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CALÇA AZUL

O Labirinto de Perfume e Pânico

O campus da JM tinha uma geografia própria, composta por atalhos duvidosos, prédios que pareciam labirintos de concreto e áreas que ninguém ousava explorar sem um mapa ou muita coragem. Para Gabriel, no entanto, o mapa era seu pior inimigo. Ele sofria de uma condição que Miguel apelidara de "bússola de ansiedade": sempre que Gabriel tentava evitar o contato humano, especialmente o feminino, seu senso de direção se desintegrava completamente.

Era uma terça-feira nublada. Rafael estava em algum lugar da biblioteca, provavelmente tentando impressionar Clara com sua súbita paixão por literatura russa. Miguel e Matheus estavam escondidos no laboratório de informática, tentando desesperadamente criar um algoritmo que recuperasse o dinheiro perdido nas apostas, enquanto Ruan, fiel ao seu destino, ocupava seu posto habitual sob a árvore moribunda.

Gabriel estava sozinho. Ele carregava um calhamaço de apostilas de Cálculo III que pareciam pesar mais do que sua própria vontade de viver. Seu objetivo era simples: chegar à sala 402 do Bloco C. Mas, no meio do caminho, ele avistou um grupo de estudantes de pedagogia caminhando em sua direção. O pânico subiu como uma maré.

— Mulheres. Muitas mulheres. — Gabriel murmurou, sentindo o suor frio brotar na nuca. — Manobra de evasão, Gabriel. Rápido!

Sem olhar para as placas, ele girou nos calcanhares e mergulhou em um corredor estreito que nunca havia notado antes. As paredes eram pintadas de um rosa desbotado e o ar tinha um cheiro suspeito de baunilha e sabonete de marca. Ele correu, virou à esquerda, subiu uma escada de serviço e, finalmente, atravessou uma porta pesada de ferro que estava entreaberta.

Ele se viu em um pátio interno, cercado por muros altos com arame farpado no topo. O lugar era estranhamente limpo e silencioso.

— Graças a Deus — suspirou, ajeitando os óculos. — Isolamento total. O paraíso.

Ele se sentou em um banco de madeira e abriu o livro, tentando acalmar o coração. Dez minutos se passaram. Vinte minutos. O silêncio foi quebrado pelo som metálico da porta de ferro sendo trancada e o barulho de chaves girando. Gabriel congelou.

Ele se levantou e correu até a porta. Puxou a maçaneta. Nada. Empurrou com o ombro. Nem um milímetro de movimento.

— Olá? Tem alguém aí? — Ele chamou, sua voz falhando no final.

— Ei, novata! Deixa de escândalo que a inspetora tá de mau humor hoje! — Uma voz rouca e feminina ecoou do outro lado do pátio.

Gabriel girou lentamente. Do outro lado do pátio, saindo de uma ala que ele não tinha visto, estavam cerca de trinta mulheres vestindo uniformes cáqui. Uma delas, uma mulher alta com uma tatuagem de rosa no pescoço, caminhava em sua direção com uma expressão de pura confusão.

— Mas o que... que tipo de detenta usa óculos de fundo de garrafa e camisa de "I Love Java"? — perguntou a mulher, parando a dois metros dele.

Gabriel sentiu o mundo girar. Ele olhou ao redor e viu uma placa fixada na parede interna: "CENTRO DE REEDUCAÇÃO FEMININA — ANEXO JM".

— Eu... eu acho que entrei na porta errada — gaguejou Gabriel, as pernas tremendo tanto que as apostilas de cálculo escorregaram de suas mãos, espalhando folhas pelo chão.

— Você acha? — A mulher soltou uma gargalhada que parecia um trovão. — Você está na ala de segurança mínima da cadeia feminina, garoto. Como diabos você passou pela guarita?

— A porta... estava aberta — ele sussurrou, sentindo que ia desmaiar. — Eu estava fugindo das meninas da pedagogia...

— O coitadinho tem medo de mulher e veio parar logo no ninho das cobras! — gritou outra detenta, uma senhora baixinha que tricotava entusiasticamente num canto. — É o destino pregando peça, meninas!

Em poucos minutos, Gabriel estava cercado. O que para qualquer outro homem poderia ser um sonho ou o início de uma comédia romântica, para ele era o cenário de um filme de terror psicológico. Trinta mulheres o observavam como se ele fosse uma espécie rara de inseto que acabara de cair em um formigueiro.

— Ele é bonitinho, parece um hamster assustado — comentou uma jovem de cabelos azuis. — Ei, hamster, você tem cigarros?

