Cecil
O Despertar do Rubor e a Invasão do Espaço Sagrado
O sol da tarde filtrava-se pelas janelas em arco da biblioteca da Real Academia, iluminando as partículas de poeira que dançavam no ar. Para qualquer observador casual, a cena seria o epítome da elegância nobre: o Príncipe Herdeiro Cecil, a personificação da perfeição, sentado em uma poltrona de veludo com sua noiva, Lady Bertia, ao seu lado. No entanto, para o círculo íntimo que os cercava, o ar estava carregado de uma tensão que oscilava entre o escândalo e o puro constrangimento.
Bertia, que normalmente aceitava as investidas de Cecil com uma neutralidade científica ou uma alegria infantil, estava agindo de forma diferente naquele dia. Talvez fosse o novo romance que ela lera — um daqueles livros de "vilãs redimidas" que circulavam secretamente entre as damas — ou talvez seus instintos estivessem finalmente começando a processar as intenções por trás dos toques constantes.
— Príncipe Cecil... — Bertia começou, sua voz falhando levemente enquanto o príncipe deslizava a mão pela curva de seu pescoço, os dedos roçando perigosamente a borda de seu vestido. — Eu... eu sinto que meu rosto está emitindo um calor incomum hoje. Será que contraí a temida "Febre da Vilã Exilada"?
Cecil, cujos olhos azuis brilhavam com uma satisfação predatória ao notar o tom rosado que subia pelas bochechas dela, inclinou-se ainda mais.
— Uma febre, Bertia? — Ele sussurrou, sua respiração batendo contra a orelha dela. — Deixe-me verificar a temperatura da sua pele. Parece que este rubor se espalhou até o seu colo. Acho que preciso investigar a origem desse calor mais de perto.
Sem qualquer hesitação, Cecil inclinou a cabeça para frente. Para o horror coletivo de Zeno e das damas de companhia que fingiam ler livros nas mesas próximas, o príncipe não parou no pescoço. Ele enterrou o rosto profundamente no decote de Bertia, suspirando contra a pele macia de seus seios com uma falta de vergonha que desafiava séculos de etiqueta real.
— Vossa Alteza! — Zeno saltou da cadeira, derrubando o tinteiro no processo. — Isso é... isso é um atentado à decência! Estamos em uma biblioteca pública!
— Príncipe Cecil! — Bertia exclamou, as mãos subindo para os ombros dele, mas sem empurrá-lo. Suas bochechas agora estavam de um vermelho escarlate, a primeira vez que ela realmente parecia consciente da natureza íntima do ato. — O senhor... o senhor está procurando o meu coração? Ele está batendo muito rápido, não está?
Cecil não se afastou imediatamente. Ele deu uma leve pressionada com o rosto contra a carne macia, sentindo a fragrância de rosas de Bertia, antes de levantar o olhar com uma expressão de tédio fingido para Zeno.
— Zeno, sua voz está muito alta para um ambiente de estudos — disse o príncipe, sua mão agora descendo para a cintura de Bertia e puxando-a para que ela ficasse praticamente sentada em seu quadril. — Eu estava apenas garantindo que o batimento cardíaco da minha noiva estivesse estável. Como futuro rei, a saúde da minha consorte é uma questão de segurança nacional.
— Segurança nacional não exige que o senhor esconda o rosto nos seios dela! — retrucou Zeno, a veia em sua testa pulsando.
As amigas de Bertia, lideradas pela jovem Lady Joanna, aproximaram-se timidamente, tentando intervir de uma forma que não lhes custasse a cabeça.
— Lady Bertia — disse Joanna, estendendo a mão —, talvez queira se juntar a nós para discutir a... er... a estrutura gramatical do texto que estamos lendo? O Príncipe Cecil parece estar muito ocupado com suas "pesquisas médicas".
Bertia tentou se levantar, sentindo um estranho formigamento nas pernas que a deixava desajeitada.
— Sim, eu acho que... — Ela começou, mas o braço de Cecil envolveu sua cintura como uma corrente de ferro.
— Ela não vai a lugar nenhum — declarou Cecil, sorrindo de uma forma que não chegava aos olhos. — Bertia ainda não terminou de me explicar como pretende usar esse novo "rubor" em seus planos de vilania. Eu acho fascinante como a pele dela reage ao meu toque. Veja só, Joanna, como a marca dos meus dedos fica branca contra o vermelho da pele dela antes de desaparecer.
