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Sementes no Escuro
O estalo do rádio cortou o ar como um chicote, mas a linha não emudeceu de verdade. Um zumbido de baixa frequência continuou a vibrar pelos autofalantes improvisados no teto, preenchendo a sala ampla com a respiração pesada do homem a quilômetros dali.
Paris Anderson não havia terminado.
O silêncio no Ponto Ômega era tão espesso que se podia ouvir a água pingando de uma tubulação enferrujada no fundo da galeria. Dezenas de rebeldes continuavam paralisados, as mãos crispadas sobre fuzis, os olhos cravados em Clara como se ela fosse um explosivo prestes a detonar. Ela permanecia encolhida no caixote de metal, com os nós dos dedos brancos de tanto apertar o tecido cinzento do uniforme emprestado contra o próprio peito.
E então, o chiado do transmissor diminuiu, dando lugar novamente àquela voz grave, aveludada e aterrorizante.
— Há mais um detalhe, meus caros insurgentes — Paris murmurou, e dessa vez sua entonação carregava uma lentidão quase carinhosa, o tipo de veneno doce que ele reservava apenas para os aposentos privados. — Clara pensa que sabe guardar segredos. Ela sempre foi ingênua, sempre acreditou que suas mudanças sutis passariam despercebidas aos meus olhos. Mas eu conheço cada centímetro daquele corpo. Conheço o calor da sua pele, o ritmo das suas noites mal dormidas, as náuseas matinais que ela tentou disfarçar atrás de portas trancadas.
Um calafrio violento percorreu a espinha de Clara. Ela sentiu o ar faltar nos pulmões, como se o chão tivesse desaparecido sob seus pés.
— Ela carrega o meu sangue — a voz de Paris ressoou, com uma autoridade que parecia sacudir a própria terra batida sobre as cabeças de todos. — Ela carrega o herdeiro do Restabelecimento. O meu filho.
O mundo pareceu girar. Clara fechou os olhos com força, afundando a cabeça entre os joelhos, enquanto lágrimas quentes e desesperadas escorriam por suas bochechas redondas.
*Ele sabe. Meu Deus, ele sabe.*
— Se um único arranhão for encontrado nela quando eu a recuperar — continuou Paris, a voz caindo para um sussurro cruel, despido de qualquer humanidade —, se o fruto da minha linhagem sofrer o menor dano nas mãos imundas de vocês... eu não apenas matarei cada rebelde neste continente. Eu farei com que os seus entes queridos assistam à sua agonia antes de transformá-los em comida para os cães das patrulhas. Cuidem bem da minha esposa. Vocês estão guardando o futuro do mundo.
Um clique definitivo ecoou. Desta vez, a transmissão morreu por completo, deixando apenas um silêncio estarrecedor e mortal.
Ninguém se mexeu durante vários segundos.
— Esposa? — A palavra escapou da boca de Kenji Kishimoto não como uma pergunta, mas como um sopro estrangulado de pânico. Ele deu três passos na direção de Clara, com os olhos castanhos arregalados, a postura outrora descontraída agora completamente rígida. — Esposa? E um... um filho dele?
Clara não conseguia responder. O casaco parecia sufocá-la, mas suas mãos agiram por puro instinto protetor, deslizando para baixo, espalmando-se sobre a curva macia de seu ventre. Ela mal havia entrado no segundo mês. A barriga farta e curvilínea que sempre tivera escondia com facilidade o início da gestação, mas Paris... Paris percebia tudo. Ele sempre a tocava com uma adoração obsessiva, decorando cada centímetro de sua carne com a precisão de um escultor insano.
— Meu Deus — murmurou Juliette Ferrars, dando um passo para trás, as mãos enluvadas cobrindo a boca aberta em choque. Ela olhava para Clara como se não estivesse mais vendo uma companheira de sofrimento, mas uma assombração. — Clara... isso é verdade?
Castle deu a volta na mesa de mapas com passos rápidos, o rosto austero marcado por uma severidade implacável.
