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Bone

O Sussurro da Carne e da Sombra

A escuridão da Dobra era absoluta, um manto de veludo negro que parecia devorar qualquer tentativa de luz. Dentro da tenda fortificada de Aleksander, o silêncio era apenas quebrado pelo estalido das brasas em um braseiro de ferro e pelo som da respiração pesada de Clara. Ela estava deitada sobre camadas de peles de lobo, sentindo o peso reconfortante da mão de Aleksander sobre seu ventre. Ele não a soltara desde que a resgatara do esquife de Nikolai, como se temesse que, ao fechar os olhos, ela se dissolvesse em fumaça.

— Você precisa descansar, Aleksander — sussurrou ela, observando as olheiras profundas que marcavam o rosto dele, competindo com as cicatrizes recentes deixadas pelos Volcra. — Você mal fechou os olhos desde que chegamos a este acampamento.

Aleksander inclinou-se, beijando a testa dela com uma ternura que ele reservava apenas para os momentos de maior vulnerabilidade.

— O mundo lá fora está desmoronando, Clara. Nikolai e a Conjuradora do Sol não vão desistir. Mas aqui, dentro desta sombra, nada pode tocar em você. Nem neles.

Ele se referia ao bebê, a promessa de uma linhagem que ele agora protegia com uma ferocidade quase maníaca. No entanto, enquanto ele falava, algo mudou. A voz de Aleksander falhou, e um tremor percorreu seus ombros largos. Ele tentou se afastar, virando o rosto para o lado, mas Clara foi mais rápida. Ela sentiu a mudança na pressão atmosférica ao redor dele, o ar ficando denso e frio.

Subitamente, uma tosse violenta e seca rasgou o peito de Aleksander. Ele se dobrou sobre si mesmo, pressionando um lenço de seda contra a boca. Não era uma tosse comum. Era um som cavernoso, como se algo estivesse tentando escapar de seus pulmões. Clara sentou-se rapidamente, ignorando a pontada de dor em seu flanco ferido.

— Aleksander! — Ela estendeu a mão para as costas dele, sentindo os músculos retesados como cordas de aço.

Quando ele finalmente parou, retirando o lenço, Clara viu o horror. Não havia apenas sangue. Manchas de uma substância negra e viscosa, como tinta de obsidiana, manchavam o tecido branco. E o mais aterrorizante: pequenas sombras, como fios de fumaça sólida, evaporavam do lenço antes de desaparecerem no ar.

— O que é isso? — perguntou ela, a voz tremendo. — Aleksander, o que está acontecendo com você?

— Não é nada — disse ele, a voz rouca, tentando esconder o lenço nas dobras de seu manto. — Apenas o preço de invocar os *Nichevo'ya*. Eles exigem um tributo. É o peso da *merzost*.

— Não é nada? — Clara forçou-o a encará-la, suas mãos de Sangradora buscando o pulso dele. — Seu coração está batendo como se estivesse tentando romper suas costelas, e seu sangue... Aleksander, eu sinto o frio dentro de você. As sombras estão consumindo seus órgãos. Elas estão vivas dentro de você!

Ela fechou os olhos, concentrando-se em seu poder. Como Sangradora, ela podia ver a arquitetura interna do corpo humano. O que ela viu dentro de Aleksander a deixou sem fôlego. Onde deveria haver vitalidade, havia lacunas de escuridão. As criaturas que ele criara para serem seu exército estavam, literalmente, enraizadas em sua essência, drenando sua vida para manterem sua forma física.

— Pare com isso — ordenou ela, as lágrimas começando a descer. — Pare de invocá-los. Você está morrendo por dentro.

— Eu não posso parar! — rugiu ele, embora a força de sua voz tenha sido interrompida por um novo acesso de tosse. — Sem eles, eu não posso protegê-la. Sem eles, a Dobra cairá e Nikolai a levará de volta para ser uma peça em seu jogo político. Eu prefiro ser consumido pelas sombras do que ver você sob o controle de outro homem.

— Você é um tolo! — Clara agarrou o rosto dele, forçando-o a olhar para ela. — Você acha que eu quero um trono construído com o seu cadáver? Você me trouxe de volta para ser sua rainha, mas o que eu serei se você se transformar em fumaça?

Aleksander segurou os pulsos dela, seus olhos negros brilhando com uma mistura de amor e loucura.

— Eu sou eterno, Clara. Eu sobrevivi a séculos. Sobreviverei a isso.

— Não se você continuar se rasgando ao meio! — Ela tentou usar seu poder para acalmar o coração dele, para forçar as sombras a recuarem, mas a *merzost* era uma força antinatural que repelia a ordem Grisha. Ela sentiu uma pontada aguda em seu próprio ventre, um lembrete físico de que suas emoções estavam afetando o bebê.

Aleksander percebeu imediatamente. O pânico em seu rosto superou a dor da tosse.

— Clara... o bebê.

— Ele sente o meu medo, Aleksander. Ele sente a sua dor — disse ela, ofegante. — Você diz que quer nos proteger, mas está nos matando de preocupação. Se você continuar assim, eu não terei paz para carregar esta criança até o fim.

O General das Sombras pareceu murchar diante dela. O homem que desafiara reis e santos parecia, naquele momento, apenas um marido aterrorizado pela própria fragilidade. Ele jogou o lenço manchado no braseiro e sentou-se na beira da cama, puxando Clara para o seu colo com uma possessividade desesperada.

