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Adoração Profana

O eco das palavras de Clara ainda vibrava contra as paredes de rocha nua e concreto do Ponto Ômega. A respiração curta e pesada de quase cinquenta combatentes enchia a sala de comando com um calor asfixiante. Ninguém se movia. Ninguém ousava desviar os olhos da mulher que, até meia hora atrás, era apenas uma civil desamparada, mas que agora se revelava o centro de gravidade de uma guerra prestes a dizimar a todos.

Kenji foi o primeiro a soltar um riso rouco, esfregando o queixo com força, a mandíbula tensa.

— Usar você como fraqueza? — Ele deu um passo à frente, com a voz carregada de uma incredulidade beirando o desespero. — Clara, com todo o respeito à sua coragem recém-descoberta, você enlouqueceu de vez. Você não tem uma arma. Não tem um dom sobrenatural. Você tem uma barriga com o filho dele e uma certidão de casamento com o maior carniceiro do hemisfério norte. Que tipo de barganha você acha que pode oferecer a um homem que acabou de prometer queimar a atmosfera?

— A minha rendição — respondeu Clara, com uma firmeza que nem ela mesma sabia de onde havia tirado.

Juliette deu um sobressalto, os olhos arregalados de horror.

— Não! — Ela se aproximou, mas parou a um palmo de distância, contendo o próprio impulso de tocar em Clara para não feri-la com seu poder letal. — Clara, não faça isso. Você não pode se entregar. Se você voltar para aquele lugar, ele vai trancá-la em uma jaula. Vai punir você pela fuga! Ele vai… meu Deus, ele pode fazer coisas terríveis com você para garantir que nunca mais tente escapar.

— Juliette tem razão — interveio Castle, a voz pesada como uma lápide. — O histórico de Paris Anderson não deixa margem para dúvidas. Ele é um homem implacável. Quando rebeldes do Setor 30 tentaram uma negociação de trégua entregando reféns no ano passado, ele mandou executar tanto os reféns quanto os enviados da paz na mesma sala. Ceder a ele nunca garantiu a sobrevivência de ninguém.

— Mas vocês não são o que ele quer — rebateu Clara, sentindo o suor frio escorrer pela nuca, mas sustentando o olhar cinzento e analítico do líder da resistência. — Ele não se importa com o Ponto Ômega agora. Ele não se importa com a rebelião, nem com o Setor 45, nem com as leis do Restabelecimento. Eu conheço o olhar daquele homem quando algo que ele considera precioso é arrancado de suas mãos. Ele é cego pela própria sede de controle. Se vocês tentarem lutar, ele vai transformar este refúgio em um túmulo coletivo antes do meio-dia. Ele tem poder de fogo para isso e não hesitará.

Ela puxou o ar com força, pousando as mãos trêmulas sobre a curva macia de sua cintura, descendo até o ventre que ainda não mostrava visualmente o milagre — e a maldição — que carregava.

— Abram o canal de transmissão — ordenou Clara, o tom assumindo uma autoridade inesperada, quase régia, nascida dos anos de convivência silenciosa no topo da cadeia alimentar daquele império. — Coloquem-me na mesma frequência aberta em que ele falou. Agora.

Winston olhou hesitantemente para Castle, esperando a confirmação do líder. Castle encarou Clara demoradamente, avaliando as bochechas coradas pelo calor febril da angústia, o corpo farto e curvilíneo que tremia levemente, mas cuja espinha permanecia reta, inquebrantável.

— Se abrirmos essa linha, ele terá uma confirmação de que você está viva e consciente entre nós — advertiu Castle.

— Ele já sabe — disse ela, amarga. — Abram a frequência.

Castle assentiu com um movimento curto de cabeça. Winston engoliu em seco e começou a manipular os seletores do painel improvisado de metal. O zumbido estático retornou, cortante, aumentando de volume até que um canal aberto de alta potência conectou o bunker subterrâneo diretamente aos transmissores militares que cercavam o perímetro de superfície.

Kenji empurrou um microfone de haste flexível na direção dela, com o cenho franzido em puro desgosto.

— Vai em frente — murmurou o rapaz, em tom baixo e amargo. — Ofereça a própria cabeça para a guilhotina. Vamos ver quanto tempo leva para aquele sociopata mandar o carrasco arrancar a sua pele.

