Casamento arranjado
Reflexos de Cetim e Sombras de Aço
A luz da manhã em Gotham City nunca era verdadeiramente clara; era sempre filtrada por uma névoa persistente e pela fuligem industrial que parecia impregnada nos prédios históricos. No entanto, dentro da Mansão Wayne, a atmosfera era diferente. O sol atravessava as grandes janelas da sala de jantar, iluminando a prataria polida e o rosto sereno de Sophia Rockfeller.
Fazia apenas uma semana desde o jantar de noivado, e a mudança de Sophia para a mansão havia sido acelerada por questões logísticas e de segurança, conforme decidido pelos patriarcas das duas famílias. Bruce estava sentado à cabeceira da mesa, escondido atrás de uma edição do *Gotham Gazette*, embora seus olhos não estivessem lendo as notícias sobre a queda das ações da Wayne Enterprises. Ele observava Sophia.
Ela usava um vestido leve de seda em tom de pêssego, os cabelos cacheados presos em um coque frouxo que deixava algumas mechas caírem sobre o pescoço bronzeado. Ela comia uma torrada com uma delicadeza quase rítmica, enquanto folheava um pequeno livro de poesias de Elizabeth Barrett Browning.
— Dormiu bem, Sophia? — perguntou Bruce, baixando o jornal.
Sua voz estava naquela frequência controlada, a persona do empresário polido, mas havia uma suavidade genuína que ele só usava com Alfred.
Sophia levantou os olhos castanhos e sorriu. O perfume de baunilha dela parecia preencher o espaço entre eles, combatendo o cheiro de café forte e couro que costumava dominar o ambiente de Bruce.
— Sim, obrigada. A cama é maravilhosa, embora o quarto seja um pouco... vasto demais — ela admitiu, com uma risada tímida. — Às vezes sinto que posso me perder no caminho até o banheiro.
Bruce esboçou um sorriso de canto.
— A mansão tem essa tendência de intimidar. Mas você vai se acostumar. Pedi a Alfred que preparasse o solário no segundo andar para você. Tem a melhor luz da casa para pintura.
Os olhos de Sophia brilharam de surpresa e gratidão.
— Você se lembrou? Pensei que estivesse ocupado demais com a fusão dos terminais portuários para pensar nas minhas tintas.
— Eu nunca esqueço os detalhes, Sophia — disse ele, e por um momento, o olhar azul dele foi intenso demais, revelando o homem estratégico e focado que existia sob a máscara. — Especialmente quando se trata do seu conforto.
— Você é um homem de muitas surpresas, Bruce Wayne — comentou ela, fechando o livro e apoiando o queixo na mão. — Ontem à noite, por exemplo. Eu ouvi um barulho na garagem por volta das quatro da manhã. Achei que você estivesse em uma daquelas festas de caridade no museu.
Bruce sentiu um leve enrijecimento nos ombros, mas não deixou transparecer no rosto. Ele havia retornado de uma patrulha particularmente violenta nas Docas de Miller, onde o Coringa havia deixado um rastro de gás hilariante e caos.
— Ocorreu um contratempo mecânico com um dos meus carros — mentiu ele com a facilidade de quem respira. — Eu mesmo gosto de verificar os motores às vezes. É um hobby... relaxante.
Sophia o estudou por um longo momento. Ela era inteligente, inteligente demais.
— Relaxante? — ela repetiu, com um brilho de ceticismo nos olhos. — Você voltou com um cheiro estranho de fumaça e ozônio, Bruce. Eu senti quando passei pelo corredor.
Bruce tomou um gole de café, ganhando tempo.
— Gotham é uma cidade poluída, Sophia. A fumaça faz parte do ar que respiramos.
— Talvez — disse ela, levantando-se da mesa. — Mas você parece mais cansado do que alguém que apenas "verificou um motor".
Ela caminhou até ele. Sendo trinta centímetros mais baixa, sua presença não deveria ser imponente, mas a doçura e a sinceridade que ela emanava tinham um peso próprio. Ela colocou uma mão pequena sobre o ombro dele. Através do tecido fino da camisa social, Bruce sentiu o calor da palma dela.
— Não precisa se esforçar tanto para manter a fachada comigo — sussurrou ela. — Seus segredos estão seguros, mesmo que eu ainda não saiba quais são.
