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Bone

O Sussurro da Obsidiana e a Promessa do Sangue

O vento uivava nas frestas das janelas de pedra da fortaleza de Nikolai, um som que lembrava a Clara os lamentos das almas perdidas na Dobra. Ela estava sentada em sua cama, as mãos repousando sobre a barriga que agora começava a exibir uma curvatura mais nítida sob o linho azul. A segurança do refúgio era uma ilusão frágil, algo que Nikolai Lantsov fazia questão de lembrar a todos, especialmente a ela.

Naquela tarde, o príncipe a chamara para a varanda fortificada, onde o mapa de Ravka estava estendido sobre uma mesa de carvalho. Nikolai parecia mais tenso do que o habitual, a jovialidade de sua voz mascarando uma preocupação genuína.

— Clara, precisamos ser pragmáticos — disse Nikolai, sem olhar para ela, os olhos fixos nas fronteiras de Fjerda. — Os rumores de que Aleksander sobreviveu não são apenas histórias de camponeses assustados. E se ele voltar, você sabe o que isso significa.

Clara sentiu um arrepio percorrer sua espinha, mas manteve o queixo erguido.

— Ele virá atrás da Conjuradora do Sol.

— Ele virá atrás de poder — corrigiu Nikolai, virando-se para encará-la. — E o que você carrega, Clara, é o ápice do que ele deseja. Um herdeiro com o sangue de dois Grishas poderosos. Ele não a verá como a esposa que ele amou, ou a mulher que ele traiu. Ele a verá como um receptáculo.

— Você fala como se ele fosse me matar — sussurrou ela, sentindo o ar esfriar ao redor.

— Eu não falo, eu afirmo — Nikolai aproximou-se, a voz caindo para um tom perigosamente baixo. — Se ele a vir novamente, ele a matará no momento em que a criança nascer para garantir que ninguém mais tenha influência sobre a linhagem. Ou talvez antes, se ele achar que pode extrair o que precisa de outra forma. Aleksander Kirigan não é um homem que perdoa desertores, nem mesmo aqueles que ele chamou de "querida".

Clara recuou, a mão instintivamente protegendo o ventre. A imagem de Aleksander, com seus olhos escuros e promessas de veludo, colidia com a descrição cruel de Nikolai. Ela queria negar, queria dizer que, sob toda aquela escuridão, ainda havia o homem que a envolvia em seda e dizia que ela era sua âncora. Mas a lembrança da fuga e da traição era uma ferida aberta.

— Eu sei do que ele é capaz, Nikolai — disse ela, a voz firme apesar do tremor interno. — Eu vi o que ele fez com a luz de Alina. Eu não sou tola.

— Então aja como tal — concluiu o príncipe. — Não se deixe enganar por memórias de um fantasma.

Naquela noite, a escuridão do quarto parecia mais densa, quase palpável. Clara adormeceu com as palavras de Nikolai ecoando em sua mente, mas o sono não trouxe o esquecimento. Trouxe a presença.

O sonho começou com o cheiro de sândalo e o frio de uma noite de inverno no Pequeno Palácio. Ela estava no grande salão, mas as paredes não eram de pedra; eram feitas de fumaça negra. No centro, Aleksander a esperava. Ele não usava o kefta de General, mas uma túnica simples, como o homem que ele fora antes da ambição o consumir inteiramente.

No sonho, ele se aproximou, e o toque de seus dedos em seu rosto era tão real que Clara sentiu os poros da pele se arrepiarem.

— Minha doce Clara — sussurrou ele, a voz ressoando dentro da mente dela, uma vibração que parecia vir do próprio sangue dela. — Você acha mesmo que eu faria mal a você ou que o bebê é mais importante?

Clara tentou se afastar, mas suas pernas pareciam presas ao chão de sombras.

— Nikolai diz que você vai me matar. Que eu sou apenas um receptáculo para sua linhagem.

Aleksander soltou um riso amargo, um som que carregava a dor de séculos. Ele deslizou a mão para o ventre dela, e Clara sentiu um calor intenso, uma eletricidade que a fez arfar.

— Meu amor, eu vivi com você por quatrocentos e cinquenta anos. Eu te amo loucamente — disse ele, os olhos negros fixos nos dela com uma intensidade que a queimava. — O bebê é só um resultado do nosso amor, uma extensão do que somos. Eu nunca te faria mal. Sim, eu te prenderia comigo, eu te trancaria no palácio mais seguro do mundo para que ninguém nunca mais ousasse olhar para você, mas mal eu nunca faria. Clara, pelo amor dos santos, eu te amo loucamente.

— Você beijou a Alina! — gritou ela no sonho, as lágrimas começando a cair. — Você me escondeu no preto, você me fez sentir pequena e insignificante!

— Eu te vesti de preto para que o mundo soubesse que você era parte da minha alma, e a minha alma é sombra — ele a puxou para perto, colando seus corpos. — O beijo foi política, foi uma mentira necessária para um mundo cruel. Mas o que temos... o que temos é eterno. Não deixe aquele príncipe tolo plantar veneno onde só deve existir devoção.

A cena mudou bruscamente. Eles estavam no quarto deles, o dossel da cama envolto em sombras que dançavam como amantes. Aleksander a beijou com uma urgência que Clara não sentia há anos, um beijo que prometia proteção e posse total. O prazer era uma onda avassaladora, fazendo-a esquecer a traição, a Dobra e o medo. Era o Aleksander que ela amava, o homem que a via como sua rainha absoluta.