— Responda à pergunta, Clara — ordenou o líder, com uma frieza tática que contrastava brutalmente com a acolhida calorosa de horas antes. — Você é a esposa de Paris Anderson?
— Eu... — Clara tentou falar, mas sua voz saiu como um gemido quebrado. Ela ergueu a cabeça devagar, sentindo-se nua diante do tribunal de olhares que a cercava. A vergonha era uma chama que a queimava por dentro. — Sim.
Kenji passou as mãos pelos cabelos com força, soltando uma risada nervosa e sem humor, girando nos calcanhares antes de apontar o indicador acusador para ela.
— Você está brincando com a minha cara! Nós arriscamos a pele de cinco soldados de elite! Invadimos o complexo mais vigiado da porra do continente para salvar uma mulher que achávamos ser uma prisioneira política torturada... e você é a dona daquele império? A mulher daquele psicopata?
— Eu não queria nada daquilo! — Clara soluçou, as lágrimas finalmente transbordando em um fluxo incontrolável. As bochechas estavam manchadas de vermelho, o peito farto subindo e descendo em descompasso. — Vocês não entendem! Quando eu me casei com ele, eu não sabia... ele mantinha tudo escondido de mim! Ele me dava presentes, me cercava de carinho, dizia que governava para proteger as pessoas...
— Ele extermina vilarejos inteiros por esporte! — gritou Kenji, abaixando-se para ficar na altura dela, os olhos faiscando em fúria e puro medo. — Paris Anderson é o diabo em pele de general! Você sabe o que ele fez com o próprio filho? Você sabe quem é o Warner?
Clara recuou o quanto pôde contra o caixote de metal, assustada com a proximidade e a intensidade do rapaz.
— O Aaron... — ela sussurrou, a voz fraca. — Paris sempre disse que o filho era frio, que era ingrato...
— Ingrato? — Kenji soltou outra risada histérica, olhando ao redor como se procurasse sanidade no teto de concreto. — Ele quebrou o garoto, Clara! Ele pegou uma criança e a torturou psicologicamente até que ela esquecesse como sangrar! O Warner tem cicatrizes nas costas que você nem conseguiria olhar sem vomitar! Ele forçava o filho a atirar em animais indefesos, o trancava no escuro por dias só para 'construir caráter'. Ele transformou o próprio sangue em uma arma sem alma!
As palavras atingiram Clara como pedras afiadas. O ar escapou de seus pulmões. Ela sabia que a relação de Paris com Aaron Warner era tensa, pontuada por visitas raras e olhares cortantes durante jantares formais onde o garoto mal tocava na comida, mas Paris sempre justificava a distância dizendo que o rapaz precisava amadurecer para a liderança.
— E você acha que com você vai ser diferente? — continuou Kenji, o tom agora mais baixo, carregado de um terror sombrio que fez os outros soldados no salão engolirem em seco. — Você acha que essa obsessão nojenta dele por você vai salvar essa criança? Se você voltar para ele, ou se ele nos alcançar, ele vai trancar você em um quarto e arrancar esse bebê de você assim que nascer. Ele vai moldar essa criança para ser outro monstro sanguinário. Ou pior: se o bebê nascer com alguma fraqueza, se não for perfeito nos padrões doentios dele, ele vai descartar os dois como lixo.
— Kenji, já chega! — Juliette interveio, aproximando-se com passos rápidos, colocando uma mão cautelosa no ombro do garoto para afastá-lo. O olhar da jovem estava nublado por uma tristeza profunda. — Olhe para ela. Ela está aterrorizada. Não precisamos aterrorizá-la mais.
— Ela precisa entender a merda em que nos colocou, Juliette! — Kenji rebateu, mas deu um passo para trás, passando a mão no rosto suado. — O Anderson não vai negociar. Ele nunca negociou. Ele tem bombardeiros aéreos que podem transformar esse setor em vidro derretido antes do meio-dia. Ele nos deu doze horas. Doze horas para devolver a esposa e o filho dele, ou seremos todos dizimados!
