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Blue lock

O Arquiteto do Hospício e o Despertar do Ego Absurdo

A penumbra da sala de monitoramento central do Blue Lock era quebrada apenas pelo brilho azulado de dezenas de telas flutuantes. Ego Jinpachi, com sua postura curvada e olhos injetados, mastigava um punhado de yakisoba instantâneo enquanto observava os dados biométricos do Time Z-2. Ao seu lado, em uma cadeira giratória que parecia cara demais para o ambiente, Kaze mantinha os olhos fechados, sentindo a pulsação dos servidores através do leve zumbido das máquinas.

— Você entende, não entende, Kaze? — Ego falou sem desviar os olhos da tela onde Fr4me tentava driblar uma corrente de ar condicionado. — Eles não são apenas ruins. Eles são estatisticamente impossíveis. Se o futebol fosse uma ciência exata, esses vinte indivíduos seriam o erro de arredondamento que destrói a fórmula.

Kaze abriu um dos olhos, uma fresta fria e calculista.

— É exatamente por isso que eu aceitei o cargo de seu assistente, Ego-san — respondeu Kaze, a voz desprovida de qualquer emoção calorosa. — No campo, eu sou o mestre do jogo. Aqui, nesta sala, eu sou o arquiteto do hospício. Para criar o atacante perfeito, não precisamos de talento lapidado. Precisamos de uma obsessão tão profunda que rompa a lógica da realidade. E esses... "sujeitos"... já nasceram com a lógica quebrada.

Ego deu um sorriso seco, revelando os dentes.

— O Time V está vindo. Nagi, Reo e Zantetsu. Eles são a definição de talento bruto e polido. O que você propõe para o nosso "Circo de Horrores"?

Kaze levantou-se, caminhando até o painel de controle. Seus dedos longos digitaram comandos rápidos, alterando as configurações de treinamento da Arena 2-Z.

— Proponho o caos controlado. Se tentarmos ensiná-los a jogar futebol normal, eles serão esmagados em dez segundos. Mas, se alimentarmos as suas psicoses... — Kaze parou, observando Tavares cair de cara no chão pela décima vez na tela. — Se o Tavares parar de tentar correr e começar a cair com um propósito, ele se torna um projétil. Se o Ayakashi parar de tentar acertar o gol e começar a mirar no que ele *não* quer acertar, ele pode, por acidente, se tornar o artilheiro mais letal da história.

— Você quer usar a engenharia reversa do fracasso — Ego murmurou, interessado. — Vá lá para baixo. Mostre a eles como ser um monstro, Kaze. Ou melhor, mostre a eles que eu sou o Deus desse lugar, e você é o meu profeta do desastre.

Kaze assentiu e saiu da sala. Quando as portas automáticas se abriram para o campo, o cenário era, como esperado, um desastre.

— EU JÁ DISSE QUE NÃO QUERO COMER BRÓCOLIS, GENERAL! — Kat gritava para um canto vazio da grande área, enquanto Volito tentava usá-la como poste para fazer alongamento.

— Alguém me ajuda... — sussurrou Calhau, estirado no chão. — Eu acho que meu cílio entrou no olho e deslocou minha retina. É o fim da minha carreira... de novo.

— Alguém tem um Pokémon do tipo erva? — Lopa perguntava, revirando as lixeiras do estádio. — Minha fome tá me dando alucinações. Eu vi o Ego no telão e achei que era um Oddish gigante.

Kaze entrou no gramado e o silêncio se impôs não pelo respeito, mas pelo medo instintivo que sua presença emanava. Ele não era mais apenas o companheiro de equipe; ele era a extensão da vontade de Ego.

— Reúnam-se, seus pedaços de lixo — ordenou Kaze.

Os jogadores se aproximaram, tropeçando uns nos outros. Jimmy tentou discretamente furtar o cronômetro do pescoço de Kaze, mas o mestre do jogo segurou o pulso do cigano sem sequer olhar para ele.

— Tente isso de novo, Jimmy, e eu farei com que seu único futuro seja ver o fundo de uma cela de isolamento — disse Kaze, soltando o braço do rapaz. — Escutem. O Ego-san me deu uma missão. Eu sou o assistente técnico oficial deste setor. Isso significa que a vida de vocês agora pertence à minha prancheta.

