CALÇA AZUL
Apostas, Pulmões e Outras Tragédias Modernas
O sucesso de Rafael com Clara, a lendária "Calça Azul", deveria ter sido um farol de esperança para o grupo de amigos da JM. No entanto, para Miguel e Matheus, aquilo serviu apenas como um catalisador para uma inveja profunda e uma conclusão perigosa: se o destino podia ser tão generoso com um sujeito que tinha o carisma de um tijolo molhado, o universo certamente estava distribuindo milagres. E eles queriam a sua parte, de preferência em dinheiro vivo.
Enquanto Rafael vivia seu romance bucólico entre cafés e discussões sobre semântica, Miguel e Matheus estavam sentados no fundo da lanchonete, encarando a tela de um celular com o brilho no máximo.
— Cara, você viu o sorriso do Rafael? Aquele maluco não ganha nem no par ou ímpar e agora tá lá, de mãos dadas com a garota mais mística do campus — comentou Miguel, cutucando uma coxinha fria com o garfo. — Isso é sinal. O cosmos está desalinhado a nosso favor.
Matheus, cujos olhos refletiam a interface colorida e frenética de um aplicativo de apostas, assentiu freneticamente.
— É a lei da compensação, Miguel. Se ele ganhou no amor, a gente tem que ganhar no jogo. Olha isso aqui: "Bet67 — Onde a sorte encontra o desespero". É o destino chamando.
— Quanto a gente tem? — perguntou Miguel, já puxando a carteira que continha apenas algumas notas amassadas de dez reais e um comprovante de recarga de passe de ônibus.
— Somando o meu dinheiro do aluguel, a sua reserva da formatura e aquele cinquentinha que eu peguei "emprestado" da conta da minha avó... temos dois mil reais — calculou Matheus, com a confiança de quem já se via em uma Ferrari. — Se a gente colocar tudo na vitória do Operário de Várzea Grande contra o Real Madrid no amistoso virtual, o retorno é de cinquenta vezes.
— É um plano infalível — sentenciou Miguel, os olhos brilhando com a ganância. — O que pode dar errado?
Enquanto os dois mergulhavam no abismo da ludopatia, Ruan estava sentado no banco de sempre, sob a sombra rala de uma árvore que parecia estar morrendo junto com ele. Ele tragou o cigarro com uma força que fez suas bochechas encovarem. Mas, desta vez, algo foi diferente. Em vez da habitual nuvem de fumaça densa e satisfatória, o que saiu de seus pulmões foi uma tosse seca, profunda, que parecia arrancar pedaços de sua alma.
Ele olhou para o lenço que usara para cobrir a boca. Manchas escarlates pontilhavam o tecido branco. Ruan deu de ombros, acendendo outro cigarro com a brasa do anterior.
— É, parece que o filtro finalmente venceu a corrida — murmurou para si mesmo, com a voz mais rouca do que o normal.
Nesse momento, Gabriel passou correndo, olhando para trás como se estivesse sendo perseguido por uma horda de amazonas enfurecidas. Ele parou perto de Ruan, ofegante.
— Ruan! Você viu o Miguel e o Matheus? — Gabriel perguntou, ajeitando os óculos que escorregavam pelo nariz suado. — Eu ouvi eles falando sobre um tal de "Seu Nonato" e sobre como precisavam de um "aporte financeiro imediato".
Ruan soltou uma lufada de fumaça na direção de Gabriel, que tossiu e recuou três passos.
— Aqueles dois entraram no Bet67, Gabriel. A última vez que vi alguém tão focado quanto eles, o sujeito acabou vendendo os próprios rins para pagar uma dívida em Vegas. E o Seu Nonato... bem, ele não é um investidor-anjo. Ele é um agiota que cobra juros em dentes, não em porcentagem.
Enquanto isso, na lanchonete, o silêncio era absoluto. Matheus e Miguel observavam o cronômetro do jogo virtual. O Operário de Várzea Grande precisava de um gol. O Real Madrid virtual, controlado por uma inteligência artificial impiedosa, estava goleando por 4 a 0.
— Vai, vai, chuta! — gritou Miguel, batendo na mesa.
— Não! O goleiro pegou! — Matheus quase chorou quando a tela piscou em vermelho com a mensagem: "APOSTA PERDIDA. TENTE NOVAMENTE!".
O mundo desabou. Os dois mil reais, que deveriam ter se transformado em cem mil, haviam evaporado no éter digital. E o pior: o dinheiro que eles usaram não era exatamente "deles". Eles haviam pegado um adiantamento com o Seu Nonato para "alavancar o capital", prometendo pagar em uma hora.
— Miguel... — Matheus sussurrou, o rosto pálido. — O relógio do Seu Nonato não atrasa.
— A gente precisa fugir — disse Miguel, levantando-se tão rápido que derrubou a cadeira. — Agora.
Eles saíram da lanchonete em disparada, passando por Rafael e Clara, que caminhavam tranquilamente.
— Ei, onde vocês vão com tanta pressa? — perguntou Rafael, estranhando a expressão de pânico dos amigos.
— Não olha para trás, Rafael! — gritou Matheus, sem parar de correr. — Se um homem de terno risca de giz perguntar, a gente foi morar no Paraguai!
Clara olhou para Rafael, confusa.
— Seus amigos são realmente... peculiares.
— Eu juro que eles costumavam ser normais — mentiu Rafael, embora soubesse que a normalidade nunca fora um forte daquele grupo.
A fuga de Miguel e Matheus foi digna de um filme de ação de baixo orçamento. Eles pularam o muro de trás da faculdade, rasgando as calças no arame farpado, e correram em direção ao terreno baldio. No entanto, o Seu Nonato, um homem que parecia um armário de carvalho usando uma camisa polo apertada, já os esperava com dois capangas que mascavam chiclete em sincronia.
