Voltar ao resumo

Castigo

O Baile de Máscaras e a Trégua dos Dragões

A tarde em Florentia caiu como um manto de seda dourada sobre as torres do castelo. O clima de tensão da manhã tinha se dissipado, substituído por uma agitação festiva que eu não estava esperando. Pelo visto, o Floreante e o Edgar decidiram que, para selar a paz e comemorar a recuperação do Kip (e o meu bom comportamento temporário), haveria um pequeno baile de máscaras no salão principal.

Eu estava no meu quarto, tentando lutar contra uma gravata borboleta que parecia determinada a me enforcar.

— Maldição de pano! — rosnei, puxando o laço pela décima vez. — Eu sou um dragão, eu deveria estar usando armadura ou, sei lá, nada!

— Deixa de ser dramático, Scorpio — disse Sofia, entrando no quarto sem bater, já devidamente arrumada em um vestido laranja vibrante que combinava com sua energia caótica. — Se você quer que a Amora tire você do castigo de vez, precisa parecer um príncipe, não um lagarto brigão.

Ela se aproximou e, com dois movimentos rápidos, ajeitou minha gravata.

— Pronto. Agora você não parece que está sendo estrangulado por uma cobra.

— Obrigado, maninha — resmunguei, olhando-me no espelho. Eu usava um terno escuro com detalhes em roxo, uma homenagem silenciosa à cor da Amora. — Você viu o Kip? Ele ainda está com cara de quem comeu limão estragado?

— O Kip está bem. Ele vai usar uma máscara, então o roxo no olho nem vai aparecer — Sofia riu, dando um tapinha no meu ombro. — Apenas se comporte. A Lila e a Sadi estão de olho em você. Elas são como o serviço secreto da Amora.

Saímos do quarto e fomos em direção ao salão. O lugar estava transformado. Lanternas flutuantes, cortesia da magia da Sterna e da Pandora, iluminavam o ambiente com cores suaves. O Floreante estava perto da entrada, usando uma máscara prateada que o deixava com um ar ainda mais misterioso. Edgar estava ao lado dele, conversando seriamente com a Yara, que usava um vestido que parecia feito de escamas de opala.

Mas meus olhos só procuravam uma pessoa. E então eu a vi.

Amora estava no centro do salão, conversando com a Olivia. Ela usava um vestido roxo profundo, com camadas de tule que pareciam névoa, e uma máscara delicada adornada com pequenas ametistas. Ela parecia uma divindade.

Aproximei-me devagar, tentando manter a postura que o Edgar tinha me ensinado.

— A senhorita daria a honra desta dança a um dragão em reabilitação? — perguntei, fazendo uma reverência exagerada.

Amora se virou, e o sorriso que ela me deu valia mais do que todo o ouro de Florentia.

— Depende — disse ela, cruzando os braços e fingindo pensar. — Esse dragão promete não pisar no meu pé e nem começar um incêndio se vir o Kip do outro lado da sala?

— Prometo solenemente — respondi, colocando a mão sobre o coração.

Ela aceitou minha mão, e fomos para o meio da pista. A música era lenta, tocada por um grupo de músicos que a Pandora tinha trazido de não sei onde. Enquanto girávamos, senti que o mundo lá fora não importava.

— Você está linda, chuchu — sussurrei.

— E você está muito elegante, monamoo — ela respondeu, encostando a cabeça no meu ombro por um segundo. — As tulipas que você me deu... eu as coloquei em um vaso encantado. Elas ainda estão brilhando.

— Fico feliz. Eu faria tudo de novo para ver você sorrir.

A dança continuou, mas logo fomos interrompidos por um pigarro alto. Era a Sadi, usando uma máscara de borboleta, acompanhada pela Lila.

— Desculpe interromper o momento romântico — disse Sadi, com um sorrisinho travesso —, mas a Pandora está chamando todo mundo para o brinde. E o Kip quer falar com você, Scorpio.

Senti meus músculos ficarem tensos instantaneamente. Amora apertou minha mão, um aviso silencioso.

— Tudo bem — eu disse, respirando fundo. — Eu vou lá.

Caminhamos até a mesa de banquete, onde o grupo todo estava reunido. Kip estava lá, com uma máscara preta simples. Ele segurava uma taça de suco de amora (a ironia não passou despercebida por mim).

— Scorpio — disse Kip, sua voz neutra.

— Kip — respondi, mantendo a distância.

— Eu queria dizer que... — Ele hesitou, olhando para o Floreante e depois para a Amora. — Eu também exagerei. Eu sabia que você tinha pavio curto e acabei provocando. Não justifica o soco, mas eu não fui um santo.