— Assistente técnico? — Debi cruzou os braços, bufando. — Eu sou muito mais inteligente que você. Meus cálculos mostram que se eu usar este hidratante labial, meu coeficiente de aerodinâmica aumenta em 0,4%.

Kaze caminhou até Debi e inclinou-se, ficando a centímetros do rosto do femboy.

— Seus cálculos não previram que o Time V vai marcar vinte gols em cima de nós se você continuar se preocupando com a sua pele. O Nagi Seishiro vai te driblar enquanto dorme, e o Reo Mikage vai comprar a sua alma antes do intervalo. Vocês querem ser atacantes? Ou querem ser apenas a piada que o Blue Lock vai contar para as próximas gerações?

Fr4me deu um passo à frente, os olhos laranjas vibrando.

— O mestre... ele tem um cheiro diferente agora. Cheiro de... silício e eletricidade. O campo está ficando azul escuro.

— Exatamente, Fr4me — disse Kaze, voltando-se para o grupo. — O treinamento de hoje chama-se "Suicídio Tático". Apollo, você é o capitão no papel porque ninguém mais é estável o suficiente para assinar um documento. Mas você vai parar de ser mediano.

— E como eu faço isso? — perguntou Apollo, genuinamente confuso.

— Sendo um isca — respondeu Kaze com um sorriso cruel. — Você é tão sem graça que ninguém vai notar você. Use isso. Seja o vácuo onde a defesa adversária esquece que existe alguém.

Kaze chutou uma bola para o alto.

— Aires! Jabami! Toddynho! A defesa de vocês é uma peneira. A partir de agora, Aires, você não olha para a bola. Você é um cão de guarda. Se o adversário respirar perto da área, você morde. Jabami, você vai parar de ser educado. Se alguém pedir "por favor" para passar, você vai responder com um carrinho na garganta. E Toddynho... por amor de Deus, pare de abraçar a bola. A bola não é sua amiga. Ela é uma bomba. Se ela ficar nos seus pés por mais de dois segundos, você explode.

— Explodir parece perigoso — comentou Toddynho, coçando a cabeça. — Mas eu gosto de fogos de artifício!

— Ótimo — Kaze olhou para o resto. — Miguelito, pare de driblar o ar e comece a imaginar que o ar é o pescoço do seu pior inimigo. Ayakashi, de hoje em diante, você está proibido de olhar para o gol. Eu quero que você mire na bandeirinha de escanteio. Se você mirar lá, talvez a sua incompetência natural faça a bola entrar no ângulo.

— Uma técnica de psicologia reversa balística... — Ayakashi ajeitou os óculos, impressionado. — Genial.

— E quanto a mim? — perguntou Illusion, fazendo uma pose dramática. — Onde entra o meu desespero neste roteiro?

— Você vai ser o nosso fator psicológico — Kaze disse, friamente. — Você vai sussurrar teorias de conspiração e spoilers de anime no ouvido dos atacantes deles até eles perderem a vontade de viver.

Kaze então olhou para o telão, onde a silhueta de Ego observava tudo.

— Ego-san, comece o Protocolo de Sobrecarga.

Subitamente, robôs de treinamento de alta tecnologia surgiram do chão. Eles eram rápidos, precisos e impiedosos.

— Se perderem para as máquinas, não haverá jantar — anunciou a voz de Ego pelos alto-falantes. — E Jimmy, devolva as chuteiras do Volito. Ele não consegue pular de chinelos.

— O destino é um negociante difícil — resmungou Jimmy, jogando o par de chuteiras de volta para o goleiro gigante.

O treino começou e o caos foi absoluto. Kaze corria entre eles, não como um jogador, mas como um maestro que batia com a batuta na cabeça dos músicos desafinados.

— CORRE, TAVARES! SE VOCÊ CAIR, CAIA NA DIREÇÃO DO SENSOR DO ROBÔ! — gritava Kaze.

Tavares disparou, atingiu uma velocidade absurda, tropeçou como sempre, mas desta vez, seguindo a instrução de Kaze, ele projetou o corpo para frente. Ele deslizou como um projétil humano, derrubando três robôs de treinamento antes de bater com a cabeça na trave.

— GOL! — gritou Ludo, fazendo uma pose de Sailor Moon. — O sacrifício do herói foi belo!

— Não foi gol, Ludo, ele só quebrou os robôs e o próprio nariz! — gritou Apollo, desesperado.

