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Bloom x Jim

O Calor das Cinzas Roubadas

A escuridão da Terra do Nunca não se assemelhava à noite do mundo mortal. Era uma substância quase viva, espessa e rançosa, impregnada pelo odor de pântano podre, orvalho estagnado e a magia corrompida de uma soberana que transformara um paraíso atemporal em um túmulo sem estrelas.

Bloom despertou com o gosto metálico de sangue na boca e uma dor abrasadora que não emanava de ossos quebrados, mas da raiz de sua própria alma.

A fita mágica e mecânica que a Rainha usara para violar seu peito ainda ecoava em sua memória como um pesadelo incandescente. Ela se lembrava do salão de espelhos partidos, da figura da fada corrompida flutuando sobre um trono de espinhos, e dos cabos negros que cravaram em suas costelas como sanguessugas de ferro forjado. A Rainha não possuía a centelha do Dragão por natureza; precisava arrancá-la, bombeá-la de forma artificial e doentia para dentro de frascos de cristal escuro.

Eles haviam tirado seu fogo. Quase todo ele.

O resultado não fora apenas a perda de suas asas, mas uma queda abrupta para um estado de fragilidade física devastador. Para alguém cuja própria respiração era alimentada pela chama primordial do universo, ser esvaziada daquele jeito era como ter o sangue drenado e substituído por água estagnada e gelada.

Um arrepio violento sacudiu o corpo de Bloom. Os dentes batiam sem que ela pudesse controlá-los, e o chão de pedra úmida sob seu corpo sugava o pouco calor que ainda lhe restava.

— Não tente se mover rápido demais — ordenou uma voz rouca e baixa, ecoando no espaço exíguo de pedra e grades enferrujadas. — Você passou as últimas dezoito horas desmaiada, queimando em febre e tremendo feito uma folha seca.

Bloom piscou, a visão turva lutando para decifrar as formas ao redor.

Eles estavam em uma cela subterrânea cavada sob as raízes retorcidas de um manguezal morto. Goteiras ressoavam em um ritmo enlouquecedor, e o ar ali dentro era tão gélido que sua respiração formava névoa. A poucos centímetros dela, encostado na parede com as costas apoiadas na rocha crua, estava Jim.

O sobretudo escuro do pirata estava rasgado nas mangas, manchado de poeira e fuligem. Manchas arroxeadas cobriam a linha de sua mandíbula afiada, e um corte profundo na testa havia secado em uma crosta marrom, revelando que ele não fora poupado durante a captura. Ainda assim, seus olhos azul-violetas estavam abertos, alertas, brilhando na penumbra com a persistência de brasas vigiando a noite.

— As outras... — sussurrou Bloom, a voz arranhando uma garganta ressequida. A tentativa de erguer o tronco falhou miseravelmente; seus braços cederam e ela desabou de volta sobre o chão imundo. — Elas não sabem onde estamos...

— E é melhor que demorem a descobrir — disse Jim, desvencilhando-se das correntes soltas presas aos seus tornozelos e arrastando-se para perto dela com movimentos calculados. — Se chegarem aqui às cegas, a Rainha vai empalar as cinco nas estacas do cais antes mesmo de cruzarem a arrebentação.

Ele parou ao lado dela. Bloom sentiu o peso do olhar dele sobre suas feições pálidas. O suor frio colava as mechas ruivas à sua testa, e os lábios, antes vibrantes de vida e desafio, tinham uma tonalidade azulada e doentia.

Sem pedir permissão, Jim deslizou um braço por baixo dos ombros da fada, erguendo-a do chão congelado com cuidado surpreendente para um homem acostumado a manejar alfanjes e adagas.

— O que você... está fazendo? — murmurou ela, tentando fracamente empurrar o peito dele com a palma da mão, odiando a própria vulnerabilidade com cada átomo de sua teimosia lendária. — Afaste-se.

— Cale a boca, Bloom — retrucou ele, a voz ríspida, mas os dedos firmes ajustando-a contra o seu corpo. Ele despiu o casaco pesado de veludo e couro com a outra mão e o jogou sobre os ombros trêmulos dela, antes de puxá-la para mais perto de seu próprio peito. — Se você continuar deitada sobre essa pedra úmida, seus pulmões vão encher de líquido antes do amanhecer. Você não é feita de chamas agora, esqueceu? Você é apenas uma garota sangrando em uma masmorra.

