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Caos nas aulas

O Sacrifício do Rei e o Banquete das Sombras

A luz da manhã filtrava-se pelas cortinas de seda do quarto real de Tempest, mas o brilho não trazia a alegria habitual. O ambiente estava carregado com o cheiro de ervas medicinais e o rastro persistente da magia sagrada de Luminous. No centro da grande cama, Rimuru Tempest parecia minúsculo, quase frágil, sob as camadas de cobertores. Sua barriga, agora com oito meses de gestação, formava uma curva proeminente que parecia pesada demais para seu corpo delicado.

Luminous Valentine retirou as mãos do peito de Rimuru, limpando o suor da testa. Ao seu redor, o círculo íntimo de Tempest aguardava como se o destino do universo estivesse sendo decidido ali — e, de certa forma, estava. Guy Crimson não desviava os olhos de Rimuru; Diablo mantinha-se em uma reverência estática; Veldora, Milim e Ramiris estavam incomumente silenciosos.

— Ele está estável — anunciou Luminous, sua voz carregada de uma autoridade cansada. — Mas escutem bem: a saúde dele é como um vidro trincado. Qualquer esforço físico, como caminhar longas distâncias ou se abaixar, e especialmente qualquer choque emocional forte, causará novos desmaios. Se ele cair naquele estado de estagnação mágica novamente, nem mesmo eu e Hinata poderemos trazê-lo de volta. O bebê é forte demais, ele consumirá o que restar da alma do hospedeiro para sobreviver.

Um silêncio sepulcral caiu sobre a sala. Guy apertou o punho, a pressão de sua aura fazendo o chão vibrar levemente.

— Ele não sairá desta cama — decretou Guy, sua voz soando como o julgamento final.

— Eu concordo com o Lorde Vermelho — murmurou Diablo, seus olhos brilhando com uma luz perigosa. — A segurança de Rimuru-sama é a prioridade absoluta. Ingrassia pode esperar até que as cinzas do mundo cubram seus nomes.

De repente, um movimento fraco veio da cama. Rimuru abriu os olhos, o dourado agora mais límpido, embora ainda marcado pelo cansaço. Ele fez menção de se levantar, mas soltou um gemido baixo quando uma pontada atingiu suas costas.

— Rimuru! — Milim pulou para a beira da cama, segurando sua mão. — Não se mexa, o bebê está com fome de novo!

— Eu ouvi... — sussurrou Rimuru, olhando para Luminous e depois para seus generais. — Eu ouvi sobre Ingrassia. Sobre a carta.

Benimaru deu um passo à frente, trocando um olhar tenso com Guy.

— Não se preocupe com isso agora, Rimuru-sama. Nós cuidaremos de tudo. Os planos militares já estão sendo finalizados.

— Que planos? — Rimuru forçou a voz, tentando injetar um pouco de sua antiga autoridade. — Eu quero saber. Agora.

Relutantes, e sob o olhar ameaçador de Guy que claramente preferia que Rimuru voltasse a dormir, Benimaru e Souei explicaram a estratégia. Eles planejavam uma aniquilação cirúrgica: destruir as defesas de Ingrassia em minutos, capturar a família real e os nobres que enviaram a carta, e executar publicamente todos os envolvidos no desrespeito à Federação Jura Tempest.

Rimuru ouviu tudo em silêncio, sua mão repousando sobre a barriga, sentindo um chute vigoroso do herdeiro de Guy.

— É excessivo — disse Rimuru, fechando os olhos por um momento. — Mas eu entendo por que vocês sentem essa necessidade. Eu dou a liberdade para que se vinguem... mas com uma condição.

— Qualquer coisa, mestre — disse Diablo, ajoelhando-se.

— Eu vou para Ingrassia.

O grito de protesto foi unânime. Veldora quase derrubou sua pilha de mangás, e Guy se aproximou da cama com uma expressão que beirava a fúria.

— Absolutamente não! — rugiu Guy. — Você acabou de ouvir o que Luminous disse! Você mal consegue ficar acordado!

— Escutem-me — Rimuru insistiu, sua voz ganhando força. — Aqueles nobres e alunos acham que eu sou fraco. Eles acham que Tempest é uma nação de monstros sem liderança porque eu "sumi". Se vocês simplesmente os destruírem, eles morrerão como mártires em suas mentes distorcidas. Eu serei a isca. Vou marcar uma reunião diplomática com os alunos e os nobres que se sentiram ofendidos. Vou aparecer lá, mostrar que ainda sou o governante... e depois que eu falar o que tenho a dizer, deixarei que vocês façam o que quiserem.

— É perigoso demais — disse Shuna, aproximando-se com uma bandeja de chá. — Rimuru-sama, o senhor pode desmaiar no meio da reunião.

— Então você virá comigo, Shuna — Rimuru sorriu fracamente para ela. — Luminous explicou como estabilizar minha mana, não explicou? Você será minha médica de campo. E Guy... você estará lá, não estará?

