Caos nas aulas
O Alvorecer de Akane e a Redenção Carmesim
O salão da Academia Real de Ingrassia, outrora um símbolo de sofisticação e erudição, havia se transformado em um abatedouro de esperanças. Guy Crimson e Diablo não estavam apenas lutando; eles estavam regendo uma sinfonia de desespero. Os nobres, que antes ostentavam joias e títulos, agora se arrastavam pelo mármore frio, implorando por uma misericórdia que não existia no vocabulário de um Lorde Demônio Primordial. Os adolescentes, cujas línguas haviam sido chicotes contra a bondade de Rimuru, assistiam paralisados, asfixiados pela pressão mágica que tornava o simples ato de respirar um suplício.
— Olhem bem — sibilou Diablo, erguendo um marquês pelo pescoço enquanto suas unhas negras perfuravam a pele fina do homem. — Este é o preço da insolência. Vocês acharam que o silêncio de meu mestre era fraqueza? Não. Era a paciência de um Deus que vocês não mereciam.
Guy Crimson, com as vestes manchadas de um carmesim que não era o seu, observava o caos com um tédio mortal. Ele estava prestes a incinerar o que restava da linhagem real quando as sombras no canto da sala se agitaram violentamente. Souei e Benimaru emergiram da escuridão, seus rostos desprovidos de qualquer satisfação pela vitória militar que acabavam de conquistar lá fora.
— Lorde Crimson! Diablo! — a voz de Benimaru cortou o ar, urgente e carregada de pânico. — Parem agora! Veldora acaba de enviar um sinal de emergência através do corredor espacial!
Guy congelou. Seus olhos vermelhos brilharam com uma intensidade aterradora.
— O que aconteceu? — perguntou Guy, sua voz vibrando como um trovão antes da tempestade.
— Rimuru-sama... — Souei fez uma pausa, tentando controlar a própria respiração. — O estresse da viagem e o confronto emocional foram demais. Ele entrou em trabalho de parto. Shuna conseguiu levá-lo de volta a Tempest, mas a situação é crítica. O bebê está drenando o que resta de sua consciência. Ela precisa de vocês agora!
O mundo pareceu parar para Guy Crimson. Em um piscar de olhos, o salão de Ingrassia foi esquecido. Com um gesto violento, ele rasgou o tecido da realidade, criando um portal direto para os aposentos reais na Federação Jura Tempest. Diablo, Benimaru e Souei o seguiram sem hesitar, deixando para trás um rastro de terror e uma Ingrassia que nunca mais ousaria pronunciar o nome de Rimuru sem tremer.
Ao atravessarem o portal, o cenário mudou do cheiro de sangue para o aroma forte de ervas medicinais e o calor abafado de um quarto em crise. Rimuru estava no centro da cama, cercado por Shuna e um exército de assistentes. Seus gritos, agudos e carregados de agonia, ecoavam pelas paredes, perfurando os corações de todos os presentes.
— Rimuru! — Guy correu para o lado da cama, afastando qualquer um que estivesse no caminho.
O Lorde Demônio Slime estava quase irreconhecível. Sua pele, outrora leitosa e vibrante, estava cinzenta; o suor encharcava seus cabelos azul-prateados, que grudavam em seu rosto distorcido pela dor. Ele arqueava as costas, as mãos apertando os lençóis com tanta força que o tecido começava a rasgar.
— Guy... — Rimuru ofegou, seus olhos dourados revirando, lutando para focar no rosto do companheiro. — Dói... eu não... eu não consigo...
— Você consegue! — Guy segurou a mão dele, infundindo sua própria mana carmesim para tentar estabilizar a alma de Rimuru. — Eu estou aqui. Não ouse me deixar, Rimuru!
— Shuna, fale comigo! — ordenou Diablo, ajoelhando-se aos pés da cama, sua expressão de calma habitual substituída por uma máscara de terror absoluto.
