Casal improvável mas provavelmente
O Despertar do Aço e a Cadência do Desejo
O sol de Nova York ainda não havia vencido completamente a névoa matinal que se agarrava aos arranha-céus, mas a Torre dos Vingadores já pulsava com sua própria energia. No andar de treinamento privativo, o silêncio era interrompido apenas pelo zumbido baixo do sistema de ventilação e pelo som de passos rítmicos.
Maria Eduarda, ou Duda para os íntimos, havia acordado com aquela inquietude que só uma dançarina entende. Era uma necessidade física de se mover, de traduzir em movimento o turbilhão de emoções que sua nova vida — e seu novo pai — haviam trazido. Ela vestia um conjunto de academia preto, justo como uma segunda pele, que contrastava com a imensidão de seus cachos escuros, presos em um coque alto e propositalmente bagunçado.
Ela conectou seu celular ao sistema de som da sala. Não queria frevo hoje, nem a energia explosiva do funk. Ela precisava de algo que falasse com a tensão que sentia entre as costelas. Uma batida lenta de R&B começou a ecoar, grave e profunda, preenchendo o espaço vazio.
Duda fechou os olhos. Ela começou devagar, deixando o corpo se inclinar com a música. Seus movimentos eram fluidos, uma mistura de técnica contemporânea com a sensualidade natural de quem cresceu sentindo o ritmo na pele. Ela desceu até o chão em um movimento controlado, as mãos deslizando pelas próprias coxas, a coluna arqueando-se com uma flexibilidade que faria a Viúva Negra acenar em aprovação.
Ela não sabia, mas não estava sozinha.
Bucky Barnes havia saído para sua corrida matinal habitual às cinco da manhã. Ele gostava do frio antes do nascer do sol; lembrava-o de que estava vivo, de que não era mais um prisioneiro do gelo. Ao retornar, ele pretendia ir direto para o ginásio socar alguns sacos de areia até que o tremor em suas mãos parasse.
Ao se aproximar da sala de vidro, ele parou. A música era diferente de tudo o que ele costumava ouvir — não era o jazz de sua juventude, nem as marchas militares de sua vida como soldado. Era algo visceral.
Através do vidro fumê, ele a viu.
Bucky ficou estático. O braço de metal, pesado ao lado do corpo, pareceu subitamente irrelevante diante da imagem à sua frente. Duda se movia como se o ar fosse feito de seda. Ela girava, os quadris desenhando oitos invisíveis no ar, o pescoço exposto enquanto ela jogava a cabeça para trás. Cada movimento era carregado de uma intenção que Bucky nunca tinha visto em um campo de batalha. Era uma forma diferente de poder.
Ele deveria ter seguido em frente. Deveria ter ido para o seu próprio treino. Mas seus pés pareciam fundidos ao chão do corredor. Ele observou como ela deslizava as mãos pelos cabelos, soltando alguns cachos que caíram sobre seu rosto suado. O movimento era lento, provocante, quase proibitivo. Bucky sentiu o coração martelar contra as costelas, um ritmo muito mais rápido do que a música que ela dançava.
Duda girou, completando uma sequência que terminava com ela de costas para a porta, as mãos apoiadas nos joelhos, o corpo ondulando conforme a batida morria. Foi nesse momento que ela sentiu. Aquele formigamento na nuca que não vinha da adrenalina, mas da sensação de ser observada.
Ela se virou lentamente, limpando uma gota de suor da testa. Seus olhos encontraram os de Bucky através do vidro.
O soldado congelou, sentindo-se como um recruta pego em flagrante. Ele respirou fundo e, percebendo que não havia mais como se esconder, pressionou o painel e entrou na sala.
— Eu... eu não queria interromper — disse Bucky, sua voz soando mais rouca do que o normal. — Pensei que o ginásio estivesse vazio.
Duda deu um sorriso pequeno, um brilho travesso surgindo em seus olhos escuros. Ela não parecia nem um pouco envergonhada. Pelo contrário, ela parecia gostar da atenção.
