Cecil
O Banquete dos Sentidos e a Estratégia da Sedução
O corredor que levava aos aposentos privados do príncipe herdeiro era revestido de tapetes espessos que abafavam o som dos passos, mas o silêncio do ambiente era preenchido pelo murmúrio constante de Bertia. Ela caminhava a passos rápidos, tentando acompanhar a passada longa e decidida de Cecil, sem perceber que a mão dele, ainda firmemente pousada na base de suas costas, guiava seu corpo com uma urgência que beirava o escandaloso.
— Príncipe Cecil, eu estava pensando... — Bertia começou, parando subitamente no meio do corredor. — Se vamos ao seu escritório para que eu aprenda mais sobre a "anatomia da respiração", eu deveria trazer meus diagramas? Eu sinto que minha técnica de vilã está falhando porque ainda não consigo deixá-lo sem fôlego apenas com o olhar, mas o senhor consegue fazer isso comigo com apenas um beijo! É uma habilidade de nível mestre, não é?
Cecil parou e virou-se para ela. O corredor estava deserto, exceto pelos guardas posicionados a uma distância segura, que imediatamente desviaram os olhos para as armaduras decorativas nas paredes. Ele deslizou a mão da cintura de Bertia para o seu rosto, o polegar traçando o lábio inferior que ainda estava levemente inchado pelo beijo anterior.
— Minha doce e tola Bertia — murmurou ele, aproximando o rosto do dela até que suas testas se encostassem. — Você me deixa sem fôlego o tempo todo. A diferença é que eu sou muito melhor em esconder minha agonia do que você.
— Agonia? — Bertia arregalou os olhos, genuinamente preocupada. — Oh, não! Eu estou causando dor ao meu noivo? Isso é... bem, tecnicamente é algo que uma vilã faria, mas meu coração dói só de pensar nisso! Por favor, diga-me onde dói para que eu possa providenciar um antídoto!
Cecil soltou uma risada baixa, um som sombrio e melodioso que vibrou no peito de Bertia. Ele aproveitou a proximidade para deslizar a outra mão pelas costas dela, sentindo a estrutura fina das costelas através do tecido, descendo novamente até encontrar a curva onde o quadril se alargava. Ele apertou a carne ali com uma possessividade que fez Bertia soltar um pequeno arquejo de surpresa.
— O antídoto, infelizmente, só pode ser administrado após o casamento, minha flor. Até lá, terei que me contentar com... tratamentos paliativos.
— Tratamentos paliativos? — ela repetiu, a palavra soando estranha em sua boca. — Isso envolve mais daqueles exames de temperatura que o senhor faz no meu pescoço?
— Exatamente — respondeu Cecil, seus olhos brilhando com uma fome que faria qualquer outra mulher fugir para as colinas, mas que Bertia apenas achava "intensamente real". — Mas agora, temos trabalho a fazer.
Eles entraram no escritório, e Cecil trancou a porta com um clique seco que ecoou pela sala. Bertia, alheia ao significado do gesto, correu para a grande mesa de carvalho, pronta para espalhar seus papéis sobre planos de dominação mundial e extermínio de flores fofas. No entanto, antes que pudesse alcançar a mesa, sentiu os braços de Cecil envolverem-na por trás.
Ele não a soltou. Em vez disso, sentou-se na poltrona de couro e a puxou para o seu colo. Bertia acomodou-se naturalmente, como se aquele fosse o seu lugar de direito no mundo.
— Príncipe Cecil, assim eu não consigo escrever meus planos de vilania! — ela protestou fracamente, embora estivesse se inclinando para trás para encontrar o calor do peito dele.
— Escreva depois — ordenou ele, a voz rouca. — No momento, estou mais interessado no modo como este vestido aperta sua cintura. Parece desconfortável. Deixe-me... ajustar para você.
As mãos de Cecil foram para os laços do corpete de Bertia. Com uma destreza que denunciava o quanto ele havia estudado a vestimenta feminina nos últimos meses, ele começou a afrouxar o tecido.
— Oh! Realmente, agora que o senhor mencionou, sinto que posso respirar muito melhor! — exclamou Bertia, maravilhada. — O senhor é realmente um gênio da medicina, Príncipe Cecil! Como sabia que o laço estava interferindo no meu fluxo de oxigênio?
— É um dom — disse ele, os olhos fixos na pele clara que começava a ser revelada pelo decote que se abria.
Ele inclinou a cabeça, beijando o ombro exposto de Bertia, enquanto sua mão subia por baixo do tecido afrouxado, encontrando a pele macia da barriga dela. Ele traçou círculos lentos, subindo em direção às costelas, sentindo o coração dela acelerar.
Enquanto isso, do lado de fora da porta, Zeno e dois outros amigos de Cecil, o Marquês de Valois e o Conde de Ena, pararam diante da entrada trancada.
— Ele trancou a porta — observou Valois, cruzando os braços com um suspiro. — Zeno, você é o guarda-costas pessoal dele. Não deveria... sei lá, arrombar a porta em nome da moralidade?
