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Casal improvável mas provavelmente

O Labirinto de Vidro e a Batida do Coração

O silêncio que se seguiu à "confissão matinal" na cozinha foi quebrado apenas pelo som rítmico de Tony Stark batendo uma colher de prata contra a lateral de sua caneca de cerâmica. O som era metálico, irritante e perfeitamente sincronizado com o tique nervoso em sua pálpebra esquerda.

— Então... — começou Tony, prolongando a vogal como se estivesse testando a resistência de um novo material de armadura. — Só para eu processar, porque o meu processador central, embora seja um i9 de última geração, está tendo dificuldades com o cache de memória agora. Você, James "Bucky" Barnes, o homem que eu tentei explodir em um bunker na Sibéria — o que, convenhamos, foi um desentendimento menor —, está agora oficialmente em um relacionamento de... proximidade física e emocional com a minha filha. A minha única filha. A psicóloga. A dançarina. A pessoa que traz luz para este antro de depressão e tecnologia.

Bucky não desviou o olhar. Ele manteve a postura ereta, a mão de metal descansando sobre a mesa, imóvel, enquanto a mão humana permanecia possessivamente próxima à de Duda.

— Sim, Stark — respondeu Bucky, sua voz soando como um trovão distante, calma mas carregada de uma força que não aceitava discussões. — É exatamente isso.

Duda soltou um suspiro longo, revirando os olhos com uma dramaticidade que herdara claramente do homem à sua frente.

— Pai, pelo amor de Deus, pare de falar como se eu fosse um protótipo de armadura que foi roubado. Eu tenho vinte anos, um diploma em andamento e, honestamente, depois de ser sequestrada pela Hydra, acho que um pouco de romance é o mínimo que eu mereço para manter minha saúde mental.

— Saúde mental? — Tony exclamou, levantando-se e começando a andar de um lado para o outro. — Você quer saúde mental? Eu te compro um retiro espiritual no Tibete! Eu te dou o número do terapeuta pessoal do Papa! Mas o Soldado Invernal? Ele é... ele é...

— Ele é o homem que me faz sentir em casa mesmo quando estou a milhares de quilômetros de Olinda — interrompeu Duda, sua voz suavizando, mas mantendo a firmeza. — Ele me ouve, pai. E ele me olha como se eu fosse a coisa mais importante do mundo, não porque eu sou sua filha ou porque meu sangue é valioso, mas porque eu sou a Duda.

Tony parou de andar. Ele olhou para Duda e, por um breve momento, o gênio sarcástico deu lugar ao homem que temia perder a única conexão real que lhe restava com um passado mais simples. Ele olhou para Bucky e viu algo que o irritava profundamente: ele viu a si mesmo, ou pelo menos a versão de si mesmo que faria qualquer coisa para proteger quem ama.

— Se você quebrar o coração dela — murmurou Tony, apontando um dedo trêmulo para Bucky —, eu juro que transformo seu braço de vibranium em um abridor de latas glorificado.

— Eu mesmo faria isso se a magoasse, Stark — respondeu Bucky com sinceridade absoluta.

— Ótimo! Que bom que estamos todos na mesma página de ameaças e violência doméstica — disse Loki, surgindo de trás de uma coluna com um sorriso de escárnio. — Agora que o melodrama paternal terminou, podemos focar no fato de que o sistema de segurança da torre detectou três tentativas de invasão digital nos últimos dez minutos?

A atmosfera na sala mudou instantaneamente. O humor de Tony evaporou, substituído pela frieza do Homem de Ferro.

— J.A.R.V.I.S., relatório — ordenou Tony.

— Senhor, alguém está tentando contornar os protocolos de criptografia nível sete utilizando uma assinatura de código que... bem, é familiar.

— Hydra — sussurrou Steve, levantando-se e assumindo sua postura de líder. — Eles não querem apenas o sangue dela. Eles querem o que ela representa.

Duda sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Ela olhou para Bucky, que já estava de pé, sua expressão voltando a ser a do guerreiro que não conhece o medo.

— Eles não vão chegar perto dela — disse Bucky, sua mão de metal se fechando em um punho que produziu um rangido baixo e ameaçador.

— Eles já chegaram perto demais — disse Natasha, entrando na sala com um tablet na mão. — Recebemos um sinal de um rastreador que instalamos na base de Sokovia antes de explodi-la. Há uma célula ativa aqui em Nova York. Eles estão monitorando a torre.

Tony olhou para Duda. O medo em seus olhos era visível, apesar de todo o seu esforço para escondê-lo.

— Duda, você vai para o bunker de segurança. Agora.

— De jeito nenhum — retrucou ela, cruzando os braços. — Eu sou uma Stark, lembra? E sou psicóloga. Eu sei como esses caras pensam. Eles querem me desestabilizar. Se eu me esconder, eu dou a eles o que eles querem: medo.

— Madu, isso não é um ensaio de dança — disse Tony, sua voz carregada de uma urgência paternal. — Isso é guerra.