— O ginásio é grande, James. Tem espaço para um soldado e uma dançarina — disse ela, caminhando até a garrafa de água. Ela bebeu um longo gole, observando-o por cima do bocal. — Você está aí há muito tempo?
Bucky sentiu o calor subir pelo pescoço.
— Tempo o suficiente para ver que você... você tem técnicas de combate muito interessantes.
Duda soltou uma risada cristalina que ecoou pelas paredes espelhadas.
— Técnicas de combate? James, aquilo era dança. No Brasil, a gente chama isso de sentir a música. Mas se você quiser chamar de combate, eu não me importo. Foi uma luta bem intensa.
Ela se aproximou dele, o cheiro de baunilha e suor leve atingindo os sentidos de Bucky. Ele era um homem que já tinha visto o fim do mundo, que já tinha enfrentado deuses, mas ali, parado diante daquela mulher de vinte anos, ele se sentia completamente desarmado.
— Você dança de um jeito... diferente — murmurou Bucky, sua mão humana subindo inconscientemente para a nuca. — É hipnotizante.
— É uma dança que fala sobre o que a gente quer, mas não pode dizer — explicou ela, parando a apenas alguns centímetros dele. Ela estendeu a mão e tocou o braço de metal de Bucky, as pontas dos dedos traçando as linhas frias do vibranium. — Algumas pessoas usam punhos para se expressar. Eu uso o meu corpo.
Bucky olhou para a mão dela sobre o metal. O contraste era absurdo. A delicadeza dela contra a arma que ele era.
— Às vezes eu esqueço que o corpo pode ser usado para algo que não seja destruir — confessou ele, baixando o olhar para o dela.
— Eu posso te ensinar — disse Duda, sua voz descendo para um sussurro. — Não a dançar como eu, mas a se soltar. Você vive tão tenso, James. Como se estivesse esperando um ataque a qualquer segundo.
— Antigos hábitos morrem devagar — respondeu ele.
— Então vamos matá-los com música.
Duda foi até o console e mudou a faixa. Uma melodia suave, um jazz moderno com um toque de bossa nova, começou a tocar. Ela voltou para o centro da sala e estendeu a mão para ele.
— Duda, eu não... eu não sei fazer isso — disse Bucky, recuando um passo. — Eu tenho duas mãos esquerdas. E uma delas é feita de metal espacial.
— Não é sobre os pés, é sobre o ritmo — insistiu ela, pegando a mão humana dele e colocando-a em sua cintura. — Sinta o meu movimento. Só me siga.
Bucky estava rígido como uma estátua de granito. Ele podia sentir o calor do corpo dela, a firmeza de sua pele sob sua palma. Duda colocou os braços ao redor do pescoço dele, entrelaçando os dedos na nuca do soldado.
— Relaxe, sargento — provocou ela, começando a se balançar lentamente. — Eu prometo que não vou contar para o Steve que o Soldado Invernal tem medo de um passo de dois tempos.
— Eu não tenho medo — mentiu ele, embora sua respiração estivesse curta.
Lentamente, a insistência rítmica de Duda começou a vencer a resistência de Bucky. Ele começou a se mover com ela. Não era uma dança técnica; era um balanço, uma conversa silenciosa entre dois corpos. Bucky fechou os olhos por um momento, permitindo-se sentir apenas a presença dela. Pela primeira vez em décadas, o ruído em sua mente — as memórias de guerra, os códigos da Hydra, a culpa — parecia diminuir de volume.
— Viu? — sussurrou Duda contra o peito dele. — Você é um dançarino natural, James. Só precisava de um incentivo.
Bucky a apertou um pouco mais contra si. O braço de metal envolveu as costas dela com uma delicadeza surpreendente.
— Você é um perigo, Maria Eduarda — disse ele, abrindo os olhos e encontrando os dela. — Stark vai ter um colapso quando perceber que você é mais poderosa do que qualquer armadura dele.
— O meu pai sabe lidar com tecnologia, mas ele não entende nada de pessoas — respondeu ela, sorrindo. — Já eu... eu sou psicóloga, lembra? Eu sei exatamente onde apertar para conseguir o que eu quero.