Zeno encostou a testa na madeira fria da porta.
— E ser executado por traição antes do pôr do sol? Não, obrigado. O príncipe foi muito claro sobre o que acontece com quem se coloca entre ele e o seu "entretenimento".
— Mas é a Lady Bertia! — exclamou o Conde de Ena. — Ela não tem ideia do que está acontecendo ali dentro! Ela provavelmente acha que ele está medindo a pressão arterial dela com os lábios!
— E ele provavelmente está — resmungou Zeno. — O problema é que o "paciente" é cúmplice por ignorância. Se ela ao menos tivesse um pingo de senso comum, ela saberia que um homem não precisa tocar a parte interna da coxa de uma mulher para verificar se ela tem reflexos motores.
Um ruído abafado veio de dentro da sala — o som de algo caindo, seguido pela risada brilhante de Bertia.
— Oh, Príncipe Cecil! O senhor derrubou o tinteiro! E agora sua mão está toda suja... por que o senhor está limpando ela na minha meia? Isso é parte do protocolo real?
Zeno gemeu e cobriu os ouvidos.
— Eu não ouvi isso. Eu não ouvi o príncipe herdeiro usar as pernas da noiva como guardanapo decorativo.
Lá dentro, a cena era consideravelmente mais carregada. Cecil havia, de fato, derrubado uma pequena caneta, mas sua mão não estava suja de tinta. Ele havia deslizado a mão pela saia de Bertia, levantando o tecido até encontrar a liga que segurava a meia de seda. Seus dedos brincavam com a renda, roçando a pele sensível da parte interna da coxa.
— Bertia — disse Cecil, sua voz agora uma vibração baixa contra o ouvido dela —, você sabe o que acontece com vilãs que tentam seduzir príncipes?
Bertia parou de tentar alcançar a caneta caída e olhou para ele, os olhos brilhando de curiosidade.
— Elas são exiladas? Ou talvez sentenciadas a comer apenas pão e água por uma semana?
— Não — murmurou ele, mordiscando o lóbulo da orelha dela, fazendo-a estremecer. — Elas são punidas com atenção implacável. Elas são marcadas para que ninguém mais ouse olhar para elas. Elas perdem o direito de pertencer a si mesmas.
Bertia suspirou, uma expressão de puro êxtase em seu rosto.
— Isso soa como um destino terrível e maravilhoso! O senhor vai me marcar, Príncipe Cecil? Como uma verdadeira vilã de romance trágico?
Cecil sentiu um surto de desejo tão forte que precisou fechar os olhos por um momento para não perder o controle. A inocência dela era sua maior tortura e seu maior prazer. Ele baixou a cabeça e deixou os lábios encontrarem a pele macia logo acima do osso da clavícula, sugando e mordendo levemente até ter certeza de que uma marca avermelhada floresceria ali.
— Sim — respondeu ele, a voz carregada de uma possessividade sombria. — Eu vou marcar cada centímetro que o protocolo me permitir... e alguns que ele proíbe.
— Príncipe Cecil — Bertia disse, sua voz um pouco mais trêmula do que o normal enquanto sentia a mão dele subir ainda mais pela sua perna —, eu sinto que minha temperatura está subindo de novo. O senhor acha que é uma febre de vilã?
— É uma febre, com certeza — concordou ele, sua mão agora descansando perigosamente perto da junção de suas coxas. — E a única cura é... persistência.
A interrupção veio na forma de uma batida frenética na porta.
— Vossa Alteza! — era a voz de Heronia, soando estridente e desesperada. — Vossa Alteza, eu sei que Lady Bertia está aí dentro! Eu trouxe o conselheiro real! Ela não pode manter o senhor em cativeiro para seus jogos de vilania! É contra as leis da etiqueta!
Cecil congelou. A aura de luxúria que envolvia o escritório foi instantaneamente substituída por uma frieza cortante. Ele não soltou Bertia; em vez disso, ele a ajeitou em seu colo, puxando o tecido do vestido para cobrir suas pernas, mas deixando o corpete propositalmente entreaberto para que a marca em seu pescoço fosse visível.
Ele se levantou, carregando Bertia em seus braços como se ela não pesasse nada, e caminhou até a porta. Ele a abriu com um movimento brusco.
Heronia estava lá, com um conselheiro idoso e de aparência severa ao seu lado. Zeno e os outros amigos estavam logo atrás, parecendo que queriam se fundir com as paredes.
— Lady Heronia — disse Cecil, sua voz como o estalar de um chicote. — Você tem o hábito deplorável de interromper assuntos de Estado.
— Assuntos de Estado? — Heronia apontou para Bertia, que acenava alegremente para o conselheiro. — Ela está no seu colo! E o vestido dela está... está...
