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Bone

O Eco do Abismo

A floresta de Ravka era um labirinto de sombras e geada, mas a liberdade de Clara durou menos do que um batimento cardíaco em termos Grisha. Aleksander não era um homem que aceitava a perda, e seus rastreadores eram extensões de sua própria vontade implacável. Ela fora capturada três dias depois de sua fuga, não com violência, mas com uma demonstração de força tão avassaladora que qualquer resistência teria resultado em um massacre de inocentes na vila onde ela se escondia.

Agora, o ar cheirava a ozônio, madeira velha e o medo estagnado que emanava da Dobra das Sombras. Clara estava sentada em um banco estreito abaixo do convés do esquife principal. O movimento da embarcação sobre a areia morta era irregular, um balanço que revirava seu estômago já sensível. Ela apertou as mãos sobre o ventre, onde a vida ainda era apenas uma promessa silenciosa, uma centelha que Aleksander reivindicara com uma possessividade aterrorizante assim que descobriu.

A porta da cabine rangeu. Aleksander entrou, a silhueta emoldurada pela luz fraca das lanternas. Ele não usava mais a máscara de arrependimento. Ele parecia um deus antigo prestes a remodelar o mundo, vestindo o poder como uma segunda pele. O colar de garras de cervo, o amplificador que ele agora compartilhava com Alina Starkov através de um vínculo de sangue e dor, brilhava em seu pescoço.

— O momento chegou, Clara — disse ele, a voz vibrando com uma ressonância que a fez estremecer.

Ele caminhou até ela e se ajoelhou, ignorando a poeira no chão. Suas mãos, frias como o gelo do norte, pousaram sobre o ventre de Clara. O toque era suave, mas ela sentia a autoridade por trás dele.

— O que você vai fazer, Aleksander? — perguntou ela, a voz fraca. — Eu sinto a luz dela lá em cima. Está distorcida. O que você fez com a menina?

— Eu dei a ela um propósito — respondeu ele, olhando nos olhos de Clara. — E dei a nós um futuro. A Dobra não será mais uma barreira, mas uma arma. Ninguém mais ousará tocar em você, ou no que é nosso.

— Você fala de paz enquanto constrói um trono de cadáveres — sussurrou ela, sentindo as lágrimas arderem.

Aleksander inclinou-se e beijou sua testa, um gesto que outrora teria sido o seu mundo, mas que agora parecia o selo de uma sentença.

— Eu te amo, minha princesa. Fique aqui, protegida pelas sombras. Cuide do nosso bebê. Quando eu voltar, o mundo será diferente.

— Aleksander, não faça isso...

— Fique aqui — ordenou ele, a voz de General não permitindo réplicas.

Ele saiu, trancando a porta por fora. O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo som do esquife deslizando para dentro da escuridão absoluta da Dobra. Clara sentiu a pressão mudar. Como Sangradora, ela sentia o pulso da vida ao seu redor, e a Dobra era um vácuo, um lugar onde a vida ia para morrer. Ela se encolheu no canto, sentindo-se pequena e imensa ao mesmo tempo, odiando o kefta preto que ainda a envolvia, odiando a própria fraqueza.

De repente, ruídos estranhos vieram do teto. Gritos, o som de metal contra metal e o estalido de poderes Grisha colidindo. Não era apenas o ataque dos Volcra. Havia intrusos a bordo.

A porta da cabine foi subitamente arrombada, não por uma chave, mas por um chute preciso. Clara se levantou, as mãos erguidas, o poder de Sangradora pronto para ferver o sangue de quem quer que entrasse.

Três figuras surgiram na penumbra. Um jovem com um rosto angular e olhos astutos, segurando uma bengala com cabeça de corvo; uma mulher de traços Shu, com facas brilhando em cada mão; e um rapaz de aparência robusta que parecia pronto para demolir a estrutura do barco.

— Mas que diabos... — exclamou o rapaz maior. — Disseram que o General guardava tesouros aqui embaixo, não uma Grisha.

— Ela não é qualquer Grisha, Jesper — disse o jovem da bengala, seus olhos escrutinando Clara com uma intensidade calculista. — Esta é Clara Kirigan. A esposa do General.

A mulher Shu deu um passo à frente, as facas girando.

— Ela é um perigo. Uma Sangradora. Eu deveria acabar com isso agora.

— Esperem! — Clara deu um passo à frente, a voz firme apesar do tremor nas pernas. — Vocês... vocês vieram para pará-lo? Para levar a Conjuradora do Sol?

— Viemos pelo dinheiro, mas o caos é um bônus gratuito — respondeu Kaz Brekker, o líder do grupo. — O que a rainha das sombras faz escondida no porão enquanto o marido brinca de deus lá em cima?

Clara olhou para a porta aberta, depois para o ventre. A percepção de que Aleksander estava usando Alina como uma marionete, escravizando a luz para expandir a escuridão, a atingiu como um golpe físico.

— Ele enlouqueceu — disse Clara, aproximando-se deles. — Ele não vai parar na Dobra. Ele vai queimar o mundo para provar que está certo. Me levem com vocês. Por favor.

Jesper soltou uma risada nervosa.

— Levar a mulher do homem mais perigoso de Ravka? Isso não estava no contrato, Kaz. Isso é um pedido de suicídio com cobertura de chocolate.

— Eu posso ajudar — insistiu Clara, olhando diretamente para Kaz. — Eu conheço as defesas dele. Eu conheço o ritmo do coração dele. Se vocês tentarem matá-lo, precisarão de alguém que saiba onde ele é vulnerável. E... eu não posso deixar meu filho crescer sob a sombra dele.

Kaz Brekker permaneceu em silêncio por um momento eterno. Ele via o mundo em termos de alavancagem e ativos. A esposa de Kirigan era a maior alavanca que ele poderia imaginar, mas também o maior risco.

