Casal improvável mas provavelmente
Aroma de Café e Saudade de Olinda
A luz do sol de Nova York entrava pelas imensas janelas de vidro da Torre dos Vingadores com uma insistência gelada, mas o clima dentro da cozinha comum estava prestes a esquentar. Maria Eduarda, ou simplesmente Duda para os novos e heróicos amigos, havia acordado antes de J.A.R.V.I.S. ter a chance de saudá-la. O fuso horário e a adrenalina de ser a "filha secreta do Homem de Ferro" ainda a mantinham em um estado de vigília vibrante.
Ela caminhou descalça pelo chão de mármore, vestindo uma camiseta do AC/DC que tinha "roubado" do closet de Tony e um short de ginástica. Seus cachos estavam volumosos, uma coroa indomável que ela prendeu no topo da cabeça com um elástico antes de começar sua missão: trazer um pouco de Pernambuco para o coração tecnológico de Manhattan.
Duda abriu os armários com a confiança de quem já tinha mapeado cada centímetro daquela cozinha gourmet. Ela sabia que Tony tinha os melhores equipamentos, mas faltava o toque humano.
— J.A.R.V.I.S., querido — começou ela, enquanto separava os ingredientes —, coloque aquela playlist de "Manhãs de Sol" que eu salvei ontem. Volume baixo, não queremos acordar o Hulk antes da hora.
— Imediatamente, Senhorita Stark Siqueira — respondeu a inteligência artificial, e logo os acordes de um violão brasileiro suave preencheram o ambiente.
Duda começou a trabalhar. Ela não encontrou goma de mandioca fresca para fazer tapioca, o que a fez soltar um suspiro dramático, mas Tony, em sua mania de grandeza, tinha providenciado farinha de milho de alta qualidade. Com habilidade, ela começou a preparar um cuscuz brasileiro na cuscuzeira elétrica que ela mesma tinha obrigado Happy a comprar em uma loja de produtos latinos no Queens no dia anterior.
O cheiro do milho cozido no vapor logo se misturou ao aroma de queijo coalho que ela colocou para grelhar em uma frigideira antiaderente. Ela cortou frutas frescas — manga, mamão e abacaxi — com a precisão de quem entende de coreografia e ritmo.
— O que é esse cheiro maravilhoso? — Uma voz rouca e sonolenta veio da entrada.
Duda virou-se e deu de cara com Steve Rogers. O Capitão América usava uma calça de moletom cinza e uma camiseta branca justa que deixava claro por que ele era o símbolo da perfeição física.
— Bom dia, Capitão — disse Duda, sorrindo e voltando sua atenção para o queijo. — É café da manhã de verdade. Nada de barras de proteína ou shakes verdes que o Bruce toma. Isso aqui é cuscuz com queijo e ovos mexidos.
— Parece... diferente — comentou Steve, aproximando-se com curiosidade. — Cheira a casa.
— É a ideia. Senta aí, vou servir você.
Pouco a pouco, os outros foram aparecendo, atraídos pelo perfume da comida. Sam Wilson foi o segundo, soltando um assobio de aprovação.
— Stark, você ouviu isso? Sua filha é um milagre — disse Sam, enquanto Tony entrava na sala, esfregando os olhos por trás de seus óculos escuros de lente laranja.
— Eu ouvi "milagre" e "Stark" na mesma frase, o que é redundante — resmungou Tony, mas ele parou ao ver a mesa montada. — O que é isso, Madu? Uma intervenção gastronômica?
— É o meu jeito de dizer que, se eu for ficar presa aqui, não vou comer comida de astronauta — respondeu ela, colocando uma caneca de café fumegante na frente de Tony e, para si mesma, servindo um copo alto de suco de uva integral, bem gelado.
— Você não toma café? — perguntou Peter Parker, surgindo debaixo da mesa (ou de algum lugar alto, como sempre), já pegando um pedaço de queijo.
— Credo, Peter. Café me deixa elétrica demais, e eu já sou ligada no 220v por natureza — explicou Duda, dando um gole longo em seu suco de uva. — Suco de uva é o sangue da vida.
Bucky Barnes foi o último a chegar. Ele parou na porta, observando a cena doméstica com uma expressão ilegível. Duda notou que ele parecia ter dormido um pouco melhor, mas as sombras sob seus olhos ainda estavam lá. Ela preparou um prato generoso de cuscuz e queijo e o colocou no lugar vago ao lado dela.
— Vem, James. Antes que o Thor chegue e devore tudo, incluindo a louça.
Bucky sentou-se em silêncio, mas seus olhos encontraram os de Duda por um segundo a mais do que o necessário. Ele provou o cuscuz, mastigando devagar.
— É bom — murmurou ele, e um pequeno sorriso surgiu no canto de seus lábios. — Tem gosto de algo que eu não sabia que estava sentindo falta.
— É o tempero de Olinda, picolé — disse ela, piscando para ele.
O café da manhã foi o momento mais tranquilo que a equipe teve em semanas. Entre piadas de Tony sobre o "excesso de carboidratos" e as perguntas curiosas de Steve sobre como se dançava frevo, Duda sentiu que, talvez, aquela torre de metal e vidro pudesse realmente se tornar um lar.
No entanto, ela não parou por ali. Durante a tarde, enquanto os outros estavam em reuniões estratégicas ou treinamentos, Duda decidiu que o jantar seria o golpe de misericórdia para conquistar definitivamente aquela família disfuncional.