O microfone estava ligado. A sensibilidade do aparelho captou cada sílaba murmurada por Kenji, bem como a resposta angustiada de Juliette logo atrás:

— Não fale assim, Kenji! O homem é um sádico! Se ela pedir clemência, ele vai quebrá-la pedaço por pedaço até que ela implore para morrer…

— Silêncio! — cortou Clara, respirando fundo e aproximando os lábios do metal frio do captador de áudio.

Do outro lado da linha, antes mesmo que Clara pudesse pronunciar uma palavra, o ruído ambiente mudou. Não havia mais a música marcial ou o tom burocrático de fundo do exército. Havia apenas uma respiração acelerada, entrecortada por uma ferocidade quase animal que parecia sacudir a própria estática do rádio.

— Clara? — O chamado veio baixo, rouco, despido de qualquer máscara de general. A voz de Paris Anderson parecia prestes a rasgar o alto-falante. Era um som visceral, desesperado. — Clara, fale comigo. Diga que é você.

Clara fechou os olhos por uma fração de segundo, o cheiro de cedro, couro e tabaco do marido assombrando sua mente com uma clareza dolorosa.

— Sou eu, Paris — disse ela, a voz saindo surpreendentemente estável pelo rádio.

Um suspiro longo, que soou quase como um soluço estrangulado de alívio puro, ecoou do outro lado da frequência militar.

— Meu amor… — murmurou ele, a voz quebrando em uma adoração febril que fez os soldados rebeldes na sala se entreolharem, chocados. — Você está viva. Você está inteira. Eu senti o vazio daquela cama esta manhã e pensei que… Deus, Clara, eu pensei que tinham tirado você de mim para sempre. Onde você está? Diga-me onde esses animais a esconderam e eu mandarei meus homens arrancá-la desse buraco agora mesmo.

— Não ouse dar mais um passo com suas tropas — retrucou Clara imediatamente, sentindo o coração martelar nas têmporas. — Escute com muita atenção o que eu vou dizer, Paris. Eu estou no comando desta conversa.

Houve uma pausa gélida na transmissão.

— Você está o quê? — o tom dele oscilou, a confusão misturando-se à fúria contida.

— Eu estou negociando a minha entrega — disse Clara, com clareza cristalina. — Eu voltarei para a residência oficial. Eu subirei até o portão sul do Setor 45 desarmada, caminhando por minha própria vontade. Mas você vai ordenar o recuo imediato de todos os esquadrões de elite. Vai suspender o toque de recolher e vai jurar, por tudo o que você considera sagrado, que não tocará em um único fio de cabelo de nenhuma pessoa deste refúgio. Se um único tiro for disparado, se uma única bomba cair sobre este solo… você nunca mais verá a mim ou a esta criança.

— Uma criança que nem vai nascer se você voltar para as garras dele! — gritou Kenji ao fundo, incapaz de conter a raiva e o pânico, esquecendo-se da sensibilidade do microfone aberto. — Ele vai prender você em uma masmorra, Clara! Ele vai torturar você até o parto só para punir sua rebeldia! É isso que monstros fazem!

O silêncio que se seguiu na linha foi tão absoluto que parecia que a conexão havia sido interrompida.

Por três segundos intermináveis, ouviu-se apenas o estalo elétrico da transmissão.

E então, Paris explodiu.

O som que saiu dos alto-falantes do Ponto Ômega não foi o discurso de um comandante frio e calculista, mas o rugido ensurdecedor de uma fera que acabara de ver sua divindade ser profanada por bocas impuras.

— Quem… diabos… disse isso? — A voz de Paris saiu em um crescendo aterrorizante, tremendo de pura, absoluta e descontrolada fúria. — QUEM DISSE ISSO?

O impacto do grito fez Winston pular para trás na cadeira, enquanto Kenji engoliu em seco, arregalando os olhos para a mesa de som.

— Como você ousa? — rosnava Paris, o fôlego rascante, o ódio vazando por cada fonema como ácido sulfúrico derramado sobre ferro. — Como qualquer um de vocês, vermes insignificantes que rastejam na lama, ousa insinuar que eu tocaria um único dedo nela para causar-lhe dor? Vocês perderam o resto do instinto de preservação que seus cérebros degenerados ainda possuem?