Eu pisquei, surpreso. Aquilo era um pedido de desculpas vindo do Kip? O mundo realmente estava virado de cabeça para baixo.

— Valeu, Kip — respondi, e desta vez o tom foi sincero. — Eu ainda acho você um troço às vezes, mas... a gente pode tentar não se matar. Pela paz no castelo.

— Por mim, tudo bem — ele estendeu a mão, e nós apertamos, selando uma trégua que eu esperava que durasse pelo menos até o final da semana.

— Que lindo! — exclamou Olivia, batendo palminhas. — Agora, podemos comer? A Sterna passou a tarde toda ajudando os cozinheiros com esses doces mágicos.

— Com certeza! — disse o Floreante, levantando sua taça. — Um brinde à Florentia, à amizade e à paciência infinita da Amora!

Todos riram e brindaram. A comida estava incrível, e por um momento, esqueci que era um prisioneiro do amor sob castigo. Sofia e Sadi começaram uma competição de quem comia mais mini-tortinhas, enquanto a Lila e a Sterna discutiam sobre a botânica das flores que eu tinha colhido.

Edgar se aproximou de mim enquanto eu pegava um pedaço de bolo.

— Você agiu bem hoje, Scorpio — disse o antigo rei, sua voz baixa e sábia. — A verdadeira força de um homem, ou de um dragão, não está no braço que golpeia, mas na mão que se estende para a paz.

— Eu estou tentando, Edgar. É mais difícil do que parece.

— As coisas que valem a pena nunca são fáceis — ele deu um tapinha nas minhas costas e se afastou para conversar com a Yara.

A festa seguiu noite adentro. Em um determinado momento, Amora me puxou para uma das varandas que davam para o jardim. O céu estava limpo, cravejado de estrelas que pareciam diamantes espalhados sobre veludo azul.

— Scorpio — ela começou, olhando para o horizonte.

— Sim, monamoo?

— Eu estive pensando... sobre o seu castigo.

Meu coração disparou.

— E então?

— Você se esforçou hoje. Pediu desculpas ao Kip, buscou as tulipas, comportou-se no baile... e não quebrou nada nos últimos dez minutos.

— Um recorde pessoal, eu admito — brinquei.

Amora riu e se virou para mim, retirando sua máscara. Seus olhos brilhavam sob a luz do luar.

— O castigo acabou, Scorpio. Você está livre.

— AEEE! — eu ia gritar, mas ela colocou o dedo sobre meus lábios, sorrindo.

— Mas... se você sair da linha de novo, se você sequer pensar em levantar a mão para alguém neste castelo sem um motivo de vida ou morte, o próximo castigo vai envolver você ajudando a Yara a limpar as fossas abissais do reino subaquático por um mês inteiro. Entendido?

— Cristalino como a água da Yara — respondi, puxando-a para mais perto pela cintura. — Eu prometo, chuchu. Vou ser o melhor dragão que este reino já viu.

— Assim espero — ela sussurrou, e então me beijou.

Foi um beijo que selou não apenas o fim do castigo, mas uma nova fase para nós. Eu ainda era o Scorpio, impulsivo e um pouco barulhento, mas com a Amora ao meu lado, eu sentia que podia aprender a ser algo mais.

Voltamos para o salão, onde a festa ainda rugia. Sofia agora estava tentando ensinar o Kip a dançar algo que parecia um misto de valsa com luta livre, e a Sadi estava rindo tanto que quase caiu da cadeira. A Olivia e a Lila estavam em um canto, provavelmente planejando a próxima aventura do grupo.

Sentei-me em um dos sofás grandes, com a Amora encostada em mim. Observei todos aqueles personagens, aquela família estranha e poderosa que o destino tinha colocado na minha vida. Tinha o Edgar com sua sabedoria, o Floreante com sua liderança, a magia da Pandora e da Sterna, a força da Yara, a lealdade da Sadi e da Olivia, e a chatice necessária do Kip e da Sofia.

— Sabe, troço — murmurei para mim mesmo, usando meu jeito de falar quando estou pensativo —, a vida no castelo de Florentia nunca é entediante.

— O que você disse? — perguntou Amora, olhando para mim com curiosidade.

— Nada, monamoo. Só que eu sou o dragão mais sortudo do mundo.

Ela sorriu e fechou os olhos, descansando a cabeça no meu ombro. A música continuou a tocar, as luzes continuaram a brilhar, e por aquela noite, tudo estava em perfeita harmonia. Eu sabia que novos problemas viriam, que o Kip provavelmente me irritaria amanhã e que eu teria que me segurar para não causar confusão, mas por enquanto, a paz reinava.

E assim, troço, termina esse capítulo da minha vida de castigo. Agora sou um dragão livre, pronto para a próxima confusão que aparecer. Tchau!