Ela passou horas na cozinha. A lasanha que ela planejava não era uma lasanha comum. Era a receita de sua avó, com molho bolonhesa apurado por horas, muito queijo e um toque de manjericão fresco.
Quando o sol começou a se pôr, tingindo o céu de Nova York de laranja e roxo, o cheiro de molho de tomate e carne temperada começou a subir pelos dutos de ventilação, chegando até a sala de guerra.
— Stark, se você não encerrar essa reunião agora, eu vou desertar — declarou Clint Barton, largando suas flechas. — O cheiro daquela lasanha está me distraindo mais do que as ameaças da Hydra.
— Concordo com o arqueiro — disse Thor, levantando-se com entusiasmo. — O aroma é digno dos banquetes de Asgard!
Tony suspirou, mas o sorriso em seu rosto o traía.
— Reunião encerrada. Vamos ver o que a herdeira Stark preparou.
A mesa do jantar estava impecável. Duda tinha trocado de roupa, usando um vestido leve e colorido que trazia um pouco do calor brasileiro para o ambiente climatizado. Ela estava terminando de tirar a segunda travessa de lasanha do forno quando a equipe entrou em peso.
— Meu Deus, Madu... isso é uma obra de arte — disse Natasha, aproximando-se e inalando o aroma. — Você fez a massa do zero?
— Claro, Nat. Se for para fazer, tem que ser direito — respondeu Duda, orgulhosa. — E tem opção vegetariana para o Bruce, com espinafre e ricota.
Eles se sentaram e, por um momento, o caos habitual dos Vingadores deu lugar a um silêncio reverente enquanto todos davam a primeira garfada.
— Pelas barbas de Odin! — exclamou Thor, devorando um pedaço imenso. — Esta é a melhor batalha que já travei com um garfo!
— É realmente incrível, Duda — disse Steve, olhando para ela com admiração genuína. — Você teve muito trabalho.
— Eu gosto de cuidar das pessoas, Capitão. É por isso que estudo psicologia. A comida é só outra forma de terapia.
Tony estava sentado na cabeceira, observando a cena. Ele olhava para Duda e via tanto de si mesmo na determinação dela, mas também via aquela doçura e força que vinham de algum lugar que ele não tinha conseguido estragar com seu cinismo. Ele se sentia estranhamente grato.
— Sabe, garota — disse Tony, limpando o canto da boca —, eu ia oferecer para você um laboratório de última geração hoje, mas acho que vou ter que reformar a cozinha primeiro.
— Eu aceito os dois, Stark — brincou ela, arrancando risadas da mesa.
Bucky, que estava mais falante do que o normal, virou-se para ela em voz baixa, enquanto os outros discutiam sobre qual era o melhor filme de ficção científica da década.
— Você não precisava fazer tudo isso — disse ele, o braço de metal repousando sobre a mesa, relaxado.
— Eu sei que não precisava — respondeu Duda, servindo-lhe mais um pouco de lasanha. — Mas eu quis. Vocês passam o dia inteiro tentando salvar o mundo. Alguém tem que salvar vocês do cansaço.
Bucky olhou para o prato e depois para ela.
— Você é... diferente de qualquer pessoa que eu já conheci.
— É o efeito brasileiro, James. A gente não sabe ser "mais ou menos". Ou a gente ama, ou a gente dança, ou a gente faz lasanha.
A noite continuou com histórias e risadas. Peter tentou ensinar Duda a usar os novos recursos do seu celular, enquanto ela explicava para Loki que "caos elegante" era um ótimo nome para um bloco de carnaval.
Quando o jantar terminou e a equipe começou a se dispersar, Bucky ficou para trás para ajudar Duda com a louça. Tony olhou de longe, arqueando uma sobrancelha para Steve.
— Você está vendo o que eu estou vendo, Rogers? — sussurrou Tony. — O Soldado Invernal está secando pratos. Isso é um sinal do apocalipse.
— Não, Tony — sorriu Steve. — Isso é um sinal de que ele finalmente encontrou algo que quer proteger por vontade própria.
Na cozinha, o silêncio era confortável. Duda lavava e Bucky secava, o movimento rítmico e doméstico criando uma bolha de paz.
— James? — chamou ela suavemente.
— Sim?
— Obrigada por estar aqui. Eu sei que as coisas estão intensas com a história da Hydra e do meu DNA, mas... eu me sinto segura com você por perto.
Bucky parou de secar o prato por um instante. Ele olhou para a mão de metal e depois para o rosto iluminado de Duda.
— Eu nunca imaginei que alguém se sentiria seguro perto de mim — confessou ele, com uma vulnerabilidade que raramente mostrava.
Duda enxugou as mãos e deu um passo em direção a ele, reduzindo o espaço entre os dois. Ela colocou a mão no peito dele, sentindo o coração batendo forte sob o tecido da camiseta.
— Pois comece a imaginar. Porque eu não vou a lugar nenhum. E eu ainda tenho muita receita para te ensinar.
Bucky inclinou a cabeça, os cabelos caindo sobre os olhos, e por um momento pareceu que o tempo tinha parado na Torre dos Vingadores. Ele não a beijou, mas encostou a testa na dela, um gesto de confiança e carinho que valia mais do que mil palavras.
— Então é melhor eu me preparar — murmurou ele. — Porque eu acho que vou gostar muito desse seu "ritmo".
Duda sorriu, sentindo que, apesar de estar a milhares de quilômetros de Olinda, ela tinha acabado de encontrar o seu lugar no mundo. E aquele lugar tinha cheiro de lasanha, gosto de suco de uva e a força reconfortante de um picolé de metal.