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Bone

O Alvorecer das Sombras Renegadas

A viagem para o oeste foi um borrão de náusea e luto silencioso. Clara Kirigan sentia cada solavanco da carroça como se o próprio solo de Ravka estivesse tentando expulsá-la. Ela não falava com Alina, e o rastreador, Mal, mantinha uma distância respeitosa, embora seus olhos estivessem sempre carregados de uma desconfiança compreensível. Para eles, ela ainda era a extensão do monstro que os caçara. Para Clara, ela era apenas um náufrago em um mar de seda preta.

O destino era o "Canto dos Grisha", um refúgio secreto mantido pelo príncipe Nikolai Lantsov, o segundo filho do rei, um homem que Clara conhecia apenas por reputação como um audacioso e um rebelde. Quando a carruagem finalmente parou diante de um complexo fortificado, escondido entre as montanhas escarpadas, o ar frio da altitude cortou o rosto de Clara, trazendo-a de volta à realidade.

— Fique atrás de mim — instruiu Mal, a mão no punho da espada. — Nikolai pode ser um aliado, mas ele não é fã de surpresas, especialmente as que vêm vestidas com as cores do General.

Alina olhou para Clara, um lampejo de empatia cruzando seus olhos cansados.

— Ele vai entender, Clara. Você nos ajudou a escapar.

— Eu não ajudei você, Alina — respondeu Clara, a voz rouca pelo desuso. — Eu apenas parei de ajudar a ele. Há uma diferença.

O portão de ferro rangeu, revelando um pátio cheio de Grishas que não usavam keftas, mas roupas práticas de viagem e couro. No centro, um homem jovem, de cabelos loiros e um sorriso que parecia ensaiado para a diplomacia e a guerra, esperava por eles. Nikolai Lantsov cruzou os braços, observando o trio se aproximar.

— Starkov! Oretsev! — exclamou Nikolai, embora seus olhos tivessem se fixado imediatamente na figura mais curvilínea e sombria atrás deles. — Vejo que trouxeram a Conjuradora do Sol e... um problema diplomático de proporções catastróficas.

— Nikolai, precisamos de abrigo — disse Alina, dando um passo à frente. — E ela precisa de cuidados médicos.

O sorriso de Nikolai desapareceu instantaneamente. Ele caminhou até Clara, parando a uma distância segura, seus olhos azuis analíticos percorrendo o bordado de prata em suas mangas pretas.

— Clara Kirigan — disse ele, o tom desprovido de sua habitual leveza. — A esposa do Darkling. A mulher que, segundo os relatórios, é capaz de parar o coração de um exército sem mover um dedo. Você tem muita coragem de aparecer na porta do homem que quer derrubar seu marido.

— Eu não tenho mais marido, Príncipe — disse Clara, sustentando o olhar dele. — E eu não tenho coragem. Tenho apenas cansaço.

— Ela é uma Sangradora, Nikolai — interveio Mal. — E ela está grávida.

Um silêncio pesado caiu sobre o pátio. Os Grishas ao redor começaram a sussurrar. Nikolai estreitou os olhos, a mandíbula tensa.

— Você quer que eu abrigue a semente do homem que rasgou Ravka ao meio? Que eu dê asilo à mulher que foi o braço direito dele por séculos? — Nikolai balançou a cabeça. — Eu sou um homem de riscos, Starkov, mas isso beira a insanidade. Se o General descobrir que ela está aqui, ele transformará este refúgio em um cemitério em questão de horas. Eu não vou colocar meu povo em perigo por uma Kirigan.

— Ele não virá — disse Clara, sua voz falhando levemente, mas mantendo a dignidade. — Ele não pode vir.

Nikolai soltou uma risada curta e seca.

— O Darkling sempre volta. Ele é como uma infecção que Ravka não consegue debelar.

— Não desta vez — disse Alina, aproximando-se de Nikolai e falando em um tom baixo, mas firme. — Ele caiu na Dobra, Nikolai. Os Volcras o pegaram. Eu vi. Clara sentiu. O General Kirigan está morto.

O impacto daquelas palavras foi visível. Nikolai recuou um passo, a máscara de confiança vacilando por um breve segundo. Ele olhou novamente para Clara, notando as olheiras profundas, o modo como ela protegia o ventre com as mãos trêmulas e, acima de tudo, a ausência daquela aura de poder arrogante que sempre cercava os protegidos do General.

— Morto? — repetiu Nikolai. — O homem que viveu centenas de anos... simplesmente morreu em um esquife de areia?