Antes que ele pudesse responder, Alfred entrou na sala com uma bandeja de prata.
— Patrão Bruce, o Sr. Fox está na linha três. Ele diz que é urgente sobre o novo... protótipo de suspensão.
Bruce assentiu, sentindo um misto de alívio e frustração pela interrupção.
— Tenho que ir — disse ele, levantando-se. — Sophia, sinta-se à vontade para explorar a biblioteca. Há edições raras que acho que você vai adorar.
— Bruce? — ela o chamou quando ele já estava na porta.
Ele parou e olhou para trás.
— Sim?
— Tome cuidado. Seja lá com o que você estiver trabalhando... apenas tome cuidado.
Bruce não disse nada. Ele apenas inclinou a cabeça brevemente e saiu.
O resto do dia foi um borrão de reuniões na Wayne Enterprises e horas gastas na Batcaverna. Bruce revisava os vídeos de segurança das docas, tentando rastrear o carregamento de produtos químicos que havia desaparecido. Mas, pela primeira vez em anos, sua mente vagava. O perfume de baunilha parecia ter se impregnado em seus sentidos.
— O senhor parece distraído, senhor — observou Alfred, enquanto polia as lentes do capuz do Batman.
— Ela é observadora demais, Alfred — disse Bruce, esfregando as têmporas. — Ela notou o horário que cheguei. Notou o cheiro de ozônio.
— A senhorita Sophia não é como as modelos e atrizes com quem o senhor costuma sair para manter as aparências — Alfred comentou, com um tom de leve reprovação. — Ela é uma mulher de substância. E, se me permite, ela parece genuinamente preocupada com o senhor, não com o saldo da sua conta bancária.
— Isso é o que a torna perigosa — murmurou Bruce. — Não para mim, mas para ela mesma. Se ela se aproximar demais, se tornará um alvo.
— Ou talvez — disse Alfred, entregando o capuz a Bruce — ela seja exatamente o que o senhor precisa para não se perder totalmente nas sombras.
Naquela noite, Bruce decidiu não sair em patrulha imediatamente. Ele precisava manter a imagem do noivo atencioso, especialmente porque os Rockfeller viriam para um chá tardio para discutir os detalhes finais da cerimônia de casamento, que ocorreria em um mês.
Quando os pais de Sophia chegaram, a mansão foi preenchida pela pompa e circunstância da elite de Gotham. O Sr. Rockfeller era um homem de negócios implacável, cujos olhos brilhavam com a ganância de quem via na união das fortunas um império imbatível.
— Bruce, meu rapaz! — exclamou o Sr. Rockfeller, batendo nas costas de Bruce com uma força desnecessária. — Os jornais só falam de vocês. O "Casamento do Século". Isso vai estabilizar o mercado como nada mais.
— É o objetivo, senhor — respondeu Bruce, com o sorriso de playboy perfeitamente ajustado. — E, claro, ter a companhia de Sophia é um bônus que eu não esperava.
Sophia, que estava ao lado da mãe, baixou os olhos, mas Bruce notou o pequeno sorriso que curvou seus lábios rosados. Ela usava um vestido de renda branca que a fazia parecer um anjo perdido em um ninho de lobos.
Enquanto os pais discutiam as cláusulas de herança e os termos de exclusividade portuária, Bruce se aproximou de Sophia, que se afastara para observar uma das pinturas na parede — uma paisagem sombria das montanhas europeias que Thomas Wayne havia comprado anos atrás.
— Você odeia isso tanto quanto eu, não é? — perguntou ele em voz baixa, parando ao lado dela.
Sophia olhou para ele, os olhos castanhos cheios de uma sabedoria triste.
— Odeio ser tratada como uma mercadoria preciosa. Eles falam de nós como se fôssemos uma fusão de empresas, Bruce.
— Infelizmente, nesse mundo, nós somos — disse ele, sentindo uma pontada de amargura. — Mas o que acontece dentro destas paredes, Sophia... isso não pertence a eles.
Ela se virou para ele, diminuindo a distância entre os dois. O cheiro de baunilha dele era mais forte agora, misturado ao aroma de chá de jasmim que ela estava tomando.