— Desajustado? — Cecil completou, um sorriso cruel brincando em seus lábios. — De fato. Minha noiva estava sofrendo de uma restrição respiratória aguda. Como seu futuro marido e soberano, é meu dever garantir seu bem-estar físico. O conselheiro gostaria de revisar as leis sobre o dever de assistência do príncipe herdeiro para com sua consorte?
O conselheiro olhou para Bertia, depois para a marca vermelha bem visível em seu pescoço, e finalmente para a mão de Cecil que descansava, de forma nada sutil, sobre o quadril da jovem. Ele limpou a garganta, o rosto ficando de um tom interessante de púrpura.
— Vossa Alteza... eu creio que... a assistência médica é, de fato, uma prioridade. No entanto, o decoro...
— O decoro — interrompeu Cecil — dita que uma estranha não deve gritar diante dos aposentos privados do futuro rei. Lady Heronia, sua insistência em perseguir minha noiva está começando a parecer uma obsessão doentia. Bertia, o que você acha que devemos fazer com pessoas que interrompem lições importantes de anatomia?
Bertia pensou por um momento, batendo o dedo no queixo.
— Bem, no meu guia de vilania, interrupções são punidas com o "Corredor da Vergonha"! Mas como eu sou uma vilã generosa, talvez possamos apenas pedir que ela vá contar as pedras do pátio sul? São exatamente quatro mil, trezentas e vinte e duas. Vai mantê-la ocupada por horas!
Cecil riu, um som seco.
— Uma excelente sugestão. Zeno, certifique-se de que Lady Heronia comece sua contagem imediatamente. E se ela perder o número, ela deve recomeçar do zero.
— Mas Príncipe Cecil! — Heronia começou a chorar. — Eu só queria salvá-lo das garras dessa mulher maligna! Olhe para ela, ela o está enfeitiçando! Ela nem se envergonha de mostrar essas marcas!
— Envergonhar-me? — Bertia piscou, confusa. — Por que eu teria vergonha de uma medalha de honra médica? O Príncipe Cecil disse que esta marca é a prova de que meus pulmões estão funcionando perfeitamente sob pressão!
Um silêncio constrangedor caiu sobre o corredor. O conselheiro real cobriu os olhos com a mão. Zeno soltou um suspiro que pareceu carregar todo o peso do reino.
— Vá, Heronia — disse Zeno, com firmeza. — Antes que o príncipe decida que a contagem de pedras deve ser feita sob a chuva.
Quando a "heroína" foi levada, ainda soluçando, e o conselheiro se retirou apressadamente prometendo "esquecer o que viu em nome da estabilidade política", Cecil voltou a fechar a porta.
Ele colocou Bertia de volta no chão, mas não a soltou completamente. Ele a prensou contra a madeira da porta, suas mãos subindo para emoldurar o rosto dela.
— Onde estávamos? — perguntou ele, a voz descendo para aquele tom perigoso novamente.
— O senhor estava me explicando por que a pressão manual no quadril ajuda na circulação sanguínea — respondeu Bertia, seu rosto brilhando de antecipação inocente.
Cecil sorriu, mas desta vez não havia nada de frio no gesto. Havia apenas uma vontade avassaladora.
— Ah, sim. A circulação. Vamos garantir que seu sangue esteja correndo bem rápido, Bertia.
Ele a beijou novamente, desta vez com uma urgência que a fez envolver as pernas ao redor da cintura dele por instinto. Cecil soltou um gemido baixo de aprovação, suas mãos descendo para sustentar o peso dela, apertando suas nádegas com uma força que deixaria marcas, mas Bertia apenas riu contra seus lábios, achando que aquele era o "abraço de urso vilanesco" mais eficiente que já recebera.
Lá fora, no corredor, Zeno sentou-se no chão, encostado na parede oposta à porta do escritório.
— Valois — disse ele, sem abrir os olhos.
— Sim, Zeno?
— Vá buscar uma garrafa de vinho. Do forte.
— Por que?
— Porque eu sinto que, se eu tiver que ouvir a Lady Bertia explicar a "ciência por trás dos beijos de língua" amanhã no café da manhã, eu vou precisar estar muito bêbado para não renunciar ao meu cargo.
— Justo — concordou o marquês, afastando-se. — Mas traga duas garrafas. Acho que o conselheiro real também vai precisar de uma.
Dentro do quarto, o silêncio era interrompido apenas por suspiros e pelo som suave de roupas sendo "ajustadas" para melhor respiração. Cecil Glo Alphasta, o gênio entediado, finalmente havia encontrado um enigma que não queria resolver rápido demais. Ele queria saborear cada descoberta, cada reação de sua noiva vilanesca, até que não restasse nenhum segredo entre eles — anatômico ou não.
E Bertia, em sua infinita e doce ignorância, apenas se aninhava mais perto de seu príncipe, feliz por ser a "vítima" de um tratamento médico tão atencioso e dedicado. Afinal, para uma vilã, ter o príncipe herdeiro inteiramente dedicado à sua "anatomia" era, sem dúvida, o maior dos triunfos.