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Casamento arranjado

O Labirinto de Vidro e a Promessa de Sangue

A manhã seguinte ao primeiro beijo trouxe consigo uma claridade impiedosa. Bruce estava na Batcaverna muito antes de o sol sequer pensar em tocar os pináculos góticos de Gotham. O brilho azulado dos enormes monitores refletia em seu rosto cansado, acentuando as olheiras que a maquiagem social esconderia mais tarde.

— Alfred, cruze os dados das rotas marítimas dos Rockfeller com os últimos ataques do Máscara Negra — ordenou Bruce, sem tirar os olhos de um gráfico de fluxo financeiro.

— Já estou providenciando, patrão Bruce — respondeu o mordomo, aproximando-se com uma bandeja que continha apenas uma xícara de café preto e amargo. — Mas devo notar que o senhor não dormiu. A senhorita Sophia perguntou por você durante o café da manhã.

Bruce pausou o movimento dos dedos sobre o teclado. A menção ao nome dela trouxe de volta o cheiro de baunilha e a sensação dos lábios macios contra os seus.

— O que você disse a ela?

— O de sempre, senhor. Que o "negócio dos portos" exige reuniões matinais exaustivas. Mas ela é perspicaz. Ela não perguntou sobre o trabalho, perguntou se o senhor estava bem.

Bruce soltou um suspiro pesado e voltou-se para a tela.

— Os Rockfeller estão sendo usados, Alfred. O pai dela não é um criminoso, mas é ganancioso. Ele abriu as portas dos terminais do sul para "investidores estrangeiros" que, na verdade, são testas de ferro para o sindicato do crime. Se eu não cortar esse mal pela raiz, Sophia será arrastada para uma investigação federal antes mesmo de trocarmos alianças.

— E o senhor pretende salvá-la destruindo o império do pai dela? — Alfred arqueou uma sobrancelha. — Duvido que isso ajude na harmonia conjugal.

— Eu pretendo salvá-la da única forma que sei. Eliminando a ameaça.

Bruce vestiu o paletó de alfaiataria, ajustando o nó da gravata com uma precisão gélida. Ele precisava ser Bruce Wayne novamente. O homem de negócios, o noivo, o playboy.

Ao subir para a parte residencial da mansão, ele encontrou Sophia no solário que ele havia preparado. Ela estava diante de uma tela, as mãos manchadas de azul e dourado. O vestido de algodão branco estava levemente sujo de tinta, o que a tornava ainda mais humana e adorável em meio à opulência estéril da casa.

— Você está pintando o jardim? — perguntou Bruce, aproximando-se com passos silenciosos.

Sophia deu um pequeno pulo, assustada, mas relaxou ao ver que era ele. Um sorriso doce iluminou seu rosto.

— Estou tentando capturar a luz de Gotham — disse ela, apontando para a tela onde redemoinhos de cinza e prata lutavam contra um feixe de luz amarela. — É uma luz difícil. Parece que está sempre tentando se esconder de algo.

Bruce parou atrás dela, a diferença de altura tornando-o uma sombra protetora sobre sua figura pequena.

— Você tem um talento raro, Sophia. Consegue ver beleza onde a maioria de nós só vê decadência.

Ela largou o pincel e se virou, limpando as mãos em um pano.

— Bruce, sobre ontem à noite... — Ela hesitou, as bochechas corando levemente. — Eu não quero que você sinta que tem uma obrigação comigo além do contrato. Eu sei que nossa situação é complicada.

Bruce estendeu a mão e tocou o queixo dela, forçando-a a olhar em seus olhos.

— Ontem à noite não teve nada a ver com contratos, Sophia.

— Então por que você fugiu antes do amanhecer? — perguntou ela, a voz carregada de uma honestidade que o desarmava. — Você se fecha, Bruce. Às vezes, você está aqui, mas sua mente parece estar em uma guerra a quilômetros de distância.

— Gotham é uma guerra, Sophia — respondeu ele, a voz baixando para um tom sombrio. — E eu sou um homem com muitas frentes de batalha.

— Deixe-me entrar em uma delas — pediu ela, aproximando-se e segurando as lapelas do paletó dele. — Meu pai me disse hoje cedo que haverá um baile de gala no Iceberg Lounge amanhã. Ele disse que é crucial para selarmos os acordos portuários. Ele quer que apareçamos como o casal perfeito.

Bruce sentiu um aperto no estômago. O Iceberg Lounge era o território de Oswald Cobblepot, o Pinguim. Um lugar perigoso para alguém tão pura quanto Sophia.

— É um ambiente hostil, Sophia. Pessoas perigosas frequentam aquele lugar sob o disfarce de celebridades.

— Eu sei lidar com pessoas difíceis, Bruce — disse ela, com uma firmeza que o surpreendeu. — Eu cresci em jantares com tubarões corporativos. Além disso... — Ela deu um sorriso travesso. — Eu já escolhi meu vestido. É um tom de azul que combina com seus olhos. Você não vai me deixar ir sozinha, vai?

Bruce suspirou, sabendo que não poderia protegê-la mantendo-a trancada em uma torre de marfim. O mundo de Gotham acabaria por alcançá-la de qualquer maneira.