— E o que você quer? — perguntou Bucky, sua voz descendo uma oitava, carregada de uma tensão que não tinha nada a ver com treinamento.
Duda não respondeu com palavras. Ela se inclinou, encurtando a distância final, e selou seus lábios nos dele. Foi um beijo que começou suave, uma exploração curiosa, mas que rapidamente se incendiou. Bucky soltou um som baixo na garganta, um misto de surpresa e desejo, e a beijou de volta com uma intensidade que parecia querer recuperar todo o tempo perdido no gelo.
Ali, no ginásio da Torre dos Vingadores, o passado e o futuro colidiram. O soldado traumatizado e a menina de Olinda criaram seu próprio compasso.
— Interrompo alguma coisa? — Uma voz metálica e sarcástica ecoou pelo sistema de alto-falantes da sala.
Os dois se separaram instantaneamente. Duda olhou para cima, para a câmera de segurança no canto da sala, enquanto Bucky tentava recompor sua expressão de "soldado profissional", embora seu rosto estivesse visivelmente corado.
— J.A.R.V.I.S.! — exclamou Duda. — O que meu pai quer agora?
— O Senhor Stark gostaria de informar que a reunião matinal começou há dez minutos — respondeu a inteligência artificial com seu tom britânico impecável. — E ele também mencionou que, se o Senhor Barnes continuar "estrangulando" a filha dele com o olhar, ele vai ativar o protocolo de contenção de super-soldados.
Duda deu uma risadinha, limpando o batom borrado de Bucky com o polegar.
— Acho que é melhor a gente ir — disse ela. — Antes que o Tony apareça aqui de armadura.
Bucky suspirou, recuperando o fôlego.
— Ele realmente vai me matar, não vai?
— Provavelmente — admitiu Duda, pegando sua garrafa de água e caminhando em direção à porta. — Mas admita, James... valeu a pena o risco.
Bucky observou-a sair, o balanço de seus quadris ainda seguindo o ritmo fantasmagórico da música que já havia parado. Ele olhou para sua mão de metal e, pela primeira vez, ela não parecia apenas uma ferramenta de morte. Parecia a mão que tinha segurado algo precioso.
— Valeu cada segundo — murmurou ele para a sala vazia, antes de seguir a garota que tinha acabado de virar seu mundo de cabeça para baixo.
Ao chegarem na sala de reuniões, o clima estava... Stark. Tony estava sentado na cabeceira da mesa, usando óculos escuros dentro de casa e segurando uma caneca de café como se fosse seu único suporte vital. Steve, Natasha e Sam já estavam lá, cada um com uma expressão diferente de divertimento ou tédio.
— Bom dia, pombinhos — disse Tony, sem tirar os óculos. — Barnes, você está atrasado. Madu, você está... brilhando. Alguma coisa que eu precise saber ou devo apenas pedir ao J.A.R.V.I.S. para apagar as gravações do ginásio por questões de sanidade mental paternal?
— Bom dia para você também, pai — disse Duda, sentando-se alegremente ao lado de Natasha. — A gente estava só... treinando.
— Treinando — repetiu Tony, olhando para Bucky por cima das lentes dos óculos. — Sei. E eu sou o Papai Noel. Steve, por favor, comece a reunião antes que eu decida transformar esta Torre em um convento.
Steve Rogers, sempre o diplomata, tentou esconder o sorriso.
— Certo. Temos informações sobre o movimento da Hydra na fronteira...
Bucky sentou-se na cadeira oposta a Duda. Por baixo da mesa, ele sentiu o pé dela tocar o seu, um toque leve e secreto que o fez quase sorrir. O Soldado Invernal podia ser um mestre em táticas de guerra, mas Maria Eduarda Stark Siqueira era a única que sabia como ganhar a batalha pelo seu coração, um passo de dança por vez.
A reunião prosseguiu, mas para Bucky, o mundo agora tinha um novo ritmo. Um ritmo que cheirava a café, música brasileira e a promessa de que, mesmo para um homem de aço, o calor de Olinda era impossível de resistir.