Casal improvável mas provavelmente
O Compasso do Caos e o Tempero do Recomeço
A Torre dos Vingadores estava envolta em um silêncio raro, aquele tipo de quietude que só acontece quando Tony Stark decide que o mundo pode esperar cinco minutos enquanto ele processa uma nova realidade. Maria Eduarda, ou Duda, como preferia ser chamada, estava sentada no balcão de mármore da cozinha, balançando as pernas e observando o reflexo das luzes de Manhattan no vidro.
Ela ainda podia sentir a adrenalina do ataque da Hydra correndo em suas veias. O cheiro de ozônio dos repulsores de seu pai e o som do metal de Bucky colidindo com os invasores ainda ecoavam em sua mente. Mas, acima de tudo, ela sentia o peso do olhar de Tony, que estava parado do outro lado da sala, observando-a como se ela fosse um código binário particularmente complexo que ele não conseguia decifrar.
— Então — começou Tony, quebrando o silêncio com a sutileza de uma explosão controlada —, eu tenho uma filha. Uma filha que é psicóloga, dançarina profissional, brasileira e que, aparentemente, tem um gosto muito peculiar para homens.
Duda deu um sorriso de canto, aquele mesmo sorriso enviesado que Tony via no espelho todas as manhãs.
— "Peculiar" é uma palavra forte, pai — disse ela, saltando do balcão. — Eu diria que tenho um gosto clássico. Vintage, talvez?
Tony bufou, mas seus olhos brilharam com uma pontada de orgulho que ele tentava esconder atrás do sarcasmo.
— Vintage é um vinho Bordeaux de 1945, Madu. O Barnes é... bem, ele é um monumento histórico com problemas de junta e um braço que custa mais do que o PIB de alguns países pequenos.
— Ele é o homem que me segurou quando o mundo estava desmoronando — rebateu ela, aproximando-se de Tony. — E, se você for honesto consigo mesmo, ele é a única pessoa nesta Torre que é tão teimosa quanto você.
Tony suspirou, passando a mão pelo rosto. A armadura de cinismo que ele usava estava começando a rachar. Ele estendeu a mão e tocou um dos cachos de Duda, sentindo a textura do cabelo que era tão diferente do dele, mas que carregava o mesmo DNA rebelde.
— Eu perdi vinte anos — sussurrou ele, a voz subitamente rouca. — Vinte anos de apresentações de dança, de notas de psicologia, de... de tudo. Eu sou o Homem de Ferro, eu deveria ter descoberto. Eu deveria saber que você existia.
Duda sentiu um nó na garganta. Ela viu a culpa nos olhos de seu pai e, como a psicóloga que estava se tornando, soube exatamente o que dizer.
— Você não sabia, Tony. A Hydra se certificou disso. Mas você está aqui agora. E, honestamente? Eu acho que o mundo não estava pronto para dois Starks ao mesmo tempo antes disso. A gente ia acabar implodindo o planeta por excesso de ego.
Tony soltou uma risada curta e seca, puxando-a para um abraço desajeitado. Duda se encaixou ali, sentindo o calor do Reator Arc contra seu peito, um batimento artificial que mantinha vivo o homem que agora era sua âncora.
— Tudo bem, garota — disse Tony, afastando-se e recuperando a postura. — Mas se o Picolé de Metal te magoar, eu vou reprogramar o braço dele para fazer apenas origamis de cisne pelo resto da eternidade.
A porta automática da cozinha se abriu e Bucky Barnes entrou. Ele parecia ter acabado de sair de uma sessão intensa de treinamento — ou de uma briga de bar com deuses. Seus cabelos estavam úmidos e ele usava uma camiseta cinza simples que marcava a musculatura tensa. Ao ver Tony e Duda juntos, ele hesitou.
— Stark — disse Bucky, sua voz grave ressoando no ambiente.
— Barnes — respondeu Tony, estreitando os olhos. — Estávamos justamente falando sobre o seu futuro como mestre de dobradura de papel.
Bucky franziu a testa, confuso, mas seu olhar logo se suavizou ao encontrar o de Duda. Havia uma conexão silenciosa entre eles, algo que transcendia as palavras e os traumas compartilhados.
— O Steve está chamando para o debriefing — disse Bucky, mantendo a distância, respeitando o espaço entre pai e filha. — Mas eu queria saber se... se você está bem, Duda.
— Estou ótima, James — respondeu ela, abrindo um sorriso que pareceu iluminar a sala. — Só estava explicando para o meu pai que o tempero de Olinda é mais forte do que qualquer tecnologia da Hydra.
Tony olhou de um para o outro, soltou um resmungo ininteligível sobre "hormônios e super-soldados" e saiu da sala, deixando um rastro de perfume caro e genialidade inquieta para trás.
Bucky deu alguns passos à frente, parando diante de Duda. O braço de metal, geralmente uma arma de destruição, parecia subitamente pesado ao seu lado.
— Ele vai me odiar por um tempo, não vai? — perguntou Bucky, um meio sorriso surgindo em seu rosto sofrido.
