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Chamas do amor

O Brilho do Aço e o Calor do Sangue

O sol da manhã na Nação do Fogo sempre parecia mais intenso, como se o astro rei quisesse pessoalmente polir as armaduras douradas dos guardas. Eu estava no pátio de treinamento antes mesmo do primeiro sino tocar. O peso das facas escondidas em meus braceletes e na bainha oculta sob a túnica carmesim era o único conforto que eu tinha.

Azula queria um espetáculo de precisão? Ela teria. Mas eu não o faria por ela.

Eu estava no meio de uma sequência de movimentos, girando o corpo e lançando três lâminas simultâneas contra os alvos de palha, quando ouvi passos. Não eram os passos leves e calculados de Azula, nem o arrastar monótono de Mai. Eram firmes, porém hesitantes.

— Você está mais rápida — disse Zuko, encostado em uma das colunas de pedra.

Eu recuperei minhas facas, sentindo a adrenalina pulsar. Meus cabelos pretos estavam presos em um rabo de cavalo alto, revelando meu rosto pálido e o brilho determinado nos meus olhos verde-escuros.

— O treinamento é a única coisa que não mente para nós, Zuko — respondi, guardando as lâminas com um movimento fluido. — As pessoas mudam, as promessas quebram, mas o aço... o aço sempre corta onde você manda.

Zuko se aproximou, e o calor que emanava dele era diferente do calor do sol. Era familiar. Ele parou a poucos centímetros de mim, e por um momento, o mundo ao redor — as intrigas de Azula, a guerra, a pressão do trono — pareceu desaparecer.

— Eu vi como você falou com a Azula ontem à noite — ele murmurou, sua voz rouca. — Você foi a única que ousou não baixar a cabeça para o tom de voz dela. Senti falta dessa sua... língua afiada.

Eu dei um meio sorriso, permitindo que minha faceta gentil aparecesse apenas para ele.

— Alguém tem que lembrá-la de que nem todo mundo é um peão no tabuleiro dela, Zuko. Nem mesmo você.

Ele abriu a boca para responder, mas o momento foi quebrado pela chegada do resto do grupo. Azula caminhava com sua elegância predatória, seguida por Ty Lee, que tentava equilibrar o clima com piruetas, e Mai, que parecia mais entediada do que o habitual, embora seus olhos estivessem fixos em Zuko assim que o viram perto de mim.

— Que cena adorável — ironizou Azula, cruzando os braços. — O herói e a sua... fiel sombra. Zuko, Mai estava justamente me dizendo que queria praticar pontaria com você hoje. Ela acha que as técnicas de vocês se complementam.

Mai deu um passo à frente, ajustando os braceletes de onde disparava suas agulhas.

— Achei que poderíamos ir ao pátio leste — disse Mai, olhando para Zuko com uma expectativa que ela raramente demonstrava. — É mais silencioso lá.

Zuko nem sequer olhou para ela. Seus olhos dourados continuaram fixos nos meus, como se estivesse procurando uma âncora em meio à tempestade.

— Não estou com vontade de praticar com agulhas hoje, Mai — disse ele, de forma seca, quase ríspida. — Quero ver a Cherry treinar. A dobra de fogo dela evoluiu de um jeito que eu ainda não compreendo totalmente.

O rosto de Mai permaneceu impassível, mas eu vi o leve tremor em seus dedos. Azula, por outro lado, estreitou os olhos. Ela não gostava de perder o controle sobre a narrativa.

— Zuzu, não seja rude — instigou a princesa, caminhando até ele e colocando a mão em seu braço. — Mai passou anos esperando por você. Cherry é apenas... uma ferramenta útil. Mai é a escolha apropriada para alguém da sua posição.

Eu senti o sangue ferver. Minha mão desceu instintivamente para o cabo da faca em minha cintura. Eu era gentil até ser desrespeitada, e Azula estava cruzando todas as linhas naquela manhã.

— Uma ferramenta, Azula? — perguntei, minha voz saindo baixa e perigosa como o chiado de uma brasa. — Engraçado. Eu não vi nenhuma "escolha apropriada" enfrentando os mestres de dobra de fogo comigo enquanto você estava fora caçando o Avatar. Eu vi apenas pessoas que se escondem atrás de tédio e privilégios.