Castle permaneceu em silêncio por um longo momento, observando Clara com olhos calculistas. A postura paternal do líder do refúgio havia se dissolvido, substituída pela frieza de um general que precisa pesar vidas em uma balança desfavorável.
— Por que você fugiu, Clara? — perguntou Castle, com uma calma assustadora. — Se você tinha o amor dele, o luxo, a proteção da mais alta patente do mundo... por que correu para o perigo conosco?
Clara respirou fundo, tentando conter o tremor violento que sacudia seu corpo rechonchudo. Suas mãos não abandonavam a própria barriga, um escudo desesperado e inútil contra a tempestade que a cercava.
— Porque eu vi — disse ela, a voz firme o bastante para que todos no salão a ouvissem, apesar do choro que ainda molhava seu rosto. — Eu encontrei a chave da ala restrita do escritório dele três noites atrás. Ele esqueceu na gaveta após uma reunião de emergência.
Juliette inclinou-se ligeiramente para a frente, atenta.
— O que você viu lá dentro?
— Listas — respondeu Clara, e a lembrança trouxe uma náusea tão vívida que seu estômago se contorceu. — Ordens de execução assinadas à mão. Relatórios de crianças que foram tiradas de suas mães para testes nos laboratórios de biologia... porque ele queria ver se a dor extrema ativava mutações genéticas. Eu vi fotografias de corpos empilhados como lenha enquanto ele jantava comigo, sorrindo, me beijando, me dizendo que o mundo lá fora estava em paz graças ao trabalho dele.
Clara olhou diretamente nos olhos de Kenji, recusando-se a baixar a cabeça.
— Quando os alarmes soaram na noite passada, eu sabia que se ficasse... eu me tornaria cúmplice. E quando senti meu corpo mudar nas últimas duas semanas, quando percebi que havia uma vida crescendo aqui dentro... — A voz dela falhou, quebrando-se sob o peso da dor. — Eu percebi que nunca permitiria que o meu filho respirasse o mesmo ar que Paris Anderson. Eu preferia morrer no escuro com vocês a deixar aquele monstro colocar as mãos nessa criança.
Um silêncio pesado desceu sobre a sala.
Kenji desviou o olhar, a raiva em sua expressão dando lugar a uma frustração impotente. Ele soltou um suspiro pesado e chutou uma caixa vazia no chão.
— Parabéns — murmurou ele, com a voz amarga. — Agora você vai morrer no escuro. E nós vamos junto com você.
— Kenji — repreendeu Castle, severo. O homem mais velho caminhou até Clara e parou a dois passos de distância, com as mãos cruzadas atrás das costas. — Você compreende a gravidade da nossa situação, minha jovem? Nós temos centenas de pessoas abrigadas neste complexo. Crianças órfãs, doentes, famílias que já perderam tudo para o Restabelecimento. Paris Anderson não blefa. Se o prazo dele expirar... ele cumprirá a promessa.
— Eu sei — Clara sussurrou, o coração batendo descompassado contra as costelas. — Eu sei do que ele é capaz.
— Você acha que ele hesitaria em machucar você? — Juliette perguntou suavemente, ajoelhando-se ao lado dela mais uma vez, mantendo uma distância segura por causa de seu toque letal. — Ele falou com tanta possessividade...
— Paris não me machucaria fisicamente — Clara respondeu, sentindo um gosto amargo na língua. — Para ele, eu sou a única coisa sagrada em um mundo que ele considera desprezível. Mas essa adoração é uma jaula, Juliette. Ele me trancaria em uma torre de marfim, cortaria meus laços com qualquer outro ser humano, doparia meus sentidos se achasse que isso me impediria de fugir. E o meu filho... — Ela olhou para Kenji, lembrando-se das palavras dele sobre Aaron Warner. — Kenji tem razão. Paris trataria a criança como uma extensão do poder dele. Ele destruiria a alma do meu bebê antes mesmo que ele aprendesse a falar.