— Ah, com certeza — riu Duda, aproximando-se e pegando a mão humana de Bucky. — Mas o Tony odeia quase todo mundo que ele ama. É o mecanismo de defesa dele. Você se acostuma.
Bucky olhou para as mãos entrelaçadas. A pele macia de Duda contra a sua, calejada por décadas de guerra.
— Eu não quero ser um mecanismo de defesa, Duda. Eu passei muito tempo sendo uma arma. Com você... eu sinto que posso ser apenas o Bucky.
— E é por isso que eu te escolhi, James — disse ela, ficando na ponta dos pés para beijar sua bochecha. — Agora, vamos. Antes que o Capitão América venha nos buscar com um discurso sobre pontualidade e dever moral.
No salão principal, a equipe estava reunida. Steve Rogers estava em pé, com os braços cruzados, observando um holograma da base da Hydra que tinham atacado. Sam Wilson estava sentado em um dos sofás, limpando suas asas mecânicas, enquanto Natasha e Clint conversavam em voz baixa em um canto. Thor estava ocupado devorando uma caixa de rosquinhas, e Bruce Banner revisava alguns dados em um tablet.
— Finalmente — disse Sam, ao ver Duda e Bucky entrarem. — Achei que tivessem fugido para o Brasil para abrir uma escola de dança e combate.
— Não dê ideias, Sam — brincou Duda, sentando-se ao lado de Natasha. — Eu ainda preciso terminar meu curso de psicologia. Alguém tem que cuidar da sanidade mental de vocês, e eu cobro caro por hora.
— Você é uma Stark — disse Natasha, com um brilho de diversão nos olhos. — Já nasceu rica. Pode fazer caridade e cuidar do Clint, ele está precisando de terapia desde 2012.
— Ei! — protestou Clint. — Eu sou o mais estável aqui. Eu tenho uma fazenda e cachorros.
Steve pigarreou, chamando a atenção de todos.
— A Hydra não vai desistir — disse ele, a voz séria de líder assumindo o controle. — Eles mapearam o DNA da Duda. Eles sabem que ela é a chave para estabilizar o soro em cobaias humanas sem os efeitos colaterais da loucura. Ela não é apenas a filha do Tony agora; ela é o alvo mais valioso do mundo.
O clima na sala esfriou instantaneamente. Tony, que tinha acabado de entrar com uma nova caneca de café, apertou o suporte de metal com força.
— Ninguém chega perto dela — disse Tony, sua voz mortalmente calma. — Eu estou construindo um sistema de defesa orbital. Vou cercar esta Torre com drones de detecção térmica e...
— Pai — interrompeu Duda, levantando-se. — Você não pode me trancar em uma caixa de vidro, por mais tecnológica que ela seja. Eu sou uma dançarina. Eu preciso de espaço. Eu preciso viver.
— Ela tem razão, Tony — interveio Steve. — O melhor jeito de protegê-la é treiná-la. Ela já mostrou que sabe lutar. Precisamos refinar isso.
Bucky deu um passo à frente, sua presença preenchendo o espaço.
— Eu treino ela — disse ele. — Eu sei como a Hydra luta. Eu sei como eles pensam. Eu posso ensiná-la a antecipar cada movimento deles.
Tony olhou para Bucky com uma mistura de fúria e relutância. Ele queria dizer não. Queria gritar que ninguém tocaria em sua filha. Mas ele viu o olhar de Duda — um olhar de fogo, de determinação, o olhar de alguém que nasceu em Olinda e não tinha medo de cara feia.
— Tudo bem — cedeu Tony, apontando para Bucky. — Mas se ela ficar com um arranhão... um único arranhão... eu derreto o seu braço e transformo em talheres para a lanchonete da esquina.
— Justo — respondeu Bucky, com um aceno de cabeça.
As semanas seguintes foram um borrão de esforço físico e descoberta emocional. Pela manhã, Duda estudava seus livros de psicologia, mergulhando nas teorias de Freud e Jung sob o olhar atento de J.A.R.V.I.S. À tarde, o ginásio da Torre tornava-se seu palco e seu campo de batalha.
Bucky era um instrutor implacável, mas paciente. Ele ensinava Duda a usar o peso do próprio corpo, a transformar a fluidez da dança em golpes de impacto.
— A dança é ritmo, Duda — disse Bucky, circulando-a no tatame. — A luta também é. Se você conseguir prever a batida do ataque do inimigo, você pode mudar a coreografia.
Duda estava ofegante, o suor brilhando em sua pele. Ela avançou, tentando um chute alto que Bucky bloqueou facilmente com o braço de metal. O som do impacto ecoou pelo ginásio.
— De novo — ordenou ele.
Duda sorriu, limpando o suor da testa. Ela não atacou da mesma forma. Em vez disso, ela usou um movimento de capoeira, gingando para o lado e usando o impulso para tentar uma rasteira. Bucky teve que saltar para trás para não ser derrubado.
— Isso! — exclamou ele, um brilho de admiração nos olhos. — Use o que você tem. Use a sua cultura. A Hydra não sabe lidar com o que não pode prever.