— Ele se tornou vítima da própria criação — respondeu Clara, sentindo uma lágrima solitária escorrer, que ela limpou rapidamente com as costas da mão. — O vínculo que ele tentou forçar com a Conjuradora o enfraqueceu. Ele se foi, Príncipe. E tudo o que restou sou eu, uma mulher que ele tentou apagar, e uma criança que ele queria usar como arma.

Nikolai permaneceu em silêncio por um longo tempo, observando a neve começar a cair sobre os ombros largos de Clara. Ele viu a insegurança nela, a forma como ela parecia querer se esconder dentro do próprio kefta preto, um hábito de quem passou a vida sendo criticada pelo próprio corpo e pela própria existência.

— Muito bem — disse Nikolai, finalmente, relaxando a postura. — Se o monstro está morto, não há sentido em punir a sombra que ele deixou para trás. Mas entenda uma coisa, Clara Kirigan: aqui, você não é uma rainha. Você não é a esposa do General. Você é apenas mais uma Grisha tentando sobreviver.

— É tudo o que eu sempre quis ser — sussurrou ela.

Nikolai fez um sinal para dois de seus guardas.

— Levem-na para a ala leste. Chamem um curandeiro, mas mantenham-na sob vigilância. E, pelo amor dos Santos, alguém arranje roupas novas para ela. Esse preto está me dando dor de cabeça.

Clara foi conduzida para dentro da fortaleza. O interior era quente, cheirando a pinho e sopa de beterraba. O quarto que lhe deram era simples, mas limpo. Assim que a porta se fechou e ela ficou sozinha, Clara sentou-se na beira da cama e começou a desabotoar o kefta preto. Suas mãos tremiam tanto que ela levou minutos para soltar os fechos de prata.

Ela se levantou e caminhou até um espelho de corpo inteiro no canto do quarto. Pela primeira vez em muito tempo, ela se permitiu olhar sem o filtro do julgamento de Aleksander. Ela viu as curvas de seus quadris, a redondeza de seus braços, a suavidade de seu rosto que ele sempre dizia ser "excessiva". Ela se sentia pesada, não apenas pelo bebê, mas pelo peso de séculos sendo moldada por um homem que amava o poder mais do que a mulher à sua frente.

— Você não está mais aqui para me dizer o que vestir — murmurou ela para o reflexo. — Você não está aqui para me dizer que eu sou demais ou de menos.

Uma batida suave na porta a interrompeu. Uma jovem Grisha, uma Conjuradora de Marés com um sorriso gentil, entrou carregando um conjunto de roupas. Não era seda, mas lã macia e linho. E não era preto. Era um azul profundo, a cor do mar antes de uma tempestade.

— O Príncipe disse que a senhora talvez preferisse algo mais... confortável — disse a moça, colocando as roupas sobre a cadeira. — Eu sou Zoya. Se precisar de algo para as dores nas costas, o curandeiro está a duas portas de distância.

— Obrigada, Zoya — disse Clara, tocando o tecido azul. — E, por favor... não me chame de "senhora". Meu nome é apenas Clara.

Zoya assentiu e saiu, deixando Clara com o silêncio e a nova cor. Ela vestiu a túnica azul. O tecido abraçava suas curvas sem apertar, sem tentar escondê-la. Ela se sentiu estranha, quase nua sem a escuridão que a protegera e a aprisionara por tanto tempo.

Horas depois, Nikolai a convocou para o que ele chamava de "conselho de guerra improvisado". Clara entrou na sala de mapas, onde Alina, Mal e Nikolai discutiam sobre os próximos passos de Ravka. Quando ela entrou, o silêncio foi imediato. Nikolai a observou de cima a baixo, um brilho de aprovação nos olhos.

— O azul combina com você, Clara. Realça o fato de que você tem sangue nas veias, não apenas sombras.

— O que vai acontecer agora? — perguntou ela, ignorando o elogio. — Os Grishas no Pequeno Palácio entrarão em pânico quando souberem da morte dele. Alguns tentarão tomar o poder, outros fugirão.

— Exatamente — disse Nikolai, apontando para o mapa. — Ravka está um caos. Sem o General, o exército está sem liderança. E com a Conjuradora do Sol aqui, somos o alvo principal.

— Você precisa da ajuda dos Grishas que restaram — disse Clara, aproximando-se da mesa. — E eles não seguirão um príncipe que eles consideram um "otkazat'sya". Mas eles conhecem a mim. Eles sabem que eu era a única pessoa a quem Aleksander ouvia, mesmo que fosse apenas para manter as aparências.

Alina olhou para Clara com surpresa.

— Você quer ajudá-los a se organizar?

— Eu quero evitar que eles sejam massacrados — corrigiu Clara. — Eu sou uma Sangradora. Eu passei minha vida curando as feridas que Aleksander abria. Deixe-me fazer isso em uma escala maior.

