Voltar ao resumo

Castigo

O Dilema das Flores e o Preço da Redenção

O resto da manhã no castelo de Florentia passou como um borrão de regras e olhares atravessados. Eu, Scorpio, o dragão que geralmente não leva desaforo para casa, estava me sentindo um gatinho de castigo num cesto de vime. A Amora saiu da mesa com aquela postura de rainha, acompanhada pela Sadi e pela Olivia, que pareciam suas guarda-costas particulares, deixando-me ali com o resto do pessoal e o meu orgulho ferido.

— Se eu fosse você, Scorpio, começava a limpar a sua barra agora mesmo — comentou Sofia, minha querida irmã, que parecia estar se divertindo mais do que o necessário com a minha desgraça. — A Amora é doce, mas quando ela decide que você precisa de uma lição, ela não volta atrás fácil.

— Eu sei, Sofia, eu sei! — respondi, bufando e cruzando os braços sobre a mesa. — Mas aquele Kip... ele me tira do sério! Ele fica ali, com aquele jeito de quem não quer nada, e eu simplesmente perco o controle.

— O problema é que o seu "perder o controle" quase causou um incidente diplomático — Edgar falou, sua voz profunda ecoando pelo salão agora mais vazio. Ele se levantou, ajeitando a túnica com a elegância de quem já usou a coroa por muito tempo. — Em Florentia, a força bruta é o último recurso, não o primeiro. Se quer ser digno da Amora, precisa aprender a lutar com palavras e paciência, não com os punhos.

Eu apenas balancei a cabeça. O Edgar tinha razão, mas era difícil admitir. Olhei para o lado e vi o Kip se levantando devagar, ainda com a mão no rosto. Uma parte de mim queria ir lá e pedir desculpas de verdade, mas a outra parte — a parte dragão — ainda queria dar outro cascudo nele só por ele ter me metido nessa confusão.

— Ei, Kip — chamei, antes que ele saísse da sala.

Ele parou e me olhou com cautela, como se esperasse que eu fosse pular no pescoço dele a qualquer momento.

— O que foi agora, Scorpio? — perguntou ele, a voz um pouco fanhosa por causa do nariz inchado.

— Eu... — As palavras pareciam presas na minha garganta. — Eu sinto muito pelo soco. Foi mal.

Kip arqueou uma sobrancelha, claramente surpreso.

— Só isso? — Ele deu um sorrisinho de lado, que logo se transformou em uma careta de dor. — Bom, vindo de você, acho que é o máximo que eu vou conseguir. Aceito as desculpas, mas não espere que eu vá tomar café com você amanhã.

Ele saiu mancando um pouco, e eu senti um peso saindo das minhas costas. Mas o problema principal ainda estava lá: a Amora. Eu precisava fazer algo para mostrar que eu estava mudando, e precisava ser algo grande.

Saí do salão e fui em direção aos jardins internos, onde o sol batia com força, iluminando as flores mágicas que a Pandora e a Sterna cuidavam com tanto zelo. Foi lá que encontrei a Lila, observando algumas borboletas azuis que pareciam feitas de cristal.

— Lila! — gritei, correndo até ela. — Preciso de ajuda.

— Se for para esconder um corpo, eu estou fora — respondeu ela, sem nem olhar para mim, mantendo sua calma habitual.

— Credo, não! É sobre a Amora. Eu quero dar um presente para ela, algo que mostre que eu sou um "dragão civilizado".

Lila finalmente se virou, um pequeno sorriso brincando nos lábios.

— Flores são clássicas, Scorpio. Mas não qualquer flor. Se você quer impressionar a Amora, precisa colher as Tulipas de Cristal que crescem perto da cachoeira da Yara. Elas só abrem quando sentem uma intenção pura.

— Intenção pura? Eu sou pura intenção! — bati no peito, embora soubesse que minha "pureza" era um pouco questionável.

— Então vá até lá. Mas cuidado, a Yara não gosta que mexam no jardim subaquático dela sem permissão.

Agradeci à Lila com um aceno e corri em direção às grutas que levavam aos domínios da Yara. O castelo de Florentia era enorme, cheio de passagens secretas e jardins escondidos. Enquanto eu corria, passei pela Pandora, que estava lendo um livro antigo sob uma árvore de pétalas prateadas.

— Aonde vai com tanta pressa, dragãozinho? — perguntou ela, com aquele olhar de quem sabe de tudo.

— Tentar salvar meu namoro! — gritei de volta, sem parar de correr.

Cheguei à área da cachoeira. O som da água caindo era relaxante, e o ar ali era mais fresco e úmido. No meio da lagoa cristalina, vi a Yara nadando calmamente, sua cauda brilhando sob a luz que filtrava pelas fendas do teto da caverna.

— Yara! — chamei, ofegante.

Ela emergiu, apoiando os braços em uma rocha lisa.