— A densidade mágica da criança é alta demais! — Shuna gritou por cima de outro grito de Rimuru. — Ela está lutando para sair, mas o corpo de Rimuru-sama está exausto. Ele perde a consciência a cada contração! Se ele apagar de vez, o bebê ficará preso e ambos se perderão!
Benimaru e Souei permaneceram na porta, as lágrimas escorrendo abertamente por seus rostos. Ver o ser que eles adoravam como um Deus, aquele que sempre teve uma solução para tudo, reduzido a uma luta tão primitiva e dolorosa, era quase insuportável.
— Vamos, Rimuru! — Veldora apareceu na janela, sua forma humana tremendo. — Você prometeu que leríamos o próximo volume juntos! Não seja um slime preguiçoso agora! Faça força!
Rimuru soltou um grito que pareceu abalar as fundações de Tempest. Ele sentia como se estivesse sendo partido ao meio, centímetro por centímetro. Sua consciência ia e vinha como uma maré negra. Em um momento ele via o rosto desesperado de Guy, no outro, estava de volta àquela sala de aula fria, cercado por insultos.
— Não... — Rimuru murmurou entre dentes, o sangue escorrendo de seu lábio mordido. — Eu não vou... morrer aqui...
— Isso mesmo! — Guy encostou a testa na dele. — Use a minha força. Pegue tudo o que precisar!
As horas que se seguiram foram um borrão de dor e desespero. Rimuru desmaiou três vezes, e em cada uma delas, Shuna e Luminous — que chegara às pressas — usavam magia sagrada para forçar seu coração a continuar batendo. O quarto estava saturado de uma energia dourada e vermelha, uma batalha entre a vida e a exaustão.
— Agora, Rimuru-sama! — Shuna comandou, sua voz firme apesar do choro. — Mais uma vez!
Com um último esforço que drenou cada gota de sua essência mágica, Rimuru empurrou. O som que encheu o quarto não foi mais um grito de dor, mas o choro agudo e potente de uma nova vida.
O silêncio que se seguiu foi quase ensurdecedor. Rimuru caiu de volta nos travesseiros, seu corpo relaxando instantaneamente. Ele estava além da exaustão, sua respiração tão fraca que mal movia o peito.
Shuna, com as mãos trêmulas, limpou a pequena criatura e a envolveu em mantas de seda dourada. Com um sorriso que iluminou o quarto, ela se aproximou de Guy e do Rimuru semiconsciente.
— É uma menina — sussurrou Shuna. — Uma princesa perfeita.
Guy Crimson, o Lorde Demônio mais antigo e temido do mundo, olhou para o pequeno embrulho. A bebê tinha uma pequena mecha de cabelo azul-prateado, mas seus olhos, que se abriram por um breve segundo, eram de um vermelho rubi intenso. Ela era a imagem de Guy, mas com a aura de suavidade de Rimuru.
— Akane — sussurrou Rimuru, abrindo os olhos minimamente. — O nome dela... é Akane.
Ele não teve tempo de dizer mais nada antes de mergulhar em um sono profundo, mas desta vez, não era o desmaio da morte. Sua cor estava voltando, e a pressão mágica ao seu redor havia se estabilizado. Ele finalmente parecia em paz.
Três dias se passaram antes que Rimuru acordasse totalmente. Quando abriu os olhos, o quarto estava silencioso e banhado pela luz suave do entardecer. Guy estava sentado na poltrona ao lado, dormindo com a pequena Akane nos braços. Ver aquela cena — o temível Guy Crimson agindo como um pai zeloso — trouxe lágrimas aos olhos de Rimuru.
— Guy... — chamou ele, sua voz rouca.
Guy acordou instantaneamente. O alívio em seu rosto foi tão visível que Rimuru sentiu o coração aquecer.
— Você voltou — disse Guy, aproximando-se e colocando Akane com cuidado nos braços de Rimuru.
Ao sentir o peso da filha, Rimuru chorou. Ele a aninhou contra o peito, maravilhando-se com a perfeição de cada detalhe. Akane soltou um pequeno resmungo e procurou o calor