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Bone

O Sangue das Sombras e a Cicatriz da Eternidade

A Dobra das Sombras não era apenas uma barreira geográfica; era um organismo vivo, uma ferida aberta na carne de Ravka que pulsava com o ódio ancestral de seu criador. Clara sentia a pressão atmosférica mudar no momento em que o esquife reforçado de Nikolai atravessou a névoa de ébano. O ar tornou-se espesso, carregado com o cheiro de ozônio e morte. Como Sangradora, o sistema sensorial de Clara estava em alerta máximo; ela podia ouvir o fluxo sanguíneo errático de cada soldado a bordo, o ritmo acelerado de Alina Starkov e a batida calculada de Nikolai Lantsov.

Mas havia algo novo. Uma dissonância na escuridão.

— Eles estão vindo — sussurrou Alina, a luz em suas mãos oscilando entre o dourado puro e um branco ofuscante.

— Os Volcra? — perguntou Mal, a mão firme no arco.

— Não — respondeu Clara, sentindo um calafrio que não vinha do vento gélido. — Algo... mais denso. Algo que não respira como nós.

De repente, a escuridão à frente do esquife se rasgou. Não eram os gritos agudos dos Volcra que preencheram o ar, mas um silêncio absoluto e aterrador. Vultos feitos de sombra sólida, os *Nichevo'ya*, emergiram do nada. Eles eram criaturas de pesadelo, imunes ao corte do aço e resistentes até mesmo à luz da Conjuradora.

No centro daquele exército de sombras, uma figura se materializou.

Aleksander Kirigan estava de pé sobre a areia morta, sua silhueta envolta em um manto de escuridão que parecia devorar a pouca luz que Alina conseguia projetar. Ele não era mais o General impecável do Pequeno Palácio. Suas roupas estavam rasgadas, e a aura que emanava dele era de uma ferocidade primitiva.

— Aleksander... — o nome escapou dos lábios de Clara como um suspiro de agonia.

— Fique atrás de mim, Clara! — ordenou Nikolai, desembainhando sua espada.

Mas Kirigan não olhou para o príncipe. Seus olhos negros, profundos como o abismo, estavam fixos em Clara. A possessividade em seu olhar era quase física, uma corda invisível que a puxava em sua direção.

— Eu disse que voltaria por você — a voz dele ecoou, não através do ar, mas diretamente na mente de Clara, vibrando em seus ossos.

O ataque foi imediato. Os *Nichevo'ya* lançaram-se contra o esquife. O caos irrompeu em uma sinfonia de tiros, luz e gritos. Clara tentou usar seu poder para proteger os soldados, manipulando a pressão sanguínea dos atacantes, mas as criaturas não tinham sangue. Elas eram vácuo.

Em meio ao combate, um dos monstros de sombra rompeu a barreira de proteção e avançou em direção a Clara. Nikolai tentou interceptá-lo, mas foi arremessado para o lado com uma força brutal. Clara recuou, tropeçando em um cabo de amarração. A criatura ergueu uma garra de sombra sólida, pronta para descer sobre o ventre dela.

— Não! — o grito de Aleksander rasgou a Dobra.

Com um movimento violento de suas mãos, o General invocou o Corte, mas não contra os Grisha. Ele despedaçou sua própria criação antes que ela pudesse tocar Clara. No entanto, o impacto da explosão de energia sombria lançou Clara contra a amurada de madeira do esquife. Ela sentiu uma dor aguda no flanco e o calor do sangue escorrendo por sua perna.

— Clara! — Alina gritou, tentando alcançar a amiga, mas foi cercada por mais sombras.

Aleksander não esperou. Ele saltou sobre o esquife com uma agilidade sobrenatural. Soldados tentaram detê-lo, mas ele os afastou como se fossem bonecos de pano, sua única preocupação, seu único foco, era a mulher caída.

— Saiam da frente! — rosnou Kirigan, as sombras ao seu redor chicoteando qualquer um que se aproximasse.

Ele se ajoelhou ao lado de Clara, ignorando Mal que apontava uma arma para sua cabeça e Nikolai que tentava se levantar, ferido. Para Aleksander, o resto do mundo havia deixado de existir.

— Minha doce Clara... — a voz dele, antes fria, agora estava carregada de um pânico genuíno. — O que eles fizeram com você?

Clara gemeu, a mão pressionando o ferimento. Ela olhou para cima e, pela primeira vez, viu o rosto dele de perto sob a luz instável de Alina. O choque a fez esquecer a dor por um momento. O rosto de Aleksander, outrora a imagem da perfeição imortal, estava marcado. Três cicatrizes profundas e irregulares cortavam sua face, subindo da mandíbula até a bochecha, vestígios do ataque dos Volcra que quase o consumira.

— Você está ferido — sussurrou ela, a mão trêmula subindo para tocar o rosto dele.

Aleksander segurou a mão dela, pressionando-a contra a própria pele marcada.

— Isso não é nada. Você está sangrando. O bebê... — ele colocou a outra mão sobre o ventre de Clara, e ela sentiu o poder dele, não como uma ameaça, mas como um escudo, envolvendo-os em uma cúpula de escuridão impenetrável que barrava o mundo exterior.

— Afaste-se dela, Kirigan! — gritou Nikolai, tentando avançar contra a barreira de sombras.

Aleksander nem sequer se virou.

