Casal improvável mas provavelmente
Ritmo, Trauma e Café com Tapioca
A primeira manhã de Maria Eduarda na Torre dos Vingadores não começou com o som das ondas de Olinda, mas sim com a voz descorporada de J.A.R.V.I.S. informando que a temperatura externa em Manhattan era de dez graus negativos. Duda sentou-se na cama da ala médica, sentindo os cachos rebeldes desafiando a gravidade e a própria realidade da sua situação. Em menos de quarenta e oito horas, ela havia passado de uma ensaio coreográfico para um laboratório da Hydra, e de lá para o colo de um supersoldado com um braço de metal.
— Bom dia, senhorita Stark Siqueira — disse a voz do teto. — O Sr. Stark solicita sua presença na cozinha comum. Ele tentou cozinhar, mas o Capitão Rogers interveio para evitar um incêndio.
Duda soltou uma risada curta, levantando-se e vestindo o moletom enorme que haviam deixado para ela.
— Obrigada, J.A.R.V.I.S. Acho que a minha primeira sessão de terapia aqui vai ser com o fogão do meu pai.
Caminhar pelos corredores da Torre era como estar em um filme de ficção científica. Tudo brilhava, tudo era tecnológico, mas o que realmente chamava a atenção de Duda eram as pessoas. Ao passar pela sala de treinamento, ela viu Natasha Romanoff e Clint Barton em um duelo de reflexos que parecia uma dança mortal. Ela parou por um momento, observando o movimento dos pés de Natasha.
— O peso está muito no calcanhar direito — comentou Duda, sem pensar, encostada no batente da porta.
Natasha parou o movimento no ar, o olhar frio encontrando o de Duda. Clint guardou o arco, parecendo interessado.
— É mesmo? — perguntou a espiã, limpando o suor da testa.
— Para esse tipo de pivô, se você mantiver a força na ponta do pé, ganha dois segundos de reação — explicou Duda, fazendo um movimento rápido com o próprio corpo para demonstrar. — É física básica aplicada ao movimento. Ou só o que a gente aprende no frevo para não cair de cara no asfalto.
Natasha deu um sorriso de canto, quase imperceptível.
— Gostei dela. Stark não merece uma filha tão observadora.
Duda seguiu caminho até a cozinha, onde o caos já estava instalado. Tony estava sentado em um banco alto, cercado por três tablets, discutindo com um Bruce Banner que parecia precisar de dez horas de sono. Steve estava no fogão, fritando ovos com uma precisão militar, enquanto Sam Wilson tentava explicar para Thor o que era um podcast.
No canto da sala, quase fundido com as sombras, estava ele. Bucky Barnes segurava uma caneca de café com a mão de metal, os olhos fixos na porta. Quando Duda entrou, a postura dele relaxou visivelmente.
— A herdeira chegou! — exclamou Tony, levantando os braços. — Duda, querida, eu manduei buscar o melhor café do Brasil, mas o GPS do Happy deu erro e ele acabou trazendo um de uma cafeteria hipster no Brooklyn. Espero que sirva.
— O café é o de menos, Stark — disse Duda, aproximando-se e pegando uma torrada da mão de um Peter Parker distraído, que deu um pulo de susto. — O que eu quero saber é por que tem um deus nórdico tentando quebrar a mesa e por que o Bucky parece que não dorme desde a queda do Muro de Berlim.
— Ela é direta — murmurou Sam, rindo. — Gostei.
— Eu durmo o suficiente — respondeu Bucky, sua voz profunda vibrando no peito de Duda de uma forma que ela não queria admitir.
— Como psicóloga, eu digo: mentira — Duda caminhou até ele, ignorando o olhar protetor de Tony. Ela parou bem na frente de Bucky e olhou nos olhos dele. — Suas pupilas estão dilatadas, seus ombros estão na altura das orelhas e você está segurando essa caneca como se ela fosse uma granada. Você não dorme, você vigia.
O silêncio caiu sobre a cozinha. Ninguém falava assim com o Soldado Invernal. Nem mesmo Steve. Bucky piscou, surpreso pela audácia daquela garota que mal chegava aos seus ombros, mas que parecia enxergar através de todas as suas camadas de metal e trauma.
— Eu estou bem — insistiu ele, mas sua voz falhou levemente.
— Vamos fazer um trato, Picolé de Metal — disse ela, usando o apelido que inventara na noite anterior. — Eu te ensino a relaxar esses músculos antes que você vire uma estátua, e você me conta quem é o melhor lutador desse lugar.
— É o Steve — respondeu Bucky prontamente.
— Mentira — retrucou Duda com um sorriso travesso. — Eu vi os vídeos antigos. Você tinha muito mais estilo.
Tony pigarreou alto, interrompendo o momento.
— Certo, certo. Menos flerte com o centenário e mais foco na segurança. Duda, a Hydra não pegou você por acaso. Eles encontraram registros de que o seu DNA tem uma estabilidade única. É como se a minha inteligência tivesse se fundido com a resistência física da sua mãe... e algo mais.
Duda suspirou, sentando-se à mesa.