Ele apertou levemente a coxa de Bertia por cima do tecido do vestido, e a jovem soltou um pequeno "ah" de surpresa, cobrindo o rosto com as mãos.
— Príncipe Cecil! O senhor é muito... muito direto! — Bertia murmurou por entre os dedos. — Eu sinto que, se continuar assim, eu vou simplesmente derreter e não sobrará nenhuma vilã para o senhor casar!
— Então eu casarei com a poça de Bertia que restar no chão — respondeu ele, beijando a palma da mão dela e depois deslizando a língua levemente pelo pulso dela, onde o pulso saltava freneticamente. — Zeno, por que ainda está aqui? Não tem algum treinamento de espada para supervisionar?
— Meu treinamento agora é garantir que o senhor não transforme a biblioteca em um quarto de núpcias antecipado! — Zeno se colocou entre Cecil e o resto do grupo, tentando bloquear a visão dos outros alunos. — Bertia, por favor, tenha um pouco de consciência! O que o príncipe está fazendo não é medicina!
Bertia baixou as mãos, revelando olhos brilhantes e um sorriso tímido que Cecil raramente via.
— Zeno, o Príncipe Cecil é um gênio, lembra? — Ela disse, ainda que sua voz estivesse trêmula. — Se ele diz que o calor do meu rosto é um sintoma que precisa de... er... contato direto para ser curado, quem sou eu, uma simples vilã em treinamento, para contestar a ciência real? Mas... — Ela olhou para Cecil — Príncipe, as pessoas estão olhando. Isso não é ruim para a sua reputação de "príncipe perfeito"?
Cecil soltou uma risada curta e sombria.
— Minha reputação é o que eu decido que ela seja, Bertia. E se as pessoas olham, é apenas porque invejam o que eu possuo.
Ele se levantou, mas em vez de soltá-la, ele a puxou para seus braços em um abraço esmagador, forçando o rosto dela contra seu peito, enquanto sua própria mão descia descaradamente para a parte de trás do corpo dela, dando um aperto firme que fez Bertia pular.
— Príncipe Cecil! — Ela gritou, o rosto agora tão vermelho que parecia prestes a entrar em combustão. — Isso foi... isso foi na minha... na minha retaguarda!
— Eu estava apenas verificando se você não estava perdendo tônus muscular por ficar tanto tempo sentada estudando — explicou ele, sem sequer piscar. — Zeno, veja como ela se sobressalta. É um sinal de excelentes reflexos, não acha?
Zeno cobriu os olhos com as mãos, soltando um gemido de derrota.
— Eu desisto. Alguém chame o Rei. Ou um exorcista.
As damas de companhia recuaram, percebendo que quanto mais tentavam ajudar Bertia, mais Cecil se sentia inclinado a demonstrar seu domínio físico sobre ela. O príncipe parecia alimentar-se do desconforto alheio e, especialmente, da nova e deliciosa timidez de Bertia.
— Vamos, Bertia — disse Cecil, começando a conduzi-la para fora da biblioteca. — Acho que a luz aqui é muito forte. Seus olhos estão dilatados. Precisamos de um lugar mais escuro, talvez o meu escritório particular, para que eu possa examinar suas pupilas... e talvez outras partes que a luz do sol não alcança tão bem.
— Outras partes? — Bertia perguntou, deixando-se levar, embora suas pernas ainda parecessem feitas de gelatina. — O senhor quer dizer... minha alma de vilã?
— Exatamente — murmurou Cecil, sua mão deslizando novamente para baixo, roçando o quadril dela de uma forma que fazia o vestido ondular. — Sua alma. E cada centímetro de pele que a protege.
Enquanto caminhavam pelo corredor, encontraram Heronia. A jovem, que sempre tentava se posicionar como a vítima das "maldades" de Bertia, parou no caminho com uma expressão de horror fingido.
— Príncipe Cecil! Lady Bertia! — Ela exclamou, levando a mão à boca. — O que está acontecendo? Lady Bertia, seu vestido está todo amassado na altura do busto! E seu rosto... você parece ter sido atacada!
