Caos nas aulas
O Rugido dos Pequenos Guardiões e a Fúria Silenciosa de Tempest
A sala de aula da Academia Real de Ingrassia exalava uma tensão que poderia ser cortada com uma faca, embora apenas um lado da sala parecesse consciente do perigo iminente. Rimuru, sentada à mesa principal, apoiava o rosto em uma das mãos enquanto a outra repousava, quase instintivamente, sobre a curva agora nítida de sua barriga. O cansaço não era apenas físico; era uma exaustão espiritual provocada pela persistente arrogância daqueles que ele tentava, com uma paciência de santo, educar.
Ao lado de sua mesa, cinco crianças observavam a cena com olhos que faiscavam entre a tristeza e a indignação. Kenya, Misaki, Ryota, Gale e a pequena Alice não eram apenas alunos de Rimuru; eles eram sua família, seus filhos de coração que haviam encontrado no Lorde Demônio o amor e a proteção que o mundo lhes negara.
— Muito bem... — Rimuru começou, sua voz um pouco mais rouca que o habitual. — Hoje vamos revisar as leis de troca de mana em ambientes de alta densidade. Alguém pode me dizer por que é perigoso usar magia de fogo em uma caverna de minério mágico?
Um dos estudantes nobres, um rapaz de cabelos engomados chamado Alistair, soltou uma risada anasalada, jogando uma caneta sobre a mesa com desdém.
— Por que estamos perdendo tempo com teoria básica? Você mal consegue ficar em pé, "professora". Talvez devesse estar em casa tricotando sapatinhos para esse... seja lá o que for que você está carregando.
O silêncio que se seguiu foi quebrado pelo som de dentes trincando. Kenya deu um passo à frente, seus punhos cerrados emitindo pequenas faíscas alaranjadas.
— Cala a boca! — gritou Kenya, a voz falhando pela raiva. — Você não tem o direito de falar assim com a nossa mãe! Ela é dez vezes mais inteligente e poderosa do que todos vocês juntos!
Os adolescentes nobres riram em coro. Para eles, as crianças eram apenas órfãos de sorte que haviam sido adotados por uma mulher bonita, mas de origem questionável.
— "Mãe"? Que fofo — zombou uma das garotas da primeira fila. — E quem seria o pai? Algum aventureiro de quinta categoria que sumiu assim que viu o problema?
Alice Rondo, geralmente a mais expressiva e alegre, sentiu as lágrimas pinicarem seus olhos, mas as limpou com as costas da mão, encarando a nobre com um olhar de puro desprezo.
— Vocês são uns idiotas — disse Alice, sua voz tremendo de fúria. — Se vocês soubessem... se vocês tivessem a mínima ideia de quem são os nossos pais, estariam implorando por misericórdia de joelhos!
— Oh, é mesmo? — Alistair inclinou-se para frente, divertido. — E quem são esses homens tão terríveis?
— O papai Guy e o papai Diablo! — exclamou Ryota, cruzando os braços com determinação. — E se vocês continuarem sendo malvados com a mamãe Rimuru, a gente vai chamar o Tio Veldora para jogar uma tempestade e destruir esse castelo inteiro!
A gargalhada que explodiu na sala foi ensurdecedora. Os nobres batiam nas mesas, achando a ameaça das crianças a coisa mais hilária que já tinham ouvido.
— Guy? Diablo? Veldora? — Alistair limpou uma lágrima de riso. — Vocês dão nomes de Lordes Demônios e Dragões Verdadeiros para os seus brinquedos? Que imaginação fértil! Só falta dizer que o Rei de Tempest é o padrinho de vocês.
Rimuru suspirou, fechando os olhos por um momento. Ele sentiu um movimento suave em seu ventre, um lembrete do pequeno ser que crescia ali, fruto de uma união que faria o mundo tremer se fosse revelada por completo.
— Crianças, por favor, sentem-se — pediu Rimuru, a voz suave, mas carregada de uma autoridade que fez os pequenos pararem imediatamente. — Não gastem suas palavras com quem não quer ouvir.