Ela acordou com um sobressalto, o coração martelando contra as costelas. O quarto estava mergulhado no silêncio da madrugada, mas ela sentia a pele úmida e o corpo vibrando. Ela odiava o fato de que, mesmo depois de tudo, o toque dele — mesmo em sonho — ainda tinha o poder de desarmá-la.

Enquanto isso, em uma ala diferente da fortaleza, Nikolai Lantsov não tinha um sonho de desejo. Ele estava em um pesadelo de puro terror.

No sonho de Nikolai, ele estava sozinho na Dobra. A escuridão era absoluta, mas então, um par de olhos negros se abriu diante dele. Aleksander surgiu das sombras, mas ele não era mais o homem sedutor do sonho de Clara. Seu rosto estava marcado por cicatrizes de sombras sólidas, e a própria realidade parecia se curvar sob seus pés.

— Você está sendo muito ousado com a língua, Lantsov — disse a aparição, a voz soando como o atrito de pedras funerárias.

— Eu estou protegendo uma mulher que você aterrorizou — Nikolai tentou desembainhar sua espada, mas o metal se dissolveu em fumaça.

Aleksander agarrou Nikolai pela garganta com uma força sobre-humana. O príncipe sentiu o ar sumir, mas não era apenas asfixia; ele sentia as sombras entrando em seus pulmões, transformando seu sangue em gelo.

— Se você se aproximar novamente da minha mulher falando que eu a mataria, quem vai morrer é você — sibilou o Darkling, os olhos brilhando com uma fúria ancestral. — Ela é o amor da minha vida. Você é apenas um inseto rastejando no trono de um reino que já me pertence.

— Você a destruiu... — tentou dizer Nikolai, engasgando.

— Eu a criei! — rugiu Aleksander. — E eu a buscarei. Se você tocar nela, se você colocar uma ideia de traição na mente dela, eu farei você implorar pela morte. Eu rasgarei este reino pedra por pedra para recuperar o que me pertence. Ela é minha âncora. E você é apenas um obstáculo que eu vou esmagar.

Nikolai acordou gritando, caindo da cama e buscando desesperadamente por ar. Ele levou vários minutos para perceber que estava em seu quarto, seguro, mas o tremor em suas mãos não passava.

Pela manhã, o refeitório estava silencioso. Clara entrou, vestindo o azul que agora parecia uma armadura, mas seus olhos estavam carregados de uma exaustão profunda. Ela evitou o olhar de todos, sentindo-se exposta.

Nikolai estava sentado à cabeceira da mesa, bebendo um café forte, os olhos fixos em um ponto distante. Quando Clara se sentou, ele a observou por um longo momento, notando o pescoço dela ainda ruborizado.

— Você não dormiu bem — observou Nikolai, sua voz um pouco mais trêmula do que o normal.

— Foram apenas sonhos, Príncipe — respondeu ela, pegando um pedaço de pão.

— Sonhos são mensagens, Clara. Ou advertências — Nikolai inclinou-se para frente, a voz baixa. — Ele esteve comigo esta noite. Não foi um encontro agradável. Ele... ele pareceu muito convicto de que eu estou mentindo sobre as intenções dele.

Clara parou de comer. O coração dela falhou uma batida.

— O que ele disse para você?

Nikolai hesitou, passando a mão pelo pescoço onde, no sonho, as mãos de Kirigan o haviam apertado.

— Ele disse que você é o amor da vida dele. E que eu morreria se tentasse convencê-la do contrário.

Clara sentiu um chute forte em seu ventre. Ela olhou para as próprias mãos. Aleksander invadira os sonhos de ambos para marcar território, para provar que nem mesmo a distância ou a suposta morte poderiam quebrar o vínculo que ele forjara.

— Ele me disse que o bebê era o resultado do nosso amor — sussurrou Clara, as lágrimas turvando sua visão. — Ele jurou que nunca me machucaria. Que me prenderia, mas que me amava loucamente.

— E você acredita nele? — perguntou Nikolai, a urgência brilhando em seus olhos azuis.

Clara olhou para o horizonte, onde a Dobra ainda manchava a paisagem. Ela sentia a insegurança de seu corpo, a memória do preto que a escondia, mas também sentia o calor daquele beijo onírico.

— Eu acredito que ele acredita nisso — disse ela, finalmente. — Aleksander não sabe amar sem possuir. Ele não sabe ser um marido sem ser um mestre. Ele pode me amar loucamente, Nikolai, mas a loucura dele é o que destrói tudo o que ele toca.

— Ele está voltando — afirmou Nikolai, levantando-se. — E desta vez, ele não virá como um General. Ele virá como um homem que não tem nada a perder, exceto você.

Clara levantou-se também, sentindo a força de Sangradora pulsar em suas veias. Ela não era mais a sombra submissa. Se Aleksander Kirigan queria provar seu amor louco, ele teria que enfrentar a mulher que ele mesmo ensinou a ser implacável.

— Que ele venha — disse ela, a voz endurecendo. — Mas ele descobrirá que a Sangradora dele aprendeu a parar corações, inclusive o dele, se for para proteger o que restou da minha própria alma.

A guerra estava longe de terminar, mas Clara Kirigan não estava mais vestida para um funeral. Ela estava vestida para a sobrevivência. E no fundo de sua mente, o sussurro de Aleksander ainda ecoava, uma promessa sombria que ela teria que decidir se era sua salvação ou sua ruína final.

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