— Minha mãe sempre disse que eu era "elétrica". Achei que fosse só o açúcar das festas em Olinda.
— Não é só açúcar — disse Bruce, virando um monitor para ela. — Seus níveis de dopamina e serotonina são três vezes mais altos que o normal. Isso explica sua facilidade com a dança e sua resiliência mental. Você é, tecnicamente, uma "bateria humana" de otimismo e foco. Para a Hydra, você é a chave para estabilizar o soro em novos soldados sem que eles fiquem loucos.
Duda sentiu um calafrio. Ela não era apenas uma filha perdida; ela era um recurso.
— Eu não vou deixar eles tocarem em você de novo — a voz de Tony perdeu todo o sarcasmo. Era a voz de um pai que já tinha perdido demais.
— Nós não vamos — corrigiu Steve, colocando um prato de comida na frente de Duda. — Mas, por enquanto, você precisa ficar na Torre.
— Ótimo — disse Duda, tentando aliviar o clima. — Mas se eu vou ficar aqui, preciso de um espaço para dançar. E de música. Muita música. E Bucky?
O soldado, que estava prestes a sair da sala, parou.
— Sim?
— Você vai ser meu primeiro aluno. Essa sua rigidez está me dando agonia profissional.
Os dias que se seguiram foram uma mistura bizarra de treinamento de segurança e choque cultural. Duda transformou um dos laboratórios vazios de Tony em um estúdio improvisado. Ela colocava Anitta, Caetano Veloso e frevo no volume máximo, fazendo as paredes de vidro da Torre tremerem.
Peter Parker foi o primeiro a se juntar. Ele adorava a energia dela e, em pouco tempo, Duda o ensinou a incorporar movimentos de hip-hop nas suas patrulhas como Homem-Aranha. Wanda Maximoff também aparecia, encontrando na dança uma forma de canalizar suas emoções intensas sem causar explosões de energia escarlate.
Mas o desafio maior era Bucky.
Ele sempre aparecia na porta do estúdio por volta das sete da noite. Nunca entrava de primeira. Ficava ali, encostado na parede, observando Duda se mover. Para ela, a dança era como respirar. Seus cachos voavam, o suor brilhava em sua pele e ela parecia esquecer que havia uma organização terrorista querendo seu sangue.
Em uma terça-feira chuvosa, Duda parou a música e olhou para a porta.
— Entra logo, James. A madeira do chão não morde.
Bucky hesitou, mas entrou. Seus passos eram pesados, contrastando com a leveza dela.
— Eu não danço, Duda. A última vez que tentei, o presidente era o Roosevelt.
— Dançar não é sobre passos decorados, é sobre sentir o ritmo — ela caminhou até ele, estendendo a mão. — E sobre confiança.
Bucky olhou para a mão dela. Era pequena, quente e vibrante. Ele olhou para a sua própria mão esquerda, o metal fosco refletindo as luzes do estúdio.
— Eu posso te machucar. Eu não controlo a força o tempo todo.
— Eu não sou de porcelana, Bucky — disse ela, com a firmeza de quem cresceu nas ladeiras de Pernambuco. — E eu sou psicóloga, lembra? Eu sei que o que te machuca não é o braço, é o que você guarda na cabeça. Deixa o peso no chão por cinco minutos.
Ela ligou uma música lenta, um instrumental suave com batidas de percussão brasileira. Duda pegou a mão de metal de Bucky e a colocou em sua cintura. Com a outra mão, ela entrelaçou os dedos nos dele.
Bucky estava rígido como um poste. Ele podia sentir o calor do corpo dela, o cheiro de baunilha e suor, e a batida do coração dela, que era rápida e constante.
— Respira — sussurrou ela. — Fecha os olhos. Não pensa no Soldado. Pensa no Bucky do Brooklyn que levava as garotas para a feira.
— Ele morreu há muito tempo — murmurou Bucky, mas ele fechou os olhos.
— Ele está aí dentro. Só está soterrado por muito entulho — Duda começou a se mover lentamente, guiando-o. — Sente o baixo da música. Um, dois... um, dois...
Aos poucos, a tensão nos ombros de Bucky começou a ceder. O braço de metal, que ele sempre carregava como um fardo, parecia mais leve. Ele começou a seguir o balanço dela. Não era uma dança técnica, era uma conexão. Pela primeira vez em décadas, o ruído branco de gritos e ordens russas em sua mente foi substituído por uma melodia.
— Você está indo bem — disse ela, encostando a cabeça no peito dele.
Bucky soltou um suspiro longo, um som que parecia carregar anos de cansaço. Ele apertou a cintura dela um pouco mais, não com a força de um assassino, mas com o desespero de um homem que acaba de encontrar uma âncora em meio à tempestade.
— Por que você está fazendo isso? — perguntou ele, a voz rouca. — Por que não tem medo de mim?
Duda se afastou apenas o suficiente para olhar no fundo dos olhos azuis dele.
— Porque eu vejo você, Bucky. Não o que fizeram de você. E porque, lá em Olinda, a gente aprende que até o ferro mais duro precisa de fogo para ser moldado. Você só precisa do tipo certo de calor.