— O que você disse? — Mai interveio, sua voz finalmente ganhando um tom de irritação.

— Você me ouviu — respondi, virando-me para ela. Meus olhos verde-escuros brilhavam com um desafio aberto. — Você pode ser boa com agulhas, Mai, mas falta fogo em você. Em todos os sentidos. Zuko não precisa de alguém que apenas concorde com o silêncio dele. Ele precisa de alguém que consiga acompanhar o ritmo dele.

— Chega disso! — Zuko exclamou. Ele se afastou do toque de Azula como se a mão dela o queimasse. — Azula, pare de tentar organizar minha vida como se fosse um banquete real. E Mai... eu não tenho interesse em treinar com você agora.

O silêncio que se seguiu foi pesado. Ty Lee parecia querer se esconder atrás de uma estátua. Azula deu um sorriso frio, mas seus olhos mostravam que ela estava anotando cada palavra para usar contra nós mais tarde.

— Vamos, Mai, Ty Lee — disse Azula, dando as costas. — Parece que meu irmão precisa de um tempo para perceber quem realmente está do lado dele.

Mai lançou um último olhar para Zuko — um olhar de mágoa contida — e depois para mim, carregado de um ressentimento que eu sabia que não morreria tão cedo. Elas se retiraram, deixando-nos sozinhos no pátio novamente.

Zuko soltou um suspiro longo, passando a mão pelo cabelo curto. Ele parecia carregar o peso do mundo nos ombros.

— Elas não vão parar, não é? — ele perguntou, olhando para o chão.

— Azula nunca para até conseguir o que quer — eu disse, aproximando-me dele e, desta vez, ousando tocar sua mão. — Mas ela não pode controlar o que você sente, Zuko. A menos que você permita.

Ele fechou os dedos sobre os meus. A pele dele era quente, e o contato enviou um choque pelo meu corpo.

— Eu passei três anos pensando no que eu encontraria quando voltasse — ele confessou, olhando-me nos olhos. — Eu achei que a única coisa que importava era o trono e o orgulho do meu pai. Mas, desde que pisei aqui... a única coisa que me faz sentir que eu realmente estou em casa é você, Cherry.

Meu coração falhou uma batida. Eu, que sempre tive uma resposta pronta, uma farpa na ponta da língua, fiquei sem palavras. O rosto de Zuko estava tão perto que eu conseguia ver as pequenas variações de âmbar em suas íris.

— Zuko...

— Eu sei que Azula está tentando te usar para me atingir — ele continuou, a voz firme. — E ela usa a Mai como uma peça de distração. Mas eu não sou o mesmo garoto que partiu. Eu vejo o que ela está fazendo. E eu vejo você.

Antes que eu pudesse responder, o som de um gongo ecoou pelo palácio. Era o chamado para a reunião estratégica com o Senhor do Fogo. Zuko tencionou os ombros. A realidade de sua vida como o príncipe retornado sempre voltava para sufocá-lo.

— Eu preciso ir — disse ele, embora não soltasse minha mão imediatamente.

Caminhamos juntos em direção à saída do pátio. Para minha surpresa — e um pouco de deleite secreto —, Azula e Mai ainda estavam no corredor superior, observando-nos. Azula tinha um sorriso de escárnio, enquanto Mai mantinha sua expressão de pedra.

Zuko as viu. Eu senti seus músculos ficarem rígidos. Mas, em vez de se afastar para manter as aparências, ele fez algo que me pegou de surpresa.

Ele parou de caminhar, virou-se para mim e me puxou para um abraço apertado. Não foi um abraço de despedida comum; foi um gesto de posse e proteção. Enterrei meu rosto em seu ombro, sentindo o cheiro de fumaça e sândalo que sempre o seguia. Seus braços me envolveram com uma força que dizia mais do que qualquer palavra.

— Tome cuidado hoje — ele sussurrou no meu ouvido, sua respiração quente contra minha pele. — Não deixe Azula entrar na sua cabeça.

— Ela teria que me vencer primeiro — respondi, sorrindo contra o tecido de sua túnica.

Zuko se afastou, mas manteve as mãos em meus ombros por um segundo extra, garantindo que quem estivesse assistindo visse exatamente onde estava sua lealdade. Ele então se virou e caminhou em direção à sala do trono, sem lançar um único olhar para a irmã ou para Mai.