— Inej? — perguntou Kaz, sem desviar os olhos de Clara.

A espectro observou o rosto de Clara, vendo a dor genuína e a resolução desesperada.

— Ela está falando a verdade, Kaz. Ela não é uma sombra dele. Ela é uma prisioneira.

— Ótimo — rosnou Kaz. — Mas se você tentar qualquer truque de Sangradora, eu garanto que minha bengala será a última coisa que você sentirá. Mova-se.

Eles subiram para o convés, e a cena que se descortinou era um pesadelo vivo. A Dobra estava iluminada por explosões de luz branca e pura, mas era uma luz cativa. Alina Starkov estava no centro do esquife, os olhos arregalados de horror, as mãos emitindo um brilho que Aleksander direcionava com movimentos precisos, como se ela fosse um arco e ele o arqueiro.

— Aleksander! — o grito de Clara se perdeu no rugido do vento e nos gritos dos Volcra que circulavam o esquife, mantidos à distância apenas pela luz forçada de Alina.

Kirigan virou-se por um instante. Seus olhos encontraram os de Clara, e por um segundo, a máscara de poder vacilou, revelando o homem que ela amara.

— Clara? O que você está fazendo aqui? Volte para baixo!

— Pare com isso! — gritou ela, tentando se aproximar, mas Kaz a segurou pelo braço.

— Não seja tola — sibilou Kaz. — Olhe para ele. Ele já atravessou a linha.

Nesse momento, o caos irrompeu. Mal Oretsev, o rastreador, lançou-se sobre Kirigan. A gangue de Kaz iniciou seu próprio ataque, facas e tiros cortando o ar enfumaçado. Alina, sentindo a distração de Aleksander e o sofrimento de Mal, lutou contra o vínculo. A luz oscilou, falhou e, por um instante, a proteção da Dobra desapareceu.

O som que se seguiu foi o de mil pesadelos gritando ao mesmo tempo. Os Volcra, as criaturas monstruosas que um dia foram homens, mergulharam sobre o esquife com uma fúria cega.

— Não! — gritou Clara.

Ela viu um Volcra enorme, com asas que pareciam couro podre, agarrar Aleksander pelos ombros. O General invocou o Corte, rasgando a criatura ao meio, mas outras três surgiram das sombras. O esquife inclinou-se violentamente.

Clara tentou usar seu poder para desacelerar o coração das criaturas, para dar a Aleksander uma chance, mas a conexão entre ele e Alina estava criando uma interferência estática na própria ordem das coisas. Ela sentiu a dor dele — uma pontada aguda no peito que a fez cair de joelhos. Como Sangradora ligada a ele por séculos de intimidade e agora pelo sangue do filho deles, ela sentiu o momento em que as garras perfuraram a carne dele.

— Aleksander! — o grito dela rasgou a garganta.

Ela o viu ser arrastado para fora do esquife, para as profundezas da escuridão absoluta da Dobra. O General das Sombras, o homem que desafiara a morte e o tempo, desapareceu no abismo, cercado pelas criaturas que ele mesmo criara séculos atrás.

— Ele se foi — disse Jesper, a voz trêmula enquanto disparava contra um Volcra que tentava subir a bordo. — Kaz, temos que ir agora! A conjuradora está livre!

Alina Starkov caiu no convés, exausta, enquanto a luz começava a irradiar dela de forma mais natural, empurrando as sombras para trás e criando um caminho de fuga.

Clara estava paralisada na beira do esquife, olhando para o vazio onde o marido desaparecera. Seu coração doía tanto que ela mal conseguia respirar. Ele era um monstro, um manipulador, um homem que a traíra de mil maneiras... mas ele era a sua vida. A dor da perda era uma hemorragia que ela, a maior Sangradora de Ravka, não conseguia estancar.

— Clara! — Inej estava ao lado dela, a mão firme em seu ombro. — Se você ficar, você morre. Por ele, ou pelas sombras. Você tem um filho para proteger. Venha!

Clara olhou para a mão de Inej, depois para a escuridão da Dobra. Ela sentiu um último eco do pulso de Aleksander, algo distante, frio e cheio de agonia, antes de desaparecer completamente.

— Ele morreu... — sussurrou Clara, as lágrimas lavando o rosto sujo de cinzas. — Ele realmente se foi.

— Então viva por quem ficou — disse Kaz, já se movendo em direção ao pequeno bote de fuga que eles haviam preparado.

Com um esforço sobre-humano, Clara deu as costas ao abismo. Ela seguiu os corvos, seus passos pesados no convés manchado de sangue. Ela ainda usava o preto dele, mas enquanto o esquife emergia da Dobra para a luz pálida do crepúsculo de Ravka, ela sentiu que a cor não era mais um esconderijo.

Aleksander Kirigan fora engolido pelas próprias sombras, deixando Clara em um mundo que ela não conhecia, com aliados em quem não confiava, carregando o herdeiro de um legado de escuridão.

Enquanto o bote se afastava do esquife abandonado, Clara colocou a mão sobre a barriga. O bebê chutou, um movimento minúsculo, mas cheio de uma vitalidade que Aleksander nunca conseguira dominar.

— Nós vamos sobreviver — disse ela para si mesma, a voz endurecendo como o aço de uma faca Shu. — Mas não seremos sombras. Nunca mais.

O sol estava se pondo no horizonte, pintando o céu de laranja e violeta, cores que Clara não se permitia ver há muito tempo. Ela olhou para Kaz, Jesper e Inej — criminosos e párias, assim como ela agora era. O futuro era incerto e perigoso, mas pela primeira vez em séculos, o coração de Clara batia apenas para si mesma. E isso, ela percebeu, era a cura que ela sempre buscara.

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