— N-não... eu não fumo. O Ruan fuma. Eu só tenho... derivadas e integrais — respondeu Gabriel, oferecendo uma folha de papel com cálculos complexos como se fosse um escudo sagrado.

Enquanto isso, do lado de fora, a vida na JM seguia seu curso caótico. Rafael, Miguel e Matheus estavam reunidos perto da lanchonete, olhando para os lados com preocupação.

— Alguém viu o Gabriel? — perguntou Rafael. — Ele não aparece desde a aula de física. E ele nunca perde uma aula, a menos que haja risco de contato visual com o sexo oposto.

— A última vez que o vi, ele estava correndo em direção ao Bloco C como se tivesse visto o fantasma da ex-namorada que ele nunca teve — comentou Matheus, mastigando um chiclete.

Ruan apareceu, caminhando com a lentidão de quem carrega o peso do mundo e um tumor de estimação nos pulmões. Ele soltou uma fumaça cinzenta e apontou para o fundo do campus.

— O rastreador do celular dele está dando sinal naquela área desativada, perto da penitenciária feminina que a faculdade usa para o projeto de extensão de Direito.

Miguel arregalou os olhos.

— Não. Ele não seria capaz. O Gabriel não aguenta dois minutos no corredor de um shopping no sábado à tarde. Se ele entrou lá, ele já deve estar em estado catatônico ou foi adotado como mascote.

— Precisamos tirar ele de lá antes que a administração descubra — disse Rafael, assumindo o tom de líder que Clara tanto admirava. — Se o Gabriel for fichado por invasão de presídio feminino, ele nunca mais vai conseguir um emprego que não envolva ficar trancado em um porão escuro digitando código.

— O que é exatamente o que ele quer da vida, se você parar para pensar — observou Matheus. — Mas vamos lá. Pela honra do grupo.

De volta ao pátio da cadeia, a situação de Gabriel havia evoluído de "pânico total" para "utilidade pública". As detentas, percebendo que ele era inofensivo e possuía uma inteligência acadêmica acima da média, decidiram aproveitar o intruso.

— Então, se eu entendi bem — disse a mulher da tatuagem de rosa, cujo nome era Big Jô —, se eu aplicar essa fórmula aqui, eu consigo calcular a trajetória da bola de vôlei para ela cair exatamente na linha de fundo?

— Exatamente, Jô — explicou Gabriel, agora sentado no chão, cercado por diagramas de física desenhados com giz no asfalto. — É tudo uma questão de ângulo de lançamento e resistência do ar. Se você bater na bola com uma força de quinze Newtons nesse ponto...

— O garoto é um gênio! — exclamou a senhora do tricô. — Ei, hamster, você consegue me ajudar a escrever uma carta de apelação para o juiz? Eu usei muitas palavras feias na última e ele me deu mais seis meses por desacato.

Gabriel, que há uma hora não conseguia formular uma frase sem gaguejar, agora estava no seu elemento. O medo de mulheres fora substituído pela necessidade compulsiva de organizar informações e resolver problemas lógicos.

— Claro, senhora... — Ele hesitou.

— Pode me chamar de Dona Geni. Eu estou aqui porque tentei envenenar meu ex-marido com chá de arruda. Mas ele era um homem ruim, sabe?

Gabriel engoliu em seco, mas continuou escrevendo.

— Vamos focar no arrependimento cristão e na sua habilidade com o tricô, Dona Geni. O juiz vai adorar.

Enquanto Gabriel redigia petições e explicava a física do vôlei, seus amigos chegaram ao portão externo do anexo. Ruan, com sua habilidade inata de parecer alguém que pertence ao submundo, aproximou-se da guarita.

— Ei, guarda — disse Ruan, oferecendo um cigarro que o guarda aceitou prontamente. — A gente ouviu dizer que um passarinho magrelo de óculos voou para dentro desse pátio por engano.

O guarda, um homem entediado que estava mais interessado no cigarro do que na segurança nacional, deu de ombros.

— Ah, o moleque da informática? As meninas estão adorando ele. Ele está lá dentro dando aula de reforço e ajudando na burocracia. Faz tempo que elas não ficam tão calmas.

— Você deixou um civil entrar em uma ala prisional? — perguntou Miguel, incrédulo.

— Tecnicamente, a porta estava com a trava quebrada. E ele não é um civil perigoso, é o Gabriel. Eu conheço o tipo. Ele tem mais medo delas do que elas dele. Mas se o diretor chegar, eu tô frito. Tirem ele daí pelos fundos.