Guy Crimson soltou um suspiro pesado, passando a mão pelos cabelos vermelhos. Ele odiava o plano. Odiava a ideia de Rimuru se expor àqueles vermes novamente. Mas ele conhecia Rimuru; se ele não permitisse, Rimuru encontraria uma forma de fugir ou se estressaria tanto que acabaria piorando sua saúde.

— Eu estarei lá — disse Guy, sua voz carregada de uma promessa sombria. — Mas ao primeiro sinal de que você está passando mal, eu vou vaporizar aquele reino inteiro antes mesmo de você fechar os olhos.

— E eu serei sua sombra, Rimuru-sama — acrescentou Diablo, o sorriso voltando ao seu rosto, mas desta vez era o sorriso de um carrasco. — Garantirei que cada palavra de insulto seja paga com sangue.

Veldora cruzou os braços, bufando.

— Eu também vou! Alguém precisa proteger o meu sobrinho desses humanos barulhentos!

— E eu! — Milim exclamou, batendo no peito. — Eu vou esmagar qualquer um que tente tocar no Rimuru!

O planejamento continuou por mais uma hora. Rimuru, apesar da fraqueza, ditava as regras da "reunião diplomática". Ele queria que fosse em um terreno neutro ou na própria academia, para que o impacto fosse maior. Ele queria que os alunos vissem o que sua arrogância havia causado.

No entanto, à medida que os detalhes eram discutidos, a palidez de Rimuru retornou. Ele começou a respirar com dificuldade, e sua mão apertou o lençol.

— Pessoal... — Rimuru interrompeu Benimaru, que explicava o posicionamento das tropas de Kurenai. — Eu... acho que vou desmaiar de novo.

Guy foi mais rápido que qualquer um. Ele sentou-se na cama e puxou Rimuru para o seu colo, acomodando a cabeça dele em seu ombro largo. Com uma mão, ele começou a fazer carinhos suaves nos cabelos azul-prateados, enquanto a outra repousava protetoramente sobre a barriga de Rimuru.

— Shh... está tudo bem — sussurrou Guy, ignorando a presença de todos os outros na sala. — Eu te peguei. Apenas descanse.

Rimuru soltou um suspiro de alívio, sentindo o calor de Guy.

— Desculpem... é tão frustrante — murmurou Rimuru, fechando os olhos. — Guy... não deixe que eles exagerem muito... antes de eu chegar lá...

— Durma, Rimuru — disse Guy, sua voz suave escondendo a tempestade de ódio que ele guardava para Ingrassia.

Em poucos segundos, a respiração de Rimuru tornou-se rítmica. Ele havia caído no sono profundo novamente.

Diablo olhou para o mestre adormecido e depois para Guy. Havia um entendimento silencioso entre os dois. Eles eram os pilares que sustentavam aquele slime, e eles não teriam misericórdia.

— Shuna-sama — disse Diablo, virando-se para a ogro. — Prepare tudo o que for necessário para a viagem. Medicamentos, suportes, tudo. Rimuru-sama irá para Ingrassia como um Rei, e voltará como um Deus vingador.

— Eu já estou preparando — respondeu Shuna, seus olhos brilhando com uma determinação fria. — Luminous-sama me ensinou as técnicas de compressão de mana. Eu não permitirei que nada aconteça com ele ou com o bebê durante o trajeto.

Veldora e Milim sentaram-se no chão ao lado da cama, recusando-se a sair. Ramiris pousou no travesseiro de Rimuru, soluçando baixinho enquanto guardava o sono do amigo.

— Eles não sabem o que os espera — comentou Benimaru, olhando para o mapa de Ingrassia sobre a mesa. — Eles acham que estão lidando com um professor ferido. Eles não têm ideia de que estão prestes a enfrentar a fúria combinada de dois Lordes Demônios Primordiais, um Dragão Verdadeiro e a herdeira do Destino.

— Que eles aproveitem seus últimos dias de arrogância — disse Souei, desaparecendo nas sombras para começar a infiltração. — O banquete das sombras está prestes a começar.

Durante os dias seguintes, Tempest transformou-se em uma máquina de guerra silenciosa. Rimuru acordava por breves períodos, sendo alimentado por Shuna e recebendo carinhos constantes de Guy e das crianças, que agora entendiam a gravidade da situação e tratavam Rimuru como o tesouro mais precioso do mundo.

Kenya e os outros alunos de Rimuru treinavam com uma ferocidade renovada sob a tutela de Hakuro. Eles queriam estar lá. Queriam que os nobres de Ingrassia vissem que os "órfãos de sorte" eram, na verdade, os guardiões de um Lorde Demônio.

— Nós vamos protegê-la, não vamos? — perguntou Alice, limpando o suor da testa após uma sessão de treino exaustiva.

— Nós vamos — afirmou Kenya, desembainhando sua espada de fogo. — Se alguém tentar magoar a mamãe Rimuru de novo, eu não vou esperar pelo papai Guy. Eu mesmo vou acabar com eles.