— Rapazes — disse Seu Nonato, com uma calma aterrorizante. — Eu estava verificando meu aplicativo do banco. Parece que o Pix de vocês está com atraso de cinco minutos. E eu sou um homem que preza pela pontualidade.
— Seu Nonato, veja bem... — começou Miguel, as pernas tremendo. — O Operário de Várzea Grande foi roubado pela arbitragem virtual! É um escândalo cibernético!
— Eu não ligo para futebol virtual — respondeu o agiota, fazendo um sinal para os capangas. — Eu ligo para o meu dinheiro. E como vocês não têm, vamos resolver isso da forma tradicional. Quem quer começar a perder os molares?
Nesse momento crítico, uma figura surgiu entre os arbustos secos do terreno baldio. Era Ruan, caminhando lentamente, segurando um cigarro e uma pasta de exames médicos.
— Deixa os moleques em paz, Nonato — disse Ruan, parando entre os amigos e os agiotas.
— Ruan? O que você está fazendo aqui? — perguntou Matheus, surpreso.
Ruan deu uma tossida violenta, cuspindo sangue no chão, bem aos pés do Seu Nonato. O agiota recuou, enojado.
— Eu vim entregar meu aviso prévio para a vida — disse Ruan, com um sorriso cínico. — Escuta aqui, Nonato. Eu tenho seguro de vida pela empresa onde eu fazia bico de segurança. E, como você pode ver por esse laudo aqui, meus pulmões estão parecendo dois pedaços de carvão de churrasco. Câncer, estágio avançado.
O silêncio tomou conta do terreno baldio. Miguel e Matheus olharam para o amigo com horror.
— Ruan, cara... — Miguel começou, mas foi interrompido.
— Cala a boca, Miguel. Nonato, eu vou colocar esses dois como beneficiários de uma parte mínima, o suficiente para te pagar. Mas em troca, você some da vida deles. E você sabe que eu não estou brincando, porque eu não tenho nada a perder. Quer testar a sorte contra um homem que já está com o pé na cova?
O Seu Nonato, que tinha medo de doenças e de gente que não temia a morte, guardou o celular e ajeitou a camisa.
— Você é louco, Ruan. Mas tudo bem. O seguro cobre. Eu não quero problema com defunto. Rapazes, considerem-se com sorte.
O agiota e seus capangas se retiraram apressadamente. Miguel e Matheus caíram de joelhos, aliviados, mas imediatamente se voltaram para Ruan.
— Cara, você mentiu para salvar a gente? — perguntou Matheus, esperançoso. — Aquilo era ketchup no lenço?
Ruan olhou para o horizonte, onde o sol começava a se pôr, pintando o céu de um tom de laranja que lembrava a ponta acesa de um cigarro.
— Não, Matheus. Dessa vez, não teve plano, não teve blefe. O médico me deu seis meses. Talvez menos se eu continuar fumando. Mas, que se dane, eu nunca gostei de finais longos mesmo.
Eles voltaram para o campus em silêncio. Quando encontraram Gabriel, que estava escondido dentro de uma lixeira para evitar contato humano, tentaram explicar o que havia acontecido.
— Então... — começou Gabriel, saindo de entre os sacos de lixo — vocês perderam dois mil reais em um jogo virtual, foram encurralados por um agiota, e o Ruan salvou vocês usando um laudo de câncer de pulmão como moeda de troca?
— Exatamente — disse Miguel.
— Ninguém vai acreditar nessa história — sentenciou Gabriel, limpando uma casca de banana do ombro. — É absurdo demais, até para os padrões da JM.
— É a verdade — insistiu Matheus. — A gente quase morreu!
No pátio central, Rafael e Clara estavam sentados em um banco. Rafael parecia radiante. Ele viu os amigos se aproximando e acenou.
— Galera! — gritou Rafael. — A Clara me convidou para ir a um sarau de poesia no sábado! O que vocês fizeram de bom hoje?
Miguel olhou para Matheus. Matheus olhou para Ruan. Ruan acendeu mais um cigarro, a fumaça subindo preguiçosa para o céu escurecido.
— Nada demais, Rafael — respondeu Miguel, com um suspiro pesado. — Só perdemos nossa dignidade, nossa sanidade e o futuro dos pulmões do Ruan. Coisa de rotina.
Clara riu, achando que era apenas mais uma piada interna do grupo de engenharia.
— Vocês são muito engraçados — disse ela, encostando a cabeça no ombro de Rafael. — Adoro esse humor ácido de vocês.
Ruan soltou uma risada que terminou em uma tosse abafada.
— É, "ácido" é uma boa palavra, Clara. Mas aproveita o Rafael. Ele é o único de nós que ainda tem um final feliz garantido.
Enquanto o grupo se dispersava, Rafael sentiu que, pela primeira vez, o mundo estava em equilíbrio. Ele tinha a garota de calça azul, seus amigos estavam (teoricamente) vivos, e o mistério da vida continuava a ser escrito nos corredores da JM. Ele não sabia do câncer de Ruan, nem da dívida paga com a própria vida, nem do trauma de Gabriel com lixeiras. Para ele, o azul era a cor mais quente, e o resto era apenas fumaça ao vento.
Mas, no fundo, todos sabiam: na JM, a sorte é uma amante caprichosa, e o preço de um sorriso às vezes é alto demais para ser pago em dinheiro. Ruan deu a última tragada do dia, olhou para a bituca e a jogou no chão, esmagando-a com o pé.
— Próximo capítulo — murmurou ele, caminhando para a saída, deixando para trás o rastro de fumaça e de uma história que, de tão real, ninguém jamais ousaria acreditar.