— Perdoe-me — sussurrou ele contra o pescoço dela. — Eu não queria que você visse isso. Eu não queria que você carregasse esse fardo.

— Eu já carrego o seu nome e o seu filho, Aleksander. Não há fardo maior do que o seu silêncio — respondeu ela, enterrando o rosto no ombro dele. — Por favor, deixe-me ajudar. Deixe-me ser sua Sangradora, não apenas sua esposa.

Aleksander afastou-se apenas o suficiente para olhar nos olhos dela. Ele viu a determinação, mas também viu a insegurança que ainda residia lá — a mulher que se achava "demais" para o mundo, mas que era o mundo inteiro para ele. Ele odiava vê-la sofrer, especialmente por causa dele.

— Você não deve se preocupar — disse ele, sua voz tornando-se subitamente profunda e aveludada, o tom que ele usava quando queria seduzir a própria realidade para que ela se dobrasse à sua vontade. — A preocupação é um veneno para o que cresce em você. E eu conheço uma cura melhor do que qualquer erva ou feitiço.

Clara sentiu o clima na tenda mudar. O ar, antes carregado de morte e doença, tornou-se subitamente quente, saturado com o desejo dele. Aleksander começou a desamarrar as fitas da túnica azul dela, seus dedos longos e pálidos movendo-se com uma precisão deliberada.

— Aleksander, você está fraco... — tentou protestar ela, mas a voz saiu como um suspiro.

— Eu nunca estou fraco demais para você, Clara — disse ele, a voz vibrando contra a pele dela. — Deixe-me provar que ainda sou carne e osso. Deixe-me tirar esse medo de você da única maneira que sei fazer.

Ele a deitou suavemente sobre as peles, cobrindo o corpo dela com o seu. Clara sentiu a solidez dele, a força dos músculos que contradizia a substância negra que ele tossira momentos antes. Quando ele a beijou, não havia o gosto de sangue ou sombras, mas o sabor familiar de sândalo e uma paixão que séculos não conseguiram esfriar.

As mãos de Aleksander percorreram as curvas de Clara com uma adoração que beirava o religioso. Ele nunca a vira como "gorda" ou "excessiva"; para ele, ela era a abundância da vida, a prova física de que a beleza não precisava de ângulos agudos para ser letal. Ele beijou a curva de seus quadris, a maciez de seu ventre, e Clara sentiu a insegurança derreter sob o calor da possessividade dele.

— Você é minha — sussurrou ele entre os beijos. — Cada centímetro. Cada batida desse coração.

— E você é meu — respondeu ela, puxando-o para mais perto, querendo fundir sua vida à dele para que as sombras não tivessem espaço para crescer. — Não se atreva a me deixar, Aleksander. Não se atreva a morrer.

— Eu não poderia morrer nem se o inferno me reclamasse — disse ele, os olhos fixos nos dela. — Não enquanto você for o meu paraíso.

O ato que se seguiu foi uma batalha contra a morte. Aleksander amou-a com uma intensidade que buscava apagar a mancha da *merzost* de sua alma. Em cada toque, em cada gemido, ele reafirmava sua existência física. Clara entregou-se a ele, deixando que o prazer substituísse o terror que sentira ao ver o sangue negro. Naquele momento, dentro do círculo de sombras da tenda, não havia Dobra, não havia guerra e não havia monstros. Havia apenas o ritmo compartilhado de dois corações que se recusavam a parar.

Quando o êxtase finalmente os alcançou, deixando-os ofegantes e entrelaçados, o silêncio que se seguiu foi, pela primeira vez, pacífico.

Clara repousou a cabeça no peito de Aleksander, ouvindo o coração dele. Estava mais calmo agora, o ritmo estabilizado pelo contato com a vitalidade dela. Ela sentiu o bebê se mexer, um movimento suave que fez Aleksander sorrir na penumbra.

— Viu? — sussurrou ele, acariciando o cabelo dela. — Ele está calmo agora. Você está calma.

— Por enquanto — disse ela, fechando os olhos. — Mas as sombras ainda estão lá, Aleksander. Eu sinto elas. Elas estão esperando.

Aleksander apertou-a mais forte, seus olhos voltando-se para a entrada da tenda, onde a escuridão da Dobra parecia observar.

— Deixe que esperem. Elas podem ter o meu corpo no final, se esse for o preço. Mas elas nunca terão você. E enquanto eu respirar, eu garantirei que você nunca mais tenha que vestir o preto por luto, apenas por escolha.

Clara não respondeu. Ela queria acreditar nele, queria acreditar que o amor dele era mais forte que a corrupção que ele mesmo convidara para dentro de si. Mas, enquanto caía em um sono sem sonhos, ela não pôde deixar de notar que, mesmo no calor do abraço dele, as pontas dos dedos de Aleksander permaneciam frias como o gelo.

Ele ficaria acordado, ela sabia. Ele vigiaria o sono dela, lutando contra a tosse negra e contra os fantasmas de seu próprio poder, um rei caído tentando proteger sua última centelha de humanidade. E Clara, a Sangradora que aprendera a amar um monstro, sonhou com um mundo onde o azul de sua túnica não fosse uma armadura, mas apenas a cor de um céu que eles talvez nunca voltassem a ver.

Lá fora, a Dobra rugiu, mas dentro da tenda, por algumas horas, o General das Sombras era apenas um homem, e a mulher em seus braços era a única luz que realmente importava.

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