Eu fiquei lá, observando-o partir. Quando me virei para seguir meu próprio caminho, olhei para cima. Azula estava com os olhos fixos em mim, sua expressão agora desprovida de qualquer humor. Mai havia desviado o olhar, focando em algum ponto distante no horizonte.

Eu endireitei minha postura, sentindo-me mais alta, mais forte. A beleza que todos diziam que eu tinha não era apenas estética; era uma arma, assim como minhas facas e meu fogo. E naquele momento, eu sabia que tinha a vantagem.

Caminhei pelo corredor passando por baixo de onde elas estavam.

— O treino de amanhã será interessante, não acha, Azula? — chamei, sem parar de caminhar. Minha voz ecoou pelas paredes de pedra.

— Não se sinta tão vitoriosa, Cherry — a voz de Azula desceu como uma lâmina de gelo. — O fogo que queima com o dobro da intensidade dura metade do tempo.

— Talvez — respondi, parando por um instante e olhando-as por cima do ombro. Meus olhos verde-escuros brilharam com uma confiança absoluta. — Mas, enquanto queima, ele ilumina a verdade. E a verdade é que o seu herói já escolheu quem ele quer ao lado dele. E não é uma boneca de porcelana fria ou uma princesa que só sabe destruir o que toca.

Deixei-as para trás, o som dos meus passos rítmicos sendo o único ruído no corredor. Eu sabia que a guerra dentro do palácio estava apenas começando. Azula tentaria me sabotar, Mai tentaria me superar, e o Senhor do Fogo Ozai provavelmente seria o obstáculo final.

Mas enquanto eu sentisse o calor do abraço de Zuko em minha pele e visse a verdade em seus olhos dourados, eu enfrentaria o próprio inferno.

Entrei nos meus aposentos e fechei a porta. Aproximei-me do espelho e vi o reflexo de uma mulher que não tinha mais medo. Eu era Cherry, a amiga de infância, a mestre das facas, a dominadora de fogo. E eu era a única pessoa que Zuko realmente via em um palácio cheio de fantasmas e mentiras.

Peguei uma pequena pedra de amolar e comecei a afiar uma de minhas facas. O som do metal contra a pedra era como uma música.

— Venha o que vier — sussurrei para o meu reflexo. — Eu estou pronta.

Naquela tarde, o treinamento com Azula foi brutal. Ela tentou me levar ao limite, disparando rajadas de fogo azul que passavam a milímetros do meu rosto. Mas eu não recuei. Eu me movia com a agilidade de uma pantera-sombra, minhas facas cortando o ar e interceptando os ataques de forma que nem ela esperava.

— Você está distraída — sibilou Azula, lançando um chute de fogo que eu bloqueei com uma explosão concentrada de chamas laranja.

— Pelo contrário — respondi, deslizando por baixo do ataque dela e parando com uma faca apontada para o espaço entre suas costelas, enquanto ela mantinha a mão carregada de eletricidade perto do meu peito. — Nunca estive tão focada.

Ficamos ali, em um impasse, as respirações ofegantes.

— Ele vai te decepcionar — disse Azula, o sorriso voltando aos seus lábios. — Zuko sempre escolhe o caminho mais difícil. E o caminho mais difícil geralmente termina em cinzas.

— Então eu queimarei com ele — afirmei, sem hesitar.

Azula recuou, desfazendo a postura de combate. Ela limpou uma gota inexistente de suor da testa.

— Veremos quanto tempo essa lealdade dura quando o mundo começar a desmoronar novamente.

Ela saiu do pátio, mas eu sabia que aquela não era uma rendição. Era apenas o prelúdio de algo maior.

Ao final do dia, encontrei um pequeno bilhete deixado na minha mesa. Não havia assinatura, mas a caligrafia era firme e um pouco apressada.

"No jardim, à meia-noite. Onde as flores de lótus se abrem."

Sorri. O jogo de Azula podia ser complexo, mas o coração de Zuko era simples em sua busca por algo real. E eu seria essa realidade para ele, não importa quantas lâminas ou chamas tivéssemos que enfrentar.

A Nação do Fogo estava mudando, e nós estávamos no centro dessa mudança. Mai podia ter o silêncio, Azula podia ter o medo, mas eu tinha o Zuko. E, no fim, isso era a única coisa que realmente importava.