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Bloom x Jim

No Limiar do Gelo e das Chamas

O vento nos Alpes suíços não soprava; ele uivava como uma fera ferida, chicoteando agulhas de gelo contra qualquer superfície viva. O céu, antes de um cinza chumbo opaco, fechara-se em um turbilhão branco que devorava o horizonte e engolia os cumes pontiagudos.

Bloom avançava com dificuldade pela neve que já atingia a altura de seus joelhos. Seu sobretudo vermelho estava salpicado de flocos densos, e o calor do Fogo do Dragão queimava silencioso sob sua pele, lutando contra o frio sobrenatural que parecia drenar até mesmo a luz do dia.

Alguns passos à sua frente, imperturbável e movendo-se com a agilidade predatória de quem já navegara por mares muito piores do que uma nevasca alpina, estava Jim.

O pirata parecia ignorar a tempestade. O sobretudo escuro esvoaçava ao redor de sua silhueta alta, e os cabelos azul-violeta, úmidos e despenteados pelo vendaval, emolduravam um rosto cujos traços aristocráticos permaneciam esculpidos em um cinismo inabalável.

— Se continuarmos nesse ritmo, senhorita — gritou Jim por cima do rugido do vento, a voz rouca cortando a nevasca —, o velho relojoeiro terá morrido de velhice antes de consertarmos aquela maldita relíquia.

— Se você calar a boca e continuar andando, chegaremos mais rápido! — retrucou Bloom, limpando os cristais de gelo que se formavam em seus cílios.

A missão era uma corrida contra o tempo. Nos vales abaixo, em uma estação aconchegante onde a equipe do *World of Winx* montara os palcos móveis, Stella, Flora, Musa, Tecna e Aisha mantinham Silke, a jovem sobrinha do mestre relojoeiro, em segurança sob o pretexto de audições para o show de talentos. A menina era uma peça fundamental, mas o relógio mágico — o artefato capaz de alinhar os ponteiros dimensionais e abrir o portal para a Terra do Nunca — estava estilhaçado, e apenas o tio recluso da garota detinha o conhecimento mecânico e arcano para restaurá-lo.

Bloom recusara-se a deixar o relógio apenas nas mãos de Jim, e o pirata insistira que nenhuma das outras garotas sobreviveria ao caminho hostil até a torre no topo do pico negro. Então, ali estavam os dois.

Uma rajada violenta açoitou a encosta da montanha. O chão cedeu sob a bota de Bloom.

Com um arquejo repentino, a neve sob seus pés transformou-se em uma armadilha oca, desmoronando em uma fenda oculta. O corpo dela foi puxado pelo vazio, mas antes que pudesse convocar as asas do Dreamix para conter a queda, uma mão enluvada de couro disparou pela névoa branca.

Os dedos de Jim fecharam-se com a força de uma prensa de ferro ao redor do pulso de Bloom.

O impacto a fez bater contra a parede de gelo. Ela olhou para cima, encontrando os olhos azul-violetas de Jim cravados nos dela. Não havia pânico no homem; havia apenas uma intensidade calculista e sombria. Ele fincou a lâmina de uma adaga profundamente na rocha congelada com a mão livre e, com um grunhido que expôs a musculatura tensa de seus ombros, puxou-a para cima em um único movimento fluido.

Bloom foi arremessada contra o peito dele, rolando sobre a neve firme.

Por um instante que pareceu durar uma eternidade suspensa, nenhum dos dois se moveu. O ar entre seus rostos condensava-se em pequenas nuvens quentes. Bloom sentiu o cheiro distinto que emanava dele — tabaco amargo, couro antigo e o ozônio residual da magia da Terra do Nunca, que contrastava estranhamente com a frieza dos Alpes. O calor corporal dela, irradiando como uma forja incandescente, fez o gelo no casaco de Jim derreter quase instantaneamente.

Jim olhou para os lábios avermelhados da fada, depois para os olhos azuis brilhantes, dilatados pela adrenalina. O sorriso torto, perigoso e descaradamente provocador curvou seus lábios.

— Não precisa se jogar aos meus pés com tanto entusiasmo, Bloom. Eu já disse que levaria você até a torre.