— Se você der mais um passo, Lantsov, eu farei com que suas entranhas se tornem pó — disse ele com uma calma gélida. — Eu avisei nos seus sonhos. Ela é minha.

— Eu não sou sua propriedade, Aleksander — disse Clara, a voz fraca, mas firme. — Mas você salvou... você salvou nosso filho.

— Eu salvaria o mundo ou o destruiria por você, Clara. Você ainda não entendeu? — ele a pegou nos braços com uma delicadeza que contrastava com a carnificina ao redor. — Eu vou tirar você daqui.

— Você não pode levá-la! — Alina gritou, sua luz brilhando intensamente contra a cúpula de sombras. — Você vai destruí-la!

Aleksander olhou para a Conjuradora do Sol com um desprezo profundo.

— Você quase a deixou morrer com sua luz incompetente. Ela precisa de cura. Ela precisa de mim.

Ele olhou novamente para Clara, e a dureza em seus olhos derreteu-se em uma súplica silenciosa.

— Deixe-me cuidar de você. Por favor.

Clara olhou para as cicatrizes no rosto dele. Elas eram feias, profundas, e contavam a história de um homem que havia atravessado o inferno. Por um instante, a insegurança dela sobre o próprio corpo, sobre ser "demais" ou "insuficiente", desapareceu. Ele estava quebrado, assim como ela se sentia quebrada.

— Aleksander... seu rosto... — ela tocou as marcas com as pontas dos dedos. — Dói?

— Só dói quando você não está comigo — respondeu ele, encostando a testa na dela. — O resto é apenas carne.

— Você é um homem terrível — sussurrou ela, sentindo o cheiro de sândalo e sombras que sempre a embriagava.

— Eu sou o homem que ama você — ele a apertou mais contra o peito. — E eu nunca mais vou deixar que o preto seja a sua única cor, se é isso que você deseja. Mas você virá comigo. Agora.

Clara sentiu o pulso dele através de sua habilidade de Sangradora. Estava frenético, aterrorizado pela possibilidade de perdê-la. Ela olhou para Nikolai e Alina, que observavam a cena com horror e impotência. Ela sabia que, se ficasse, a guerra continuaria a usá-la como peça de tabuleiro. Se fosse com ele... ela seria prisioneira, sim, mas seria a rainha de um reino de sombras que, naquele momento, parecia o único lugar onde ela poderia respirar.

— Leve-me — disse ela, fechando os olhos.

Aleksander soltou um suspiro de alívio que pareceu um vendaval. Ele se levantou, carregando-a como se ela fosse o tesouro mais leve e precioso de Ravka.

— Kirigan, não! — Nikolai disparou, mas as sombras de Aleksander explodiram em uma onda de choque que jogou todos os presentes para trás, derrubando o esquife de lado.

Em um piscar de olhos, o General e a Sangradora desapareceram na névoa da Dobra, deixando para trás apenas o eco de um amor que era, ao mesmo tempo, a salvação e a perdição de ambos.

Horas depois, em um acampamento oculto nas profundezas da escuridão, Clara estava deitada sobre peles macias. Aleksander não a deixara por um segundo. Ele mesmo havia limpado o ferimento dela, usando seus conhecimentos e chamando os melhores curandeiros Grisha que ainda lhe eram leais, vigiando cada movimento deles com olhos de falcão.

Agora, sozinhos sob a luz de uma única lanterna, Clara observava-o enquanto ele se sentava ao lado dela. Ele estava exausto, as sombras ao seu redor retraídas, revelando a vulnerabilidade que ele só mostrava a ela.

— Por que você voltou, Aleksander? — perguntou ela, a voz suave. — Você poderia ter conquistado o mundo sozinho.

Ele estendeu a mão e acariciou a bochecha dela, o polegar passando perto de suas próprias cicatrizes.

— O mundo não vale nada sem a minha âncora. Eu beijei a Starkov porque achei que a luz era a solução. Mas eu estava errado. A luz apenas cega. É na escuridão, Clara, que eu consigo ver você de verdade.

Clara sentou-se com dificuldade e puxou-o para mais perto. Ela não sentia mais a necessidade de se esconder. Ela olhou para as cicatrizes dele e, com um gesto de ternura, beijou cada uma das marcas em seu rosto.

— Você está horroroso — brincou ela, as lágrimas brilhando nos olhos.

Aleksander soltou uma risada curta, a primeira em muito tempo que soava humana.

— E você continua sendo a mulher mais bonita que já caminhou por Ravka. Curvas e tudo.

Ele a puxou para um beijo, não um beijo de posse ou de política, mas um beijo de desespero e reencontro. Clara sentiu o bebê chutar entre eles, um pequeno lembrete de que a vida continuava, mesmo no coração das trevas.

— Eu não vou perdoar você facilmente pelo que fez — avisou ela, contra os lábios dele.

— Eu tenho a eternidade para conquistar o seu perdão — respondeu Aleksander, envolvendo-a em seu manto. — E eu não pretendo desperdiçar nem um segundo.

Ali, no centro da Dobra, cercados por monstros e pelo ódio do mundo, o General das Sombras e sua Sangradora encontraram um equilíbrio frágil. Clara sabia que ele ainda era um homem perigoso, um homem que o mundo temia. Mas, enquanto sentia o coração dele batendo contra o seu, ela percebeu que, para Aleksander Kirigan, ela não era apenas uma esposa ou uma Grisha. Ela era a única luz que ele realmente permitia que brilhasse em sua alma.

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