Castle olhou para o relógio de pulso.
— Temos onze horas e quarenta minutos.
— O que nós vamos fazer? — perguntou um dos soldados ao fundo, a voz tingida de ansiedade. — Não podemos enfrentar o exército pessoal do Comandante Supremo. Não com o armamento que temos aqui. Se entregarmos a garota...
— Nós não entregamos ninguém! — Juliette cortou, levantando-se bruscamente, os olhos brilhando com uma intensidade feroz. — Nós resgatamos Clara porque ela precisava de ajuda. Não nos tornamos melhores do que o Restabelecimento se jogarmos uma mulher grávida de volta nas garras daquele homem para salvar nossa própria pele!
— Não seja idiota, Juliette! — Kenji explodiu, gesticulando amplamente. — Não é uma questão de honra militar, é matemática! Uma vida contra centenas! E não é qualquer vida, é a mulher dele! Ele não vai matá-la! Ele mesmo disse isso!
— Ele vai destruí-la! — rebateu Juliette, dando um passo à frente, desafiando Kenji com o olhar. — Você ouviu o jeito que ele falou? Aquilo não é amor, é uma doença! Se ela voltar para lá, estará morta por dentro, e a criança será criada para nos matar no futuro!
— Parem! — A voz de Clara cortou a discussão como um grito rasgado.
Os dois se calaram, surpresos com a força repentina que emanou da mulher até então encolhida. Clara se levantou do caixote, as pernas vacilando ligeiramente pelo peso da exaustão, mas a coluna ereta. Suas curvas macias e o rosto inchado pelo choro não apagavam a determinação sombria que tomou conta de seus olhos castanhos.
— Eu não pedi para ser salva para que vocês morressem no meu lugar — disse ela, a respiração entrecortada, as mãos ainda firmes sobre o ventre. — Se Paris vier até aqui, ele não deixará sobreviventes. Eu conheço a mente dele. Mesmo se vocês me entregarem amarrada na porta do setor, ele matará cada um de vocês simplesmente porque ousaram me ver sem a permissão dele. Ele odeia o fato de que outros homens respiraram o mesmo ar que eu nas últimas vinte e quatro horas.
Kenji empalideceu levemente, percebendo a verdade brutal por trás daquela lógica distorcida.
— Ele é tão doentio assim? — sussurrou o garoto.
— Pior — Clara afirmou, um tremor percorrendo seus lábios. — Muito pior.
Castle cruzou os braços, a testa franzida em vincos profundos de preocupação.
— Então a rendição nunca foi uma opção real.
— Não — disse Clara, engolindo em seco. — Ele nunca perdoa uma ofensa ao seu orgulho. E eu sou o maior orgulho dele.
O silêncio voltou a reinar no bunker, mas desta vez não era a paralisia do choque, e sim o peso sufocante de uma sentença de morte iminente. O relógio imaginário parecia ecoar nas paredes úmidas de concreto, cada segundo aproximando a tempestade de fogo e aço que Paris Anderson traria sobre a terra.
Clara olhou para as próprias mãos, macias, sem calos de armas, mas cheias de um propósito novo e desesperado. Ela não era uma guerreira. Não tinha o toque mortal de Juliette, nem a invisibilidade de Kenji, nem a sabedoria tática de Castle. Mas conhecia o monstro melhor do que qualquer um ali. Conhecia suas fraquezas, seus pontos cegos, o veneno que ele bebia todas as noites acreditando ser carinho.
Ela acariciou o ventre por baixo do casaco áspero uma última vez, sentindo a promessa silenciosa daquela nova vida contra sua palma.
— Não vamos nos render — disse Clara, encarando Castle com uma frieza que ela própria desconhecia até aquele momento. — Mas se quisermos que este lugar sobreviva ao amanhecer, vocês terão que parar de me ver como uma vítima indefesa. E começar a me usar como a única fraqueza que Paris Anderson tem no mundo.