Juliette deu um passo à frente, tomada pela indignação, inclinando-se na direção do microfone com a respiração alterada:

— Nós sabemos quem você é, Anderson! O mundo inteiro sabe o sádico que você é! Você quebrou o seu próprio filho! Você extermina civis sem piscar! Por que fingir agora que tem humanidade? Você vai destruir a vida dela assim como destrói tudo o que toca!

— Cale a sua maldita boca antes que eu ordene a dessecação química do solo onde você pisa! — rugiu Paris, a voz tornando-se medonha de tão carregada. Ele bateu com o punho fechado em alguma superfície metálica do outro lado da linha, o estalo soando como um tiro de canhão. — Vocês não sabem nada! Vocês não entendem a menor fração do que Clara é para mim!

Ele respirou fundo, puxando o ar de maneira ruidosa, mas a fúria em seu tom não diminuiu; apenas refinou-se em uma promessa de carnificina desenfreada.

— Eu sou um carniceiro para a sua escória rebelde? Sim, eu sou! — ele vociferou, as palavras cuspindo desprezo absoluto. — Eu executo desertores? Eu fuzilo traidores? Eu queimei cidades inteiras para consolidar o poder do Restabelecimento? Sim! Eu faria tudo de novo cem vezes! O mundo lá fora é esterco e cinzas! Eu não sinto remorso por nenhuma vida que arranquei deste planeta deplorável! Mas Clara? MACHUCAR A MINHA ESPOSA?

Uma risada sombria, quase enlouquecida, cortou a transmissão por um breve instante, seguida por um tom tão baixo e íntimo que parecia sussurrado diretamente no ouvido de cada pessoa na sala.

— Eu colocaria este império de joelhos aos pés dela se ela me pedisse — disse Paris, a voz trêmula de devoção violenta. — Eu arrancaria o meu próprio coração do peito com as mãos nuas se isso garantisse que ela respirasse mais um segundo neste mundo. Eu daria a minha vida, gota por gota, para mantê-la segura. Cada centímetro macio daquele corpo é o único pedaço de santidade que eu encontrei nesta existência miserável. Eu nunca encostei a mão nela com ira. Eu nunca levantei a voz para ela no silêncio do nosso quarto! Eu a cubro de sedas, eu a venero como a uma deusa, e vocês… seus ratos patéticos… vocês ousam dizer que eu a torturaria?

As lágrimas voltaram a queimar os olhos de Clara. Ela levou a mão à boca, sufocando um soluço amargo. Era a mais pura e distorcida verdade. Ele era um carrasco para a humanidade, mas nos braços dela, ele era um servo apaixonado, beijando cada curva de seus quadris largos, enterrando o rosto em seu ventre macio, sussurrando loucuras de adoração na penumbra. O problema nunca fora a violência física contra ela; o problema era que aquele amor era uma abominação construída sobre montanhas de cadáveres inocentes.

Kenji estava imóvel, com o rosto completamente desprovido de cor. Até mesmo Juliette parecia atordoada pela intensidade maníaca daquela declaração.

— Paris — Clara chamou, a voz quebrando a torrente de fúria do marido. — Paris, chega. Pare.

Do outro lado, a respiração violenta cessou quase que instantaneamente. O silêncio do Comandante Supremo tornou-se dócil, quase submisso ao simples som do nome dele pronunciado por ela.

— Clara… — ele sussurrou, a voz subitamente mansa, o veneno dando lugar a uma urgência desesperada. — Diga que você sabe disso, meu bem. Diga que você sabe que eu jamais faria mal a você. Eu fiquei louco nessas últimas vinte e quatro horas. Eu destruí metade do comando central porque achei que você estava com medo, no escuro, passando frio… Você não comeu as refeições adequadas, Clara. Você precisa de descanso. Esse lugar imundo não é para você nem para o nosso bebê.

— Eu não me importo com o luxo, Paris — disse ela, as lágrimas escorrendo livremente pelo queixo redondo, pingando no tecido áspero do uniforme cinzento. — Eu vi o seu escritório. Eu vi as ordens de massacre. Eu vi o sangue de milhares de pessoas nas suas mãos. Você é um monstro.

Uma pausa pesada se instalou na linha. Paris não negou. Não tentou se justificar. Para ele, nada daquilo importava.

