Cecil
O Despertar da Suspeita e o Dilema do Trono
O sol poente tingia o escritório real com tons de âmbar e carmesim, criando sombras longas que pareciam dançar conforme Cecil se movia. Bertia estava sentada à mesa, cercada por mapas e diagramas de "planos malignos", mas sua concentração estava fragmentada. Pela primeira vez em anos, uma pequena semente de dúvida começava a brotar em sua mente habitualmente alegre e focada em clichês de vilania.
— Príncipe Cecil — começou ela, parando a pena no ar e olhando para o noivo, que estava estranhamente silencioso às suas costas. — Eu andei refletindo sobre nossas recentes lições de anatomia e respiração.
Cecil, que estava ocupado traçando o contorno da orelha dela com a ponta dos dedos, inclinou-se para frente. Seu olhar desceu para a nuca exposta de Bertia, onde alguns fios de cabelo loiro haviam escapado do penteado.
— E a que conclusão você chegou, minha querida? — A voz dele era um sussurro aveludado que causava arrepios involuntários nela.
— Bem... — Bertia virou-se na cadeira, ficando de frente para ele. — Eu percebi que, nos livros que li sobre medicina e ciência, os médicos não costumam... como posso dizer... morder as pacientes para verificar o fluxo sanguíneo. E eles certamente não insistem em manter as mãos sob a cintura para medir a "estabilidade pélvica".
Cecil arqueou uma sobrancelha, um brilho de diversão perigosa em seus olhos azuis. Ele deu um passo à frente, fechando o espaço entre eles até que os joelhos de Bertia estivessem entre os seus.
— Bertia, você deve entender que a ciência real é muito mais avançada do que o que se encontra em livros comuns — disse ele, levando as mãos aos ombros dela e deslizando-as lentamente para baixo, sentindo o tecido do vestido. — Como seu futuro marido, eu possuo técnicas exclusivas que garantem que você esteja perfeitamente preparada para a vida na corte.
Bertia franziu a testa, seus olhos grandes e inocentes buscando sinceridade no rosto dele.
— Mas o senhor sempre parece tão... faminto quando faz essas coisas. E por que o Zeno fica tão vermelho e parece prestes a ter um colapso toda vez que o senhor decide "ajustar" meu corpete em público? Príncipe Cecil, o senhor não está... me provocando, está?
Cecil soltou uma risada baixa e rouca, uma que Bertia sentiu vibrar em seus próprios ossos. Ele se inclinou, apoiando as mãos nos braços da cadeira dela, prendendo-a.
— Provocando você? Bertia, eu estou em um estado de tortura constante — confessou ele, aproximando o rosto do dela até que suas pontas de nariz se tocassem. — Cada vez que eu toco você, cada vez que sinto o calor da sua pele ou vejo esse rubor adorável, eu sinto que estou perdendo a batalha contra mim mesmo. Eu não sei se vou conseguir esperar até depois do casamento para... concluir seus estudos.
Antes que Bertia pudesse processar o peso daquelas palavras, a porta do escritório se abriu com um estrondo. Zeno entrou, parecendo exausto, seguido por dois guardas que pareciam não saber para onde olhar.
— Vossa Alteza! — Zeno exclamou, parando abruptamente ao ver a proximidade perigosa entre os dois. — Pelo amor de tudo que é sagrado, afaste-se da Lady Bertia! Recebi relatos de que o senhor estava tentando "estudar a densidade dérmica" dela no corredor novamente!
Cecil não se moveu. Ele apenas virou ligeiramente a cabeça, lançando a Zeno um olhar tão frio que poderia congelar o oceano.
— Zeno, você tem um talento impecável para aparecer nos momentos menos oportunos.
— É o meu trabalho! — rebateu Zeno, aproximando-se. — O Rei foi informado sobre o seu comportamento... errático. Ele está preocupado que o senhor cause um escândalo diplomático antes mesmo da cerimônia. O senhor representa a coroa!
Cecil finalmente se afastou de Bertia, mas manteve uma mão possessiva no ombro dela. Ele sorriu, mas era um sorriso que não trazia conforto.
— O Rei? — Cecil repetiu, com um tom de escárnio. — Meu caro Zeno, você realmente acredita que meu pai é um santo? Se ele está preocupado, é apenas porque ele se reconhece em minhas ações. O Rei não é inocente o suficiente para não ter feito exatamente o mesmo, ou pior, com a Rainha quando eram noivos. A linhagem Alphasta é conhecida por sua... intensidade de sentimentos.
Zeno empalideceu, perdendo as palavras por um momento. Bertia, por outro lado, piscou, absorvendo a informação.