— Você realmente acredita nisso? Que podemos ter algo nosso?
Bruce olhou para os pais dela, que estavam rindo alto com Alfred sobre uma safra de vinho. Depois, olhou para a jovem à sua frente. Ela era tão frágil em aparência, mas havia uma integridade nela que ele raramente encontrava em Gotham.
— Eu vou garantir que tenhamos — prometeu ele.
Naquela noite, após os convidados partirem e a mansão mergulhar novamente no silêncio, Bruce estava em seu escritório, revisando documentos. A porta se abriu silenciosamente. Era Sophia. Ela usava um robe de cetim por cima da camisola, e seus pés estavam descalços.
— Não consegue dormir? — perguntou ele, fechando a pasta de arquivos.
— Eu estava escrevendo um poema — disse ela, aproximando-se da mesa dele. — Mas as palavras não saíam direito. Eu me senti... inquieta.
Ela caminhou até a grande janela que dava para os jardins dos fundos.
— Bruce, por que você nunca se casou antes? Com todo esse charme e dinheiro, tenho certeza de que muitas mulheres tentaram.
Bruce se levantou e caminhou até ela. A luz da lua iluminava o perfil angelical de Sophia.
— Eu nunca encontrei ninguém que não estivesse interessado na máscara — disse ele, com uma honestidade que o surpreendeu.
— E se eu dissesse que estou interessada no que está atrás da máscara? — perguntou ela, virando-se para ele.
O silêncio que se seguiu foi denso, carregado de uma eletricidade que não tinha nada a ver com as tempestades de Gotham. Bruce sentiu o impulso de se afastar, de erguer seus muros novamente. Mas Sophia deu um passo à frente e colocou as mãos sobre o peito dele, sentindo as batidas fortes e constantes de seu coração.
— Você é um homem bom, Bruce Wayne — sussurrou ela. — Eu sinto isso. Mesmo que você tente esconder debaixo de todo esse gelo e arrogância corporativa.
Bruce segurou o rosto dela com as duas mãos. Sua pele era tão macia, tão quente. Ele se sentia um monstro tocando um cristal precioso, temendo que qualquer pressão a mais pudesse quebrá-la.
— Você não sabe o que está dizendo, Sophia. Eu sou um homem quebrado.
— Então deixe-me ajudar a juntar os pedaços — respondeu ela, ficando na ponta dos pés.
Desta vez, foi ela quem diminuiu a distância final. O beijo foi como o encontro de dois mundos opostos. Tinha a doçura da baunilha e a força do aço. Sophia se entregou ao beijo com uma inocência carinhosa, enquanto Bruce lutava contra o desejo de envolvê-la em seus braços e nunca mais soltar.
Quando se separaram, ele encostou a testa na dela, os olhos fechados.
— Sophia... — ele começou, a voz rouca.
— Shh — ela o interrompeu, colocando um dedo sobre os lábios dele. — Não precisa dizer nada. Só... fique aqui comigo por um momento.
Eles ficaram ali, abraçados diante da janela, observando a escuridão de Gotham. Bruce sabia que, em algum lugar lá fora, o crime estava acontecendo. O sinal poderia brilhar nas nuvens a qualquer momento. Mas, por aqueles poucos minutos, ele não era o Batman. Ele não era o bilionário playboy.
Ele era apenas um homem que, pela primeira vez em muito tempo, sentia que o peso da coroa era um pouco mais leve, tudo por causa do perfume de baunilha de uma jovem que se recusava a ver apenas a superfície.
No entanto, nos confins da Batcaverna, os computadores apitavam. Um novo padrão de crimes estava surgindo, e o nome Rockfeller estava perigosamente ligado a uma investigação de contrabando que Bruce ainda não havia contado a Sophia. O contrato de casamento não era apenas sobre portos e ações; era sobre segredos que poderiam destruir a doçura que ele agora tanto desejava proteger.
Bruce olhou para Sophia, que havia adormecido suavemente em seu ombro, e uma determinação sombria tomou conta dele. Ele faria o que fosse necessário para mantê-la segura, mesmo que isso significasse lutar contra o mundo que ela chamava de lar.
O jogo estava apenas começando, e em Gotham, o amor era a jogada mais arriscada de todas.