Burn it
Cinética da Corrupção
O silêncio que preencheu o gabinete era tão denso que o som da respiração descompassada de Jeon Jungkook parecia o único ruído existente no mundo. A artéria carótida do professor pulsava contra os lábios entreabertos de Jimin, que permanecia imóvel, sentindo o calor febril da pele morena contrastando com a frieza milimétrica de seus próprios pensamentos.
Jungkook não se moveu de imediato. A mente do docente, habituada a decifrar a volatilidade de substâncias instáveis, processava o choque daquela proximidade. Nenhum aluno jamais havia ousado encostar um dedo nele. Muito menos um herdeiro loiro, cujo olhar vazio sempre parecera desprovido de qualquer pulso de humanidade. No entanto, o aperto de Jimin em seu colarinho era implacável, revelando uma força física proporcional à compleição atlética escondida sob as camadas escuras do moletom.
Um segundo se passou. Então, com um movimento brusco e calculado, Jungkook usou seu peso e altura para girar o corpo contra a escrivaninha. Seus braços cobertos de tinta preta flexionaram-se com violência, desvencilhando-se do aperto com a precisão de quem sabia como lutar. Em vez de recuar para criar distância, o professor avançou, prensando Jimin contra a parede adjacente à porta trancada, com o antebraço direito travado contra o peito do rapaz.
A madeira da parede rangeu com o impacto surdo. Os olhos escuros de Jungkook faiscavam, carregados de uma fúria rebelde e de uma curiosidade sombria que ele não se deu ao trabalho de esconder.
— Você tem muita coragem, moleque — Jungkook sussurrou, a voz raspando na garganta, grossa e áspera. — Ou você é completamente louco, ou não tem a menor noção de com quem está se metendo.
Jimin não piscou. Suas costas batiam na parede, mas sua postura permaneceu ereta, impassível. Nem mesmo a respiração havia acelerado. Para Jimin, a agressão física não passava de pura física mecânica: alavancas, pontos de pressão, vetor de força.
— Coragem é um conceito para quem sente medo, professor — Jimin rebateu, o tom de voz tão gélido quanto o mármore de uma lápide. Ele inclinou a cabeça levemente para trás, encarando Jungkook de cima a baixo com um desdém refinado. — Eu não sinto medo. Eu apenas calculo resultados.
— E você calculou as consequências de me prensar na minha própria mesa e fazer ameaças baratas sobre o meu trabalho? — Jungkook apertou o antebraço contra o peitoral delineado de Jimin, sentindo a solidez dos músculos do garoto sob o tecido. Havia uma tensão magnética e perversa entre os dois corpos, uma proximidade sufocante onde a linha entre o ódio mortal e uma atração doentia se tornava quase invisível. — Acha mesmo que sabe de alguma coisa sobre mim?
— Eu sei que o lote C-4 de éter dietílico e anidrido acético que sumiu do almoxarifado do subsolo não evaporou por causa de uma vedação frouxa — Jimin disse, articulando cada sílaba com calma letal. — Sei que você assinou o laudo de descarte como "perda por avaria térmica", mas o sistema de controle de temperatura nunca registrou variação além de três décimos de grau na data carimbada.
Jungkook estreitou os olhos. A pressão de seu braço contra Jimin não diminuiu, mas os nós dos seus dedos empalideceram.
— Como você teve acesso à rede do almoxarifado? — O professor rosnou, o rosto a centímetros do de Jimin. — Aquilo é criptografado. Nem mesmo a coordenação tem a chave primária dos sensores.
— Para quem passa os fins de semana entendendo códigos e sínteses enquanto os outros se embebedam em festas universitárias, o firewall deste campus é uma piada patética — respondeu Jimin, a sombra de um sorriso cruel surgindo nos lábios bem desenhados. — Eu passei anos da minha vida criando formulações químicas que geraram milhões de dólares para as indústrias da minha família antes mesmo de ter barba para fazer. Você acha mesmo que um professor arrogante com ficha limpa forjada conseguiria esconder as próprias falhas de mim?
Jungkook respirou fundo, absorvendo a magnitude da criatura à sua frente. As histórias sobre Park Jimin não eram meros boatos de corredor. A frieza lendária, a apatia no velório dos pais, a ausência total de empatia que todos rotulavam como psicopatia... tudo aquilo era real. Mas havia algo a mais: uma inteligência cirúrgica, implacável e perversamente bela.
— Seus pais... — Jungkook murmurou, sua mente montando as peças de um quebra-cabeça que a maioria da cidade temia sequer tocar. — Aquele império farmacêutico que implodiu em esquemas federais. As fraudes contábeis, as transferências fantasmas antes do barco desaparecer... Não foram apenas eles, foram? Você estava no meio daquela merda toda.
Jimin permaneceu inexpressivo. Seus olhos negros e fundos absorveram a menção ao passado com uma indiferença calculada.