O momento foi interrompido por um estrondo vindo do andar de baixo, seguido pela voz de alarme de J.A.R.V.I.S.
— Senhor Barnes, Senhorita Stark, detectamos uma brecha de segurança no perímetro leste. Assinaturas de energia da Hydra identificadas.
Bucky mudou instantaneamente. O homem que dançava desapareceu, dando lugar ao guerreiro. Ele puxou Duda para trás de si, o braço de metal emitindo um som hidráulico baixo enquanto ele fechava o punho.
— Fica atrás de mim — ordenou ele.
— Nem pensar — disse Duda, pegando um bastão de treino que Tony havia modificado para ela com choques elétricos. — Eles vieram atrás do meu sangue, mas esqueceram que eu tenho o temperamento do meu pai.
Eles saíram do estúdio e encontraram o corredor tomado por fumaça. Steve e Sam já estavam em combate com agentes de armadura negra que haviam usado tecnologia de camuflagem para entrar.
— Stark! — gritou Steve pelo comunicador. — Eles estão no setor 4!
Tony surgiu voando pelo átrio, disparando repulsores.
— Tirem a Duda daqui! — gritou Tony, a voz carregada de pânico.
Um agente da Hydra disparou um dardo paralisante em direção a Duda, mas Bucky se moveu com uma velocidade sobre-humana, interceptando o dardo com a mão de metal e esmagando-o. Ele girou, chutando o agente contra a parede com uma força que fez o concreto rachar.
Duda não ficou parada. Um segundo agente tentou agarrá-la por trás, mas ela usou um movimento de capoeira que treinava desde criança. Ela se abaixou, apoiando as mãos no chão e lançando as pernas em um arco potente que atingiu o capacete do homem, deixando-o atordoado. Antes que ele pudesse se recuperar, ela encostou o bastão elétrico em seu peito, descarregando a voltagem.
— Nada mal, brasileira! — gritou Sam, passando por cima deles com suas asas.
— Eu disse que não era de porcelana! — respondeu ela, ofegante.
A batalha foi intensa, mas curta. Os Vingadores eram uma força da natureza, e agora tinham algo novo para proteger: o coração da equipe. Quando o último agente foi contido por Loki — que apareceu apenas no final para "limpar a sujeira" com um feitiço de imobilização elegante —, o silêncio retornou à Torre.
Tony pousou e abriu a máscara da armadura. Ele correu até Duda, segurando-a pelos ombros.
— Você está bem? Você se machucou? Eu vou construir uma bolha de vibranium para você morar, eu juro por Deus...
— Pai, para — disse Duda, e a palavra "pai" fez Tony travar no lugar. — Eu estou bem. Bucky me protegeu.
Ela olhou para o soldado. Bucky estava em pé a poucos metros, o braço de metal manchado de poeira, a expressão sombria. Ele parecia culpado, como se a presença da Hydra ali fosse responsabilidade sua.
Duda caminhou até ele, ignorando os outros. Ela pegou a mão de metal dele e, na frente de todos, deu um beijo suave nos nós dos dedos frios.
— Obrigada, meu guarda-costas — sussurrou ela.
Bucky sentiu o rosto esquentar, algo que não acontecia desde 1943. Steve sorriu de longe, trocando um olhar cúmplice com Natasha. Tony, por outro lado, parecia estar prestes a ter um curto-circuito.
— Certo, chega de momentos fofos — interrompeu Loki, com um sorriso malicioso. — Temos agentes para interrogar e um Stark para acalmar antes que ele comece a construir muros ao redor do continente americano.
Naquela noite, após a adrenalina baixar, Duda voltou para o estúdio. Ela não ligou a música. Apenas sentou-se na janela, olhando as luzes de Nova York. A porta se abriu silenciosamente.
— Você não consegue dormir também? — perguntou Bucky, entrando na sala.
— Muita coisa na cabeça — respondeu ela. — A Hydra não vai parar, vai?
— Não — disse Bucky, sentando-se ao lado dela no chão. — Mas nós também não.
Duda encostou a cabeça no ombro dele. O metal estava frio, mas o homem por baixo dele estava começando a queimar de novo.
— Sabe, James... na psicologia, a gente diz que o primeiro passo para a cura é aceitar o caos. Acho que minha vida em Olinda acabou, mas esse novo ritmo aqui... eu acho que posso me acostumar.
Bucky passou o braço humano ao redor dela, puxando-a para perto.
— Se você ficar, eu prometo que aprendo a dançar frevo. Mesmo que eu quebre o chão da Torre.
Duda riu, uma risada clara que ecoou pelo estúdio vazio.
— É uma promessa, Picolé. E prepare-se, porque o carnaval está chegando, e eu não aceito menos que perfeição.
Enquanto a lua subia sobre Manhattan, a filha de Stark e o soldado do passado encontraram, no silêncio daquela sala, uma melodia que nenhum deles esperava ouvir de novo: a melodia da esperança. E Tony Stark, observando pelas câmeras de segurança com um balde de mirtilos na mão, suspirou. Ele teria muito trabalho para processar aquele namoro, mas, pela primeira vez em muito tempo, a Torre dos Vingadores parecia, finalmente, um lar.