Nikolai tamborilou os dedos na mesa, pensativo.

— Você está sugerindo que usemos sua influência como a "Viúva do General" para estabilizar as tropas Grisha? É um jogo perigoso.

— É o único jogo que temos — rebateu Clara. — Aleksander beijou a luz e foi consumido por ela. Ele deixou um vácuo. Se não o preenchermos com algo sólido, Ravka implodirá.

— E quanto ao seu filho? — perguntou Mal, sua voz menos hostil do que antes. — Você quer que ele nasça no meio de uma guerra?

Clara colocou a mão sobre o ventre, sentindo a pulsação constante de uma vida que ainda não conhecia o medo.

— Meu filho nascerá em um mundo onde ele não terá que se esconder em sombras pretas para ser aceito. Se para isso eu tiver que lutar, que assim seja.

Nikolai sorriu, desta vez um sorriso real, sem artifícios.

— Sabe, Clara, eu sempre achei que o General era a parte mais interessante da família Kirigan. Vejo que eu estava redondamente enganado.

Nos dias que se seguiram, Clara tornou-se uma presença constante no refúgio. Ela não era mais a mulher insegura que se encolhia nos cantos do Pequeno Palácio. Ela usava suas habilidades de Sangradora para ajudar os feridos que chegavam diariamente, manipulando o fluxo sanguíneo para acelerar cicatrizações e acalmar corações acelerados pelo trauma da Dobra.

Ela começou a comer melhor, parando de se punir por ter fome, parando de odiar a maciez de seu próprio corpo. Ela percebeu que sua força não vinha da magreza ou da perfeição estética que Aleksander parecia exigir silenciosamente, mas da resistência de seus músculos e da capacidade de seu espírito em suportar a dor.

Uma noite, enquanto caminhava pelas muralhas com Alina, a Conjuradora do Sol perguntou:

— Você ainda o ama?

Clara olhou para as estrelas, que pareciam tão distantes e frias.

— Eu amo o homem que ele poderia ter sido. O homem que ele era antes da Dobra, antes que o poder o tornasse cego. Mas o homem que beijou você, o homem que tentou usar nosso filho como uma ferramenta... esse homem eu não conheço. E esse homem eu não choro.

— Ele procurava por algo que nunca poderia ter — disse Alina, suspirando. — Ele queria ser amado e temido ao mesmo tempo. Mas o medo sempre acaba expulsando o amor.

— Ele nunca entendeu que o amor não é controle — disse Clara. — Ele me queria em preto para que eu fosse dele. Ele queria você em luz para que ele pudesse possuir o sol. Ele era um colecionador de almas, Alina. E eu finalmente escapei da prateleira dele.

De repente, um grito ecoou do pátio abaixo. Nikolai surgiu, correndo em direção a elas, seu rosto pálido sob o luar.

— Clara! Alina! Temos um problema.

— O que foi? — perguntou Clara, o instinto de Sangradora já em alerta, sentindo a adrenalina disparar no corpo de Nikolai.

— Nossos batedores... eles interceptaram uma mensagem vinda do sul. Há rumores, Clara. Rumores de que algo saiu da Dobra depois que vocês fugiram. Algo que não é Volcra, mas que caminha como um homem.

O coração de Clara falhou uma batida. Ela sentiu uma pontada de frio intenso no ventre, um pressentimento que a fez perder o fôlego.

— Não é possível — sussurrou ela. — Eu senti o coração dele parar. Eu senti o vínculo se quebrar.

— Talvez — disse Nikolai, a voz sombria. — Mas em Ravka, os mortos nem sempre têm a decência de permanecer enterrados. Especialmente quando eles têm assuntos inacabados com suas esposas.

Clara olhou para o horizonte escuro, onde a Dobra ainda manchava a paisagem como uma cicatriz purulenta. Ela não sentia medo, não da maneira antiga. Ela sentiu uma fúria fria e cortante.

— Se ele voltar — disse ela, sua voz soando como o estalar de gelo —, ele descobrirá que a Sangradora dele não cura mais as feridas dele. Ela aprendeu a abri-las.

Ela apertou o tecido azul de sua túnica, sentindo-se firme e presente. Se Aleksander Kirigan voltasse das cinzas, ele não encontraria a sombra submissa que deixara para trás. Ele encontraria uma mulher que aprendera a ocupar seu próprio espaço, a amar seu próprio corpo e a proteger seu próprio futuro.

A guerra estava longe de terminar, mas Clara Kirigan não estava mais vestida para um funeral. Ela estava vestida para a batalha. E desta vez, ela não lutaria por um rei das sombras, mas pela luz que ela mesma descobrira dentro de sua própria carne.

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