Eles pararam por um momento, a respiração pesada sincronizada. O ginásio estava vazio, a luz do entardecer filtrada pelas janelas altas. Duda aproximou-se de Bucky, reduzindo a distância entre o instrutor e o homem.
— Você está sendo muito duro comigo, sargento — sussurrou ela, as mãos repousando sobre o peito dele.
— Eu só quero que você esteja viva para dançar comigo de novo — respondeu ele, a voz baixa e carregada de emoção.
Ele a puxou para um beijo, um beijo que tinha gosto de esforço e de uma esperança que Bucky achava que tinha perdido há setenta anos. Duda correspondeu com toda a intensidade de sua alma brasileira, sentindo o contraste entre o calor da pele dele e o frio do metal de seu braço.
No entanto, a paz na Torre era sempre uma ilusão frágil. No laboratório, Tony e Bruce Banner estavam analisando os dados que Duda tinha ajudado a recuperar.
— Bruce, olhe isso — disse Tony, ampliando uma cadeia de aminoácidos no holograma. — Não é apenas estabilidade genética. O sangue da Duda tem uma capacidade de regeneração celular acelerada. É por isso que ela nunca fica doente, é por isso que ela tem essa energia inesgotável.
— Tony — disse Bruce, preocupado —, se a Hydra souber disso, eles não vão querer apenas o soro. Eles vão querer usá-la como uma matriz de produção. Eles vão tentar replicá-la.
— Eu sei — respondeu Tony, seus olhos fixos na imagem da filha no monitor de segurança do ginásio. — É por isso que eu não estou apenas construindo drones. Eu estou desenvolvendo algo novo. Uma armadura que ela possa usar sem precisar de um reator. Uma armadura que responda ao ritmo dela.
Enquanto isso, em uma localização desconhecida na Europa Oriental, uma tela se iluminava com o rosto de Maria Eduarda Stark Siqueira. Um homem com uma cicatriz profunda no rosto observava as imagens dela treinando com Bucky.
— Ela é perfeita — disse o homem, sua voz gélida. — O sangue dela será o alicerce do nosso novo mundo. O Soldado Invernal acha que pode protegê-la, mas ele esquece que nós fomos os seus criadores. Nós sabemos onde estão as rachaduras no aço.
De volta à Torre, a noite caiu sobre Nova York. Duda estava em seu quarto, tentando relaxar após o treino exaustivo. Ela colocou um disco de vinil que tinha trazido do Brasil — um clássico de Alceu Valença. A música preencheu o quarto, trazendo lembranças das ladeiras de Olinda, do cheiro de mar e da alegria das festas de rua.
Houve uma batida suave na porta. Era Bucky. Ele trazia duas canecas de chá e um olhar de quem carregava o peso do mundo nos ombros.
— Posso entrar? — perguntou ele.
— Sempre, James.
Eles sentaram-se na varanda, observando as luzes da cidade. A música brasileira flutuava suavemente ao fundo.
— Eu sinto que algo está vindo — confessou Bucky. — O Soldado dentro de mim... ele está inquieto.
Duda pegou a mão dele, entrelaçando seus dedos.
— Deixe ele inquieto. Nós estamos prontos. Eu tenho o meu pai, eu tenho o Steve, e eu tenho você. A Hydra pode ter me criado em um laboratório, mas eles não me deram o que eu tenho agora.
— O que você tem agora? — perguntou ele, olhando-a nos olhos.
— Uma família — respondeu ela. — E um motivo para lutar que não é apenas sobrevivência. É amor.
Bucky inclinou a cabeça e descansou-a no ombro de Duda. Pela primeira vez em décadas, ele permitiu-se fechar os olhos e apenas ouvir a música. Ele não sabia o que o amanhã traria, nem quais segredos o sangue de Duda ainda revelaria, mas ele sabia que, enquanto houvesse ritmo naquela Torre, ele dançaria conforme a música dela.
Lá embaixo, na garagem, Tony Stark trabalhava freneticamente em um novo projeto. O metal brilhava sob as luzes do laboratório, tomando a forma de algo elegante, ágil e indestrutível.
— J.A.R.V.I.S. — disse Tony, sem tirar os olhos da solda. — Como está o progresso do Protocolo Maracatu?
— Setenta por cento concluído, Senhor — respondeu a IA. — A integração com os sensores de movimento da Senhorita Stark Siqueira é perfeita. Ela será capaz de lutar como se estivesse em um palco.
— Ótimo — murmurou Tony. — Porque a festa da Hydra está prestes a ser cancelada por excesso de Stark no recinto.
O compasso do caos estava acelerando, e a filha misteriosa do Homem de Ferro estava prestes a mostrar ao mundo que, quando o aço de Stark se misturava ao sangue de Olinda, o resultado era uma sinfonia que ninguém seria capaz de parar. E, no centro de tudo, o Soldado Invernal encontraria sua redenção final, não como uma arma, mas como o parceiro de dança de uma mulher que via luz onde todos os outros viam apenas sombras.