— Eu não sou indefesa — insistiu ela, a respiração entrecortada, mas o corpo traiu seu orgulho. No instante em que o calor áspero e sólido de Jim a envolveu, Bloom afundou instintivamente contra ele, buscando desespero o calor humano em meio àquele abismo.

Jim permaneceu tenso por um segundo. Ele conhecera dezenas de fadas durante seus séculos de vida na Terra do Nunca, e todas elas, sem exceção, eram criaturas distantes, arrogantes ou etéreas demais para sangrar como os homens da sua tripulação. Mas aquela garota ruiva, que desafiara a Rainha até o último segundo, queimava de um jeito diferente — e agora, definhava nos braços dele.

Ele sentiu o coração dela bater: rápido, fraco, como as asas de um pássaro aprisionado.

— Você é teimosa como uma mula — murmurou o corsário, os olhos fixos na porta de ferro no topo da escadaria da masmorra. — Mas não precisa provar nada para mim. Eu vi o que aquela máquina fez. Qualquer homem comum teria quebrado o próprio pescoço de agonia nos primeiros dez segundos.

— A chama... ainda está aqui — disse ela, fechando os olhos contra a tontura que ameaçava engoli-la. Ela levou a mão ao centro do peito, onde um ponto microscópico de calor ainda lutava contra a escuridão artificial da Rainha. — Ela roubou o poder, mas não a fonte. O dragão dorme, só isso.

— Pois diga ao seu réptil de estimação para acordar mais rápido, porque nós não temos muito tempo.

O barulho pesado de passos no topo da escada fez os dois congelarem.

Um feixe de luz doentia e esmeralda cortou a escuridão quando a porta rangeu sobre gonzos enferrujados. Duas sombras alongadas desceram os degraus de pedra, arrastando correntes e bastões recobertos por runas espinhosas. Eram os carcereiros da Rainha — abominações outrora humanas, transformadas em marionetes disformes cujo único prazer residia no sofrimento alheio.

Jim moveu-se com a agilidade de um felino protetor. Antes que as criaturas chegassem ao nível da cela, ele deslizou para a frente de Bloom, ocultando o corpo miúdo da fada atrás de seus ombros largos, mantendo-se entre ela e o metal frio das grades.

— De pé, lacaio traidor — resmungou uma das criaturas, a voz como pedras moídas em um triturador. Uma chave retorcida girou na fechadura com um estalo violento. — A mestra quer saber mais sobre a corte do sol e as defesas do portal.

— Suas perguntas são tão tediosas quanto os seus rostos — zombou Jim, levantando-se devagar, os punhos cerrados ao lado do corpo, a postura de arrogância aristocrática cobrindo perfeitamente a exaustão que ele próprio sentia. — Já disse tudo o que sabia ontem à noite. Se aquela criatura que vocês chamam de rainha quiser respostas novas, que venha ela mesma descer até este chiqueiro imundo.

A resposta foi um golpe brutal. O bastão encantado colidiu contra as costelas de Jim, soltando um estalo seco que ecoou pela abóbada de pedra.

O corsário soltou um grunhido sufocado, caindo sobre um joelho, mas não permitiu que o rosto tocasse o chão. Seus olhos azul-violetas queimaram com um ódio homicida tão cru que o carcereiro hesitou por uma fração de segundo antes de desferir o segundo ataque.

— Jim! — gritou Bloom, a voz quebrando. Ela tentou se arrastar para a frente, reunindo as migalhas de energia de suas veias, as palmas estendidas. — Parem! Deixem ele!

Uma fagulha minúscula, quase patética, estalou na ponta de seus dedos indicadores antes de se apagar em um fiapo de fumaça cinzenta. Os guardas riram, um som gorgolejante e doentio.

— A faísca perdeu o fogo — sibilou o segundo carcereiro, erguendo o chicote de ferro farpado em direção à fada caída.