A fada empurrou o peito dele com firmeza, sentindo a solidez implacável da armadura leve que ele usava sob o tecido.

— Eu não me joguei, seu idiota — disse ela, levantando-se de um salto e espanando a neve dos quadris, o rosto corado tanto pela raiva quanto pela respiração acelerada. — Eu perdi o apoio. E teria voado se você não tivesse me puxado como se eu fosse um saco de carvão.

Jim levantou-se com graça felina, arrancando a adaga do gelo e guardando-a no cinto com um giro hábil dos dedos.

— Claro que teria. Voar em meio a uma nevasca mágica de vento cruzado — zombou ele, aproximando-se um passo a mais do que o estritamente educado. Ele era consideravelmente mais alto, e usava essa diferença para tentar encurralá-la psicologicamente. — As suas asinhas translúcidas teriam sido partidas ao meio antes de você alcançar a borda. Deveria me agradecer por salvar a sua vida de novo.

— Eu não preciso que você me salve. Nunca — declarou Bloom, a voz baixa, firme, quase um rosnado suave. Ela não recuou um milímetro. Faíscas douradas e escarlates faiscaram na ponta de suas luvas, derretendo a neve ao redor de suas botas. — E você faria bem em se lembrar de quem está no comando aqui. Você é um guia, Jim. Nada mais.

O pirata soltou uma risada rouca e gutural, um som que enviou um calafrio involuntário pela espinha da fada. Ele inclinou o rosto para a frente, a respiração quente roçando a bochecha gélida de Bloom.

— Você é adorável quando tenta parecer um general, ruiva. Mas nós dois sabemos que, neste jogo, ninguém comanda ninguém. Você quer salvar crianças perdidas e manter o seu pedestal moral intacto. Eu quero a minha tripulação, a minha vingança e o meu mundo.

— Seus motivos são egoístas.

— Meus motivos são reais — sibilou ele, os olhos faiscando com um ódio antigo. — O altruísmo é uma mentira que criaturas como você contam para dormir à noite. Mas aqui na montanha... só existem predadores e presas.

— Não sou presa de homem nenhum.

— Eu sei disso — murmurou Jim, e a zombaria em sua voz deu lugar momentaneamente a uma nota de fascínio genuíno, bruto e desprovido de qualquer verniz civilizado. — É por isso que ainda não deixei você para trás.

Um estrondo abafado cortou a tempestade acima deles. O som de engrenagens colossais rangendo reverberou pelas montanhas, misturando-se aos uivos do vento.

— A torre — disse Bloom, quebrando o contato visual magnético e apontando para a silhueta gótica e escarpada que agora despontava na névoa, a menos de cem metros. — Chegamos.

A torre do relojoeiro erguia-se como uma agulha de pedra negra contra o abismo cinzento. Não havia janelas inferiores, apenas uma imensa porta de madeira reforçada com aros de bronze oxidado. Pêndulos gigantes e mostradores arcanos cobriam as paredes externas, muitos deles girando em direções antinaturais, desafiando a gravidade e o próprio tempo.

Bloom aproximou-se da porta e ergueu a mão para bater, mas a madeira gemeu e se abriu sozinha, rangendo sobre gonzos não lubrificados.

— Que convidativo — murmurou Jim, já com a mão pousada no cabo da espada oculta sob a capa. — Entre primeiro, excelência.

— Cale a boca — respondeu Bloom, cruzando o limiar.

O interior da oficina era um labirinto sufocante de relógios de todos os tamanhos imagináveis. O som de milhares de tiques-taques criava uma cacofonia quase ensurdecedora, uma pulsação mecânica que parecia vibrar diretamente nos ossos. Havia ferramentas espalhadas por bancadas empoeiradas, lunetas telescópicas voltadas para aberturas no teto e diagramas astrais desenhados a giz sobre as paredes de pedra.

No entanto, o relojoeiro não estava à vista.

— Onde ele está? — perguntou Bloom, adentrando o salão principal. O ar ali dentro era estranhamente denso, impregnado de cheiro de óleo lubrificante, cobre velho e algo podre. Algo que lembrava carniça do mar e algas secas.