— Então é hereditário? — perguntou ela, genuinamente curiosa. — A necessidade de tocar a noiva em lugares aleatórios é uma condição da família real?
— Exatamente, minha flor — disse Cecil, voltando sua atenção para ela com uma suavidade súbita. — É uma responsabilidade que você deve aceitar como futura rainha.
— Mas Príncipe Cecil! — Bertia levantou-se, subitamente séria. — Se isso é algo que o senhor não consegue controlar, então eu, como sua vilã principal, devo ajudá-lo a manter sua dignidade! A partir de agora, não permitirei mais esses "estudos" quando houver outras pessoas por perto. Uma vilã deve ter padrões!
Cecil estreitou os olhos, seu sorriso desaparecendo.
— O quê?
— Isso mesmo! — continuou Bertia, ganhando confiança. — O senhor fica muito vulnerável quando está focado na minha "anatomia". Heronia ou outros inimigos podem atacar! De agora em diante, em público, manteremos uma distância regulamentar de pelo menos trinta centímetros.
O príncipe herdeiro de Alphasta, o gênio que nunca conheceu a derrota, parecia ter sido atingido por um raio. Ele olhou para Zeno, que agora exibia um sorriso de triunfo quase maligno.
— Uma excelente ideia, Lady Bertia! — incentivou Zeno. — A senhora é realmente uma visionária da decência.
— Bertia, você não pode estar falando sério — murmurou Cecil, sua voz carregada de uma decepção infantil que ele raramente mostrava.
— Estou muito séria, Príncipe Cecil! — Ela cruzou os braços, tentando parecer imponente, apesar de sua estatura menor. — É para o seu próprio bem!
Nos dias que se seguiram, a Real Academia testemunhou um fenômeno inédito. O Príncipe Cecil, conhecido por ser a sombra constante e tátil de Bertia, agora parecia um animal enjaulado. Toda vez que ele tentava deslizar a mão para a cintura dela durante o chá, Bertia dava um passo lateral ágil, lançando-lhe um olhar de advertência severa.
— Distância regulamentar, Príncipe Cecil! — ela dizia, com um dedo em riste.
Os amigos do príncipe estavam em choque. No jardim, enquanto observavam o grupo, o Marquês de Valois comentou em voz baixa:
— Olhem para ele. Ele parece que vai morder alguém a qualquer momento.
Cecil estava sentado a dois pés de distância de Bertia, seus olhos fixos no pescoço dela com uma intensidade que fazia as flores ao redor murcharem. Ele não ouvia o que os outros diziam; ele estava apenas contando os minutos.
Heronia, vendo uma oportunidade na aparente "frieza" entre o casal, aproximou-se com seu habitual ar de fragilidade.
— Príncipe Cecil... vejo que Lady Bertia finalmente percebeu o quanto o senhor estava sobrecarregado. Talvez o senhor queira dar um passeio comigo? Eu prometo ser muito mais... respeitosa com o seu espaço.
Cecil nem sequer olhou para ela. Seus olhos continuavam cravados em Bertia, que estava ocupada explicando a Joanna como construir uma masmorra esteticamente agradável.
— Lady Heronia — disse Cecil, com a voz gélida —, se você der mais um passo em minha direção, eu farei com que sua contagem de pedras no pátio sul pareça um feriado de luxo. Saia da minha frente.
Heronia recuou, assustada com a violência contida naquelas palavras. Cecil levantou-se abruptamente, a paciência esgotada.
— Bertia. Agora.
Bertia olhou para ele e viu o brilho perigoso em seus olhos. Ela sabia que tinha levado sua "vilania de proteção" ao limite.
— Oh! — Ela se levantou rapidamente. — Acho que o Príncipe Cecil precisa de uma consulta privada urgente. Com licença, pessoal!
Eles caminharam em silêncio absoluto até os aposentos do príncipe. Zeno tentou segui-los, mas Cecil parou à porta e lançou-lhe um olhar que dizia, sem sombra de dúvida, que qualquer interrupção resultaria em uma transferência imediata para as fronteiras mais distantes e geladas do reino. Zeno parou, suspirou e ficou de guarda do lado de fora, resignado.
Assim que a porta se fechou e a tranca foi acionada, a atmosfera mudou. Cecil não esperou. Ele envolveu Bertia em seus braços, puxando-a contra seu corpo com uma força que a deixou sem fôlego.
— Trinta centímetros, Bertia? — Ele rosnou contra o pescoço dela, sua respiração quente e errática. — Você tem ideia do que fez comigo naqueles jardins?