— O que meus pais fizeram ou deixaram de fazer não é da sua conta — cortou Jimin, sem alterar o tom. — E para onde eles foram, se é que foram para algum lugar, também não lhe diz respeito. O que importa aqui é o presente. O seu presente, professor Jeon. E o meu dez.
Jungkook sustentou o olhar do aluno. O silêncio voltou a pesar entre eles, mas a dinâmica havia mudado. A superioridade acadêmica de Jungkook havia ruído diante do abismo que era a mente de Park Jimin. E, para alguém como Jeon Jungkook, um homem que desprezava as convenções e vivia à beira da legalidade pela pura adrenalina de desafiar as regras, a periculosidade daquele garoto não inspirava pavor.
Inspirava fascínio.
Lentamente, Jungkook afrouxou a pressão contra o peito de Jimin. Ele não recuou completamente; em vez disso, deslizou a mão tatuada pela lateral do corpo do rapaz até pousar sobre a escrivaninha de madeira, mantendo-o encurralado entre seu braço e a parede.
— Você é um desgraçado arrogante, Park — disse Jungkook, a voz agora carregada de um tom rouco, uma mistura perigosa de admiração forçada e provocação explícita.
— Eu sou eficiente — Jimin corrigiu, ajeitando a postura sem desviar os olhos dos dele. — Nove vírgula seis é a nota de alguém que cometeu uma imprecisão. Eu não cometo imprecisões.
— A química não é sobre perfeição, garoto. A química é sobre controle do caos — Jungkook murmurou, inclinando-se um pouco mais, sentindo o calor gélido, quase magnético, que emanava de Jimin. O perfume de hortelã e couro impregnava o ar ao redor deles. — Mas você... você quer controlar tudo ao seu redor como se as pessoas fossem meras moléculas obedientes em um tubo de ensaio.
— As pessoas são previsíveis demais para serem chamadas de caos — Jimin devolveu, fitando os lábios de Jungkook por um breve segundo antes de encarar novamente seus olhos escuros. — Elas têm ambições fracas, medos fáceis e fraquezas óbvias. Você, por exemplo. O que o move, Jeon? O tédio? O dinheiro por fora desviando reagentes para pequenos laboratórios clandestinos nos becos de Itaewon? Ou o simples prazer de se sentir superior aos idiotas que pagam mensalidade aqui?
Jungkook soltou uma risada baixa, rouca e vibrante, que ecoou contra as paredes frias do gabinete. O som era genuinamente divertido, desprovido de qualquer amargura.
— Você fala demais para alguém que quase não abre a boca durante o semestre — Jungkook disse, esticando o outro braço para alcançar a caneta vermelha sobre a mesa, sem quebrar o contato visual por um único instante.
Ele pegou a caneta, tirou a tampa com os dentes em um gesto deliberadamente bruto e jogou a ponta plástica de volta sobre a madeira. Seus olhos nunca deixaram as íris afiadas de Jimin.
— O projeto celular — Jungkook começou, o tom arrastado, quase confidencial. — O laboratório da cidade não é um ambiente comum. O que eles desenvolvem lá envolve pesquisas de linhagens puras que o governo finge não ver. Você sabe disso, não sabe?
— Por que outro motivo eu perderia meu tempo me inscrevendo? — Jimin retrucou com frieza. — Não estou interessado em sintetizar aspirina para monografias medíocres.
— Se eu assinar essa nota máxima, Park... Se eu colocar o meu nome na carta de recomendação que vai te garantir aquela vaga amanhã de manhã, você vai estar sob a minha responsabilidade direta.
— Eu não preciso da sua tutela.
— Você precisa da minha assinatura — Jungkook cortou, a voz caindo para uma tonalidade firme, recuperando a autoridade que o loiro tentara arrancar à força. — E neste departamento, ninguém entra naquele laboratório sem ser o meu indicado oficial. O que significa que você vai ter que me tolerar por muito mais do que apenas três aulas teóricas por semana.
Jimin sustentou a intensidade do olhar de Jungkook. Por uma fração de segundo, uma centelha de reconhecimento passou entre os dois. Eram dois monstros de naturezas diferentes, trancados em uma sala iluminada por lâmpadas fluorescentes, fingindo desempenhar os papéis de mestre e aprendiz enquanto mediam o calibre de suas próprias armas.
— Mude a nota — exigiu Jimin, dando um passo à frente, fechando o pouco espaço que restava entre os dois. A proximidade era tão extrema que o tecido do moletom de Jimin roçava na camisa entreaberta de Jungkook. — E eu me encarrego de fazer valer cada linha daquela indicação.
Jungkook encarou a boca do garoto, a respiração quente e pausada, o rosto esculpido com traços aristocráticos que escondiam uma escuridão sem fundo. Havia algo doentio no desejo repentino que o atingiu: a vontade visceral de arrancar aquela máscara de indiferença, de quebrar a postura inabalável daquele herdeiro até que ele perdesse o controle por completo.