— Estarei ao seu lado o tempo todo — prometeu ele. — Mas prometa-me uma coisa: se eu disser para você sair ou ir para o carro, você não fará perguntas. Você apenas irá.

Sophia franziu a testa, mas assentiu.

— Você fala como se estivéssemos indo para um campo de batalha, não para um baile.

— Em Gotham, não há diferença.

A noite do baile chegou com uma tempestade típica da cidade. O Iceberg Lounge brilhava com luzes de neon azul e branco, refletindo nas poças de água da calçada onde os paparazzi se amontoavam.

Bruce desceu do carro e estendeu a mão para Sophia. Quando ela saiu, o tempo pareceu parar por um segundo. O vestido de seda azul meia-noite abraçava suas curvas de forma elegante, sem ser vulgar. O decote discreto revelava a pele bronzeada e macia, e o perfume de baunilha lutava contra o cheiro de chuva e fumaça de cigarro da entrada.

— Você está deslumbrante — murmurou Bruce, e desta vez, não era a persona do playboy falando. Era o homem.

— E você parece um príncipe de um conto de fadas muito sombrio — brincou ela, segurando o braço dele com força.

Lá dentro, a música era alta e o ar estava denso com o cheiro de perfume caro e álcool. Oswald Cobblepot os recebeu pessoalmente, sua figura atarracada e seu monóculo dando-lhe uma aparência caricata, mas Bruce sabia que aquele homem era capaz de crueldades indescritíveis.

— Wayne! — exclamou Cobblepot, com sua voz grasnada. — E esta deve ser a joia da coroa dos Rockfeller. Uma beleza encantadora, de fato.

— Oswald — cumprimentou Bruce, o olhar frio e calculista. — Mantenha seus elogios para si mesmo. Viemos apenas para o brinde comercial.

— Oh, que rude! — riu o Pinguim, seus olhos pequenos brilhando de malícia. — Mas entendo. Com uma noiva assim, eu também não gostaria de compartilhar a atenção.

Bruce guiou Sophia para longe, sentindo a tensão em seus próprios músculos. Ele observava cada canto do salão. Seus olhos escaneavam as saídas de emergência, os seguranças armados disfarçados de garçons e os rostos da elite de Gotham.

Enquanto Bruce era puxado para uma conversa com um grupo de investidores, Sophia se afastou alguns passos para observar um enorme aquário que decorava a parede lateral.

— É impressionante, não é? — Uma voz suave e perigosa soou ao lado dela.

Sophia se virou e encontrou um homem alto, de cabelos grisalhos e olhos que pareciam poços de escuridão. Era Roman Sionis, o Máscara Negra, embora estivesse sem seu disfarce habitual.

— As criaturas presas em vidros são sempre as mais belas — continuou ele, olhando para Sophia de uma forma que a fez estremecer. — Especialmente quando não percebem que o vidro é a única coisa que as mantém vivas.

— O vidro também protege quem está do lado de fora — respondeu Sophia, sua educação polida mascarando o medo que começava a borbulhar em seu peito.

Sionis sorriu, um gesto que não chegava aos olhos.

— Você é inteligente. Uma Rockfeller autêntica. Seu pai fez grandes promessas sobre os portos, senhorita. Espero que Bruce Wayne saiba o valor do que está recebendo. Algumas dívidas em Gotham são pagas com sangue, não com ações.

Antes que Sophia pudesse responder, Bruce apareceu ao lado dela, sua presença como um muro de granito. Ele colocou a mão possessivamente na cintura de Sophia.

— Sionis. Achei que você estivesse ocupado demais com seus "negócios de importação" para frequentar festas.

— Sempre há tempo para saudar o novo casal, Bruce — disse Sionis, inclinando a cabeça. — Aproveitem a noite. O vidro é mais frágil do que parece.

Quando Sionis se afastou, Bruce sentiu Sophia tremer sob seu toque.

— Quem era aquele homem? — perguntou ela, a voz baixa. — Ele... ele me deu calafrios.

— Alguém que você nunca mais deve chegar perto — disse Bruce, a voz carregada de uma autoridade sombria. — Sophia, vamos embora. Agora.

— Mas Bruce, o brinde do meu pai...

— Agora, Sophia.

Ele a guiou rapidamente através da multidão. Sua mente estava a mil por hora. Sionis não estava ali por acaso. Era um aviso. A fusão das famílias Wayne e Rockfeller estava interferindo nos planos do submundo de uma forma que ele ainda não tinha mapeado totalmente.

Ao chegarem ao estacionamento privativo, o som de um tiro ecoou, quebrando o vidro de um dos carros luxuosos próximos a eles.

— No chão! — rugiu Bruce, empurrando Sophia para trás de um pilar de concreto e cobrindo o corpo dela com o seu.

Mais tiros se seguiram. Homens mascarados surgiram das sombras, disparando contra os seguranças do lounge. Era um ataque coordenado.

Bruce sentiu a adrenalina disparar. O instinto do Batman lutava para assumir o controle, mas ele não podia revelar suas habilidades na frente de Sophia. Ele precisava ser apenas um homem tentando proteger sua noiva.