Jim congelou no centro da sala. A postura relaxada e arrogante evaporou em uma fração de segundo, substituída pela rigidez de um animal farejando perigo mortal.

— Droga — praguejou ele entre dentes.

— O que foi?

— Esse cheiro — disse o homem, puxando a lâmina de aço escuro com um zumbido metálico letal. — Não estamos sozinhos. E o velho não teve tempo de fugir.

Antes que Bloom pudesse questionar, o som rítmico dos relógios foi engolido por um rangido estridente de madeira apodrecida. Das vigas superiores, sombras alongadas e distorcidas começaram a se desprender, descendo com a agilidade de aranhas gigantes.

Quando tocaram o chão sob a luz fraca das lamparinas de óleo, a visão congelou o sangue de Bloom.

Não eram homens. Eram carcaças. Figuras vestidas com trapos esfarrapados de marinheiros dos séculos passados, a carne ressequida colada a ossos expostos, os olhos queimando em órbitas vazias com um fogo verde espectral e venenoso. Seus dedos terminavam em unhas negras como garras, e espadas enferrujadas gotejavam uma substância negra e pegajosa no piso de pedra.

— Piratas zumbis... — sussurrou Bloom, o nojo e o choque travando sua garganta por um breve segundo.

— A corte pessoal da Rainha — cuspiu Jim, os dentes cerrados. Ele olhou para as criaturas com um misto de fúria cega e uma amargura dilacerante. — Ela mandou meus antigos homens para me caçar. Criaturas patéticas que venderam a alma para a sombra dela!

— Eles não vão levar o mecanismo! — gritou Bloom. Ela não hesitou mais. A energia mágica explodiu de seu peito em uma onda de luz dourada abrasadora. — Dreamix!

A transformação irrompeu em uma torrente de calor e luz cósmica, dissipando o ar gélido da torre. As asas translúcidas de fogo estalaram atrás de suas costas, e o traje azul e dourado brilhou enquanto ela subia no ar, pronta para dizimar a horda profana.

— Fogo do Dragão!

Bloom disparou duas rajadas massivas de chamas vivas contra o primeiro grupo de monstros. O fogo mágico consumiu a carne podre dos mortos-vivos com estalos violentos, transformando três deles em cinzas fumegantes. Mas para cada um que caía, outros dois surgiam das escadarias superiores e das frestas entre os relógios monumentais.

Jim movia-se com uma precisão cirúrgica e aterrorizante. Ele não usava magia; usava a experiência brutal de séculos de combate corpo a corpo. Sua espada cortava tendões e decepava membros pútridos em movimentos econômicos e impiedosos. Ele girou sobre os calcanhares, cravando uma adaga no crânio de uma das aberrações, chutando o corpo contra outra para abrir espaço.

— Eles são muitos, fada! — berrou Jim, aparando o golpe de uma cimitarra enferrujada com um estrondo de faíscas. — O poder da Rainha está sustentando essas cascas vazias! O fogo não vai deter todos se você não derrubar a fonte da magia negra na torre!

— Estou tentando! — gritou Bloom de volta. Ela desceu em um voo rasante, erguendo uma barreira de chamas para bloquear um ataque que visava as costas de Jim. O pirata olhou por cima do ombro, os olhos faiscando ao ver a determinação feroz dela protegendo sua retaguarda.

— Bom trabalho, centelha — disse ele com um sorriso selvagem, recuperando o fôlego enquanto rasgava a garganta de outro monstro.

— Poupe seus elogios para quando sairmos vivos!

Bloom concentrou seu poder para um feitiço de área devastador. Suas mãos juntaram-se diante do peito, reunindo a essência primordial da Chama do Dragão em uma esfera pulsante capaz de desintegrar toda a estrutura se necessário.

Porém, a escuridão da Rainha era traiçoeira.

Do alto do teto, um feixe de cordas amaldiçoadas, embebidas na mesma matéria negra e viscosa que gotejava das armas dos zumbis, despencou não contra ela, mas contra o suporte principal do gigantesco pêndulo de ferro da torre. A estrutura de várias toneladas quebrou com um estalo ensurdecedor.