Finalmente, o dia da partida chegou. Rimuru foi transportado em uma carruagem mágica luxuosa, projetada por Garm e Vesta para anular qualquer vibração ou solavanco. O interior era um ninho de conforto, com Shuna ao seu lado o tempo todo, monitorando seus sinais vitais.

Do lado de fora, a escolta era nada menos que lendária. Guy Crimson cavalgava à direita, sua presença por si só distorcendo o ar. Diablo à esquerda, com um sorriso sereno que escondia sua sede de sangue. Atrás deles, os generais de Tempest e os três Lordes Demônios aliados.

Quando a comitiva chegou às fronteiras de Ingrassia, o pânico já havia se espalhado. O rei e os nobres esperavam uma delegação diplomática para discutir "compensações", mas o que viram foi uma força da natureza avançando sobre eles.

A academia foi escolhida como o local do encontro. O grande salão, onde Rimuru tantas vezes tentou ensinar com paciência, estava agora repleto de guardas reais trêmulos e nobres que tentavam manter uma fachada de dignidade. Os alunos arrogantes estavam na primeira fila, incentivados por seus pais a "exigirem respeito".

As portas do salão se abriram. O silêncio foi absoluto.

Primeiro entraram os generais, cujas auras de desastre faziam as luzes do salão oscilarem. Depois, Guy e Diablo, que caminharam até o centro do palco improvisado, afastando os guardas reais com um simples olhar.

E então, Rimuru entrou.

Ele estava apoiado no braço de Shuna, caminhando com uma lentidão que denunciava sua fragilidade. Sua túnica real de seda azul e dourada fluía ao redor de sua figura grávida, e seu rosto, embora pálido e cansado, exalava uma majestade que nenhum dos presentes jamais vira.

Ele sentou-se em uma poltrona luxuosa que Diablo materializou instantaneamente. Guy postou-se logo atrás dele, sua mão repousando no ombro de Rimuru, uma mensagem clara para o mundo: "Toque nele e você morrerá".

Alistair, o aluno que havia sido o mais cruel, tentou dar um passo à frente, encorajado pelo pai.

— Então a professora finalmente apareceu — disse ele, embora sua voz falhasse. — Veio pedir desculpas pelo comportamento de seus guardas?

Rimuru olhou para ele. Não havia raiva em seus olhos, apenas uma profunda e gélida decepção.

— Eu vim aqui por um único motivo — disse Rimuru, sua voz ecoando pelo salão com uma clareza cristalina, apesar de sua fraqueza. — Eu vim mostrar a vocês o rosto daquilo que vocês tentaram destruir. Eu vim mostrar o rosto da paciência que chegou ao fim.

Ele sentiu uma pontada forte e respirou fundo, fechando os olhos por um segundo. Guy inclinou-se, sussurrando algo em seu ouvido, e Rimuru assentiu levemente.

— Vocês enviaram uma carta exigindo compensações — continuou Rimuru, olhando agora para o Rei de Ingrassia. — Vocês zombaram da minha condição, insultaram meus filhos e ameaçaram minha nação. Eu ofereci a vocês o conhecimento e a paz. Vocês escolheram o orgulho e a dor.

Rimuru levantou-se lentamente, apoiando-se na poltrona. Shuna prontamente colocou a mão em suas costas, infundindo mana.

— Minha parte na diplomacia termina aqui — declarou Rimuru, olhando para os alunos que agora começavam a tremer. — Eu disse que deixaria vocês livres para se vingarem depois que eu falasse. Bem... eu terminei de falar.

Rimuru olhou para Guy e Diablo, e um pequeno sorriso, triste e sombrio, cruzou seus lábios.

— Por favor... tentem não sujar muito o chão. Eu ainda gosto deste tapete.

No momento em que Rimuru terminou a frase, sua visão vacilou. Ele começou a cair, mas Guy já o tinha nos braços antes mesmo de seus joelhos dobrarem.

— Shuna, leve-o para a carruagem — ordenou Guy, entregando Rimuru à ogro com uma delicadeza infinita. — O trabalho dele acabou. O nosso está apenas começando.

Enquanto Shuna levava Rimuru para fora, protegendo-o do que viria a seguir, o salão de Ingrassia tornou-se o cenário de um pesadelo. Diablo soltou uma risada melodiosa, suas garras se estendendo.

— Agora — disse o demônio, olhando para os nobres aterrorizados —, vamos discutir as "compensações" que vocês tanto desejavam.

Lá fora, deitado no conforto da carruagem, Rimuru ouviu o primeiro grito. Ele fechou os olhos, sentindo o bebê se acalmar em seu ventre agora que a tensão havia passado. Ele sabia que o mundo mudaria após aquela noite, mas enquanto sentia o rastro do perfume de Guy em suas vestes e o cuidado constante de Shuna, ele finalmente permitiu-se mergulhar em um sono sem sonhos, sabendo que, para o bem ou para o mal, Tempest nunca mais seria insultada. E Ingrassia? Ingrassia logo seria apenas uma lição de história escrita em cinzas.