Antes que o golpe pudesse descer contra ela, Jim avançou como uma fera ferida. Mesmo desarmado, ele projetou seu peso contra o monstro, derrubando-o contra a parede da cela e quebrando o pulso da criatura com uma torção calculada. A confusão durou poucos segundos; o outro guarda atingiu as costas de Jim com o bastão rúnico, descarregando uma descarga de magia negra que fez o homem arquear as costas em choque violento.

Eles o espancaram com frieza mecânica até que ele não pudesse mais reagir, deixando-o ensanguentado no chão antes de trancarem a cela novamente com um baque definitivo.

— Amanhã você falará — rosnou a voz na escuridão enquanto os passos se afastavam, subindo a escada. — Ou assistirá a sua fadinha morrer de frio antes do meio-dia.

O silêncio caiu como uma mortalha, quebrado apenas pelo gotejar contínuo e pela respiração pesada e entrecortada de Jim.

Bloom rastejou sobre a pedra gélida, ignorando a dor nos próprios membros. As lágrimas de frustração e raiva queimavam seus olhos, mas ela as engoliu. Chegando ao lado dele, viu o sangue escuro escorrendo por seus lábios e manchando a gola de linho da camisa.

— Por que você fez isso? — murmurou ela, as mãos trêmulas tocando o ombro tenso dele. Seus dedos mancharam-se com o sangue quente que brotava dos cortes em suas costas. — Eles teriam me interrogado. Eu aguentaria. Você não precisava se meter na frente.

Jim virou o rosto para encará-la, soltando uma tosse fraca que arrancou mais um fio escuro de sua boca. Apesar da dor visível em cada músculo, o sorriso torto e sarcástico teimou em ressurgir, manchado de escárnio e audácia.

— Uma fada morta... não abre caminhos para mim, ruiva — sussurrou ele, a voz falhando em um sussurro áspero. — E você é irritante demais para morrer num buraco desses.

— Você é um idiota incorrigível — retrucou Bloom, a voz embargada enquanto apoiava a cabeça dele em seu colo improvisado, rasgando uma tira da própria blusa para limpar o sangue que escorria pelo queixo do corsário.

— Talvez — disse Jim, os olhos semicerrados fixando-se no rosto dela com uma intensidade pesada, despida de qualquer fingimento. — Mas sou o único idiota entre você e aquele bando de carniça.

Os dias que se seguiram transformaram-se em um ciclo indistinto de agonia, frio e sombras.

Sem o ciclo natural de sol e lua na Terra do Nunca, o tempo era medido pelas visitas cruéis dos carcereiros e pela frequência com que a febre de Bloom a fazia perder o contato com a realidade. A falta do Fogo do Dragão agia como um veneno lento; sua pele permanecia lívida, seus lábios rachados pelo ar gélido, e por vezes ela balbuciava palavras desconexas sobre Domino, sobre as Winx, sobre chamas que não conseguiam mais aquecer seus pés dormentes.

E, em cada um desses momentos, Jim estava lá.

O corsário dividia cada gole de água fétida que os monstros jogavam pela grade, forçando-a a beber quando ela se recusava por náusea. À noite — ou no que parecia ser a noite daquele mundo maldito —, ele a mantinha aninhada contra o seu peito, compartilhando o calor de seu corpo com a urgência feroz de um sentinela que se recusa a abandonar o posto.

Bloom apoiava o rosto na curva do pescoço dele, sentindo a pulsação forte sob a pele áspera, o cheiro de maresia e tabaco misturado ao sangue seco que ainda manchava suas roupas. Havia algo perigosamente íntimo na forma como os braços de Jim a envolviam — um cuidado silencioso que nenhum dos dois jamais admitiria em voz alta.

Jim era um traidor em potencial, um capitão amargo movido pelo ódio ao menino que lhe roubara o tempo, um homem que ela deveria desprezar pelas mentiras e pela violência que carregava em cada gesto. E, no entanto, quando a febre a fazia tremer até os dentes estalarem, eram as mãos calejadas dele que seguravam as suas com firmeza inabalável, impedindo-a de deslizar para o abismo escuro do delírio.