— Então me dê uma arma — disse ela, desafiadora. — Ou melhor, me deixe ajudar o Bruce e o Peter com o rastreamento. Eu conheço os padrões de comportamento dos agentes que me interrogaram. Eu sei que eles têm um horário de troca de turno baseado em protocolos antigos.

Bucky olhou para ela, uma mistura de orgulho e preocupação em seu rosto.

— Ela está certa, Stark. Ela é inteligente. Deixe-a ajudar de dentro, onde está protegida, mas não a trate como uma vítima. Ela é mais forte do que você pensa.

Tony bufou, mas assentiu.

— Tudo bem. Mas se eu vir um fio de cabelo cacheado fora do lugar, eu tranco todo mundo nesta torre até o ano 3000. Peter, leve-a para o laboratório secundário. Bruce já está lá.

Enquanto a equipe se mobilizava, Bucky segurou o braço de Duda por um momento.

— Tome cuidado — sussurrou ele, aproximando o rosto do dela. — Eu vou estar lá fora caçando esses desgraçados. Mas meu pensamento vai estar aqui.

Duda sorriu, um sorriso pequeno que carregava toda a coragem de Pernambuco.

— Vá lá e mostre a eles por que você é o melhor, James. E quando voltar... eu vou te ensinar a fazer um café decente, porque esse que o meu pai toma parece combustível de foguete.

Bucky riu, um som curto e seco, e lhe deu um beijo rápido e casto na testa antes de sair em disparada atrás de Steve e Sam.

No laboratório, o ambiente era tenso. Bruce Banner estava cercado por telas que mostravam sequências de DNA e mapas de calor da cidade. Peter Parker digitava furiosamente em três teclados ao mesmo tempo.

— Duda! — exclamou Peter, sem tirar os olhos da tela. — Que bom que você veio. O Sr. Stark disse que você conhece os protocolos de comunicação deles.

— Sim — disse ela, aproximando-se e observando os códigos. — Eles não usam satélites comuns. Eles usam frequências de rádio de baixa amplitude que se misturam com o ruído de fundo da cidade. Procure por picos de interferência perto de estações de metrô desativadas. Eles adoram lugares úmidos e escuros, parece que têm alergia a sol.

Bruce sorriu para ela.

— Você tem o raciocínio lógico do seu pai, mas a intuição parece muito mais aguçada.

— É o treinamento — explicou Duda. — Na psicologia, a gente aprende a ler o que não é dito. A Hydra é previsível porque eles são obcecados por ordem. Eles não entendem o caos.

Enquanto trabalhavam, Duda sentia uma conexão estranha com as telas. Seu sangue, aquele que a Hydra tanto queria, parecia pulsar em sincronia com os dados. Ela começou a perceber um padrão nas tentativas de invasão.

— Bruce, olhe isso — apontou ela. — Eles não estão tentando entrar no sistema de armas. Eles estão tentando entrar no sistema de ventilação e nos elevadores.

— Eles querem isolar a gente — concluiu Peter, arregalando os olhos. — Eles querem trancar todo mundo nos andares e vir buscar você pessoalmente.

— J.A.R.V.I.S., feche os dutos de ventilação do setor quatro ao nove! — gritou Tony pelo comunicador.

Lá fora, nas ruas de Manhattan, o caos começava a se desenrolar. Bucky, Steve e Sam estavam no encalço de uma van preta que se movia com uma velocidade suspeita.

— Eles estão indo para a ponte! — gritou Sam, sobrevoando a área. — Barnes, eles têm armas de energia!

Bucky saltou do topo de um prédio, seu braço de metal brilhando sob o sol. Ele aterrissou no teto da van com um baque surdo que amassou o metal. Com um movimento violento, ele arrancou a porta traseira, revelando três agentes da Hydra armados até os dentes.

— Vocês escolheram a cidade errada — rosnou Bucky.

A luta foi rápida e brutal. Bucky se movia como um borrão de fúria controlada. Cada golpe do seu braço de metal desativava um inimigo. Mas, no fundo de sua mente, ele sentia uma inquietação. Algo estava errado. Era fácil demais.

— Steve! — chamou Bucky pelo rádio. — Isso é uma distração! Eles não estão aqui por ela. Eles já estão na torre!

Na torre, as luzes piscaram. Duda sentiu o elevador do laboratório se mover, embora ninguém o tivesse chamado.

— Peter, Bruce, atrás de mim! — ordenou Duda, pegando o bastão de choque que Tony lhe dera.

As portas do elevador se abriram e quatro soldados com armaduras táticas saíram disparando dardos tranquilizantes. Peter agiu por instinto, saltando para o teto e disparando teias, prendendo dois deles na parede. Bruce tentava manter a calma, mas seus olhos já começavam a brilhar em um tom perigoso de verde.

— Não aqui, Bruce! — gritou Duda. — Se você se transformar agora, a torre cai!

Duda se moveu com a graça de uma bailarina e a precisão de uma guerreira. Ela se esquivou de um golpe de coronha, girou sobre o próprio eixo e aplicou uma rasteira de capoeira no terceiro soldado. Enquanto ele caía, ela encostou o bastão em seu pescoço, descarregando a voltagem máxima.