Os três amigos contornaram o muro até uma fresta onde as detentas costumavam receber encomendas ilícitas. Rafael subiu nos ombros de Matheus e olhou por cima do muro.

— Gabriel! — ele sussurrou alto. — Gabriel, estamos aqui! Vamos te tirar desse inferno!

Lá embaixo, Gabriel levantou os olhos da carta de Dona Geni. Ele parecia estranhamente em paz.

— Inferno? — Gabriel perguntou, ajustando os óculos com uma dignidade nova. — Rafael, você sabia que a Dona Geni faz um cachecol maravilhoso? E a Big Jô tem dúvidas legítimas sobre a aceleração centrípeta!

— Gabriel, você está com síndrome de Estocolmo reversa! — gritou Miguel debaixo de Matheus. — Sai daí agora antes que a polícia chegue e você vire a "Gabi" do pavilhão quatro!

— Ele tem razão, hamster — disse Big Jô, colocando uma mão pesada no ombro de Gabriel. — Você foi útil, mas esse lugar não é para flores delicadas como você. Vai embora antes que a inspetora faça a contagem.

Com a ajuda das detentas, que fizeram uma "escadinha" humana — uma manobra que Gabriel calculou mentalmente como tendo uma estabilidade estrutural surpreendente —, ele foi içado até o topo do muro.

— Tchau, hamster! — gritaram as mulheres, acenando. — Manda o gabarito da prova de física por drone!

Gabriel pulou para o outro lado, caindo em cima de Matheus e Miguel. Eles rolaram pelo chão, uma massa confusa de pernas, braços e apostilas de cálculo.

— Você está bem? Elas te machucaram? — perguntou Rafael, examinando o amigo em busca de cicatrizes ou traumas psicológicos permanentes.

Gabriel se levantou, limpou a poeira da calça e ajeitou a camisa de Java. Ele parecia diferente. Havia um brilho de confiança em seus olhos que nunca estivera lá antes.

— Elas não são aterrorizantes, Rafael — disse Gabriel, com a voz firme. — Elas são apenas... pessoas com problemas de trajetória e dificuldades gramaticais. Eu acho que superei meu medo.

— Sério? — perguntou Miguel, duvidoso.

Nesse momento, um grupo de três alunas de enfermagem passou por eles, conversando alegremente. Uma delas olhou para Gabriel e sorriu.

— Oi, tudo bem? — disse a menina.

Gabriel abriu a boca para responder, mas o brilho de confiança evaporou instantaneamente. Seu rosto ficou da cor de um tomate maduro, seus joelhos bateram um no outro e ele soltou um som que lembrava um pneu furado.

— Eeeeeh... b-b-bom dia... noite... azul! — Gabriel gaguejou, antes de se virar e sair correndo em direção ao Bloco A, derrubando suas apostilas novamente pelo caminho.

Os três amigos ficaram em silêncio, observando a fuga desesperada do companheiro.

— É — suspirou Ruan, acendendo outro cigarro. — O progresso é lento na JM.

— Pelo menos ele não foi preso — comentou Matheus, recolhendo as folhas de papel do chão. — Mas eu fiquei curioso... o que será que ele escreveu na carta da Dona Geni?

— Provavelmente uma prova matemática de que o envenenamento foi um erro de cálculo nas proporções do chá — riu Rafael. — Vamos atrás dele. O sarau de poesia da Clara começa em uma hora e eu prometi que levaria o "grupo de amigos intelectuais" para dar volume na plateia.

— Mais mulheres? — perguntou Miguel. — O Gabriel vai acabar morando dentro de um bueiro até o fim do semestre.

— Ou ele volta para a cadeia — disse Ruan, soltando uma última nuvem de fumaça. — Lá, pelo menos, ele era o rei do cálculo.

Enquanto caminhavam pelo pátio, o sol finalmente rompeu as nuvens, iluminando o campus da JM. Rafael pensava em Clara, Miguel pensava em como recuperar os dois mil reais, Ruan pensava no tempo que lhe restava, e Gabriel... bem, Gabriel estava escondido no banheiro masculino, tentando se lembrar de como se respira em ambientes oxigenados.

A vida na JM continuava, entre calças azuis, pulmões cansados, dívidas de jogo e o eterno, cômico e aterrorizante mistério de simplesmente existir. E, no fim das contas, todos sabiam que, não importa o quão fundo você caísse no buraco — ou no presídio feminino —, sempre haveria um amigo para te dar um ombro, um cigarro ou uma fórmula física para te ajudar a subir de volta.