— Bruce, o que está acontecendo? — Sophia estava pálida, os olhos castanhos arregalados de terror, mas ela não gritou. Ela se manteve encolhida, confiando cegamente nele.

— Fique aqui. Não se mexa — ordenou ele.

Bruce viu um dos atacantes se aproximar com uma submetralhadora. Com uma agilidade que ele tentou fazer parecer sorte ou desespero, Bruce chutou uma lixeira de metal pesada na direção do homem, derrubando-o, e em seguida desferiu um soco preciso que o nocauteou instantaneamente.

— Wayne! — gritou outro homem, apontando a arma para ele.

Antes que o gatilho fosse puxado, uma granada de fumaça explodiu no meio do estacionamento. Bruce aproveitou a confusão para pegar Sophia no colo.

— Feche os olhos! — disse ele.

Ele correu em direção ao seu carro blindado, colocando-a no banco do passageiro e acelerando antes que os atacantes pudessem se recuperar. O trajeto de volta para a mansão foi feito em uma velocidade alucinante. Bruce dirigia com uma mão no volante e a outra segurando a mão de Sophia, que estava gelada.

Ao chegarem à Mansão Wayne, Alfred já os esperava na porta, com uma expressão de preocupação contida.

— Leve-a para cima, Alfred. Prepare um chá e não a deixe sozinha — ordenou Bruce, enquanto ajudava Sophia a sair do carro.

Ela parou e segurou o braço dele. O vestido azul estava rasgado na bainha e seu cabelo cacheado estava desfeito, mas seus olhos estavam focados.

— Você não é apenas um bilionário, Bruce — disse ela, a voz trêmula mas firme. — A forma como você se moveu... a forma como você me protegeu... Você já fez isso antes.

Bruce olhou para ela, a máscara de playboy completamente destruída pela realidade da violência que acabaram de presenciar.

— Eu disse que Gotham era uma guerra, Sophia. E eu disse que a protegeria.

— Mas quem protege você? — perguntou ela, uma lágrima solitária escorrendo por sua bochecha bronzeada.

Bruce não respondeu. Ele apenas a beijou na testa, um gesto de despedida silenciosa.

— Vá com Alfred. Eu preciso resolver algumas coisas.

Ele esperou até que ela subisse as escadas antes de se dirigir à entrada secreta da Batcaverna. O tempo de Bruce Wayne havia acabado por aquela noite.

Horas depois, o Batman estava no topo de um prédio, observando o armazém de Sionis arder em chamas após uma intervenção tática. Ele havia recuperado os arquivos que provavam que o pai de Sophia estava sendo chantageado. A ameaça imediata havia sido neutralizada, mas o custo era alto.

Quando ele retornou à mansão, já era madrugada. Ele retirou o traje, limpou o sangue de um corte no supercílio e vestiu um roupão de seda preta. Ele caminhou até o quarto de Sophia e abriu a porta silenciosamente.

Ela estava acordada, sentada na beira da janela, olhando para a chuva. O cheiro de baunilha ainda estava lá, mas parecia misturado com a melancolia da noite.

— Eu sabia que você viria — disse ela, sem se virar.

Bruce aproximou-se e sentou-se ao lado dela.

— Você deveria estar dormindo. Foi uma noite difícil.

— Meu pai me ligou — disse ela, voltando-se para ele. — Ele disse que os negócios com os portos foram cancelados. Ele parecia assustado, Bruce. Ele disse que fomos "salvos" por um milagre.

Bruce permaneceu em silêncio, observando as gotas de chuva escorrerem pelo vidro.

— Sophia, este casamento... se você quiser desistir, eu entenderei. Eu não posso prometer que noites como esta não se repetirão. Minha vida é ligada a esta cidade de uma forma que você não pode imaginar.

Sophia estendeu a mão e tocou a cicatriz recente no rosto dele, que ele não teve tempo de esconder.

— Você acha que eu sou tão frágil assim? — perguntou ela, com um sorriso triste e doce. — Eu disse que queria a verdade, Bruce. E a verdade é que Gotham é um monstro, mas você é o homem que tenta domá-lo.

Ela se inclinou e encostou a cabeça no ombro dele.

— Eu não vou a lugar nenhum. O contrato pode ter sido por negócios, mas eu fico pela pessoa que está atrás de todas essas sombras.

Bruce fechou os olhos e, pela primeira vez em anos, permitiu-se respirar profundamente. Ele a envolveu em seus braços, sentindo a delicadeza de Sophia contra sua força bruta.

— Eu não sou um herói, Sophia.

— Para mim, você é — sussurrou ela. — E eu vou pintar sua luz, Bruce. Mesmo que eu tenha que usar todo o cinza de Gotham para encontrá-la.

Naquela noite, no silêncio da mansão, o Cavaleiro das Trevas encontrou um porto seguro. E enquanto a chuva lavava as ruas de Gotham, o perfume de baunilha tornava-se a única promessa que Bruce Wayne estava determinado a manter, não por contrato, mas por algo muito mais perigoso e real: o amor.