Cecil parou. Sua aura mudou instantaneamente de um predador brincalhão para um soberano glacial.
— Atacada, Lady Heronia? — Ele perguntou, sua voz ecoando pelo corredor. — De fato, Bertia foi alvo de uma demonstração de afeto tão intensa que uma personagem secundária como você jamais poderia compreender. O "amassado" no vestido dela é o lugar onde minha cabeça descansou nos últimos dez minutos. Você tem algum comentário sobre a minha escolha de travesseiro?
Heronia empalideceu, recuando um passo.
— O senhor... o senhor descansou a cabeça no... no peito de uma dama em público?
— Eu descanso onde eu desejo — retrucou Cecil. — E Bertia é muito mais confortável e acolhedora do que qualquer protocolo que você tente me impor. Inclusive, Lady Heronia, você deveria agradecer a Bertia. Se não fosse pela distração deliciosa que o corpo dela me proporciona, eu teria muito menos paciência para lidar com suas interrupções constantes.
Bertia, sentindo o clima pesar, tentou intervir com sua lógica peculiar.
— Heronia, não se preocupe! O Príncipe Cecil estava apenas praticando suas técnicas de... er... compressão torácica! É uma nova moda na capital! Como vilã, eu devo estar na vanguarda dessas tendências, mesmo que elas me deixem um pouco... tonta.
Cecil olhou para Bertia, e sua expressão suavizou-se em um sorriso genuinamente carinhoso, embora carregado de segundas intenções.
— Tonta, minha querida? Talvez você precise se deitar. Eu ficarei feliz em atuar como seu suporte... físico.
Ele voltou-se para Heronia uma última vez antes de sair.
— E Lady Heronia, da próxima vez que notar que o vestido de Bertia está amassado, saiba que fui eu quem o fez. E eu pretendo amassá-lo muito mais antes do fim do dia.
O casal seguiu caminho, deixando Heronia paralisada de choque e Zeno, que vinha logo atrás, com uma expressão de quem gostaria de se aposentar aos vinte anos de idade.
— Vossa Alteza! — Zeno gritou, correndo para alcançá-los. — O senhor não pode dizer essas coisas! O senhor é o Príncipe Herdeiro!
— E por ser o Príncipe Herdeiro — respondeu Cecil, sem olhar para trás —, eu faço o que quero. E no momento, o que eu quero é descobrir se o rubor de Bertia se estende por todo o seu corpo ou se é apenas uma reação localizada. É puramente para fins de documentação real, eu garanto.
— Príncipe Cecil, o senhor é tão dedicado aos seus estudos! — A voz de Bertia soou, cheia de admiração pura, enquanto eles entravam no elevador privativo. — Eu prometo ser uma excelente voluntária para todos os seus experimentos!
As portas se fecharam, abafando o som do protesto final de Zeno. No silêncio do corredor, Joanna e as outras damas se olharam, divididas entre a preocupação com a amiga e uma ponta de inveja da intensidade absoluta com que o príncipe amava — e desejava — sua "vilã".
— Eu acho — sussurrou Joanna — que Bertia nunca vai perceber que o Príncipe Cecil é o maior pervertido do reino.
— E eu acho — respondeu outra dama — que o Príncipe Cecil prefere que continue assim. É muito mais divertido caçar uma presa que pensa que está apenas participando de uma aula de biologia.
Enquanto isso, longe dos olhos de todos, Cecil finalmente tinha Bertia onde queria: em um espaço pequeno e fechado. Ele a pressionou contra a parede do elevador, as mãos segurando seus pulsos acima da cabeça.
— Agora, Bertia — ele murmurou, o rosto a milímetros do dela —, sem Zeno, sem Heronia e sem protocolos. Vamos ver o quão vermelha você consegue ficar quando eu realmente começar a ser... vilanesco.
Bertia olhou para ele, o coração martelando contra as costelas, sentindo o calor dele e a força de seu corpo contra o dela. Pela primeira vez, ela não pensou em planos de exílio ou em flores venenosas. Ela apenas fechou os olhos e esperou pelo próximo "experimento" de seu príncipe, sentindo que, talvez, ser a noiva de um gênio fosse a coisa mais perigosa e maravilhosa que já lhe acontecera.