Bertia sentiu o coração disparar, mas desta vez não havia medo, apenas aquela sensação de "missão cumprida" que toda vilã sente ao provocar o herói — ou, neste caso, o seu príncipe pervertido.
— Eu estava protegendo sua imagem, Príncipe Cecil! — ela exclamou, embora suas mãos já estivessem subindo para se entrelaçar nos cabelos loiros dele. — O senhor estava agindo como se eu fosse um banquete e o senhor não comesse há semanas!
— E eu não comi! — Ele rebateu, descendo o rosto para enterrá-lo na curva do ombro dela, inalando seu perfume com desespero. — Eu estou morrendo de fome por você, Bertia. Sua punição foi cruel demais.
Ele a levantou, fazendo com que ela envolvesse as pernas em sua cintura, e a carregou até o sofá de veludo. Ele a deitou com cuidado, mas seu corpo seguiu o dela, prendendo-a contra as almofadas. Suas mãos, antes impedidas pela "distância regulamentar", agora exploravam cada curva com uma urgência renovada.
— Aqui, ninguém está olhando — sussurrou Cecil, seus lábios roçando os dela. — Aqui, eu não sou o Príncipe Herdeiro e você não é uma vilã. Aqui, você é apenas minha.
Ele a beijou com uma paixão que Bertia nunca havia experimentado. Não era apenas um beijo de "estudo"; era um beijo de posse, profundo e avassalador. Bertia sentiu suas defesas derreterem. Ela permitiu que ele deslizasse as mãos por suas coxas, subindo o tecido do vestido até que ele pudesse sentir a pele nua acima das meias.
— Príncipe Cecil... — ela arquejou, o rosto escondido no peito dele enquanto ele mordiscava sua clavícula. — O senhor realmente não consegue se conter, não é?
— Com você? Nunca — confessou ele, subindo a mão para apertar o seio dela por cima do tecido, sentindo o mamilo reagir ao seu toque. — Você me torna irracional, Bertia. Você me faz querer queimar todos os livros de etiqueta e apenas mantê-la trancada aqui até o dia do nosso casamento.
Bertia olhou para ele, seus olhos agora nublados pelo desejo que ela ainda não compreendia totalmente, mas que sentia em cada fibra de seu ser.
— Bem... — ela disse, tentando recuperar um pouco de sua dignidade de vilã. — Se é uma questão de saúde real, eu suponho que posso permitir que o senhor continue seus experimentos... desde que seja estritamente em particular.
Cecil sorriu, um sorriso de pura vitória. Ele se inclinou e mordeu levemente o lábio inferior dela antes de responder.
— Oh, eu pretendo ser muito minucioso em meus experimentos de hoje, Bertia. Vamos começar com o estudo da... sensibilidade tátil.
Lá fora, Zeno ouviu o som de risadas abafadas e suspiros vindos de trás da porta. Ele olhou para o teto, pedindo paciência aos deuses.
— Se o Rei soubesse... — murmurou ele para si mesmo.
— O Rei sabe, Zeno — disse uma voz vinda do corredor. Era o próprio Rei, que caminhava com uma expressão de diversão contida.
Zeno quase caiu de susto, curvando-se imediatamente.
— Vossa Majestade! Eu... eu sinto muito, o Príncipe Cecil está...
— Eu sei exatamente o que Cecil está fazendo — interrompeu o Rei, parando diante da porta e ouvindo por um momento. — Ele sempre foi um prodígio. Fico feliz em ver que ele está aplicando sua genialidade em áreas tão... vitais para a sucessão.
— Majestade? — Zeno piscou, confuso.
O Rei deu um tapinha no ombro do guarda.
— Não seja tão severo, Zeno. Eu mesmo já fui jovem e tive uma noiva muito "vilanesca". Apenas certifique-se de que ninguém entre. O segredo de um casamento feliz em Alphasta é uma boa dose de... anatomia privada antes das núpcias.
O Rei seguiu seu caminho, rindo baixinho. Zeno ficou ali, parado, percebendo que o reino inteiro estava, de certa forma, conspirando para que Bertia nunca perdesse sua inocência — e para que Cecil nunca perdesse sua fome.
Dentro do quarto, Cecil acabara de descobrir uma nova "zona de sensibilidade" atrás do joelho de Bertia, e a jovem vilã, em meio a risos e arrepios, decidiu que, se aquele era o preço para manter seu príncipe feliz, ela seria a cobaia mais dedicada que a história de Alphasta já conhecera. Afinal, uma verdadeira vilã sempre sabe como satisfazer os desejos mais sombrios de seu herói — mesmo que ela ainda pense que tudo faz parte de um avançado estudo médico.