— Fique comigo, Bloom — sussurrava ele no escuro da masmorra, a boca tão próxima de seu ouvido que a fada sentia o calor de sua respiração penetrar em sua mente febril. — Não ouse desistir agora. Guarde esse fogo. Você prometeu queimar o meu navio se eu a traísse, lembra? Você não pode queimar nada se fechar esses olhos malditos.

Bloom apertava a mão dele em resposta, os dedos entrelaçando-se aos dele em um pacto silencioso de sobrevivência que transcendia qualquer aliança formal.

Havia um medo latente entre eles. O medo de que, se confessassem a necessidade desesperada que estavam desenvolvendo um pelo outro, aquela frágil barreira de orgulho e desconfiança ruísse, deixando-os totalmente desarmados diante da tragédia que os cercava. Jim mantinha sua máscara de pirata cínico; Bloom mantinha sua postura de fada indomável. Mas no silêncio da prisão, quando os olhares se cruzavam e a distância diminuía até que suas respirações se tornassem uma só, o ar tornava-se denso, elétrico, carregado de um magnetismo sombrio e irresistível.

Em uma dessas vigílias silenciosas, com a cela mergulhada em uma penumbra quase total, Bloom acordou de um sono leve para encontrar os olhos azul-violetas de Jim fixos nela.

Ele estava acordado, as costas encostadas na pedra fria, sustentando o peso dela contra si sem reclamar. Uma de suas mãos repousava na nuca da fada, os dedos perdidos entre os fios ruivos despenteados em um gesto que parecia inconscientemente terno.

— Você não dorme há dias — murmurou ela, a voz fraca, mas lúcida o suficiente para perceber a tensão desenhada nos músculos do rosto dele.

Jim não afastou a mão. Seus dedos moveram-se de leve, acariciando uma mecha que caía sobre a bochecha dela, a respiração dele desacelerando ligeiramente sob o contato.

— O sono é um luxo perigoso por aqui — respondeu ele, a voz aveludada carregando aquela ironia gasta que já não conseguia mascarar a verdade. — E alguém precisa garantir que você não escape para o outro mundo enquanto eu não estiver olhando.

— Eu não vou a lugar nenhum, capitão.

— Bom. Porque eu tenho péssimas lembranças de garotas mágicas que voam para longe quando as coisas ficam complicadas.

Bloom soltou uma risada fraca, desprovida de força, mas carregada de uma centelha do velho desafio que ele tanto admirava. Ela ergueu a mão lentamente, pousando as pontas dos dedos frios contra o corte aberto na mandíbula dele. Jim fechou os olhos por uma fração de segundo ao sentir o toque suave, um estremecimento quase imperceptível correndo por sua espinha.

— Elas virão — disse Bloom, os olhos azuis encontrando os dele no escuro, firmes apesar da fraqueza biológica que a consumia. — As Winx virão nos buscar. Elas nunca deixam ninguém para trás.

Jim abriu os olhos devagar. O cinismo costumeiro vacilou, substituído por uma melancolia antiga que pertencia a um homem que já vivera séculos demais vendo promessas se afogarem nas marés da Terra do Nunca.

— Então é melhor que elas se apressem, centelha — murmurou ele, a voz descendo a um sussurro rouco enquanto sua mão deslizava suavemente da nuca para o contorno do maxilar dela, segurando seu rosto pálido com uma reverência involuntária. — Porque minhas forças não são eternas... e eu já gastei munição demais tentando manter você viva.

O silêncio que se seguiu não era mais feito de desconfiança, mas da tensão elétrica de duas almas quebradas pelo mesmo cárcere, dividindo a mesma respiração e o mesmo medo tácito. Bloom não recuou do toque dele; em vez disso, encostou a fronte contra o ombro do pirata, permitindo-se fechar os olhos sob a proteção vigilante daquele homem perigoso, mentiroso e irresistivelmente fascinante.

Longe dali, através das florestas apodrecidas e do mar tempestuoso da Terra do Nunca, o eco de asas brilhantes e magias despertadas começava a riscar o céu cinzento. Mas na profundidade da masmorra, entre feridas abertas e correntes enferrujadas, a fada e o capitão continuavam a lutar a sua própria guerra silenciosa: a batalha de manter a chama acesa no coração do abismo.

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