Lentamente, ele a desceu até que os pés da fada tocassem a grama úmida novamente.

Bloom recompôs as roupas com as mãos ainda trêmulas, ajustando o casaco e afastando os cabelos molhados de suor do rosto. Ela olhou para o homem diante de si; Jim fechava o sobretudo escuro, mas a arrogância costumeira parecia ter sido drenada de sua expressão, substituída por uma vulnerabilidade assustada que a fada nunca imaginara ver no Capitão Gancho.

— Ela está lá dentro? — perguntou ele, a voz ríspida mascarando o tremor latente em suas mãos.

Bloom assentiu devagar, os olhos azuis fitando-o com uma serenidade que desarmava qualquer tentativa de fuga.

— Venha. Mas se você agir como um pirata desalmado perto dela... eu juro que arranco a sua cabeça.

Jim não respondeu com sarcasmo. Ele apenas a seguiu em silêncio pelos degraus de madeira da varanda.

O interior do chalé era aquecido por uma lareira crepitante. Havia livros espalhados sobre uma mesa rústica, brinquedos de pano feitos à mão sobre um tapete felpudo e o aroma reconfortante de chá de camomila no ar. Longe das grandezas de Alfea e dos palácios reluzentes de Domino, era o lar simples e verdadeiro que Bloom sempre valorizara.

No centro da sala, em um cercado acolchoado de madeira clara, uma menina pequena estava sentada, brincando com uma flor dourada que emanava fagulhas inofensivas de calor mágico.

Jim congelou na soleira da porta.

A criança ergueu a cabeça ao som dos passos.

Ela tinha os cabelos fartos e ondulados em um tom de cobre intenso, exatamente como os de Bloom, mas quando os pequenos olhos curiosos se fixaram no homem à sua frente, a respiração de Jim falhou.

Eram os seus olhos.

O mesmo azul-violeta penetrante, misterioso e antigo; a mesma linha do maxilar que ele via no próprio reflexo há séculos. A menina não chorou com a presença daquele estranho sombrio; ela soltou a flor no tapete e apoiou as mãozinhas gorduchas na borda de madeira do cercado, erguendo-se sobre os pezinhos descalços com uma determinação teimosa que pertencia indubitavelmente aos dois genitores.

— Kira — chamou Bloom suavemente, aproximando-se da filha e acariciando os cachos ruivos da pequena com uma ternura infinita. — Tem alguém aqui que queria muito conhecer você.

Jim engoliu em seco, sentindo as pernas pesarem como âncoras de chumbo. O pirata que saqueava navios mercantes e enfrentava abismos dimensionais sem hesitar deu dois passos hesitantes em direção ao cercado, como se temesse que a visão pudesse desmanchar-se em névoa caso fizesse barulho demais.

Ele ajoelhou-se sobre a madeira do assoalho.

O corsário ficou na altura da menina. A pequena Kira inclinou a cabecinha para o lado, observando o homem com atenção silenciosa. Sem qualquer medo do sobretudo escuro ou das cicatrizes visíveis em seu rosto, a criança estendeu uma mãozinha pálida e tocou a ponta do nariz de Jim, soltando uma risada cristalina que ecoou pela sala como o badalar de sinos dourados.

Um nó apertado e sufocante subiu pela garganta de Jim.

O capitão estendeu a mão lentamente — a mão direita, calejada pelo manuseio de espadas e cordas náuticas — e permitiu que os dedinhos da menina se fechassem ao redor de seu indicador. O calor daquela pele minúscula era puro, vivo, uma chama real que não dependia de vinganças ou coroas roubadas.

Ele olhou para cima, encontrando os olhos de Bloom. A fada observava a cena em silêncio, sem julgamentos, apenas permitindo que o homem visse a vida que haviam criado juntos na tempestade.

Jim soltou um suspiro trêmulo, e um sorriso quase imperceptível, despido de qualquer cinismo ou vaidade, tocou o canto de seus lábios feridos.

— Ela é insolente... — murmurou ele, a voz quebrando pela primeira vez na eternidade, enquanto a menininha puxava seu dedo com força teimosa. — Ela puxou a mãe.

— Ela puxou o pior de nós dois, capitão — respondeu Bloom, cruzando os braços, mas um sorriso suave aquecia suas feições maduras. — E ela não vai crescer trancada em uma ilha de sombras.

Jim abaixou a cabeça, encarando a filha mais uma vez. Ele era um pirata imortal, um corsário com séculos de pecados gravados na alma e uma tripulação que o aguardava nos confins da Terra do Nunca. Ele sabia que o mar continuaria chamando o seu nome e que a escuridão de seu passado nunca seria totalmente apagada.

Mas ali, sob o calor daquela lareira mundana, com a mãozinha de sua filha segurando a sua e o fogo indomável de Bloom guardando a retaguarda, o Capitão Jones compreendeu que nenhum trono em todas as dimensões mágicas valia mais do que o direito de tentar ser feliz.

— Eu não vou voltar para a Terra do Nunca esta noite — declarou Jim, sem soltar a mão da pequena Kira, erguendo os olhos azul-violetas para Bloom com uma determinação renovada e perigosa. — E se as suas fadas quiserem reclamar... que venham com o exército inteiro.

Bloom apenas sorriu, sentindo a Chama do Dragão aquecer seu peito com a certeza de que a maré, finalmente, começava a mudar.

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