— Mas mamãe! — protestou Gale, sua magia de terra fazendo o chão vibrar levemente abaixo de seus pés. — Eles são ruins! Eles jogaram papel em você ontem!
Rimuru sorriu tristemente e estendeu a mão, acariciando o cabelo de Gale quando o menino se aproximou.
— Eu sei, querido. Mas a violência não é a primeira resposta. Vamos continuar a aula.
Nas sombras, encostado na parede dos fundos, Souei observava tudo. Sua presença era quase indetectável para os alunos, mas para Rimuru, ele era uma âncora de segurança. O ninja sentia seus dedos formigarem para sacar suas lâminas. Cada insulto dirigido a Rimuru era como uma ferida em sua própria honra. Ele lançava olhares tão gélidos para os alunos que alguns chegavam a sentir calafrios súbitos, mas a arrogância cega os impedia de conectar o medo ao "ajudante" silencioso no canto.
Discretamente, Souei ativou sua comunicação por pensamento.
— Benimaru-sama — a voz de Souei ecoou na mente do Comandante de Tempest.
— Souei? Alguma novidade sobre o estado de Rimuru-sama? — a resposta de Benimaru veio instantaneamente, carregada de preocupação.
— O estado de saúde é estável, mas a paciência de nosso mestre está sendo testada além do limite. Os alunos estão sendo... insolentes. Estão zombando de sua gravidez e insultando as crianças.
Houve um silêncio do outro lado da linha, seguido por uma flutuação de energia tão violenta que Souei pôde senti-la mesmo a quilômetros de distância.
— Eu estou indo para aí — disse Benimaru, sua voz agora um sussurro de brasa pura. — Avise ao Diablo e ao Guy. Se Rimuru-sama não os deixar agir, eu o farei. Ninguém desonra o nome de Tempest dessa forma.
De volta à sala, a situação piorava. Alistair, encorajado pelo silêncio de Rimuru, pegou uma pequena maçã de seu lanche e, com um movimento rápido, a jogou em direção à professora.
A maçã nunca atingiu o alvo. Chloe O'Bell, que estivera em silêncio absoluto até então, moveu-se com uma velocidade que desafiava a percepção humana. Ela pegou a fruta no ar, a poucos centímetros do rosto de Rimuru.
Os olhos de Chloe, geralmente doces e profundos, estavam agora escuros como um abismo temporal.
— Você... — a voz de Chloe era baixa, mas carregada de uma promessa de destruição. — Você ousou tentar feri-la.
— Chloe, não — Rimuru interveio, sentindo uma pontada de dor aguda no abdômen. Ele gemeu baixo, levando a mão à barriga e curvando-se levemente.
O pânico se instalou entre as crianças.
— Mamãe! — Kenya correu para o lado de Rimuru, seguido pelos outros.
— Olha só, ela está fazendo cena de novo — comentou a garota nobre, revirando os olhos. — Deve ser difícil fingir que é importante o dia todo.
Souei finalmente se moveu. Em um piscar de olhos, ele estava diante da garota, sua aura de assassino emanando de forma tão opressora que a menina perdeu a voz, caindo da cadeira enquanto o ar ao seu redor parecia congelar.
— Mais uma palavra — sibilou Souei, seus olhos brilhando em um azul letal — e eu garantirei que você nunca mais consiga emitir um som nesta vida.
— Souei... — Rimuru ofegou, tentando recuperar o fôlego. — Chega. Não quero... problemas diplomáticos.
— Problemas diplomáticos são a menor das minhas preocupações agora, Rimuru-sama — disse uma voz profunda vinda da porta.
Benimaru entrou na sala. Ele não estava usando sua armadura completa, mas a pressão de sua presença era como um vulcão prestes a entrar em erupção. Ele caminhou direto para a mesa de Rimuru, ignorando os alunos que agora tremiam em seus assentos, finalmente percebendo que aquele homem não era um simples guarda.