— O mundo é o que é, Clara — ele disse, com uma tristeza gélida e estranha. — Mas você é o meu mundo. Se você quiser que eu queime as listas, eu queimo. Se você quiser que eu nunca mais pise naquele escritório, eu nunca mais piso. Mas não fique aí. Não com eles. Volte para mim.

— Apenas sob as minhas condições — ela insistiu, o tom voltando a ser cortante. — Você jurará que nenhum soldado seu se aproximará deste setor. Você não vai caçar o Ponto Ômega. Não haverá retaliação contra ninguém que me acolheu. Se eu subir e ver uma única arma apontada para cá, eu juro pela vida do filho que carrego que me jogarei do penhasco do vale antes que seus guardas possam me segurar.

O ar pareceu ser sugado para fora do rádio. O pavor na voz de Paris quando ele respondeu era genuíno, palpável, um medo visceral que nenhum exército rebelde jamais havia conseguido incutir no tirano.

— Não diga isso! — ele gritou, o desespero fazendo sua voz falhar miseravelmente. — Não ouse falar isso nem em tom de brincadeira, Clara! Pelo amor de Deus… afaste essa ideia da sua cabeça!

— Então prometa — exigiu ela, o queixo erguido, encarando o microfone como se estivesse fitando os olhos gélidos do marido. — Prometa que vai deixá-los em paz.

— Eu prometo! — a resposta veio rápida, atabalhoada, sem qualquer resquício da dignidade do Comandante Supremo. — Eu juro pela minha vida, pela vida do nosso filho, pela minha alma! Eu ordenarei o recuo imediato de todos os esquadrões para além da linha norte! Ninguém vai tocar neste lugar! Mas suba, Clara… por favor. Venha para a superfície. Eu estarei esperando sozinho no portão sul. Só eu e você.

Clara olhou para Castle, que a fitava em estado de choque silencioso. Juliette cobria o rosto com as duas mãos enluvadas, e Kenji parecia incapaz de formular um pensamento coerente, encarando o rádio como se fosse um milagre grotesco.

— Eu estarei lá em uma hora — disse Clara, a voz embargada pela dor de sua sentença autoimposta. — E Paris?

— Sim, meu amor?

— Não se atreva a quebrar a sua palavra.

Ela desligou o interruptor de transmissão com um movimento seco.

O silêncio que caiu sobre o Ponto Ômega era completamente diferente daquele de minutos antes. Não era mais a antecipação do massacre, mas a perplexidade diante do impossível. A fera mais temida do continente havia acabado de se ajoelhar e implorar, domesticada não por armas ou superpoderes, mas pela existência de uma única mulher comum.

Kenji soltou o ar que parecia estar prendendo há uma eternidade. Ele olhou para Clara, da cabeça aos pés, como se a estivesse vendo pela primeira vez.

— Ele realmente daria a vida por você — murmurou o garoto, a voz despida de qualquer sarcasmo, quase assustada com a dimensão daquela loucura. — Aquele monstro… ele morreria por você.

— Eu sei — respondeu Clara, sentindo um vazio desolador abrir-se em seu peito. Ela passou a mão pelos cabelos castanhos desgrenhados e começou a desabotoar o casaco cinzento do refúgio, preparando-se para encarar o frio da superfície. — É por isso que essa jaula é a mais perigosa de todas.

Juliette deu um passo hesitante na direção dela, os olhos marejados de empatia dolorosa.

— Você não precisa fazer isso sozinha, Clara. Nós podemos… nós podemos tentar escondê-la…

— Não há esconderijo no mundo onde ele não me encontre, Juliette — Clara interrompeu suavemente, oferecendo à jovem um sorriso triste e resignado. — Se eu ficar, todos vocês morrem. Se eu for, vocês vivem para continuar lutando. E talvez… apenas talvez, enquanto eu estiver ao lado dele, eu consiga impedir que mais sangue seja derramado.

Ela caminhou lentamente até a escadaria de metal que levava aos túneis de saída. O corpo macio pesava a cada degrau, não pela gravidez incipiente, mas pelo fardo colossal de retornar voluntariamente para os braços do abismo.

Clara sabia que Paris a receberia com lágrimas nos olhos, com carícias febris e promessas sussurradas contra sua pele macia. Ele a trancaria em uma prisão feita de ouro, seda e beijos possessivos. Mas enquanto ela caminhasse de volta para o fogo daquela adoração doentia, o resto do mundo teria mais um dia para respirar.

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