— Nada mal para uma psicóloga! — gritou Peter, chutando o último soldado para longe.

Mas então, um som de vidro quebrando ecoou. Pela janela quebrada, um homem com uma armadura de voo preta e dourada entrou no laboratório. Ele não era da Hydra. Ou pelo menos, não da Hydra que eles conheciam.

— Maria Eduarda Stark — disse o homem, sua voz distorcida por um modulador. — Você é a peça que falta para o novo império.

Antes que Peter pudesse reagir, o invasor disparou uma onda de som que jogou o herói aracnídeo contra os servidores. Bruce foi atingido por um dardo de alta dosagem química que o fez desmaiar antes que o Hulk pudesse emergir.

Duda estava sozinha. Ela olhou para o invasor, o medo tentando paralisá-la, mas a batida de Olinda em seu coração era mais forte.

— Você quer meu sangue? — perguntou ela, preparando o bastão. — Vem buscar, seu projeto de lata velha.

O homem avançou, mas antes que pudesse tocá-la, uma explosão de metal e fúria atravessou a parede lateral. Bucky Barnes entrou como um cometa, atingindo o invasor com o ombro e jogando-o através de três paredes de vidro.

Bucky parou na frente de Duda, ofegante, o rosto sujo de poeira e sangue, mas os olhos fixos nela com uma intensidade protetora que a fez perder o fôlego.

— Eu disse que estaria aqui — murmurou ele.

— Você demorou — brincou ela, embora suas mãos estivessem tremendo.

O invasor se levantou dos escombros, sua armadura danificada. Ele olhou para Bucky e depois para Duda.

— O Soldado Invernal protegendo a herdeira do Stark. Que poético. Mas o sangue dela já foi mapeado. Não precisamos mais dela viva.

Ele levantou o braço para disparar um feixe de energia, mas um rastro vermelho e dourado cruzou o laboratório. Tony Stark, em sua armadura completa, atingiu o homem com um tiro de repulsor que o lançou para fora da torre, em direção ao East River.

— Ninguém — disse Tony, a voz metálica e mortal através do capacete — toca na minha filha.

O silêncio voltou ao laboratório, quebrado apenas pelo som dos sistemas de emergência. Tony abriu a máscara, seu rosto pálido e suado. Ele caminhou até Duda e a abraçou com a força de um homem que quase perdeu tudo.

— Você está bem? — perguntou ele, a voz embargada.

— Estou, pai. Estou bem. O Peter e o Bruce me ajudaram. E o Bucky... ele chegou na hora certa.

Tony olhou para Bucky. Não havia mais sarcasmo, nem ameaças. Havia apenas um reconhecimento silencioso entre dois homens que amavam a mesma pessoa de maneiras diferentes.

— Obrigado, Barnes — disse Tony, um agradecimento que custou a ser dito, mas que foi sincero.

Bucky apenas assentiu, caminhando até Duda e segurando sua mão.

Horas mais tarde, após a poeira baixar e os agentes da Hydra serem devidamente processados pela S.H.I.E.L.D., a paz voltou à torre. O laboratório estava em reformas, e a equipe estava reunida na sala de estar, exausta.

Duda estava sentada no sofá, com a cabeça apoiada no ombro de Bucky. Ele acariciava seus cachos com a mão humana, enquanto a mão de metal repousava sobre o joelho dela.

— Sabe — disse Duda, quebrando o silêncio —, eu vim para Nova York para estudar a mente humana. Mas acho que acabei aprendendo mais sobre o coração.

— E o que você descobriu, Dra. Stark? — perguntou Sam, que estava com um curativo na testa, mas ainda mantinha o bom humor.

— Que o coração é como o frevo — respondeu ela, sorrindo para Bucky. — É rápido, é intenso, às vezes você perde o equilíbrio, mas se você tiver o parceiro certo, a dança nunca termina.

Tony, que estava sentado em uma poltrona próxima com Pepper, soltou um suspiro dramático.

— Ótimo. Agora ela está citando metáforas de dança. Pepper, prepare-se, porque o próximo passo vai ser um casamento temático com escudos e armaduras.

— Não dê ideias, Tony — riu Pepper.

Bucky olhou para Duda e, pela primeira vez em muito tempo, o Soldado Invernal sentiu que o inverno tinha finalmente acabado. O sol de Olinda tinha chegado para ficar, e ele não pretendia soltar aquela mão por nada no mundo.

— James? — sussurrou Duda.

— Sim?

— Você ainda me deve aquela dança. Sem invasões da Hydra desta vez.

Bucky sorriu, um sorriso que iluminou todo o seu rosto.

— Qualquer música, Duda. Desde que seja com você.

E ali, no coração de uma torre de aço e vidro, em meio aos heróis mais poderosos da Terra, uma psicóloga brasileira e um soldado de outro tempo encontraram o ritmo perfeito. Um ritmo que não dependia de DNA ou de soros de super-heróis, mas apenas da batida constante e sincera de dois corações que tinham encontrado o seu lugar no mundo.