— É um progresso — disse Kaze, anotando algo em um tablet virtual. — Kat! Pare de discutir com o General e use a sua esquizofrenia para prever onde o robô vai passar! Se você vê pessoas que não existem, imagine que elas estão marcando os robôs!

Kat parou, os olhos arregalados.

— Genial... General, você ouviu isso? O mestre é um gênio! Ei, robô número 4, o General disse que sua mãe é uma torradeira!

Kat começou a correr de forma errática, mas, incrivelmente, seus movimentos imprevisíveis confundiam os sensores de movimento das máquinas. Ela roubou a bola com uma risada maníaca e passou para Fr4me.

Fr4me entrou em seu transe. Os olhos laranjas brilhavam tanto que pareciam iluminar a grama sintética.

— O espaço... está se contraindo — sussurrou Fr4me.

Ele começou a driblar a si mesmo, mas agora, com a pressão dos robôs, seus giros criavam um escudo de fintas que ninguém conseguia penetrar. Ele era um furacão de um homem só, girando em direção à área adversária.

— AGORA, AYAKASHI! — comandou Kaze.

Fr4me tocou para trás. Ayakashi recebeu na linha de meio de campo. Ele fechou os olhos, virou o corpo totalmente para o lado oposto do gol e mirou em uma mosca que voava perto da lateral.

— Estilo Secreto: Miragem do Horizonte Inverso! — gritou Ayakashi.

Ele chutou com toda a força. A bola bateu na quina de um robô, ricocheteou no teto, atingiu o ombro de Toddynho (que estava distraído tentando comer um pedaço de grama) e entrou no ângulo morto do gol, onde o sensor de defesa não alcançava.

Um silêncio absoluto caiu sobre a arena.

— Eu... eu fiz um gol? — Ayakashi perguntou, ajustando os óculos que tinham escorregado.

— Foi a coisa mais horrível que eu já vi em toda a minha vida — disse Ego, aparecendo no telão com um balde de pipoca. — Foi esteticamente ofensivo. Foi tecnicamente impossível. Foi... perfeito.

Kaze cruzou os braços, um lampejo de satisfação cruzando seu rosto severo.

— Este é o Time Z-2, Ego-san. Eles não jogam futebol. Eles cometem crimes contra a lógica do esporte. E é assim que vamos destruir o Time V.

— Espera aí — disse Depp, que estava tentando imitar a pose de Kaze nos últimos dez minutos. — Se o Kaze é o assistente do técnico, ele ainda vai jogar com a gente?

Kaze olhou para Depp com um desprezo profundo.

— Eu sou o mestre do jogo, Depp. Eu jogo onde e quando eu quiser. Mas no jogo contra o Time V, eu serei o cérebro que conecta todos os seus neurônios solitários. Eu serei o fio condutor dessa loucura.

— E eu serei o estômago! — gritou Lopa. — Porque se a gente não comer agora, eu vou acabar devorando o Calhau! Ele já tá caído mesmo, parece um presunto de qualidade.

— NÃO ME COMA! — gritou Calhau, rastejando para longe. — Eu ainda tenho um ligamento intacto! Eu juro!

Kaze suspirou, massageando as têmporas. Ser o assistente de Ego era um trabalho que exigia mais paciência do que inteligência.

— Saiam daqui. Vão para o refeitório. Amanhã, o treinamento será dobrado. Jimmy, devolva o tablet que você tirou do meu bolso enquanto eu dava o discurso.

Jimmy sorriu, entregando o aparelho.

— As estrelas dizem que você é muito atento, mestre. Mas elas também dizem que o amanhã será... interessante.

— Interessante é um eufemismo, Jimmy — disse Kaze, observando o grupo de maltrapilhos sair do campo. — Amanhã, o Blue Lock vai tremer. Porque o caos finalmente encontrou um maestro.

No telão, Ego Jinpachi desligou a transmissão, mas antes, deixou uma última mensagem para Kaze em seu monitor privado:

"Não os quebre demais, Kaze. Precisamos que eles consigam pelo menos ficar de pé para o hino nacional antes de começarem a pancadaria."

Kaze sorriu para a tela escura. O projeto Blue Lock estava prestes a entrar em sua fase mais absurda, e ele estava no centro de tudo, regendo a sinfonia dos rejeitados com uma batuta de ferro e uma mente perversa. O Time V não sabia o que os esperava, mas certamente não era futebol. Era uma guerra psicológica onde a lógica era a primeira vítima.