Mas não ali. Não daquela forma. Aquele era apenas o começo de um jogo muito mais longo e perigoso.
— Muito bem, Park — Jungkook sussurrou, a voz descendo a um sussurro conspiratório.
O professor virou-se lentamente para a mesa. Puxou a folha do teste dobrada, alisando o papel amassado com as mãos grandes e tatuadas. Sob o olhar atento e predatório de Jimin, Jungkook posicionou a caneta vermelha sobre o número impresso.
Com um traço firme e decidido, riscou o "9,6". Logo ao lado, em caligrafia angulosa e agressiva, escreveu:
*10,0.*
Abaixo da nota, assinou seu nome completo com o floreio habitual e adicionou o carimbo do departamento que tirou de uma gaveta entreaberta.
— Está feito — disse Jungkook, soltando a caneta sobre a madeira.
Jimin estendeu a mão com movimentos calmos e precisos, puxando a folha de papel para si. Seus olhos varreram a tinta vermelha ainda fresca, certificando-se de que cada detalhe, cada fração daquele número estivesse perfeitamente legível e inquestionável. Não havia satisfação visível em seu rosto. Não havia um sorriso triunfante de adolescente. Apenas a constatação estóica de que a realidade finalmente havia se dobrado à sua vontade, como sempre deveria ter sido.
Ele dobrou o teste com precisão geométrica em três partes e o guardou no bolso interno de seu casaco.
— O prazo de submissão do sistema expira às oito horas — Jimin relembrou, a voz voltando à sua neutralidade costumeira, como se minutos atrás não estivesse segurando o professor pelo pescoço. — Certifique-se de que a validação digital esteja no portal antes desse horário.
— Não precisa me dizer como fazer o meu trabalho — respondeu Jungkook, apoiando os quadris contra a borda da escrivaninha e cruzando os braços musculosos sobre o peito. Ele observou o garoto com um sorriso de canto, cínico e provocador. — Mas me diga uma coisa, Jimin...
Jimin parou a meio passo da porta, a mão já próxima à tranca metálica. Ele não se virou completamente, apenas lançou um olhar sobre o ombro, o capuz do moletom projetando sombras sobre seus cabelos dourados.
— O quê?
— A história sobre a Lisa — Jungkook disse, a voz cheia de uma malícia velada, desprovida de qualquer vergonha. — Você realmente achou que eu estava comendo aquela garota por aqui?
Jimin inclinou a cabeça levemente.
— Eu não acho nada, professor Jeon. Eu apenas sei que ela entra nesta sala com as bochechas coradas e sai com os botões do jaleco desalinhados duas vezes por semana. Se você fode ou não com ela, é irrelevante. O que me importava era a quebra de conduta como alavanca. Agora, com a nota alterada, as suas indiscrições voltam a ser um problema exclusivamente seu.
Jungkook soltou uma risada anasalada, balançando a cabeça em uma descrença fascinada.
— Você é um sociopata fascinante, sabia disso?
— As pessoas usam termos clínicos quando não compreendem a lógica de quem não se deixa guiar por fraquezas emocionais — Jimin respondeu, destrancando a porta com um clique metálico suave. Ele puxou a maçaneta, abrindo uma fresta para o corredor deserto e mergulhado na penumbra do final da noite.
Antes de sair, Jungkook deu dois passos lentos em sua direção, parando a uma distância curta o suficiente para que apenas o loiro pudesse ouvir suas palavras finais.
— A partir de amanhã, Jimin, você está no projeto. E eu vou estar em cada etapa dos seus relatórios. No laboratório, não existem portas fechadas com trancas simples nem testes teóricos para você manipular com ameaças. Lá dentro, você vai trabalhar sob a minha supervisão direta.
Jimin virou o rosto apenas o suficiente para que seus olhos escuros encontrassem os de Jungkook uma última vez naquela noite.
— Então certifique-se de manter o nível alto, professor — Jimin sussurrou, a voz afiada como vidro quebrado, o olhar desprovido de qualquer calor humano. — Seria uma vergonha se o seu melhor aluno descobrisse que você é a parte mais descartável daquela sala.
Sem esperar por uma resposta, Park Jimin abriu a porta, ajustou o capuz sobre a cabeça e colocou os fones de ouvido nos ouvidos, desligados como sempre.
Ele caminhou pelo corredor vazio em passos firmes, silenciosos e metódicos, sentindo o peso do papel com o dez perfeito contra as costelas. Atrás dele, Jeon Jungkook permaneceu encostado no batente da porta, observando a figura escura do garoto loiro desaparecer na penumbra do campus, com um sorriso perigoso desenhado nos lábios e a pulsação ainda acelerada sob a pele tatuada do pescoço.
O jogo havia começado. E nenhum dos dois tinha a menor intenção de jogar pelas regras.