— Rimuru-sama, você está pálido — disse Benimaru, ajoelhando-se ao lado de seu mestre com uma reverência que deixou a classe em choque. — Por favor, permita-me levar esses... resíduos de seres humanos para o pátio. Eu prometo que serei rápido.
— Benimaru, o que você está fazendo aqui? — Rimuru tentou sorrir, mas o cansaço era evidente.
— Eu vim proteger o que é mais precioso para Tempest — respondeu o Kijin, lançando um olhar de soslaio para os alunos que fez o líder, Alistair, urinar nas calças de puro terror.
Nesse momento, as sombras da sala se alongaram e Diablo emergiu delas, com um sorriso que não tinha nada de humano. Ao seu lado, as portas se abriram com um estrondo, e Guy Crimson entrou, sua expressão sendo a definição de uma calamidade iminente.
— Eu tentei ser paciente, Rimuru — disse Guy, caminhando até o companheiro e o pegando nos braços com uma delicadeza que contrastava com o ódio em seus olhos. — Eu tentei respeitar seu desejo de "ensinar". Mas esses vermes cruzaram a linha.
Diablo caminhou até os alunos, suas garras se estendendo lentamente.
— Eles riram das crianças — disse Diablo, sua voz uma melodia de pesadelo. — Eles zombaram da linhagem que Guy-sama e Rimuru-sama estão criando. Eles chamaram o Lorde Veldora de brinquedo.
Um rugido ensurdecedor ecoou do lado de fora da academia, fazendo as janelas estourarem em mil pedaços. Veldora, em sua forma humana, aterrissou no parapeito da janela quebrada, seus olhos brilhando com o poder da tempestade.
— QUEM FOI?! — trovejou o Dragão Verdadeiro. — Quem ousou zombar do meu nome e tratar meu irmão com tal desrespeito?! Eu ouvi tudo! Eu estava lendo meu mangá em paz e tive que ouvir essas formigas gritando!
Os alunos estavam agora amontoados no canto da sala, alguns chorando compulsivamente, outros em estado catatônico. A realidade os atingira como um martelo: a "professora" não era uma mulher comum, nem uma protegida. Ela era o centro de um universo de monstros e deuses que a adoravam.
Rimuru, aninhado no peito de Guy, suspirou. Ele sentiu o calor do companheiro e a proteção de seus subordinados e amigos. A dor em sua barriga começou a diminuir conforme Guy infundia um pouco de sua própria energia para estabilizar o bebê.
— Kenya, Alice... venham aqui — chamou Rimuru suavemente.
As crianças correram para perto de Guy e Rimuru. Guy olhou para os pequenos com um orgulho feroz.
— Vocês fizeram bem em defendê-la — disse Guy, sua voz ecoando com o peso de um Rei Demônio Primordial. — Mas da próxima vez, não percam tempo falando. Apenas nos chamem.
Rimuru olhou para os alunos uma última vez. Não havia mais sarcasmo ou doçura em seus olhos amarelos, apenas uma frieza majestosa.
— A aula acabou — declarou Rimuru. — Souei, limpe a sala. Benimaru, prepare o transporte para as crianças. Guy... leve-me para casa.
— Com todo o prazer, minha rainha — murmurou Guy, desaparecendo em um círculo mágico carmesim.
Diablo e Veldora ficaram para trás por apenas alguns segundos. O demônio inclinou a cabeça para os alunos, o sorriso ainda presente.
— Vocês deveriam se sentir honrados — disse Diablo. — Vocês são os únicos seres que sobreviveram a um insulto direto ao meu mestre. Mas não se preocupem... eu visitarei seus pais em breve para discutir a "educação" que vocês receberam.
Veldora soltou uma última gargalhada antes de pular pela janela.
— Tentem não morrer de susto antes de chegarem em casa, pirralhos! KUAHAHAHA!
A sala mergulhou em um silêncio sepulcral, quebrado apenas pelos soluços baixos dos nobres que, finalmente, haviam aprendido o verdadeiro significado da palavra medo. Eles haviam subestimado o Slime, e o mundo nunca mais seria o mesmo para eles.