— Bloom, cuidado! — gritou Jim.

O capitão arremessou-se contra ela. A força do impacto a tirou do ar bem no momento em que o pêndulo colidia contra a pedra onde ela estava, fazendo o piso estilhaçar-se em uma chuva de destroços e poeira sufocante.

Bloom e Jim caíram juntos sobre uma das bancadas de trabalho, quebrando mesas de carvalho maciço sob o impacto. A magia de Dreamix oscilou perigosamente; o golpe e o contato com os escombros contaminados pela energia sombria drenaram o calor de seu corpo repentinamente.

Antes que Bloom pudesse reunir suas chamas novamente, correntes negras forjadas na magia da Terra do Nunca chicotearam através da fumaça.

Elas enrolaram-se com violência esmagadora ao redor de seus pulsos e asas. A dor foi imediata — um frio pungente que paralisava as veias mágicas, sufocando a conexão de Bloom com o Fogo do Dragão. Ela soltou um grito abafado de agonia quando o metal encantado queimou sua pele com gelo místico, forçando a desativação forçada de sua forma de fada.

— Bloom! — rugiu Jim.

O homem tentou se erguer, a lâmina em punho manchada com o sangue negro das criaturas, mas a horda avançou em massa sobre ele. Quatro piratas zumbis pularam em suas costas, desarmando-o com pancadas brutais de maças enferrujadas. Jim lutou como um demônio encurralado, quebrando o pescoço de um com as próprias mãos e rasgando a carne podre de outro com uma adaga que tirara da bota, mas correntes idênticas atingiram seu peito e garganta.

A substância negra queimou sua carne humana, forçando seus joelhos a dobrarem contra a pedra fria.

Três dos monstros ergueram Bloom pelo sobretudo, os olhos vazios encarando a fada enfraquecida com malevolência inanimada. Ela cuspiu sangue nos pés da criatura, os olhos azuis ainda faiscando com uma fúria indomável, apesar da fraqueza que tomava seus membros.

— Soltem... ela... — rosnou Jim, puxando as correntes com tanta força que os anéis de ferro cortaram a pele de seus pulsos, o sangue escuro escorrendo pelas palmas. Os olhos azul-violetas estavam desvairados de raiva. — Se tocarem nela, eu juro que vou alimentar as feras do mar com cada osso podre de vocês!

Um dos zumbis, o maior deles, vestindo os restos apodrecidos de uma jaqueta de contra-almirante, soltou um sibilo que parecia o escape de vapor de uma caldeira.

— A Rainha... exige a fada — ecoou a voz rasgada e espectral do morto. — E o traidor... retorna ao calabouço.

Com um puxão brutal, as criaturas arrastaram Bloom e Jim em direção ao centro da oficina, onde uma enorme fenda dimensional — uma névoa espessa, arroxeada e rodopiante — abria-se no piso estilhaçado. Não era uma passagem limpa como as que o relógio consertado deveria abrir; era um rasgo bruto e violento na realidade, alimentado pelo sacrifício sombrio da Rainha.

Bloom lutou contra as correntes, tentando desesperadamente encontrar uma faísca em seu interior, mas a proximidade com o portal drenava suas forças a cada batimento cardíaco. Seus olhos encontraram os de Jim em meio ao caos de engrenagens e gritos guturais.

Não havia mais a máscara do pirata galanteador. Havia a crueza de um guerreiro que encarava o próprio inferno. E, pela primeira vez, Jim não sustentava um sorriso sarcástico. A mandíbula dele estava trancada em pura revolta assassina, seus olhos fixos nela como se a própria existência do universo dependesse de mantê-la em seu campo de visão.

— Fique firme, ruiva — murmurou ele, a voz firme sobrepondo-se ao zumbido do abismo dimensional que os engolia. — Isso ainda não acabou.

As mãos esqueléticas puxaram ambos para baixo.

O frio esmagador da fenda cósmica devorou o som dos relógios e o calor da montanha, engolindo Bloom e o capitão nas sombras profundas e perversas que os arrastavam de volta às margens amaldiçoadas da Terra do Nunca.

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