— Scorpio? O que faz aqui? Veio pedir desculpas por ter estragado o café da manhã com sua testosterona de dragão?

— Também. Mas eu queria pedir permissão para colher algumas Tulipas de Cristal. Quero dar para a Amora.

Yara me observou por um longo tempo. Seus olhos pareciam ler minha alma, procurando qualquer sinal de que eu estava apenas fingindo.

— As tulipas são sensíveis, Scorpio. Se você estiver com raiva ou se sua intenção for apenas "sair do castigo" e não o amor verdadeiro pela Amora, elas vão murchar assim que você tocá-las.

— Eu amo a Amora mais do que tudo, Yara. Até mais do que ganhar uma briga.

Ela suspirou e fez um gesto com a mão, indicando uma pequena ilha de pedras no centro da lagoa onde flores transparentes e brilhantes cresciam.

— Pode tentar. Mas se você as matar, vai ter que limpar todo o fundo da lagoa por um mês.

Engoli em seco. Entrei na água — que estava gelada, por sinal — e nadei até a pequena ilha. Diante de mim, as Tulipas de Cristal eram a coisa mais linda que eu já tinha visto. Elas pareciam feitas de gelo fino, mas emanavam um calor suave. Respirei fundo, tentei limpar minha mente de pensamentos sobre o Kip ou sobre como eu odiava ser mandado, e foquei apenas no sorriso da Amora, no jeito que ela me chamava de "monamoo" e em como o mundo parecia melhor quando ela estava por perto.

Estendi a mão e, com delicadeza, toquei o caule de uma delas. Para minha surpresa, a flor não murchou. Pelo contrário, ela brilhou com uma luz rosada intensa. Colhi três delas, sentindo-me o dragão mais vitorioso do mundo.

— Nada mal, Scorpio — disse Yara, observando da água. — Talvez ainda haja esperança para você.

Saí da água, tremendo um pouco de frio, mas com o tesouro em mãos. Voltei para a parte principal do castelo, tentando não esbarrar em ninguém. No corredor que levava aos aposentos da Amora, encontrei a Sadi e a Olivia.

— Olha só, o dragão trouxe flores — zombou Sadi, mas havia um brilho de aprovação em seus olhos.

— São Tulipas de Cristal? — Olivia perguntou, impressionada. — Elas são muito difíceis de conseguir. Você deve estar mesmo desesperado.

— Não é desespero, é amor, troço! — respondi, tentando manter a dignidade enquanto a água escorria das minhas roupas.

Parei diante da porta da Amora e bati de leve.

— Monamoo? Sou eu.

A porta se abriu devagar. Amora estava lá, usando um vestido leve, com uma expressão que ainda era séria, mas seus olhos suavizaram ao me ver todo molhado e segurando as flores brilhantes.

— Scorpio? O que é isso?

— Eu... eu fui buscar isso para você — disse, estendendo as tulipas. — A Lila disse que elas só abrem para quem tem intenção pura. E a Yara deixou eu colher. Eu queria pedir desculpas de verdade. Não só pelo soco no Kip, mas por ser um cabeça-dura e te preocupar. Eu não quero ficar longe de você, Amora. O castigo é chato, mas ficar sem o seu sorriso é muito pior.

Amora pegou as flores, e o brilho rosado delas iluminou o rosto dela. Ela deu um sorriso pequeno, aquele que faz meu coração dar piruetas.

— Você foi até a cachoeira da Yara por essas flores? — Ela tocou as pétalas de cristal. — Elas são lindas, Scorpio. E o fato de não terem murchado diz muito sobre o que você sente.

— Então... eu estou perdoado? — perguntei, com esperança.

Amora deu um passo à frente e me abraçou, mesmo eu estando encharcado.

— Você ainda está de castigo até amanhã, só para aprender a lição completa — disse ela, rindo contra o meu peito. — Mas... eu aceito as desculpas. E você pode jantar do meu lado hoje à noite, sem cara feia para o Kip.

— Combinado! — eu disse, abraçando-a com força. — Prometo ser o dragão mais comportado de Florentia. Pelo menos até o jantar.

Ela se afastou e me deu um beijo rápido.

— Agora vá se trocar, monamoo. Você está inundando o meu tapete.

Saí de lá saltitando, ou o mais perto que um dragão consegue chegar de saltitar. No caminho para o meu quarto, passei pelo Floreante, que apenas balançou a cabeça com um sorriso de canto.

— Parece que o dragão aprendeu um truque novo — comentou ele.

— Pois é, Floreante. Flores vencem socos, quem diria? — respondi, piscando para ele.

Então, troço, foi isso. Consegui o perdão da Amora (mais ou menos), recuperei minha dignidade e ainda saí com a fama de romântico. Agora só falta o Kip parar de me olhar como se eu fosse um monstro, mas isso é história para outro dia. Vou tomar um banho quente antes que eu pegue um resfriado de dragão. Tchau!